segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Jorge Jesus e a camisola de Casillas

Os últimos meses têm sido, para os interessados no “futebol negócio”, pródigos em notícias e afirmações surpreendentes, algumas delas encaradas com alguma perplexidade por quem se dedica a analisar esta vertente do desporto rei em Portugal.
A contratação do carismático Jorge Jesus pelo Sporting para exercer o cargo de treinador da sua equipa principal foi uma das que fez correr mais tinta, não só por ter comandado o rival histórico nas seis temporadas anteriores, como pelos montantes envolvidos. Recordo que, quando liderava os encarnados, era comum a chamada de atenção para a presença de Jorge Jesus no top10 dos treinadores de futebol mais bem pagos no mundo, o que não deixava de ser inusitado por se tratar do futebol português, onde os recursos são escassos quando comparado com outros países europeus.
Hoje, com um aumento de 25% do ordenado (5M€/ano), num Sporting, aparentemente em recuperação financeira, mas ainda com menor capacidade de investimento que Benfica e Porto, o seu vencimento é ainda mais surpreendente. É certo que, no futebol, desde que se ganhe, estes aspectos são pouco relevantes, além de que, desde que as obrigações e os compromissos sejam cumpridos, ninguém, a não ser os accionstas da Sporting, SAD, terá alguma coisa a ver com isso. No entanto, noto, no tom do discurso do presidente sportinguista, o ar professoral com que aborda as questões da gestão financeira e desportiva do seu clube e do futebol em geral, dando a impressão que se julga um génio nestes domínios, além de uma certa tendência para traçar cenários idílicos sobre o presente e o futuro da sua instituição, nomeadamente quando comparados com o passado recente, evocando alguns indicadores que, sem a devida contextualização, poderão induzir em erro os mais desatentos.
Refiro-me, concretamente, ao resultado líquido apresentado no final do exercício passado (19M€), conforme analisado em crónicas anteriores (Proveitos financeiros irrepetíveis decorridos da reestruturação financeira; Não constituição de provisão face ao processo Rojo/Doyen; Peso muito significativo da presença na fase de grupos da Liga dos Campeões no total das receitas). Ora, tendo em conta os proveitos operacionais excluíndo transacções de passes de jogadores da SAD sportinguista em 2014/15 (58,4M€), verificamos que, mantendo-se esse valor na presente temporada, cerca de 8,5% seriam gastos no salário de Jorge Jesus.
Até a comunicação social desportiva, geralmente pouco propensa a colocar questões desta natureza, estranhou o montante a que a Sporting, SAD se propôs a investir na contratação do seu novo técnico, o que nos permitiu conhecer o racional que esteve na base desta decisão: O forte investimento em Jorge Jesus tornou-se possível porque optou-se por contratar menos um ou dois atletas e pela presunção de que, com um técnico com provas dadas, o sucesso desportivo e a valorização dos passes de atletas serão mais prováveis.
Para já, por se tratar de uma avaliação que seria extemporânea, não convém tirar conclusões, mas há um dado que merece ser considerado: O Sporting não alcançou o apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Comparando com a época transacta, além do aumento em cerca de 4M€ nos custos com o vencimento do seu treinador principal, verificamos já uma diminuição acentuada nas receitas operacionais (em 2014/15, a Sporting SAD obteve cerca de 15M€ com a participação nas competições europeias), além da perda de visibilidade dos seus principais activos devido à ausência da fase de grupos da principal prova europeia. Neste contexto, será necessário um enorme esforço para repetir os resultados operacionais positivos sem transacções de jogadores (6,3M€) ou a provável redução de qualidade do plantel para voltar a atingir os 23,5M€ positivos nos resultados operacionais (17,2M€ nas transacções de passes de jogadores em 2014/15).
Acresce que, no âmbito dos patrocínios e publicidade, prevê-se uma descida significativa das receitas, uma vez que o Sporting não apresentou ainda patrocinador principal para as suas camisolas. De resto, um problema vivido também a norte, com o F.C. Porto, um caso ainda mais surpreendente devido à sua presença constante na Liga dos Campeões e à sua regularidade assinalável na conquista de títulos nacionais.
Este é, a meu ver, o assunto mais merecedor de reflexão na presente temporada. Bruno de Carvalho revelou, num programa de televisão, o que motiva a ausência de patrocinador nas camisolas da equipa principal de futebol do seu clube: “O Sporting não quer desvalorizar a sua marca”. Ou seja, as propostas de potenciais patrocinadores, a terem existido, não se aproximaram dos valores pretendidos pelo Sporting. Não lhe foi perguntado que valor será esse, nem acredito que respondesse a uma questão dessa natureza. Sabe-se, no entanto, que BES e PT distribuíram patrocínios “salomonicamente” pelos “três grandes” no passado e existe uma noção aproximada do contrato que liga a Fly Emirates ao Benfica.
Sporting e Porto, habituados que estiveram ao presumível receio destes patrocinadores em “tomar partido” (“regra” quebrada pela Sagres há três anos), vêem-se agora na contingência de serem ultrapassados pelo Benfica neste aspecto, tornando visível nos números aquilo que é já há muito sabido, mas nunca reconhecido, da maior capacidade de gerar retorno para os patrocinadores por parte dos “encarnados”. A crise vivida nos últimos anos foi, neste aspecto, extremamente benéfica para o Benfica, ao obrigar os patrocinadores a racionalizarem os seus recursos em detrimento da postura adptada anteriormente, em que o não querer ferir susceptibilidades imperava, desvirtuando assim a lógica do negócio. Acresce o já referido patrocínio da Fly Emirates, uma marca global, por montantes que, segundo se julga saber, são muito superiores aos anteriormente praticados em Portugal.
Compreende-se, então, algumas declarações estranhas por parte de responsáveis sportinguistas e portistas. Carlos Vieira, Vice-Presidente do Sporting, afirmou em Maio deste ano que existia a possibilidade do Sporting angariar um patrocinador jogo a jogo, chegando, inclusivamente, a avançar o montante global anual de 3,25M€ como exemplo, muito distante, no entanto, dos 8 a 10M€ aventados pela comunicação social do patrocínio da Fly Emirates ao Benfica (que inclui equipa B, camadas jovens e objectivos não divulgados). Propunha-se, portanto, a reinventar a roda, o que não seria caso virgem com bem sucedido em Portugal como se vê com o modelo de exploração dos direitos televisivos empreendido pelo Benfica, através da BTV, o canal detido pela SAD benfiquista.
Mas não foi só em Alvalade que foram feitas declarações inusitadas sobre este tema. Fernando Gomes, administrador da SAD portista, referiu, em linha com a afirmação de Bruno de Carvalho no programa “Prolongamento” da TVI, que "o 'main sponsor' deixou de ser imperioso. Deixou de ser imprescindível, porque os resultados dão-nos a solidez necessária para não precisar de vender a nossa imagem de qualquer forma. (…) Não vale a pena fazer cedências por pouco". Faz sentido, mas evocou o aumento das receitas de merchandising no presente exercício, nomeadamente devido à venda de camisolas de Iker Casillas, o que indicia, do meu ponto de vista, querer “tapar o sol com a peneira”.
Embora eu, avaliando o desempenho financeiro da SAD portista, não consiga descortinar a propalada saúde financeira (válido para qualquer das SADs portuguesas), admito que Porto e Benfica especializaram-se em reinventarem-se ano após ano e viabilizarem, dessa forma, um modelo de negócio fortemente alavancado em capitais alheios, aproximando-os desportivamente de clubes europeus com capacidade de investimento notoriamente superior. Não creio, no entanto, que o aumento da venda de camisolas de Casillas possa, sequer, mitigar o impacto da perda de uma receita tão significativa quanto a que resulta do “main sponsor”.

O modelo é simples e comum a quase todos os clubes: As camisolas são adquiridas ao fornecedor por metade do preço recomendado de venda ao público, mais IVA. Ou seja, se uma camisola é vendida por 80€, significa que o lucro, sem contar com custos de armazenamento e distribuição, rondará os 30€. Para se chegar a 3M€ anuais (valor de referência de acordo com as declarações do VP sportinguista), seria necessário, grosso modo, vender 100 mil camisolas. Tendo em conta ainda que as receitas totais de merchandising da SAD portista em 2014/15 não chegaram aos 4M€ (cuja gama de produtos vai muito além das camisolas), cada um que tire as suas conclusões…

Vida Económica - 23/10/2015

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