quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Vira o disco e toca o mesmo


Mesmo num mundo ideal, os erros de arbitragem continuariam a ocorrer, embora desejavelmente com menor frequência, fruto das inegáveis dificuldades da função. O que nunca aconteceria, passado um terço de uma competição, seria constatar-se um desequilíbrio tão acentuado quanto aos beneficiários desses erros como na presente temporada na Liga NOS.

No dia 10 de Dezembro, o Conselho de Arbitragem divulgou, pelo Twitter, uma análise sobre a utilização do “vídeo-árbitro” nas primeiras onze jornadas do campeonato. Foi revelado que, de acordo com a análise efectuada, identificaram-se e avaliaram-se 639 lances, dos quais resultaram nove erros. Até parece que está tudo a correr bem...

Porém, lendo os vários tweets, apesar de não haver um único que o revele explicitamente, percebe-se que dos tais 639 lances, só 33 motivaram revisões e que os nove erros, que o Conselho de Arbitragem, sabe-se lá por que razão, entendeu que não deveria revelar quais foram e quem os cometeu ou a quem prejudicou e beneficiou, referem-se às 33 revisões. Ou seja, nove erros em 33 casos (27,3%). Qual terá sido a percentagem de erros nos restantes 606 casos? E quantos lances, além dos 639, terão ficado por analisar?

Um Conselho de Arbitragem exclusivamente focado na verdade desportiva, e não na auto-preservação, responderia a estas questões, ao invés de propalar um hipotético sucesso tão facilmente desmontável. Não há jornada sem casos a favor do F.C. Porto. Louve-se a coerência, não havendo mais para enaltecer.

P.S. O silêncio sportinguista nesta matéria é ensurdecedor e revelador. Ou se sentem beneficiados ou não se preocupam assim tanto com o título (desde que não seja o Benfica a ganhá-lo).

Jornal O Benfica - 21/12/2018

Apito dourado, versão 7 ou 12, já perdi a conta

É quase pecaminoso, em semana do décimo aniversário da BTV, para a qual me é oferecido o privilégio do meu contributo, dedicar este espaço a um dos aspectos mais reles do futebol português: a arbitragem.

Creio, no entanto, que o momento o justifica, não fosse, mais uma vez no passado fim-de-semana – sublinho, mais uma vez – ter sido comprovado que este desporto, em Portugal, é vítima da incompetência (selectiva?) da generalidade dos árbitros nas suas diversas funções. Acresce que os famigerados árbitros portugueses, talvez precisamente por muitos deles actuarem incompetentemente com assustadora regularidade, aparentam serem permeáveis às reiteradas tentativas de condicionamento, directas ou indirectas, de que são vítimas neste lodo que alguns teimam em afundar cada vez mais o nosso futebol. Mais fascinante é verificar que esses árbitros perduram no primeiro escalão – será esse o objectivo da não divulgação atempada dos critérios de avaliação dos árbitros?

Evidentemente, jogar bem à bola é sempre o melhor antídoto para este flagelo, se bem que nem sempre eficaz, reconheça-se... Ainda assim, há alguma equipa portuguesa que, nesta época, se tenha evidenciado nesse aspecto? A resposta é um irrefutável não. A actuação de Carlos Xistra em Setúbal, cujos erros foram demasiado numerosos para que os possa enumerar em tão exíguo espaço de opinião, tratou-se somente de mais um triste capítulo desta longa e repetitiva novela, cujos pontos altos ocorreram, pelo menos e sempre a favor do mesmo, nos jogos que o FC Porto defrontou V. Guimarães, Belenenses, SAD, Feirense, Boavista e Portimonense. Pobre futebol português...

 Jornal O Benfica - 14/12/2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Vídeodesgraça


Tenho dito e repetido que a tecnologia do vídeo-árbitro, não obstante o evidente potencial da sua utilização para salvaguardar a verdade desportiva, encontra nos utilizadores o seu maior constrangimento.

No caso português, os árbitros e vídeo-árbitros, susceptíveis de errarem, seja por incompetência, parcialidade ou condicionamento, beneficiam do respaldo do protocolo, cuja interpretação deste por parte dos adeptos, baseada somente na avaliação da interferência dos vídeo-árbitros jornada após jornada, se torna um exercício assaz complicado, para não o considerar mesmo impossível. Só neste país de múltiplas originalidades se poderia ouvir especialistas, sobre a falta claríssima do portista Brahimi na área, algo como “errou ao não assinalar grande penalidade, mas o vídeo-árbitro estava impedido de actuar devido ao protocolo”.

O “protocolo”, aparentemente, porque há muito que deixei de ter certezas sobre a arbitragem de futebol em Portugal, limita a actuação dos vídeo-árbitros em lances duvidosos. Ou seja, o vídeo-árbitro não só terá de ajuizar um lance como interpretar o processo de decisão do árbitro. Constatamos assim tratar-se do paraíso para os incompetentes, parciais ou condicionados, mas também o inferno para os medrosos. Despeço-me com um excerto de um guião do que poderia eventualmente ser um filme de terror em salas de cinema ou um documentário educativo no Porto Canal:
VA (assertivo) - Falta! Repito: Falta!
A (hesitante) - Tens a certeza? É duvidoso.
VA (resignado) - Já cá não está quem falou.
A (conciliador) - Siga. Prefiro não ser abordado por visitantes quando discutirmos o assunto no centro de alto rendimento da Maia.

Jornal O Benfica - 7/12/2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

A treta Calabote


Nunca será demais relembrar, enquanto os Goebbels de algibeira persistirem no assunto, que o chamado caso Calabote é pura invenção.

Inocêncio Calabote foi irradiado da arbitragem por ser reincidente na falsificação de dados no relatório de jogo, e não por qualquer suspeita, quanto mais culpa, relacionada com corrupção ou favorecimento. Acresce que os referidos dez minutos a mais no tal Benfica-CUF foram apenas quatro, e justificados, conforme consta nas crónicas de vários jornais, assim como duas das três grandes penalidades a favor do Benfica nesse jogo. Nem o técnico da CUF, então, encontrou motivos para criticar severamente Calabote (até mencionou uma falta na área por assinalar sobre Cavém). Só Pedroto e Pinto da Costa, passados trinta anos, descortinaram o impensável, porque nunca ocorrido. Basta consultar a imprensa de 23 de Março de 1959. Aproveite e leia as crónicas do Torrense-Porto, cuja vitória portista resultou no título nacional para os azuis e brancos.

Distam, entretanto, 59 anos, os suficientes para estabelecer uma regra: Se passadas seis décadas, com quase sessenta edições do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal disputadas e dez anos de emails roubados, descontextualizados e deturpados, os mentirosos continuam a evocar o “caso” Calabote, tal só poderá significar uma conduta benfiquista irrepreensível ao longo de todos estes anos. E como colada à patranha Calabote surge sempre a treta do “clube do regime”, aproveite-se para pedir aos desonestos (vá lá, também aos ignorantes que se limitam a debitar a cartilha) que expliquem como o regime que protegeria um clube não se deu ao trabalho de proteger um árbitro que protegeria esse mesmo clube...

Jornal O Benfica - 30/11/2018

terça-feira, 27 de novembro de 2018

SCP-BCP-NB, SAD


Escrevo antes do prazo de subscrição de obrigações da Sporting, SAD, pelo que desconheço o desfecho da operação financeira. As dificuldades são conhecidas e admitidas, não se sabendo ainda se os apelos de dirigentes leoninos visam alertar os sportinguistas para a necessidade do seu auxílio ou (talvez cumulativamente) para os preparar para as consequências de uma previsível situação de tesouraria extremamente desfavorável. Em qualquer dos casos, fica exposto o desvario da gestão anterior.

Este não é, obviamente, um problema do Benfica, mas convém recordar que não competimos sozinhos. O forte investimento leonino no futebol (aqui acompanhado pelo despesismo do FC Porto, apesar da intervenção da UEFA) e restantes modalidades mais mediáticas acarretou, para os seus adversários, necessidades de investimento superiores.

Por conseguinte, importava avaliar se o forte investimento leonino se trataria de um epifenómeno motivado por uma vontade insana de ganhar ou se era fruto de uma situação económico-financeira favorável. A nossa direcção, e bem a meu ver, manteve-se cautelosa pois a resposta pareceria óbvia não fosse a banca. Aliás, a banca (Novo Banco e BCP) intervencionada pelo Estado via Fundo de Resolução, que, mediante um cenário de perda total e penalizador para os seus balanços, optou, no fundo, por cortar as perdas. Ou simplesmente quis livrar-se do eventual ónus de ser vista como a causadora do “fecho” do Sporting.

Alerto, no entanto, para a eventualidade de nova “reestruturação”. Espera-se, caso se verifique, que implique obrigatoriamente racionalidade na gestão. A banca, salva pelos nossos impostos, não deveria servir para salvar o Sporting...

Jornal O Benfica - 23/11/2018

domingo, 18 de novembro de 2018

VAR dourado


Sou desde sempre um entusiasta da implementação de meios auxiliares à arbitragem. As vantagens são evidentes quanto ao aperfeiçoamento da verdade desportiva e a comprová-lo há inúmeros exemplos em cada temporada nos mais diversos desportos. Não sou, no entanto, ingénuo e, por isso, conhecedor do lastro de incompetência e, sobretudo, da permeabilidade da arbitragem do futebol português a movimentos de pressão, coacção e outros que tais que, no passado, quando por uma única vez se viram expostos, encontraram em Vigo o refúgio adequado, foi com cautela na mesma medida que acolhi a inovação.

Como tal, logo deixei registada uma graçola mais séria do que poderá ter parecido a quem a leu ou ouviu: o VAR, como o berbequim, é uma excelente ferramenta. Mas é preciso cuidado porque se eu tiver um berbequim na mão, o mais certo é escavacar a parede e, com algum azar, furar um cano.

Acresce que os operários do VAR, alguns deles parciais, respondem a um capataz cada vez mais evidentemente incompetente para lidar com os agentes do futebol. E, para agravar o estado da arbitragem portuguesa, Fontelas Gomes aparenta ser selectivo quando entende que se deve justificar. Sorria, por favor, pois é melhor que desatar às cabeçadas contra uma parede: entre tantas e tantas decisões incompreensíveis, Fontelas entendeu que uma boa decisão a favor do Benfica (Portimonense na Luz) justificava uma explicação, no fundo uma espécie de pedido de desculpa por ter prevalecido a verdade desportiva. Passado demasiado tempo, entende-se a extensão e a metodologia do permanente pedido de desculpa, pergunte-se como ao Chaves e ao Feirense, algumas das vítimas mais recentes, em prol já se sabe de quem...

Jornal O Benfica - 16/11/2018

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Hóquei


Num bairro típico lisboeta em que já morei, havia um tipo que passava a maior parte do dia numa das esquinas do cruzamento mais movimentado, ora falando com este e aquele, ora não raras vezes só, encostado à parede de um prédio a aproveitar os benefícios desta nossa Lisboa soalheira. De vez em quando ausentava-se, mas pode-se afirmar, em tom caricatural, que aquela esquina tinha um semáforo e o tal tipo, além da vaga incessante de transeuntes de ocasião.

Passados uns anos, perguntei a um amigo, há muito morador no bairro e conhecedor profundo do bas fonds local, tendo em conta que aquele homem não parecia endinheirado, qual seria o seu sustento. Respondeu-me que trabalhava num número e eu, ingenuamente, demorei a perceber que se tratava de um carteirista cuja vocação profissional encontrava num dos mais requisitados autocarros da Carris as condições óptimas para maximizar os proventos do seu labor. Um dia, notoriamente indignado, vociferava para quem o ouvia: “O passe da Carris está cada vez mais caro, são uns gatunos!”. Recordo-me sempre desta história cada vez que oiço um portista a criticar arbitragens de futebol ou de hóquei em patins.

Não conheço, no entanto, qualquer episódio ilustrativo da inusitada propensão de hoquistas portistas para interagirem, recorrendo aos sticks, com o público adversário. Ocorre-me uma palavra: selvajaria. E outra: impunidade. Desde logo fomentada por quem os dirige, que aparentemente finge tratar-se de uma reacção compreensível motivada por um excesso de adrenalina momentâneo. E, mais grave ainda, de quem dirige a modalidade, cuja habitual ligeireza na sanção destes casos remete-nos para a esfera dos países subdesenvolvidos.

Jornal O Benfica - 9/11/2018

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Ineficácia


Se há virtude que deve ser reconhecida a Rui Vitória é a humildade nos sucessos, que não têm sido poucos desde que é treinador do Benfica. Em todos, sem excepção, fez questão de distribuir os louros, rejeitando sempre a atribuição de mérito individual aos frutos do seu trabalho. Portanto, é da mais elementar justiça que, nos insucessos, Rui Vitória beneficie da mesma postura por parte de quem avalia o seu desempenho.

A derrota no Jamor frente ao Belenenses, SAD deveu-se a inúmeros factores, incluindo, à primeira vista, a opção do nosso treinador por três avançados durante um período da segunda parte que, ao invés de produzir o efeito desejado, tornou aparentemente mais difícil a recuperação da desvantagem. Mas antes dessa substituição já os jogadores, numa noite extremamente infeliz, haviam desperdiçado inúmeras ocasiões claras de golo – só as falharam porque as criaram (18 remates na área) – e, para agudizar a situação, haviam cometido dois erros resultantes em golos do adversário. Para ajudar à festa, o sempre prestável Artur Soares Dias colaborou no segundo tento azul, ficando assim por demonstrar o expectável: com 1-0, a segunda parte seria diferente. Foquemo-nos na ineficácia, até agora o nosso maior problema nesta época.

P.S. Já era conhecida a impunidade de Felipe, central do F.C. Porto, relativamente à violência em campo. Desconhecia-se, no entanto, que beneficia da mesma relativamente à regra do fora-de-jogo. Só encontro esta explicação para o que se passou no Dragão. Deve ser inédito um vídeoárbitro reverter uma boa decisão num lance de fora-de-jogo. Aguardo (mas sentado) por uma punição severa do Conselho de Arbitragem a Rui Oliveira e Vasco Santos.

Jornal O Benfica- 2/11/2018

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Passados quinze anos...


Recordo-me de ter aderido imediata e entusiasticamente à proposta da construção de um novo estádio da Luz, apesar de partilhar, então, os mesmos anseios da generalidade dos benfiquistas, como a eventual perda de identidade ou as dificuldades financeiras prementes após anos de má gestão (e danosa em parte deles) que, eventualmente, se agudizariam face ao elevado investimento necessário. Conhecia bem o estado de degradação do velhinho estádio, colocando de lado a mais simpática, do ponto de vista afectivo, hipótese de remodelação. A propalada partilha de um estádio com o Sporting, motivada por um economicismo, para mim, incompreensível, nunca foi solução, e sempre que a questão se colocou, bati-me ferozmente com quem defendia esse ponto de vista.

O que não vislumbrei na altura é que um estádio é mais que uma mera infra-estrutura (a edificação do Caixa Futebol Campus é também um belo exemplo). Luís Filipe Vieira e Mário Dias, os homens a quem, nessa fase de indefinição, se deve a ousadia da empreitada, bem clamavam por supostos benefícios que julguei não passarem de promessas vãs. Acreditava que evitar que o Sport Lisboa e Benfica se visse, um dia, a contas com intervenções forçadas e muito onerosas que não passariam de remendos era argumento suficiente.

Mas, passados quinze anos, torna-se evidente a diferença entre sonhadores e visionários. Sonhar é fácil. Ter a capacidade para sonhar, implementar o sonho e cumpri-lo é outra conversa. O novo estádio da Luz foi, de facto, o catalisador prometido para o Benfica moderno, pujante associativa e desportivamente e viável económica e financeiramente preconizado. Sempre fomos o maior clube português, voltámos a ser o melhor.

Jornal O Benfica - 26/10/2018

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Enorme Benfica


De passagem por Edimburgo, aproveitei para visitar o estádio do Hearts of Midlothian, um dos nossos adversários na campanha que resultou na conquista da nossa primeira Taça dos Campeões Europeus, em 1961. O Hearts, apesar de fazer parte do meu imaginário, precisamente por constar no caminho que levou José Águas a erguer o mítico troféu, é um clube relativamente modesto. Assim, não me surpreendeu que o “museu” do clube, na arquibancada de um dos topos, embora digno, cuidado e cativante, se limite a uma pequena sala.

Mas o mais interessante, de um ponto de vista benfiquista, foi a forma como fui recebido. Por ser o único visitante naquele momento, beneficiei da atenção especial do voluntário de serviço. Conversa puxa conversa e logo referi o confronto entre Benfica e Hearts e os golos, naquele local, de Águas e José Augusto. O senhor, aparentemente octogenário, partilhou comigo as suas memórias desse encontro e da grande equipa do Benfica nos anos 60 que, e passo a citar, “ninguém os conhecia e de repente eram a melhor equipa da Europa. E quando aqui jogaram, ainda não tinham o Eusébio”.

Mas o melhor, para mim, surgiu quando lhe revelei que escrevi uns livros sobre o Benfica, colaboro com o jornal e comento na televisão do clube. Passo o exagero, quase me dedicaram honras de estado. O senhor telefonou ao curador adjunto do museu e fui levado a uma visita ao estádio por ambos. O dia daqueles dois simpáticos e dedicados adeptos do Hearts, a julgar pela forma como fui tratado, não foi um qualquer. O Benfica, o enorme Benfica, esteve ali representado informalmente por um dos seus milhões de adeptos. Uma honra, a crer nos senhores, para o Hearts of Midlothian FC.

Jornal O Benfica - 19/10/2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Fina hipocrisia


Na semana passada, Pinto da Costa afirmou que “o futebol não pode ser uma guerra, tem de servir para unir o país”. Logo o acusaram de hipocrisia, o que se compreende. Porém, justiça lhe seja feita, é sobretudo uma vítima da sua megalomania e incompetência e, verdade seja dita, da incapacidade dos seguidores do desporto português em lhe reconhecerem, simultaneamente, o empenho em prol de tamanho desiderato e a obstinação pela perseguição de um objectivo nobre e porventura inalcançável, exigindo-lhe permanente pragmatismo e a constante prevalência do bem maior, mesmo que por vezes se veja na contingência de tomar caminhos enviesados. Em poucas palavras, o homem não só é um papa, merece a canonização.

Ciente da enorme empreitada a que se dedicou, começou por dar pequenos passos, alcançando sucesso, embora parcial por não ter percebido que já os romanos diziam que neste canto da Ibéria havia um povo que nem se governava nem se deixava governar. Enfim, somos muitos, demasiados para sermos unidos por um homem só. Nem Alberto João Jardim o conseguiu com os madeirenses, uma pequena parcela do país.

Alguns árbitros, dirigentes associativos (até de clubes), jornalistas, autarcas e muitos outros viram-se subitamente unidos, o que não é despiciendo. Afinal de contas são portugueses e tinha de começar por algum lado. A meio do caminho desviou-se e procurou, talvez fruto de um inusitado fervor pós-colonialista, incluir cidadãs brasileiras. E depois destas, sportinguistas em cargos directivos apoiados por uma turba desesperada. Falhou clamorosamente, o “país” continua desunido e o futebol é, infelizmente, uma guerra. Ou então é mesmo hipócrita.

Jornal O Benfica - 12/10/2018

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os Sísifos


Não se apoquente: “O Novo Banco cancelou uma conta caucionada de perto de 70 milhões de euros ao Benfica (...) que se encontra sob forte pressão de financiamento (...) e perde o seu parceiro financeiro predilecto numa altura especialmente difícil. (...) O Benfica enfrenta necessidades de refinanciamento ou de reembolso de créditos de quase 200 milhões de euros. (...) É com estes números na cabeça que se pode explicar a saída de jogadores. (...) Do susto ao pânico é um passo pequeno. (...) Os custos desportivos serão aferidos a partir de Setembro, altura em que a janela das transferências se fecha e quando se abrem as verdadeiras caixas de Pandora”.

Este artigo de opinião alarmista, embora trasvestido de notícia, foi publicado no Expresso, em agosto de 2014. Desde então, o Benfica venceu três campeonatos e outros títulos e troféus e apresentou as melhores contas da história da Benfica, SAD. Abriu-se, de facto, uma verdadeira caixa de Pandora: Se esta peça atesta a qualidade jornalística da grande referência do jornalismo em Portugal, imagine-se a de outras publicações...

Mas os gregos, que eram dados à tragédia, não se ficaram por Prometeu e Pandora. Hermes, por seu turno, ocupou-se de Sísifo, condenando-o perpetuamente a empurrar uma pedra até ao cume de uma montanha, a qual resvalaria sempre que o pobre Sísifo alcançasse o destino. Hoje, em tempos de maior civismo e urbanidade, talvez fosse condenado a desempenhar as funções de jornalista, tendo que, ciclicamente, escrever um artigo premonitório, nas parangonas, de caos benfiquista, mas desoladoramente (para ele) inócuo no conteúdo. Ou talvez não, que o que interessa é vender jornais hoje, amanhã sabe-se lá...

Jornal O Benfica - 28/9/2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Saudação ao SCP


Não me cabe tecer comentários sobre o resultado das eleições leoninas, mas apraz-me constatar que os sócios do Sporting Clube de Portugal souberam pôr cobro a um período de loucura cujas consequências extravasaram o domínio sportinguista. O anterior presidente do Sporting não representava somente um problema para o clube que dirigiu, mas para o desporto português. O risco de contaminação a dirigentes de outros clubes existiu e seria nefasto se tivesse ocorrido.

Um sportinguista, daqueles fervorosos brunistas, poderá interpretar o parágrafo anterior como uma mal disfarçada manifestação de alívio. Não poderá estar mais enganado. Para mim, enquanto benfiquista que cresceu a encarar o Sporting enquanto rival, nada mais me satisfez que derrotar um Sporting liderado por um arrivista grosseiro movido a ódio ao Benfica, cujas palavras de ordem logo eram repetidas até à exaustão por uma turba predisposta a tudo, assim prevalecesse a miragem de um Benfica subjugado. Bruno de Carvalho, que andou a ser levado em ombros por quem, mais tarde, demasiado tarde, se encarregou de o escorraçar, não surgiu de geração espontânea nem andou a pregar sozinho num deserto. Bruno de Carvalho foi o produto de vários factores, incluindo a deriva anti-benfiquista crescente.

Mas adiante, o passado já lá vai e mesmo algumas das afirmações anti-benfiquistas produzidas ao longo da campanha não me tiram o sono (até me entusiasmam, de certa forma). Afinal, havia que ganhar eleições e todos sabemos que um sportinguista, perante os seus correligionários, pouco ou nada é ouvido se, entre loas ao Sporting, não professar o anti-benfiquismo. Fica-lhes bem, entre eles, e serve-nos na perfeição.

Jornal O Benfica - 14/9/2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Bom começo


Passados 27 dias e 8 jogos, o Benfica lidera o Campeonato Nacional e assegurou a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, patenteando um nível exibicional entusiasmante e consistente, só pecando, em alguns dos jogos, pela escassa eficácia na concretização das inúmeras oportunidades criadas. Sem Jonas nem Krovinovic, entre outros, mas com Gedson e João Félix, produtos do excelente trabalho feito no Seixal (a que se lhes junta o “veterano” Rúben Dias e Alfa Semedo entre os utilizados).

Não por acaso, de acordo com um relatório do CIES sobre a facturação com a venda de passes de atletas para os cinco principais campeonatos europeus entre 2010 e 2018, o Benfica surge na oitava posição, com 618 milhões de euros, a apenas dez do quarto neste ranking, o Barcelona. Saliente-se que, neste período, o Benfica conquistou cinco Campeonatos Nacionais, duas taças de Portugal, seis Taças da Liga e três Supertaças, além de ter disputado duas finais da Liga Europa e ter sempre participado na fase de grupos da Liga dos Campeões a partir de 2010/11. Só este percurso desportivo permite o enaltecimento do sucesso financeiro, agora fortalecido pela recente amortização integral do endividamento à banca.

Será esta a razão que levou, subconscientemente, a antiga deputada à Assembleia da República e psicóloga Joana Amaral Dias a clamar pela extinção da Benfica, SAD? Não sei, a especialista é ela. Do meu ponto de vista, manifestamente leigo, limito-me a citá-la: “O maior risco, quer para as pessoas discriminadas quer para o público, encontra-se nos preconceitos e desinformação”. Então se partir do roubo de emails e deturpação e descontextualização do conteúdo dos mesmos, nem se fala...

Jornal O Benfica - 7/9/2018

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Godinho


Escrevo na terça-feira, antes do jogo decisivo em Salonica. Por isso, resta-me agradecer encarecidamente a Luís Godinho, árbitro do Benfica-Sporting, por colaborar diligentemente na preparação para a contenda na Grécia. A perspectiva de ver a nossa equipa disputar uma partida apitada por Felix Brych, um homem que, há quatro anos em Turim, não sendo banqueiro ou político, conseguiu roubar descaradamente 14 milhões de pessoas, é aterradora. Godinho, no fundo, um bom samaritano, tentou mimetizar Brych, possibilitando à nossa equipa a indispensável preparação táctica, técnica e mental.

Mas Godinho, e é bom que se investigue, não é, pelos vistos, um mero colaborador ocasional do Benfica (alerto, desde já, que esta é daquelas situações que não serão detectadas em emails roubados, pois esses, por mais vasculhados que sejam, nada contêm para além da actividade normal, legal e por vezes até enfadonha de funcionários e dirigentes de clubes que tratam de assuntos normais, legais e por vezes até enfadonhos de clubes). Godinho será antes um competente agente benfiquista infiltrado na arbitragem de futebol, servindo os propósitos encarnados. Ou não é a aposta na formação assumidamente estratégica para o Benfica?

Uma semana antes do dérbi – e, caros dirigentes benfiquistas, já que neste caso se trata de uma estratégia a médio prazo, deveriam tê-lo instruído para disfarçar um bocadinho – o prestável Godinho, em Arouca, formou os nossos jovens atletas na difícil arte de lidar com um adversário que, inadvertidamente, se apresentou em campo com um clássico 4-3-3-apito. Se não estamos perante um claro domínio dos meandros do futebol português, já não percebo nada disto.

Jornal O Benfica - 31/8/2018

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Gedson


Ao contrário do que por vezes se quer fazer crer, o Benfica sempre foi um clube formador de jogadores de futebol bem-sucedido. As raízes são profundas e remontam aos primórdios da sua existência.

No entanto, no final dos anos noventa do século passado, durante a vigência de Vale e Azevedo, a redução do número de equipas revelou-se nefasta. Passados poucos anos, a falta de infra-estruturas durante a transição entre estádios, até ao Caixa Futebol Campus entrar em funcionamento, também prejudicou sobremaneira esta vertente do clube. Acresce que, neste período, o Sporting notabilizou-se neste domínio e o marketing e a comunicação no futebol tornaram-se relevantes. Nesse contexto, só o enorme investimento e a redobrada competência permitiram que o Benfica voltasse a estabelecer-se como o melhor clube português na formação de futebolistas.

O ponto de partida benfiquista no relançamento da formação não se afigurava favorável. Entre outros factores, havia a percepção generalizada de que o Sporting, principalmente mas não só, era o clube mais adequado para proporcionar aos miúdos o cumprimento do sonho de enveredarem por uma carreira profissional de futebolista. Tal se devia à maioria de jogadores nas convocatórias das selecções nacionais jovens e, também, às oportunidades oferecidas na equipa principal (além das infra-estruturas), influenciando decisivamente o talento disponível em cada clube. Esta foi a realidade no passado, já não é a da última década, o que deve ser sobejamente enaltecido.

P.S. Satisfaz-me pensar no Florentino Luís e vislumbrar nele o sucessor de Fejsa. E no Jocú, do Florentino. É notável que haja exemplos como este para várias posições.

Jornal O Benfica - 24/8/2018

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Futebol português


Pouco percebo de física, mas estou disposto a tudo para entender o futebol português!

Na mecânica clássica, a segunda lei de Newton “é utilizada para prever matematicamente o que o sistema fará a qualquer momento após as condições iniciais do sistema”. Quais são elas então? Digamos um Benfica forte. Nesse caso, é limpinho matematicamente: Benfica forte – parafernália comunicacional e difamatória – coacção e intimidação a árbitros – órgãos disciplinares amorfos – conivência da comunicação social próxima – erros de árbitros e inacção de vídeoárbitros – impunidade de Felipes, Brahimis, Maxis e outros que tais.

Socorrendo-me da mecânica quântica, “o análogo da lei de Newton é a equação de Schrödinger” que, posteriormente desenvolvida por outros, resultou na teoria dos muitos mundos. Trocando por miúdos, dependendo do ponto de vista do observador, uma coisa pode ser e pode não ser simultaneamente, o que significa que há dois estados dessa coisa. Essas duas coisas, ao poderem ser e não ser simultaneamente, já serão quatro, e assim sucessivamente.

Portanto, aceitando esta possibilidade, que é científica, somos azarados. Com infinitas possibilidades de sermos e não sermos, calhou-nos um mundo em que jogadores do FC Porto gozam de impunidade grosseira, só me restando despedir com a letra de uma musiquinha, cantada pelas criancinhas da grande maioria dos mundos paralelos:
Apertei o pescoço ao adversário-rio, mas o adversário-rio não morreu-eu-eu, dona Chica-ca assustou-se-se, com o cartão, com o cartão que o árbitro não deu... miau! E sentada à chaminé-é-é, veio um maxi-xi, desfez-lhe o pé-é-é, ou ela chora, ou ela grita, ou vai-te embora, arbitragem maldita!


Jornal O Benfica - 17/8/2018

domingo, 12 de agosto de 2018

Jonas


Enquanto escrevo esta crónica, persiste a indefinição quanto à continuidade, ou não, de Jonas, o melhor jogador que vi representar o Benfica. Ainda me deliciei com Chalana ou Nené, mas ambos em final de carreira, e nenhum outro se compara, para mim, ao avançado brasileiro, cujo requinte técnico, criatividade, inteligência em campo e faro de golo são cada, e ainda mais se combinados, indiscutivelmente fenomenais.

O filósofo Simon Critchley, fanático assumido do Liverpool e autor do excelente “O que pensamos quando pensamos sobre futebol”, defende que o futebol está subjugado à ditadura dos números quando, em boa verdade, sem desmerecimento da relevância dos golos, tem mais que ver com a forma como os adeptos vivem o tempo. Para o autor, com o qual concordo, apesar de poder parecer paradoxal, a beleza do futebol advém da raridade dos lances belos ou emocionantes.

Jonas, um prolífero goleador que, como tal, não só resiste como até beneficia das análises quantitativas, é daqueles casos raros de quem se espera, a qualquer momento, que nos suspenda o tempo. Começou logo na primeira vez que tocou na bola de águia ao peito: um cabrito a um arouquense em pleno estádio da Luz. Desde então, o brasileiro coleccionou lances inesquecíveis e ainda mais golos, sendo o benfiquista com a melhor média de golos por época no Campeonato Nacional (24,75) e o terceiro em competições oficiais (30,5). Perder Jonas – este Jonas dos números impressionantes e da arte desmedida – nunca será benéfico seja qual for a circunstância. E é inevitável. O desafio será, então, encontrar novos Jonas, daqueles cuja genialidade e empenho nos aproximam dos títulos. E já tivemos uns quantos...

Jornal O Benfica - 10/8/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Modelo colaborativo


Ultimamente tenho trabalhado na concepção de um modelo colaborativo que permitirá a empresas do mesmo sector, logo algumas delas concorrentes, a mitigação de riscos e a consequente potencial diminuição de custos. Sempre que estou envolvido num projecto deste género, penso frustrado no nosso futebol, em que subsiste uma quase total ausência de visão global do negócio, apesar de algumas iniciativas pontuais, embora geralmente enviesadas e assimétricas quanto aos objectivos a que se propõe as partes.

Foi o caso, por exemplo, da submissão do Brunismo, que assolou o Sporting nos últimos anos, à vilipendiação costumeira, por parte da liderança portista, da ética desportiva e da sã rivalidade. Se do “Papa” e seus acólitos já tudo se espera – a este propósito recordo-me sempre daquela ideia de José Cardoso Pires sobre algumas pessoas só serem tão religiosas para que possam pecar– do Sporting nunca se sabe o que esperar.

O Sporting é, por oposição ao seu autoproclamado rival, um projecto de clube falhado por se deixar enredar na sua ambição irrealista (superiorizar-se ao Benfica). É, por conseguinte, propício a que o Brunismo e outros ismos prevaleçam frequentemente sobre o que seria consentâneo com a sua grandeza e o seu historial indiscutivelmente assinaláveis. E, assim, o Brunismo, enquanto projecto individual de poder e instrumento de validação de um complexo messiânico, dispôs-se a tudo, incluindo a submissão ao FC Porto, para tentar relegar o Benfica para uma posição inferior à sportinguista. Não é notável, mas há que reconhecer que, neste domínio, houve a partilha de um objectivo comum e uma estratégia concertada de concorrentes(?) no futebol português.

Jornal O Benfica - 27/7/2018

sábado, 21 de julho de 2018

E-Calabote


No âmbito das minhas pesquisas, encontro recorrentemente artigos que têm o condão de validar a minha percepção de um passado, se bem que vivido intensamente, cada vez mais distante. É o caso óbvio das dezenas, senão mesmo centenas, de crónicas demonstrativas de arbitragens amigas do FC Porto ao longo, sobretudo, das décadas de oitenta e noventa.

Lembro-me de uma em particular com o título sugestivo “Quem vai tramando o Benfica?” e que termina com a análise à actuação de José Silvano num Tirsense – Porto, em 1990. A descrição é, se lida hoje, surreal, mas não surpreende quem, como eu, sofreu impotentemente as agruras da incapacidade para, perante uma conjuntura ilegitimamente desfavorável aos nossos intentos, persistir no entusiasmo e no fervor clubistas. Partilhei-a nas redes sociais e logo me foi apontado o Calabote.

Em 2018, esta farsa, apesar de gasta, subsiste. Ao Silvano, Donato Ramos, Fortunato Azevedo, Francisco Silva, Calheiros, Isidoro Rodrigues, Martins dos Santos e outros que tais, o argumento é sempre “Calabote”, como quem diz, “nós roubamos, mas vocês também roubaram”. Mas por estar gasta, houve quem se apercebesse que se teria que ir além do Calabote…

O “caso Calabote” desmonta-se facilmente e, no presente, é mais interessante constatar o poder da comunicação, especialmente se mal-intencionada. E aí não há como não referir que os vários protagonistas da farsa “Calabote” e do combate ao penta, com as tentativas pífias da rotulação de cada título benfiquista, actuaram e actuam todos sob o mesmo líder. O mesmo que se sente à vontade para brincar com o roubo de emails do SLB, sabe-se lá se por não se sentir ameaçado por quem vai praticando esse crime…

Jornal O Benfica - 20/7/2018

sábado, 14 de julho de 2018

Orgulho matinal

No sábado passado, contrariamente ao que é costume, não eram ainda nove horas e já andava na rua. A razão, claro está, foi o Benfica. E valeu muito a pena, como só o Benfica sempre vale.

Sobre o treino da nossa equipa de futebol, nada que justifique grandes considerações. A vénia aos adeptos foi bem executada, duas balizas, campo encurtado, três ou quatro pormenores de se lhes tirar o chapéu e nem uma das caras novas me deu razões para torcer o nariz, que é o que mais me preocupa nas pré-épocas. Recordo aquela década a partir de 1994 e ocorrem-me dezenas de jogadores tidos por fundamentais na apresentação, mas que se tornaram irrelevantes no fecho da temporada. Em muitos desses casos não houve grande mistério desde o início, só não se percebendo porque haviam sido contratados.

Apesar desta reminiscência, hoje nada mais sinto que optimismo e entusiasmo pelo que se avizinha. Os últimos anos, não obstante erros aqui e ali, ajudam-me a desfrutar de um capital de confiança inabalável, o que me liberta dos anseios outrora bem vincados na minha personalidade benfiquista e me permite uma vivência clubística mais serena, embora igualmente apaixonada. Do tal treino sobra, portanto, o que realmente importa: o reforço do sentimento de pertença a uma família unida por um ideal, uma cor e um emblema. E que bonito foi ver aqueles quase vinte mil benfiquistas, alguns ainda bebés ignorantes da sua condição benfiquista mas que um dia poderão afirmar orgulhosos que a sua primeira vez no estádio da Luz foi pelo colo dos seus pais, movidos pelo benfiquismo numa manhã soalheira, a partilharem um momento inconsequente, mas revelador da força do nosso querido Benfica. E que força!

Jornal O Benfica - 13/7/2018

sábado, 7 de julho de 2018

Formar a ganhar


Esta semana pensei em exultar de alegria e orgulho pelo excelente percurso da nossa equipa; agradecer o excelente trabalho de Renato Paiva e seus adjuntos; elogiar o talento ímpar, em quantidade inusitada, deste grupo; relembrar que esta geração, há dois anos, venceu categórica e invictamente o campeonato de iniciados; e, finalmente, criticar a desfaçatez com que certos palermas mal-intencionados tentaram criar a ideia de que o Benfica, por ter 14 atletas no Campeonato da Europa de sub17 e fazer da formação um dos seus bastiões, condiciona ilegitimamente as convocatórias das selecções nacionais. Seria uma crónica simples e julgo que eficaz quanto à afirmação de um ponto de vista. Mas há que retirar algumas lições, das quais saliento duas.

A primeira remete para a abordagem às competições. Esta época o Benfica adoptou a política na formação que me parece a mais adequada: os jogadores subiram de escalão para aprimorarem as suas qualidades, mas disputaram as fases finais da sua faixa etária. Não por acaso, voltámos a ser campeões nos juniores, o escalão mais “prejudicado” pela primazia dada ao desenvolvimento individual. Estou convicto de que o talento existente no Seixal nos últimos anos poderia ter resultado em mais títulos, embora o mais importante seja formar atletas. Porém, o ligeiro ajuste da utilização de jogadores em prol da conquista de campeonatos nunca será um retrocesso.

A segunda tem um âmbito mais alargado, mas que resumirei a uma frase. As narrativas falsas criadas com o intuito de condicionarem a competição desportiva não resistem à superioridade patenteada em campo. A procura dessa superioridade será sempre a melhor arma para o combate à ignomínia.

Jornal O Benfica - 6/7/2018

domingo, 1 de julho de 2018

A "maldição" de Béla Guttmann

A suposta maldição de Béla Guttmann, se fosse hoje, seria apelidada de "fake news" e, por conseguinte, facilmente desmontável pelos factos.

Além de todos os depoimentos do húngaro após a saída do Benfica no final da temporada 1961/62, em que manifestou o seu apreço pelo clube e o desejo de novas conquistas benfiquistas (por exemplo, antes da final da TCE em 1963), sabemos, pelo próprio, ainda antes da final da Taça dos Campeões Europeus de 1962, que já decidira dar um novo rumo à sua carreira.

(Esta entrevista foi publicada em Abril de 1962 poucos dias depois do apuramento para a final da TCE em que o Benfica derrotou, por 5-3, o Real Madrid).

Futebol português


Há uma dose de sinceridade em Bruno de Carvalho, comum à grande maioria dos sportinguistas, que me garante um certo descanso na rivalidade com o Sporting. Por norma, os sportinguistas tendem a atribuir ao Benfica a responsabilidade, ou pelo menos parte dela, dos seus insucessos. O ódio, nos casos mais extremos, ou a inveja e desconfiança dos moderados, resultam na demonização do Benfica, desencadeando comportamentos e atitudes caracterizados, sobretudo, pela previsibilidade e constância. Por vezes incomodam, mas raramente produzem qualquer efeito. Não passam de barulho que, conforme a civilidade dos protagonistas de ocasião, somente varia no tom.

Contrariamente ao que possa parecer – e ao que os sentimentos primários poderão indicar – um Sporting fraco não nos beneficia, pelo contrário prejudica porque quando nada resta aos sportinguistas para festejar, sobra o anseio de que também os benfiquistas nada tenham para celebrar. E refastelados a observarem esta dinâmica e dela procurarem retirar vantagens estão os portistas, os verdadeiros beneficiários da descaracterização leonina verificada nas últimas décadas.

Acresce que, desde o início dos anos 80, os diferentes protagonistas portistas, sempre sob a mesma liderança, não obstante a evidente obstinação anti-benfiquista, têm sabido dissimular a sua postura, ora optando pelo confronto declarado, ora gerindo o silêncio e emprestando o palco, geralmente ao Sporting, mas não sempre (Braga em 2010, também o anónimo em 2018), para que os “custos” da luta contra o Benfica sejam distribuídos. Recorrem, para isso, a tácticas sórdidas e a alianças de ocasião, não é novidade. Caber-nos-á sermos superiores a isso tudo.

Jornal O Benfica - 29/6/2018

domingo, 24 de junho de 2018

A aposta na formação


Sempre que o Benfica vende o passe de uma das suas pérolas da formação, há benfiquistas que, em tom crítico, se interrogam se valerá a pena a aposta no Seixal. Do meu ponto de vista, a questão é simples.

O objectivo primordial de qualquer decisão no Benfica, seja estratégica ou operacional, deverá ter em vista a solidificação do projecto desportivo do clube, que passa pela capacitação das suas equipas seniores de competências e condições que lhes permitirão a conquista de títulos de forma continuada. No caso particular do futebol, tendo em conta o contexto nacional, nomeadamente se inserido nas dinâmicas do futebol internacional, em que predomina uma capacidade de investimento inalcançável aos clubes portugueses (e irrecusável a qualquer futebolista, incluindo os nossos), parece-me indiscutível que a aposta na formação é essencial.

A questão deverá ser, então, o que fazer com o produto dessa aposta. Aqui há que regressar ao ponto de partida. A ambição do Benfica não é, nem nunca poderá ser, tornar-se simplesmente num clube formador. A formação deve, portanto, ser encarada enquanto uma das ferramentas, porventura a mais relevante, que permitem o acréscimo de competitividade da equipa sénior, tanto pelo rendimento desportivo dos jovens formados no Benfica como pela contratação de bons atletas com as receitas obtidas através da alienação de passes, incluindo dos formados no Seixal. O truque, sabendo-se que, trabalhando bem, as pérolas, com maior ou menor cadência, suceder-se-ão umas às outras, será maximizar o rendimento desportivo e financeiro da aposta. Infelizmente, mas é a realidade que temos e não creio que possamos alterá-la, resume-se a vender no tempo certo.

Jornal O Benfica - 22/6/2018

sábado, 16 de junho de 2018

Causa justa


Muito se fala de Paulo Sousa e Pacheco por estes dias, como se estes nossos antigos atletas, e em particular a sua deserção para o Sporting num momento periclitante da nossa história, mereçam tornar-se na motivação de seja o que for no Benfica. Outros houve, desde 1907, que, por razões diversas, tomaram o mesmo caminho. Nem os supra citados, nem os restantes justificam o sentimento de vingança pela nossa parte. Para esses profissionais não há dinheiro que tenha pago o castigo auto-infligido da troca do maior clube português por uma agremiação movida a ódio, inveja e inferioridade. Para o Sporting, em todos os casos, restou a satisfação pífia e efémera da tentativa de ferimento do Benfica e, sobretudo, a frustração de nunca ter conseguido inverter a relação de forças entre os rivais.

Não quero com isto afirmar que o Benfica deverá evitar a contratação de atletas livres por terem representado o Sporting. Pelo contrário, defendo que o Benfica deverá sempre interessar-se pelos melhores ao seu alcance independentemente da sua proveniência e desde que o investimento assente em expectativas reais de retorno desportivo e/ou financeiro. Caso aconteça, não se tratará de uma vingança, mas do puro e simples apetrechamento do nosso plantel. A eventual perda de competitividade do nosso campeonato é um assunto que não me diz respeito, não sou sportinguista… E quanto às juras de solidariedade portista, a hipocrisia é, de facto, podre, como algumas maçãs, e frutífera, como algumas pereiras.

Deixo, no entanto, uma recomendação. Se contratarmos alguns ex-jogadores do Sporting, que não os exibamos como um troféu. Tratar-se-á, não duvidemos, de uma promoção para esses atletas.

Jornal O Benfica - 15/6/2018

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Orçamento 2018/19


De uma primeira leitura do orçamento do SLB para a próxima temporada, destaco, desde logo, a estabilidade do resultado positivo, de cerca de 6 milhões de euros. Tem sido esta a tendência das últimas temporadas, o que nos permite encarar o futuro com optimismo. Entre as várias componentes do orçamento, há duas que me merecem, sempre, maior atenção: Quotização e investimento nas modalidades.

Quanto à primeira, o crescimento sustentado das receitas de quotização é assinalável. Ano após ano, e sem aumentos do valor da quota, é estabelecido um novo recorde: 14.6M€ em 2015/16; 15.8 em 2016/17; 16.4 em 2017/18 (previsão); 16.6 em 2018/19 (orçamentado). Esta tendência é fruto de uma política comercial agressiva (promoção e segmentação), da implementação de instrumentos de retenção dos associados e do estabelecimento de parcerias resultantes em vantagens para os sócios. É preciso ter em conta, no entanto, que estes montantes verificaram-se em temporadas de sucesso no futebol, o que me desperta a curiosidade para perceber se, na próxima temporada, se conseguirá atingir o valor orçamentado. A previsão para a época agora finda é um indicador favorável.

Relativamente às modalidades, folgo em verificar que o investimento tem crescido sem que a sustentabilidade económica e financeira do clube seja colocada em causa (aumento de 1.7M€). Apesar da desapontante época desportiva, estivemos em todas as decisões e, tendo em conta o pecúlio obtido na última década, trata-se de um ano atípico. Muito honestamente, prefiro ter um ou outro ano atípico que, em prol de um eventual sucesso esmagador imediato, eventualmente hipotecar várias épocas futuras. Estamos no bom caminho!

Jornal O Benfica - 8/6/2018

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Rua da Constituição


Esta semana dei por mim a passear no Porto, na rua da Constituição. E lá ia Pedro Proença, trajado com um fato da moda, camisa aprumada, gravata vistosa com nó exemplar e penteado impecável, brilhantina quanto baste.

Decidi seguir no seu encalço e tive a sensação que reparou em mim. Disfarcei como pude o meu benfiquismo para não afugentá-lo, quase lhe elogiei a carreira na arbitragem numa tentativa de me passar por portista, que certamente se revelaria frutífera, mas pareceu-me distraído. Depois vi vários jornalistas à entrada de um edifício moderno, Proença cumprimentou-os, atravessou a porta e os tais jornalistas repetiram o movimento. Juntei-me ao séquito, seria uma conferência de imprensa na sede da Liga.

Bernardo Ribeiro, do Record, por estes dias algo desocupado por não lhe ser conveniente escrever sobre o Sporting, era um dos escribas presentes. Perguntei-lhe sobre Bruno de Carvalho, amuou e sugeriu-me que entrasse na sala da conferência pois Proença anunciara medidas importantes para o futebol português. Será que, passadas quatro semanas, a Liga castigaria, ou pelo menos censuraria, os jogadores portistas que, nos festejos do campeonato, insultaram o Benfica e os benfiquistas? Acordei quando Proença tomou a palavra.

Ao contrário do pintor Piskariov, emanado da mente brilhante de Nikolai Gógol, que se apaixonou por uma mulher que sonhara ter visto na Avenida Névski, em São Petersburgo, não sofrerei de insónias. Piskariov, desesperado por não controlar os sonhos, tornou-se incapaz de adormecer por ansiar o contacto com a mulher sonhada. Já eu cairei no sono sem quaisquer dificuldades. De Proença, positivo para o futebol português, nada espero...


Jornal O Benfica - 1/6/2018

sábado, 26 de maio de 2018

De cadeirinha...


O Sporting é um projecto falhado, sabotado inadvertidamente pelos próprios sportinguistas. Não me interpretem mal, este texto não é um exercício de comiseração, antes pelo contrário. É com incontida satisfação que chego a esta conclusão.

É preciso recuar aos primórdios do Sporting para se entender a falência do ideal leonino. Produto de uma iniciativa individual, motivada por uma birra, o Sporting foi fundado com o propósito do seu fundador jogar à bola com os amigos, razão primordial, também, do vincado elitismo característico no etos sportinguista. Mas jogar não era suficiente, ganhar fazia igualmente parte da equação e cedo os amigos foram substituídos por entusiastas mais aptos, a grande maioria do Sport Lisboa. Por, à época, não se tratar de uma questão técnico-táctica, mas de paixão pelo jogo, rapidamente o Sport Lisboa se reergueu e até acrescentou Benfica ao nome. Os anos passaram, a cobiça leonina aos melhores praticantes do Benfica tornou-se recorrente e o resto é história. Nem mesmo no seu período de maior fulgor desportivo, o Sporting conseguiu ser mais popular que o Benfica. A sua grandeza, indiscutivelmente assinalável, viu-se sempre aquém da ambicionada. O Sporting tornou-se popular, mas nunca o Benfica.

Não haverá um único sportinguista que coloque a questão nestes termos, mas o poder do subconsciente é inegável e é por isso que qualquer sportinguista populista de meia tigela sabe que, para arregimentar os seus correligionários, bastará a ilusão de conquistas e a diabolização do Benfica. Benfiquista, quer confundir o seu amigo sportinguista? Critique Bruno de Carvalho!

P.S. Bruno de Carvalho e o brunismo são prejudiciais ao futebol português.

Jornal O Benfica - 25/5/2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Futebolzinho português


Não fui dos que festejou efusivamente o segundo golo do Marítimo, mas senti-me contente. O segundo lugar, sendo o primeiro dos últimos para o Benfica, é mais que um mal menor. Se, e não será fácil, conseguirmos aceder à fase de grupos da Liga dos Campeões, teremos, além de bons adversários, uma receita mínima acima dos 40 milhões de euros. É um valor exorbitante para a nossa realidade, que nos aproximará minimamente dos cada vez mais afastados tubarões do futebol europeu.

Entretanto olhamos à nossa volta e percebemos porque ninguém, no estrangeiro, liga ao nosso futebol. Desorganização, estádios vazios, arbitragem sem credibilidade, clima permanente de guerrilha, políticas de comunicação terceiro-mundistas, suspeitas e mais suspeitas... E o que diz Proença? “Foi uma época extremamente positiva” e que o que lhe interessa é “fazer a defesa da salvaguarda do modelo de negócio das competições”. Logo ele que nunca se insurgiu contra o epíteto “Liga Salazar” ou que não teve oportunidade de criticar a devassa da correspondência privada, a difamação reiterada... Mas já nem lhe peço tanto… Poderia, talvez, mostrar algum desagrado por profissionais deste futebolzinho insultarem um adversário e os seus adeptos… Será vergonhoso se os insultos de jogadores portistas ao Benfica e aos benfiquistas não forem punidos exemplarmente.

P.S.: Não me contradirei… De acordo com o CM, os paladinos da verdade desportiva terão muito para explicar no andebol e futebol. Não se tratam de suspeições infundadas, são referidos nomes, jogos, montantes, haverá uma confissão… E é legítimo perguntar, a confirmar-se o teor da notícia, se haverá casos semelhantes noutras modalidades…

Jornal O Benfica - 18/5/2018

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Casa de complexo


Os insultos e as palavras de ordem jocosas dedicadas ao Benfica e aos benfiquistas são recorrentes nos festejos dos nossos principais adversários e, como tal, ainda mais por serem estimulados por responsáveis e protagonistas desses clubes, são demonstrativos do sentimento de inferioridade, em relação ao Benfica, de portistas e sportinguistas. Essa forma de estar vira-se contra eles: O Benfica, ganhando ou perdendo, sai sempre por cima.

O cântico mais entoado de acordo com a comunicação social, o “Penta Ciao”, é particularmente significativo. Adaptado da canção da resistência antifascista italiana, recordada, em 2018, à escala mundial devido ao sucesso da série espanhola “Casa de Papel”, serviu agora de expressão da alegria portista.

Nem sequer preciso de evocar a ironia da adopção de práticas comuns aos regimes fascistas –violação de correspondência privada, deturpação do conteúdo dessa correspondência, propaganda, intimidação, coacção – serem celebradas recorrendo a uma melodia que simboliza o repúdio a essas práticas. Menos ainda os adeptos do clube da inauguração do estádio englobada nas comemorações do Estado Novo cantarem a Bella Ciao… As voltas nos túmulos que grandes dirigentes do F.C. Porto, como, entre outros, Urgel Horta, salazarentos até à medula, estarão agora a dar… Basta a “Casa de Papel” que, muito resumidamente, é sobre um grupo de marginais que faz um grande assalto. E depois, ainda mais ironicamente, com o “Penta Ciao” os portistas tentam esfregar-nos na cara a nossa hecatombe, a nossa crise desportiva sem precedentes, esta coisa de não termos conseguido ganhar, pela quinta vez consecutiva, o Campeonato Nacional… Está tudo dito!

Jornal O Benfica - 11/5/2018

sexta-feira, 4 de maio de 2018

VMOCada


Bruno de Carvalho, no DN, fez um exercício de publicidade, do meu ponto de vista enganosa, sobre o virtuosismo da sua gestão e da situação financeira leonina em prol do próximo empréstimo obrigacionista da Sporting, SAD. Não sou seu correligionário nem investidor, mas há três passagens merecedoras de comentário.

Saber negociar: Investir em obrigações do Benfica poderá ser mais arriscado que no Sporting (cuja SAD, pela primeira vez na história das SAD, falhará um prazo de reembolso) devido ao possível desinteresse dos bancos em cobrirem um eventual incumprimento pois o Benfica deixou de ter relação com a banca. Sugere, portanto, que o Benfica, por não ter dívida à banca, poderá criar maior apreensão nos investidores que as entidades devedoras, incluindo, as incumpridoras.

A anedota: Diz que há um risco relativo a questões reputacionais associadas ao Benfica (emails). Avisem-no já: Pagar a tempo e horas mitiga o risco de desconfiança dos investidores!

O escândalo: “Preço de compra de cada VMOC a 30 cêntimos (…) sem aumento das taxas de juros e sem entrega de garantias adicionais aos bancos”. As VMOC, subscritas pelos bancos por 1€ cada, serão recompradas pela Sporting SAD por 0,30€. Significa isto que existe um perdão implícito de 70% a uma SAD que se gaba de ter um activo que “ascende a 287M€” e uma “boa situação financeira”. Por artes mágicas, 135M€ de dívida passam a 40. E relembro que um dos intervenientes, o Novo Banco, está intervencionado pelo Estado, tendo anunciado recentemente nova injecção de capital (721M€) por via de empréstimo estatal ao Fundo de Resolução… para cobrir imparidades. Caro contribuinte, seja bem-vindo à Junta de Salvação Leonina!

Jornal O Benfica - 4/5/2018

sábado, 28 de abril de 2018

Rio vermelho


O filósofo do século XIII Nasreddin, entre as suas inúmeras histórias caracterizadas pela sabedoria e espirituosidade, conta-nos aquela de dois homens, cada um em margens opostas de um rio, em que um deles apela ao outro que o ajude a passar para o outro lado, ao que o outro responde: “Mas tu estás do outro lado”. Esta anedota, se aplicada ao futebol português, explica o contexto benfiquista.

Desde que se reergueu financeira e desportivamente, o Benfica é como um rio que desagua frequentemente num mar de glória. Ao Porto e Sporting cabe o papel das margens que, fragilizadas pela voracidade de conquista de um rio que procura manter o curso que lhe é natural, se vêem cada vez mais sedimentadas nos seus intentos. O primeiro constrói barragens, dinamita-se com o intuito de criar enseadas artificiais e recorre a toda a espécie de dejectos para poluir o rio; o segundo só sabe tentar a via da poluição. E assim solicita ao seu semelhante, na margem oposta, que o puxe para o outro lado, que, ao invés de fazê-lo, lhe oferece a ilusão de que estão ambos na outra margem, portanto, supostamente na mesma.

Assim se explica que de toda a berraria e urdideira leoninas sobre as arbitragens não tenha sobressaído uma voz convictamente crítica à grande penalidade sonegada ao Sporting nos últimos minutos do clássico anti-Benfica no Dragão. Ou que de toda a parafernália supostamente pró verdade desportiva não tenha havido, pelo menos, a menção entredentes de que Artur Soares Dias perdoara um penálti ao Porto na Luz, em falta cometida sobre Zivkovic, para já não falar do dérbi na Luz... E assim se faz a classificação (mesmo que o Record, devido a um lapso freudiano, a deturpe).

Jornal O Benfica - 27/4/2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Ainda não acabou


De uma forma simplista, o último clássico poderá ser resumido a uma primeira parte em que o Benfica se superiorizou ao F.C. Porto, sem que tenha conseguido concretizar a única oportunidade clara de golo criada, e deu-se o inverso na segunda parte, com Varela a evitar um tento de Marega. A diferença residiu, ao cair do pano, num remate potente de fora da área que deu a vitória aos portistas. Tratou-se, no seu todo, de uma partida equilibrada, mais lutada que bem jogada, mais suada que bem ajuizada. A sorte não nos sorriu.

Foi também, reconheçamos altruisticamente, um jogo conveniente para o árbitro Artur Soares Dias: Não ter visto a grande penalidade sobre Zivkovic, assim como a sua complacência gritante para com a agressividade excessiva aplicada por portistas nalguns lances, permitir-lhe-á, certamente, treinar em paz no Centro de Treino de Árbitros, na Maia. Terá sido uma questão de critério e criterioso como só ele sabe ser, esteve ao seu nível, demonstrando cabalmente porque o país campeão europeu de futebol em título não terá qualquer árbitro no próximo mundial. É significativo!

Entretanto Rui Vitória afirmou que o sonho do penta “ainda não acabou” e Jardel garantiu que a equipa “lutará até ao final”. O treinador tem razão e o capitão assume a postura adequada a qualquer benfiquista em campo e fora dele. Lutar pelo campeonato será a única forma de ganhá-lo e, em última instância, de assegurar a presença na Liga dos Campeões na próxima temporada. Conforme disse Vítor Silva, o nosso grande jogador dos anos 30, numa situação adversa: “A bola é redonda e a alma vermelha”. Já ganhámos e perdemos campeonatos em situações semelhantes. Não desistiremos!


Jornal O Benfica - 20/4/2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pelo Benfica


Desafio os estimados leitores a adivinharem se a doutrina subjacente à afirmação de que “só a via do radicalismo pode pôr termo ao actual estado de coisas. Todas as açcões devem ser consideradas para nos libertarmos das amarras deste regime corrupto e opressor” emanou das cabeças pensantes do Daesh, do Baader Meinhof, da ETA ou do Baluarte do Dragão, considerado o canal oficioso da comunicação portista. E adivinhem também se a ameaça “não vai a bem, um dia vai ter que ser a mal” foi formulada por um qualquer fanático idiota e irresponsável ou se por um agente desportivo, no caso oficial de ligação aos adeptos, Fernando Saul.

O interessante é que, no futebol português, regime corrupto lembra-me o caso “apito dourado”, regime opressor remete-me para os ataques frequentes às Casas do Benfica na cidade do Porto e arredores e o “se não vai a bem, um dia terá que ir a mal” recorda-me a interpelação a Artur Soares Dias no centro de treinos de árbitros na Maia. É com esta corja que nos batemos, sem que o tenhamos desejado ou provocado deliberadamente. Porém, ao ganharmos, provocámo-la mesmo que inadvertidamente. Já são quatro anos consecutivos a espicaçá-los, com triunfos, para revelarem a sua natureza...

Neste contexto impensável, o nosso trunfo será sempre o benfiquismo. Como uma vez disse Ribeiro dos Reis, “o Benfica, só o Benfica e nada mais que o Benfica” e é pelo Benfica que, na medida das nossas capacidades, tentaremos obter uma vitória neste fim-de-semana, à qual, se espera, seguirão outras que nos conduzirão ao desígnio do penta. Pelo Benfica e não contra alguém, por mais arrivista que seja.

P.S. Parabéns à nossa equipa de voleibol!

Jornal O Benfica - 13/4/2018

domingo, 8 de abril de 2018

20 locais menos óbvios para conhecer em Londres

Londres pertence ao grupo restrito de cidades que poderiam ser consideradas capital mundial. As atracções turísticas e a actividade cultural parecem inesgotáveis. Redescubra a cidade inglesa através de vinte sugestões menos óbvias, mas nem por isso menos surpreendentes.

Volta ao Mundo - Março 2018

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Líderes


Não foi necessária perspicácia apurada para perceber, mal o Belenenses derrotou o F.C. Porto, que nas horas e dias seguintes seriam muitos os benfiquistas, em particular nas redes sociais, que se desmultiplicariam em apelos à humildade e relembrariam quase desesperadamente que o penta ainda está por alcançar. Se subscrevo que a humildade genuína nunca fez mal a ninguém e que os títulos só se conquistam quando são efectivamente conquistados, já não acompanho a necessidade dos apelos.

Se há características indubitavelmente atribuíveis à nossa equipa de futebol são a crença em si própria e o comprometimento com os objectivos do clube. Não é agora, na liderança, que estas se revelaram, mas bem antes, há alguns meses, quando os resultados conseguidos estiveram aquém do expectável e exigível e a equipa (estrutura, técnicos e jogadores) soube tornar-se imune às circunstâncias e definiu desde cedo, para si mesma, que cada jogo seria uma final.

Essa forma de estar, bem comunicada para o exterior e evidentemente assimilada no seio da equipa, demonstrou ser a que melhor serviu os interesses da equipa e não há qualquer indício de que venha a ser alterada só porque, a seis jornadas do término do campeonato, finalmente regressou à única posição consentânea com as nossas aspirações: Líderes!

Não é a primeira vez que esta equipa técnica e estes jogadores se encontram neste contexto. A fórmula é simples: Ganhar! E, para ganhar, nada mais será necessário que manter o nível desde que, em Braga, no início da segunda volta, a equipa começou a calar os arautos da desgraça e os detractores profissionais. A deslocação a Setúbal será mais uma final… Confio na nossa equipa!

Jornal O Benfica - 6/4/2018

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Cheira Bem, Cheira a Lisboa


Publicado no início de Novembro de 2014, trinta anos passados da estreia de Carlos Lisboa pela equipa sénior do Benfica em competições oficiais, o "Cheira Bem, Cheira a Lisboa" conta a história da carreira daquele que é considerado ainda hoje o melhor basquetebolista português de sempre.

Foi o meu terceiro livro e o mais fácil de escrever. A pesquisa, apesar de morosa, nunca foi entediante ou sequer cansativa. Perscrutar jornais publicados entre 1984 e 1996, em busca de notícias e artigos sobre o basquetebol benfiquista, permitiu-me não só recolher o material essencial para a feitura desta obra, mas também e sobretudo reviver momentos que interpretei, ao longo da minha infância e adolescência, como pura magia. Talvez seja este o segredo para uma vida profissional feliz: tornar o trabalho lazer.

Faltam, no entanto, as aspas quando me refiro a vida profissional. Desde logo porque os direitos de autor são mínimos (no meu caso têm sido 10% sobre o preço de capa deduzido de IVA, mas há quem tenha 8% ou menos ainda) e os hábitos de leitura, em Portugal e talvez no resto do mundo também, são cada vez mais reduzidos. E, neste caso em particular, porque a editora Verso da História só depois de muita insistência me pagou os direitos de autor das vendas (contabilizadas pela editora) no primeiro ano após a publicação do livro (isto é, de Novembro de 2014 até final de Abril de 2015). No ano seguinte, apesar de ter recebido o relatório e de ter passado o recibo, nunca cheguei a receber o dinheiro que ainda me é devido. Nunca mais recebi qualquer relatório de vendas ou direitos de autor desde então. Descobri depois que a Verso da História sucedeu à Quidnovi, outra editora que uma pesquisa rápida no google permite-nos perceber que há inúmeros queixosos por alegado incumprimento da parte da editora (entretanto, parece que a Verso da História já não existe sob essa denominação, embora continue activa. Fica o aviso a incautos como eu o fui no passado). 

Porém, foi após a apresentação do "Cheira Bem, Cheira a Lisboa" que fui convidado para participar no programa 105x68 da BTV. O Luís Filipe, além de ser o apresentador do programa, trabalhava também na comunicação das modalidades e marcou presença na apresentação do livro, onde nos conhecemos. Ao primeiro convite sucederam-se outros, para esse e outros programas, com a cadência dos convites a aumentar significativamente até que me tornei comentador do canal e, pelo meio, colunista do jornal O Benfica.

Deixo-vos a introdução do livro:

Não havia ainda linha de três pontos quando vi jogar, pela primeira vez, o Carlos Lisboa. Idolatro-o desde essa partida europeia em que, ao serviço do Queluz, frente a uma equipa checoslovaca, marcou 47 pontos. No verão seguinte, o meu pai perguntou-me se eu sabia quem iria jogar para o Benfica. Disse-me que era o “sete do Queluz”, como eu lhe chamava aos seis anos. Acredito que terá sido nesse dia que o basquetebol passou a ser a minha modalidade predilecta.

Três anos mais tarde, em Março de 1987, os sócios do Sport Lisboa e Benfica elegeram a lista liderada por João Santos, da qual o meu pai fez parte. Como já havia sido o director com o pelouro do basquetebol no primeiro mandato de Fernando Martins e tinha exercido, até poucos meses antes, o cargo de vice-presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol, foi com alguma naturalidade que lhe foi atribuído novamente esse pelouro.

Sempre atrás do meu pai, deixei de ser um mero espectador para me tornar num dos raros privilegiados a conhecer por dentro o basquetebol benfiquista numa década em que, para o Benfica, jogar, nas competições nacionais, quase foi sinónimo de ganhar e, a nível internacional, o clube atingiu o que era (e voltou a ser) impensável no basquetebol português: Ombrear com os melhores.

A figura central destes feitos foi o Carlos Lisboa. O seu regresso ao Benfica - teve uma breve passagem no escalão de juvenis nos meses seguintes à sua chegada à metrópole - gerou grande entusiasmo entre os benfiquistas adeptos da modalidade. Após anos de conquistas ao serviço do Sporting, em que venceu três Campeonatos Nacionais, e Queluz, em que ajudou o clube de Sintra a celebrar o seu primeiro título, além de excelentes exibições em representação da selecção nacional, o Carlos era já considerado, diria unanimemente, o melhor jogador português de então e, para muitos, de sempre. Os doze anos de águia ao peito confirmariam esse estatuto e acrescentar-lhe-iam outro, corroborado por inúmeras personalidades do basquetebol europeu que se foram atravessando no caminho do Benfica, o de ser um dos melhores jogadores europeus da sua geração.

Nessas doze temporadas, o Benfica conquistou dez Campeonatos Nacionais, cinco Taças de Portugal, cinco Supertaças e seis Taças da Liga (em sete edições), além de prestações inesquecíveis nas competições europeias que catapultaram a modalidade para patamares de popularidade nunca antes vistos em Portugal.

Com a ajuda de grandes jogadores como Henrique Vieira, Jean-Jacques, José Carlos Guimarães, Mike Plowden e Pedro Miguel, entre outros, e do treinador Mário Palma, o Carlos Lisboa tornou-se num dos poucos atletas das chamadas “modalidades amadoras” a granjear, entre os adeptos benfiquistas, a notoriedade reservada, normalmente, aos futebolistas. Tal se deveu não só às vitórias colectivas e aos feitos individuais, mas também à sua indisfarçável sede de conquista, à sua entrega inexcedível, às suas inúmeras intervenções felizes em momentos decisivos e à sua notável empatia com o público, que lhe dedicava frequentemente o refrão da canção de Lisboa, “Cheira bem, cheira a Lisboa”, o que muito o emocionava, justificando-se assim a escolha do título deste livro a ele dedicado. A sua capacidade para galvanizar os companheiros e os adeptos – a par da sua coragem que “enraivecia” os seus adversários – é recordada com saudade por todos os que tiveram a felicidade de o ver jogar.

Esta rara compatibilidade de um homem com as vitórias subsiste noutras funções, as de dirigente e treinador. O basquetebol benfiquista reencontrou-se com o seu destino vitorioso nos últimos anos, em que ganhou cinco dos últimos seis Campeonatos Nacionais disputados. Nos primeiros dois, Carlos Lisboa foi, enquanto director-geral das modalidades, função que continua a desempenhar, um dos dirigentes que contribuiu para esses triunfos, tendo acumulado, no último tricampeonato, a função de treinador principal. Feitas as contas, o agora treinador benfiquista assumiu um papel preponderante em 15 dos 25 Campeonatos Nacionais do palmarés do basquetebol benfiquista.

Escrever sobre o Carlos Lisboa é escrever sobre um desportista ímpar, um ídolo e um amigo. Dar a conhecer a sua carreira, com enfoque no seu percurso de águia ao peito, é a forma mais justa que encontro, enquanto benfiquista, de homenagear alguém que considero ser um dos maiores símbolos do Sport Lisboa e Benfica. Poucos são os que personificam plenamente a mística do Benfica, o Carlos Lisboa é um deles.

É a ele, por conseguinte, que devo o primeiro agradecimento. Obrigado Carlos Lisboa por seres quem és e pelo que representas. Sinto-me um privilegiado por ser teu amigo e por ter acompanhado grande parte da tua carreira desportiva. Obrigado também pela tua contribuição para esta obra. Os teus depoimentos e o material fotográfico que o teu pai foi reunindo e que nos foi, agora, disponibilizado por ti, enriquecem-na imensuravelmente.

Agradeço igualmente aos meus pais, imprescindíveis no caminho que me trouxe onde estou. No caso particular deste livro, tenho que salientar o papel do meu pai. O velhinho estádio da Luz, de que sinto enorme saudade, foi a minha segunda casa durante a infância e a adolescência. Raros foram os dias que não fui ao estádio, onde tive a oportunidade de assistir a milhares de treinos e centenas de jogos da equipa principal de basquetebol do Benfica. Fui também uma espécie de mascote dessa equipa, acompanhando-a em inúmeras deslocações pelo país. Beneficiei de uma educação benfiquista esmerada, reconheço.

Por último, o meu obrigado ao departamento de marketing do Sport Lisboa e Benfica e à Quidnovi, pelo entusiasmo e empenho neste projecto, ao Centro de Documentação e Informação do SLB pelo auxílio na recolha de material, ao Alberto Miguéns, pelo apoio na conferência dos dados estatísticos, ao Prof. Mário Gomes, pela disponibilização dos dados estatísticos de 1992 a 1996 e, finalmente, ao Jorge Castela e ao Fernando Arrobas pela revisão e sugestões.

Viva o Sport Lisboa e Benfica!

sábado, 31 de março de 2018

Complexado (com maiúscula)


Em fevereiro de 1907, o Sport Lisboa derrotou o “invencível” Carcavellos, dos ingleses do Cabo Submarino, por 2-1, logo lhe sendo colocado, pela imprensa da época, o epíteto “gloriosíssimo”. No verão seguinte, um jovem endinheirado, fascinado pela valentia e mestria do grupo de Belém, convenceu a quase totalidade da equipa, oferecendo melhores condições para a prática do futebol, a representar o seu clube, o Sporting. Gourlade, Bragança, Cosme Damião e Félix Bermudes encontraram a fórmula para a revitalização do afamado grupo de Belém, mantendo vivas as suas cores e emblema e, pouco mais tarde, encontrando casa em Benfica, com sucesso imediato. Em 1910 e 1911 já o Benfica goleava o Sporting com regularidade. Em 1914, Artur José Pereira, à época o melhor jogador português, trocou o Benfica pelo Sporting, tornando-se o primeiro futebolista pago em Portugal.

O “lagartismo” está bem impregnado em Bruno de Carvalho. Ou seja, a matriz genética do seu inabalável sportinguismo inclui a evidente, ainda que inconsciente, admiração pelo Benfica, embora trasvestida de desdém extremo. Nem se digna a escrever Benfica com maiúscula, apesar de cá ter vindo buscar o treinador, contratado vários ex-atletas e se inspirado para a fundação, a loja na Baixa, o museu (com a originalidade da vitrina vazia, metáfora perfeita para o Sporting das últimas décadas), o canal de televisão, o kit sócio, etc.

O uso do B minúsculo arregimenta os seus pares e serve para apregoar uma suposta e delirante superioridade moral e desportiva, mas denota, sobretudo, o complexo de inferioridade em relação ao Benfica que tanto os caracteriza, martiriza e condiciona. Têm sido “cinco anos maravilhosos”, pois têm…

Jornal O Benfica - 30/3/2018

segunda-feira, 26 de março de 2018

Delgada ironia


José Manuel Delgado, no jornal A Bola, destacou, e bem, o Illiabum, vencedor da Taça de Portugal de basquetebol. Irónica foi, creio que inadvertidamente, a sua observação final: “O Benfica deverá fazer uma análise profunda quanto à relação custo-benefício, no basquetebol e não só”. Ou seja, o director-adjunto do A Bola, que até há poucos anos se alardeava de ser o “jornal de todos os desportos” e cujo canal de televisão transmitiu a final a oito da referida competição, recomenda-nos que (por perdermos uma taça!??!) repensemos o investimento “no basquetebol e não só”.

Convém referir que o basquetebol, na última década, é a modalidade de pavilhão que mais retorno desportivo deu ao clube (30 das 44 provas disputadas, incluindo sete, possivelmente oito, Campeonatos Nacionais). Mas, mais do que reconhecer o sucesso desportivo, importa aquilatar a vontade dos sócios do SLB e esta é soberana e inequivocamente favorável ao forte investimento extra-futebol. Assim o têm dito as votações esmagadoras em Luís Filipe Vieira, cuja visão de clube se opõe àquela redutora dos futeboleiros, assim como a recusa determinada dos sócios, há cerca de quinze anos em Assembleia-Geral, num tempo de míngua de títulos generalizada, especialmente no futebol, da proposta de Manuel Vilarinho que visava o desinvestimento total nas ditas “amadoras”. Já para não referir os diversos benefícios dessa aposta, o respeito pela tradição e história do clube e até os seus estatutos…

Ou então percebi mal e o que Delgado nos sugeriu, julgando o Benfica no lado errado da segunda circular, é a aposta desenfreada e irresponsável para tudo tentarmos ganhar no imediato, porventura hipotecando o futuro...

Jornal O Benfica - 23/3/2018

terça-feira, 20 de março de 2018

Rumo ao penta!


Eis o ansiado desaire portista que nos recolocou numa posição independente para a conquista do tão almejado penta. Compete-nos agora lutarmos até à exaustão pela conquista dos três pontos em cada jornada e, se o conseguirmos – o que não será nada fácil –estou convicto que nos sagraremos campeões na penúltima ronda.

Mas, neste momento, ganhar na Feira, num campo habitualmente difícil frente a um adversário certamente empenhado, deverá ser o nosso foco. Acredito piamente que os nossos jogadores têm esta ideia bem interiorizada, pois foram eles os principais artificies do tetra, um feito alcançado com qualidade, espírito de equipa e mentalidade competitiva.

Se a qualidade, que poderá variar consoante as épocas mas que, num clube como o Benfica – este Benfica recuperado – será sempre elevada, o espírito de grupo e a mentalidade competitiva dependem, sobretudo, de factores internos (condições de treino e estabilidade do clube, capacidade de gestão da equipa técnica, liderança no balneário e personalidade dos atletas). Porém, os factores externos não são desprezíveis e estes, no contexto actual, caracterizado por insinuações torpes e acusações infundadas detractoras do nosso mérito, têm sido imensamente benéficos para os nossos intentos.

Atente-se às declarações recentes de Artur Moraes, em que referiu a “campanha muito forte para desvalorizar as vitórias do Benfica (…) a qualquer preço”. O Artur, como o Luisão, o Fejsa, o Jonas, o Pizzi e todos os que suaram a nossa camisola, não merecem o tratamento que lhes tem sido dado. Porque, como bem disse o presidente, os ataques não são ao fulano, ao sicrano ou ao beltrano, são ao Benfica e o Benfica somos todos nós!

Jornal O Benfica - 16/3/2018

terça-feira, 13 de março de 2018

A falência de um posicionamento


O Sporting tem sido useiro e vezeiro nas críticas à arbitragem, não obstante as inúmeras decisões que o tem beneficiado. Acresce que encontra sempre no Benfica a razão de todos os males, os seus e os do sector da arbitragem. Não sei se será feitio ou estratégia, mas parece-me que tem resultado, pois a ilusão do término de mais um longo período de seca do título máximo do futebol português durou mais que o expectável e foi alimentada, em parte, por arbitragens favoráveis, e não pela qualidade de jogo patenteada pela sua equipa. Esta, reconheça-se, tem estado longe da exigível a um candidato ao título e enormemente distanciada da apregoada.

Nesta temporada houve, no entanto, uma nuance que não é despicienda. A liderança da cruzada anti-Benfica situa-se a norte e o Sporting, apesar do discurso costumeiro e bafiento dos seus protagonistas, deixou-se secundarizar na esperança, creio, de que colheria os benefícios de uma estratégia comunicacional implacável e sórdida, porém sem se desgastar nessa demanda. Mas não perceberam o óbvio: Quando se juntam mal-intencionados com voluntaristas, os eventuais frutos da parceria cabem sempre aos primeiros, gozando ainda estes da conivência e solidariedade dos segundos.

Só assim se entende que o caso do Estoril-Porto não tenha merecido a atenção leonina que seria considerada normal. E depois, no momento certo, Artur Soares Dias, que nem com recurso a imagens televisivas conseguiu descortinar aquela grande penalidade monumental sobre Doumbia, mostrou aos voluntaristas, porventura inconscientemente, que quem não treina em paz no Centro de Alto Rendimento da Maia não pode, nem deve, incomodar os mal-intencionados…

Jornal O Benfica - 9/3/2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

Benfiquismo


Este fim-de-semana teremos um confronto entre dois clubes que lutam pelo título de destronação do Benfica do topo do futebol português, como se tal posicionamento se deva à circunstância do clube que, num determinado ano, conquista o Campeonato Nacional. Ganhando ou perdendo nesta temporada, o Benfica continuará no topo: Tem mais adeptos, mais dedicação dos seus adeptos, mais historial, melhores condições sob todos os pontos de vista e uma estratégia para o médio/longo prazo competitiva e consonante com a realidade do futebol português. O Benfica, desde que se reergueu na última década, não é gerido para ganhar ocasionalmente, mas sempre. E por isso é que, como dizia Artur Semedo, nunca perde, só às vezes não ganha.

Lutam também pelo título desportivo que, caso vençam, validará, do ponto de vista deles, uma estratégia comunicacional desprezível, repleta de acusações torpes e insinuações sórdidas, própria de gente frustrada, desesperada e inescrupulosa. E, sobretudo, ignorante, pois desconhecem que, a cada acusação e insinuação, só nos estimulam o Benfiquismo.

É inegável que o Benfiquismo tem muita força. Quando os que nos representam em campo o fazem com Benfiquismo, como se viu em Paços de Ferreira – pareciam adeptos em campo – os desaires tornam-se quase impossíveis. E é essa característica, talvez a chamada mística, juntamente com a qualidade que a nossa equipa tem vindo a apresentar nos últimos meses, que me deixa optimista quanto ao futuro imediato. Eles que lutem pelo título que conseguirem, que nós lutaremos pelo penta. Qualquer que seja o resultado no Dragão, estaremos mais próximos. Continuo a acreditar que seremos campeões!


Jornal O Benfica - 2/3/2018

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Capelada


Assistimos a um autêntico “roubo de capela”. O golo fora de horas, parecendo que o jogo só terminaria quando o Sporting marcasse, deveria constar nos compêndios das más arbitragens. A incompetência de Capela é gritante, a que se lhe junta a permeabilidade à pressão de outrem e a indisfarçável ausência de critérios uniformes. Por exemplo, o que foi feito do rigor que o levou a expulsar Cardozo no estádio da Luz por dar uma palmada no relvado, na celebração de Coates, ao despir a camisola sem que tenha sido admoestado com o segundo amarelo? E daquele que, em Olhão, resultou no único vermelho directo da carreira de Aimar?

O vídeoárbitro, com Capela, é manifestamente insuficiente. É também necessário o vídeorelógio e, sobretudo, o vídeopudor. “Capela é Capela” e pior insulto não lhe poderia dirigir.

Entretanto, no twitter oficial do Sporting logo após a partida, foi manifestado regozijo pelo golo apontado “aos 95 minutos”. Sim, 95, leu bem, e não aos 98, como todos, talvez excepto o inefável Capela, viram. Assim se entende o apelo de Bruno de Carvalho para que os sportinguistas apenas leiam, oiçam e vejam os meios de comunicação do seu clube. Eles, orgulhosamente sós, confortavelmente refastelados na fantasia de que a culpa dos seus insucessos é sempre do Benfica, julgam que se tornarão imunes à cruel realidade de que, do outro lado da segunda circular, há um clube maior e melhor, cujos adeptos, ao contrário deles, agora calados que nem lagartos, não sentem a necessidade de se tornarem arautos da verdade desportiva somente quando lhes convém.

P.S. Parabéns à nossa equipa de atletismo! Já dizia Cosme Damião: “(…) no futuro a dedicação goleia o dinheiro”.

Jornal O Benfica - 23/2/2018

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Toupeiras


A infâmia é ilimitada, agora acusam-nos de ter uma toupeira na Polícia Judiciária…

Mas temos uma em Portimão, que me confidenciou que banalizámos o Portimonense nos primeiros 40 minutos de jogo e que, não fosse a pouca eficácia, teríamos resolvido a partida nesse período do jogo. Depois, já com os algarvios a darem-nos luta, despontou a genialidade de Cervi e Zivkovic e conquistámos três pontos bem merecidos. Outra toupeira, mas esta no balneário benfiquista, assegurou-me que continuaremos a dar tudo por tudo pelo penta até final do campeonato.

Uma outra, radicada em Sines, deu-me conta da excelente exibição da nossa equipa de basquetebol que permitiu a conquista da Taça Hugo dos Santos. O Benfica mantém-se dominador na modalidade.

Mais uma, mas na Eslovénia, elogiou o contributo dos futsalistas portugueses que se sagraram campeões europeus da modalidade. Tratou-se de um triunfo de Portugal, o mérito é da selecção nacional e de todos os clubes portugueses que fomentam o futsal em Portugal.

Ainda outra garante-me que Carlos Xavier, antigo jogador do Sporting que, como a maioria naquelas bandas, apesar do seu esforço, dedicação e devoção, pouca glória obteve, tentou ressuscitar o episódio, de 2005, em que o Estoril recebeu o Benfica no Algarve. O Estoril, nessa temporada no seu estádio, perdeu seis vezes e empatou três. Portanto ganharia ao Benfica de certeza…

Finalmente temos outra que se desmultiplica pelo Expresso, Correio da Manhã e Sábado, e ainda pelo baluarte da infâmia. Dos seus relatos sobressai apenas o desespero, pela facturação de uns e pela míngua de títulos de outros. E a criatividade e a indecência, aparentemente inesgotáveis e bem coordenadas.

Jornal O Benfica - 16/2/2018

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Ganhar em Portimão


Há que reconhecer a persistência dos detractores do Benfica. É formidável como se notabilizam pela sua imaginação fértil, não bastas vezes distorcendo a realidade para que esta vá ao encontro das suas pretensões.

Por exemplo, sobre a goleada imposta ao Rio Ave, houve quem tenha alegado a sorte do Benfica ter empatado a partida quase imediatamente após o reatamento da segunda parte, tentando desvalorizar assim, implicitamente, a brilhante segunda parte da nossa equipa. É um argumento canhestro, por várias razões, que não passa de uma mera tentativa vã e ridícula de escamotear algo que me parece evidente e que já não há quem ouse negar: O Benfica está bem vivo na luta pelo título. Aparentemente, é surpreendente…

Vejamos, há três ideias fortes que nos têm sido vendidas desde o início da época. O Benfica desinvestiu, Rui Vitória é limitado e o plantel à sua disposição não tem qualidade para lutar pelo penta; O FC Porto apresenta uma capacidade nunca antes vista para impor uma dinâmica no jogo que impossibilita os seus adversários de respirarem, quanto mais de lutarem por um pontinho que seja; O Sporting tem um plantel recheado de grandes jogadores orientados pelo mestre da táctica e potenciador mor de talento. Como explicar então que o Benfica, este Benfica, ainda por cima este Benfica debilitado por diversos problemas físicos de jogadores fundamentais, possa acalentar, à 22ª jornada, a renovação do título?

Não serei eu a explicar-lhes. Que continuem a encontrar refúgio para os seus insucessos na diabolização do Benfica ao invés de se consciencializarem do nosso mérito, que só nos ajudarão. Quanto a nós, lutaremos sempre pelos três pontos. É o único caminho!

Jornal O Benfica - 9/2/2018

Futebolês

No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicio...