sábado, 28 de abril de 2018

Rio vermelho


O filósofo do século XIII Nasreddin, entre as suas inúmeras histórias caracterizadas pela sabedoria e espirituosidade, conta-nos aquela de dois homens, cada um em margens opostas de um rio, em que um deles apela ao outro que o ajude a passar para o outro lado, ao que o outro responde: “Mas tu estás do outro lado”. Esta anedota, se aplicada ao futebol português, explica o contexto benfiquista.

Desde que se reergueu financeira e desportivamente, o Benfica é como um rio que desagua frequentemente num mar de glória. Ao Porto e Sporting cabe o papel das margens que, fragilizadas pela voracidade de conquista de um rio que procura manter o curso que lhe é natural, se vêem cada vez mais sedimentadas nos seus intentos. O primeiro constrói barragens, dinamita-se com o intuito de criar enseadas artificiais e recorre a toda a espécie de dejectos para poluir o rio; o segundo só sabe tentar a via da poluição. E assim solicita ao seu semelhante, na margem oposta, que o puxe para o outro lado, que, ao invés de fazê-lo, lhe oferece a ilusão de que estão ambos na outra margem, portanto, supostamente na mesma.

Assim se explica que de toda a berraria e urdideira leoninas sobre as arbitragens não tenha sobressaído uma voz convictamente crítica à grande penalidade sonegada ao Sporting nos últimos minutos do clássico anti-Benfica no Dragão. Ou que de toda a parafernália supostamente pró verdade desportiva não tenha havido, pelo menos, a menção entredentes de que Artur Soares Dias perdoara um penálti ao Porto na Luz, em falta cometida sobre Zivkovic, para já não falar do dérbi na Luz... E assim se faz a classificação (mesmo que o Record, devido a um lapso freudiano, a deturpe).

Jornal O Benfica - 27/4/2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Ainda não acabou


De uma forma simplista, o último clássico poderá ser resumido a uma primeira parte em que o Benfica se superiorizou ao F.C. Porto, sem que tenha conseguido concretizar a única oportunidade clara de golo criada, e deu-se o inverso na segunda parte, com Varela a evitar um tento de Marega. A diferença residiu, ao cair do pano, num remate potente de fora da área que deu a vitória aos portistas. Tratou-se, no seu todo, de uma partida equilibrada, mais lutada que bem jogada, mais suada que bem ajuizada. A sorte não nos sorriu.

Foi também, reconheçamos altruisticamente, um jogo conveniente para o árbitro Artur Soares Dias: Não ter visto a grande penalidade sobre Zivkovic, assim como a sua complacência gritante para com a agressividade excessiva aplicada por portistas nalguns lances, permitir-lhe-á, certamente, treinar em paz no Centro de Treino de Árbitros, na Maia. Terá sido uma questão de critério e criterioso como só ele sabe ser, esteve ao seu nível, demonstrando cabalmente porque o país campeão europeu de futebol em título não terá qualquer árbitro no próximo mundial. É significativo!

Entretanto Rui Vitória afirmou que o sonho do penta “ainda não acabou” e Jardel garantiu que a equipa “lutará até ao final”. O treinador tem razão e o capitão assume a postura adequada a qualquer benfiquista em campo e fora dele. Lutar pelo campeonato será a única forma de ganhá-lo e, em última instância, de assegurar a presença na Liga dos Campeões na próxima temporada. Conforme disse Vítor Silva, o nosso grande jogador dos anos 30, numa situação adversa: “A bola é redonda e a alma vermelha”. Já ganhámos e perdemos campeonatos em situações semelhantes. Não desistiremos!


Jornal O Benfica - 20/4/2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Pelo Benfica


Desafio os estimados leitores a adivinharem se a doutrina subjacente à afirmação de que “só a via do radicalismo pode pôr termo ao actual estado de coisas. Todas as açcões devem ser consideradas para nos libertarmos das amarras deste regime corrupto e opressor” emanou das cabeças pensantes do Daesh, do Baader Meinhof, da ETA ou do Baluarte do Dragão, considerado o canal oficioso da comunicação portista. E adivinhem também se a ameaça “não vai a bem, um dia vai ter que ser a mal” foi formulada por um qualquer fanático idiota e irresponsável ou se por um agente desportivo, no caso oficial de ligação aos adeptos, Fernando Saul.

O interessante é que, no futebol português, regime corrupto lembra-me o caso “apito dourado”, regime opressor remete-me para os ataques frequentes às Casas do Benfica na cidade do Porto e arredores e o “se não vai a bem, um dia terá que ir a mal” recorda-me a interpelação a Artur Soares Dias no centro de treinos de árbitros na Maia. É com esta corja que nos batemos, sem que o tenhamos desejado ou provocado deliberadamente. Porém, ao ganharmos, provocámo-la mesmo que inadvertidamente. Já são quatro anos consecutivos a espicaçá-los, com triunfos, para revelarem a sua natureza...

Neste contexto impensável, o nosso trunfo será sempre o benfiquismo. Como uma vez disse Ribeiro dos Reis, “o Benfica, só o Benfica e nada mais que o Benfica” e é pelo Benfica que, na medida das nossas capacidades, tentaremos obter uma vitória neste fim-de-semana, à qual, se espera, seguirão outras que nos conduzirão ao desígnio do penta. Pelo Benfica e não contra alguém, por mais arrivista que seja.

P.S. Parabéns à nossa equipa de voleibol!

Jornal O Benfica - 13/4/2018

domingo, 8 de abril de 2018

20 locais menos óbvios para conhecer em Londres

Londres pertence ao grupo restrito de cidades que poderiam ser consideradas capital mundial. As atracções turísticas e a actividade cultural parecem inesgotáveis. Redescubra a cidade inglesa através de vinte sugestões menos óbvias, mas nem por isso menos surpreendentes.

Volta ao Mundo - Março 2018

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Líderes


Não foi necessária perspicácia apurada para perceber, mal o Belenenses derrotou o F.C. Porto, que nas horas e dias seguintes seriam muitos os benfiquistas, em particular nas redes sociais, que se desmultiplicariam em apelos à humildade e relembrariam quase desesperadamente que o penta ainda está por alcançar. Se subscrevo que a humildade genuína nunca fez mal a ninguém e que os títulos só se conquistam quando são efectivamente conquistados, já não acompanho a necessidade dos apelos.

Se há características indubitavelmente atribuíveis à nossa equipa de futebol são a crença em si própria e o comprometimento com os objectivos do clube. Não é agora, na liderança, que estas se revelaram, mas bem antes, há alguns meses, quando os resultados conseguidos estiveram aquém do expectável e exigível e a equipa (estrutura, técnicos e jogadores) soube tornar-se imune às circunstâncias e definiu desde cedo, para si mesma, que cada jogo seria uma final.

Essa forma de estar, bem comunicada para o exterior e evidentemente assimilada no seio da equipa, demonstrou ser a que melhor serviu os interesses da equipa e não há qualquer indício de que venha a ser alterada só porque, a seis jornadas do término do campeonato, finalmente regressou à única posição consentânea com as nossas aspirações: Líderes!

Não é a primeira vez que esta equipa técnica e estes jogadores se encontram neste contexto. A fórmula é simples: Ganhar! E, para ganhar, nada mais será necessário que manter o nível desde que, em Braga, no início da segunda volta, a equipa começou a calar os arautos da desgraça e os detractores profissionais. A deslocação a Setúbal será mais uma final… Confio na nossa equipa!

Jornal O Benfica - 6/4/2018

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Cheira Bem, Cheira a Lisboa


Publicado no início de Novembro de 2014, trinta anos passados da estreia de Carlos Lisboa pela equipa sénior do Benfica em competições oficiais, o "Cheira Bem, Cheira a Lisboa" conta a história da carreira daquele que é considerado ainda hoje o melhor basquetebolista português de sempre.

Foi o meu terceiro livro e o mais fácil de escrever. A pesquisa, apesar de morosa, nunca foi entediante ou sequer cansativa. Perscrutar jornais publicados entre 1984 e 1996, em busca de notícias e artigos sobre o basquetebol benfiquista, permitiu-me não só recolher o material essencial para a feitura desta obra, mas também e sobretudo reviver momentos que interpretei, ao longo da minha infância e adolescência, como pura magia. Talvez seja este o segredo para uma vida profissional feliz: tornar o trabalho lazer.

Faltam, no entanto, as aspas quando me refiro a vida profissional. Desde logo porque os direitos de autor são mínimos (no meu caso têm sido 10% sobre o preço de capa deduzido de IVA, mas há quem tenha 8% ou menos ainda) e os hábitos de leitura, em Portugal e talvez no resto do mundo também, são cada vez mais reduzidos. E, neste caso em particular, porque a editora Verso da História só depois de muita insistência me pagou os direitos de autor das vendas (contabilizadas pela editora) no primeiro ano após a publicação do livro (isto é, de Novembro de 2014 até final de Abril de 2015). No ano seguinte, apesar de ter recebido o relatório e de ter passado o recibo, nunca cheguei a receber o dinheiro que ainda me é devido. Nunca mais recebi qualquer relatório de vendas ou direitos de autor desde então. Descobri depois que a Verso da História sucedeu à Quidnovi, outra editora que uma pesquisa rápida no google permite-nos perceber que há inúmeros queixosos por alegado incumprimento da parte da editora (entretanto, parece que a Verso da História já não existe sob essa denominação, embora continue activa. Fica o aviso a incautos como eu o fui no passado). 

Porém, foi após a apresentação do "Cheira Bem, Cheira a Lisboa" que fui convidado para participar no programa 105x68 da BTV. O Luís Filipe, além de ser o apresentador do programa, trabalhava também na comunicação das modalidades e marcou presença na apresentação do livro, onde nos conhecemos. Ao primeiro convite sucederam-se outros, para esse e outros programas, com a cadência dos convites a aumentar significativamente até que me tornei comentador do canal e, pelo meio, colunista do jornal O Benfica.

Deixo-vos a introdução do livro:

Não havia ainda linha de três pontos quando vi jogar, pela primeira vez, o Carlos Lisboa. Idolatro-o desde essa partida europeia em que, ao serviço do Queluz, frente a uma equipa checoslovaca, marcou 47 pontos. No verão seguinte, o meu pai perguntou-me se eu sabia quem iria jogar para o Benfica. Disse-me que era o “sete do Queluz”, como eu lhe chamava aos seis anos. Acredito que terá sido nesse dia que o basquetebol passou a ser a minha modalidade predilecta.

Três anos mais tarde, em Março de 1987, os sócios do Sport Lisboa e Benfica elegeram a lista liderada por João Santos, da qual o meu pai fez parte. Como já havia sido o director com o pelouro do basquetebol no primeiro mandato de Fernando Martins e tinha exercido, até poucos meses antes, o cargo de vice-presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol, foi com alguma naturalidade que lhe foi atribuído novamente esse pelouro.

Sempre atrás do meu pai, deixei de ser um mero espectador para me tornar num dos raros privilegiados a conhecer por dentro o basquetebol benfiquista numa década em que, para o Benfica, jogar, nas competições nacionais, quase foi sinónimo de ganhar e, a nível internacional, o clube atingiu o que era (e voltou a ser) impensável no basquetebol português: Ombrear com os melhores.

A figura central destes feitos foi o Carlos Lisboa. O seu regresso ao Benfica - teve uma breve passagem no escalão de juvenis nos meses seguintes à sua chegada à metrópole - gerou grande entusiasmo entre os benfiquistas adeptos da modalidade. Após anos de conquistas ao serviço do Sporting, em que venceu três Campeonatos Nacionais, e Queluz, em que ajudou o clube de Sintra a celebrar o seu primeiro título, além de excelentes exibições em representação da selecção nacional, o Carlos era já considerado, diria unanimemente, o melhor jogador português de então e, para muitos, de sempre. Os doze anos de águia ao peito confirmariam esse estatuto e acrescentar-lhe-iam outro, corroborado por inúmeras personalidades do basquetebol europeu que se foram atravessando no caminho do Benfica, o de ser um dos melhores jogadores europeus da sua geração.

Nessas doze temporadas, o Benfica conquistou dez Campeonatos Nacionais, cinco Taças de Portugal, cinco Supertaças e seis Taças da Liga (em sete edições), além de prestações inesquecíveis nas competições europeias que catapultaram a modalidade para patamares de popularidade nunca antes vistos em Portugal.

Com a ajuda de grandes jogadores como Henrique Vieira, Jean-Jacques, José Carlos Guimarães, Mike Plowden e Pedro Miguel, entre outros, e do treinador Mário Palma, o Carlos Lisboa tornou-se num dos poucos atletas das chamadas “modalidades amadoras” a granjear, entre os adeptos benfiquistas, a notoriedade reservada, normalmente, aos futebolistas. Tal se deveu não só às vitórias colectivas e aos feitos individuais, mas também à sua indisfarçável sede de conquista, à sua entrega inexcedível, às suas inúmeras intervenções felizes em momentos decisivos e à sua notável empatia com o público, que lhe dedicava frequentemente o refrão da canção de Lisboa, “Cheira bem, cheira a Lisboa”, o que muito o emocionava, justificando-se assim a escolha do título deste livro a ele dedicado. A sua capacidade para galvanizar os companheiros e os adeptos – a par da sua coragem que “enraivecia” os seus adversários – é recordada com saudade por todos os que tiveram a felicidade de o ver jogar.

Esta rara compatibilidade de um homem com as vitórias subsiste noutras funções, as de dirigente e treinador. O basquetebol benfiquista reencontrou-se com o seu destino vitorioso nos últimos anos, em que ganhou cinco dos últimos seis Campeonatos Nacionais disputados. Nos primeiros dois, Carlos Lisboa foi, enquanto director-geral das modalidades, função que continua a desempenhar, um dos dirigentes que contribuiu para esses triunfos, tendo acumulado, no último tricampeonato, a função de treinador principal. Feitas as contas, o agora treinador benfiquista assumiu um papel preponderante em 15 dos 25 Campeonatos Nacionais do palmarés do basquetebol benfiquista.

Escrever sobre o Carlos Lisboa é escrever sobre um desportista ímpar, um ídolo e um amigo. Dar a conhecer a sua carreira, com enfoque no seu percurso de águia ao peito, é a forma mais justa que encontro, enquanto benfiquista, de homenagear alguém que considero ser um dos maiores símbolos do Sport Lisboa e Benfica. Poucos são os que personificam plenamente a mística do Benfica, o Carlos Lisboa é um deles.

É a ele, por conseguinte, que devo o primeiro agradecimento. Obrigado Carlos Lisboa por seres quem és e pelo que representas. Sinto-me um privilegiado por ser teu amigo e por ter acompanhado grande parte da tua carreira desportiva. Obrigado também pela tua contribuição para esta obra. Os teus depoimentos e o material fotográfico que o teu pai foi reunindo e que nos foi, agora, disponibilizado por ti, enriquecem-na imensuravelmente.

Agradeço igualmente aos meus pais, imprescindíveis no caminho que me trouxe onde estou. No caso particular deste livro, tenho que salientar o papel do meu pai. O velhinho estádio da Luz, de que sinto enorme saudade, foi a minha segunda casa durante a infância e a adolescência. Raros foram os dias que não fui ao estádio, onde tive a oportunidade de assistir a milhares de treinos e centenas de jogos da equipa principal de basquetebol do Benfica. Fui também uma espécie de mascote dessa equipa, acompanhando-a em inúmeras deslocações pelo país. Beneficiei de uma educação benfiquista esmerada, reconheço.

Por último, o meu obrigado ao departamento de marketing do Sport Lisboa e Benfica e à Quidnovi, pelo entusiasmo e empenho neste projecto, ao Centro de Documentação e Informação do SLB pelo auxílio na recolha de material, ao Alberto Miguéns, pelo apoio na conferência dos dados estatísticos, ao Prof. Mário Gomes, pela disponibilização dos dados estatísticos de 1992 a 1996 e, finalmente, ao Jorge Castela e ao Fernando Arrobas pela revisão e sugestões.

Viva o Sport Lisboa e Benfica!

Futebolês

No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicio...