domingo, 26 de abril de 2020

Quarentena V


Gustave Flaubert, na eclosão da guerra franco-prussiana, confrontado com todos os que se desdobravam na asserção de que nada seria igual no futuro, afirmou, contrariando e expondo a vacuidade dessas palavras, que “seja o que for que aconteça, continuaremos estúpidos”. O futuro encarregou-se de validar o seu cepticismo face à humanidade...

É por isso, talvez, que sinto dificuldade em acolher declarações reveladoras de intenções benévolas emanadas de uma suposta introspecção motivada por circunstâncias extremas, por parte de quem, no passado, pela sua conduta, só demonstrou mover-se por interesses próprios ou, pelo menos, nada fez para alterar o curso dos acontecimentos.

Veja-se o exemplo de Infantino, presidente da FIFA, ao dizer que “este período de pausa é perfeito para reformar o futebol mundial”. O mesmo que, conhecendo-se os escândalos relacionados com a atribuição do mundial ao Qatar, não conseguiu – terá tentado? – que o mundial deixasse de ser organizado por esse país ou que não enjeitou a oportunidade de se manifestar satisfeito com o progresso das obras dos estádios no Qatar, participando na escamoteação das condições sub-humanas a que muitos dos trabalhadores dessas empreitadas foram sujeitos... Deve ser levado a sério?

Razão tem Tiago Pinto ao afirmar que “por mais que o mundo mude, o Benfica vai ter a necessidade de continuar a ganhar”. Desenganem-se aqueles que acham que, no essencial, haverá grandes modificações. Assim como o Benfica terá de continuar a ganhar, a deriva anti-benfiquista, sediada em Contumil com uma sucursal no Lumiar, na qual não interessam os meios para se atingirem os fins, persistirá desesperada e insistentemente. Não duvidemos!

Jornal O Benfica - 24/04/2020

terça-feira, 21 de abril de 2020

Quarentena IV


Muito se tem recomendado A Peste, de Camus, ou O Diário da Peste de Londres, de Daniel Defoe, e eu também quero contribuir, propondo o Némesis, do Philip Roth, em que o notável escritor descreveu o impacto, na comunidade, do surto epidémico de poliomielite ocorrido em Newark, em 1944. E já que estamos numa espiral de recomendações literárias, apesar de, infeliz e, creio, tragicamente, não haver assim tantos leitores, prossigamos nessa senda.

No meu caso, confessando-me um privilegiado, as minhas referências literárias para enfrentar a pandemia remetem-me, também, para o Camus, mas ao ensaio O Mito de Sísifo, pois é como Sísifo que me sinto diariamente ao tratar da máquina de lavar loiça, tarefa que me foi atribuída por mera apetência organizacional e total inaptidão culinária, oferecendo-se a coincidência de ter de me caber alguma tarefa doméstica e de alguém ter de tratar da loiça.

E ainda, por ter mais tempo em mãos do que o costume, aconselho a Apologia do Ócio, do Robert Louis Stevenson. Se tenho agora algo de sobra, esse é o tempo. O que, num certo sentido, ou mesmo em vários, se trata de uma dádiva. Tempo para o ócio, entendido por oposição ao trabalho. Tempo para ser, estar, pensar, nada fazer ou nada produzir, além do meu bem-estar e satisfação.

Não admira, portanto, a celebridade de Stevenson (escreveu mais umas coisitas) e a seguinte história envolvendo-o inadvertidamente: Depois de morrer, a sua ama de infância começou a vender o cabelo do escritor que lhe teria cortado e guardado religiosamente durante décadas. Vendeu o suficiente para estofar um sofá, contou Julian Barnes. E isto fez-me pensar nos diários desportivos em tempos de quarentena, fazendo pela vida...

Jornal O Benfica - 17/04/2020

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quarentena III


Na semana passada partilhei a minha embirração pelos discursos, mais moralistas que moralizadores, no ocaso dos telejornais, proferidos por pivots imbuídos de um sentido de missão que, de tão sofregamente manifestado, já se confunde com insistência numa receita supostamente vencedora de audiências. Esses pivots, a continuarem assim, e tendo em conta as naturais limitações das redacções, ainda terão de contratar autores de livros de auto-ajuda para lhes escreverem o sermão diário...

Mas, verdade seja dita, poderia ter referido outros casos como, por exemplo, o aproveitamento generalizado das marcas para, seja por comunicação directa, seja via publicidade, nos atolarem de mensagens pseudo inspiradoras e alertas variados, além de, entretanto, nos lembrarem que existem, claro está. Enfim, já não se pode cumprir uma quarentena em paz.

E, mesmo desligando a televisão ou evitando a publicidade, nem sequer se pode aguardar serenamente pelo fim da quarentena quando esta se revela terreno fértil para a hipocrisia. Veja-se o jornal O Jogo, ao qual só lhe falta defender na sua primeira página, e mais valeria que o fizesse, que o título de campeão covid-19/20 tem de ser atribuído inapelavelmente ao Porto. Quase todos os dias, senão todos, merece destaque algo que indicie ser essa é a única solução possível. A acontecer, o que seria um autêntico apito infeccioso, não surpreenderia por aí além. Nem também que o festejassem alegremente... Resta-me acrescentar que já não detectava tanto empenho do jornal O Jogo desde a última entrevista feita a Pinto da Costa em que, miraculosamente, conseguiu evitar questionar o presidente portista sobre o estado financeiro da SAD e do clube a que preside.

Jornal O Benfica - 10/04/2020

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Quarentena II


Diz o povo que em tempo de guerra não se limpam armas. Curiosamente, nesta que vivemos, até convém limpá-las assiduamente, mas as do nosso inimigo, pois trata-se das nossas próprias mãos.

Já se vê, pela lógica deste pensamento, que a quarentena tem os seus efeitos. Há uns dias dei por mim farto de estar em casa e a ir até ao meu carro, onde permaneci umas horas e li parte de um livro da Anna Burns – “Milkman” – no qual é particularmente bem descrito o ambiente de terror vivido nos anos 70/80 na Irlanda do Norte, onde houve, de facto, uma guerra, no sentido clássico do termo. Nesta, que só Pacheco Pereira parece recusar-se a referir-se-lhe nesses termos, pedem-nos para ficarmos em casa, lavarmos as mãos e praticarmos distância social, o que em certos casos nem é grande o sacrifício, talvez seja mesmo uma benesse.

Para quem tem saúde e não é obrigado a arriscá-la em nome de outrem, e ainda para quem não começa a sofrer já com a paragem da economia, além das saudades de familiares e amigos, os maiores desafios têm sido ocupar o tempo entre paredes (perdeu-se a desculpa “não tenho tempo para ler”) e estar atento aos noticiários de algumas TVs (salva-se a RTP) para se mudar de canal imediatamente antes do início da evangelização diária dos pivots de serviço, num tom que alterna entre a reprimenda e a (proto) inspiração. Como não percebo do assunto, nem me preocupo com audiências, preferiria ouvir notícias. E garanto-vos que não haverá discurso tão inspirador quanto os actos praticados por pessoas e instituições, por vezes pouco ou nada noticiados, entre os quais as doações avultadíssimas do Benfica e dos elementos da sua equipa profissional de futebol, que mereciam mais destaque.

Jornal O Benfica - 3/4/2020

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...