sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Darwin e o futuro

Os amantes de literatura sobre futebol têm a noção perfeita de que a história e os feitos são importantes, até fundamentais para a compreensão do jogo e da sua evolução, mas é, a par das vivências pessoais e da paixão por jogar à bola, nas histórias e no contexto das mesmas que reside o fascínio pelo fenómeno futebolístico.

Não haverá melhor exemplo desta realidade do que o contraste entre o dado objetivo “Alemanha campeã do mundo em 1974” e a asserção subjectiva de que os preceitos do “futebol total” do finalista vencido, a Holanda, alicerçada no Ajax, de Michels e Cruyff, ainda hoje influenciam as abordagens tácticas.

Não estou agora a renegar a estatística, à qual, em particular a relativa ao futebol e basquetebol benfiquistas, dedico apaixonadamente parte do meu tempo. É essencial saber, por exemplo, que Darwin já marcou cinco golos e fez seis assistências nos primeiros onze “jogos oficiais” de águia ao peito. Os números permitem-nos comparar e estabelecer paralelismos ou acentuar diferenças, não obstante o seu carácter burocrático, por vezes enganador.

E aí surgem as histórias enquanto factor diferenciador, apesar de maleáveis por vontade dos fregueses. Estou convicto de que muito se escreverá sobre Darwin na próxima década. E a acompanhar os números entusiasmantes dos seus primeiros passos na alta competição, terá obrigatoriamente de se versar sobre o golo marcado à Colômbia esta semana, o segundo pelo Uruguai à terceira internacionalização.

O miúdo que carrega nos ombros a responsabilidade de ser considerado o sucessor de dois vultos do futebol mundial, Cavani e Suárez, o que seria um fardo para muitos, viu numa nesga de espaço a possibilidade de ser feliz e não hesitou. Marcou um grande golo, marcará muitos mais!

Jornal O Benfica - 20/11/2020

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Inesperado

A estupefacção e desilusão sentidas por todos os benfiquistas com o desempenho da nossa equipa de futebol nos últimos três jogos são normais, ainda mais no contexto que o Benfica atravessa, caracterizado por cinco títulos nacionais em sete temporadas, pese embora o insucesso da época passada, regresso de um treinador competente e ganhador no clube e avultado investimento no apetrechamento do plantel.

É natural que as expectativas sejam elevadas, pois são-no sempre a partir do momento em que o símbolo do Sport Lisboa e Benfica é carregado ao peito por jogadores num campo de qualquer modalidade. E, no caso do futebol na presente temporada, as sete vitórias consecutivas e o bom nível exibicional na maior parte delas exacerbaram esta característica do benfiquismo.

O que parecia tornar-se num passeio afigura-se agora a subida ao Alto do Stelvio na Volta a Itália. E nós não gostamos, pois claro, mesmo não sabendo nós, em rigor, por falta de experiência nas últimas décadas, não obstante os muitos títulos conquistados recentemente, o que será exactamente um passeio.

Multiplicam-se agora as análises sobre lacunas no plantel ou opções do treinador, sem nunca se questionar como terá sido possível a série de triunfos anterior. Os pessimistas militantes antevêem desgraças de dimensões bíblicas; os optimistas incuráveis nem pestanejam. Prefiro esperar para ver, acreditando que poderemos ser mais agressivos no ataque e que parte dos problemas defensivos se tornaram visíveis devido a acasos infelizes (golos contra a corrente do jogo, expulsão prematura...), em evidente desacordo com a turma do “eubemavisei”, que o tempo, creio e sobretudo desejo, se encarregará de desmentir, para felicidade de todos.

Jornal O Benfica - 13/11/2020

Amarelos

Há um fenómeno no futebol português que, de tão recorrente, já passou a regra tácita: o primeiro cartão amarelo de um jogo em que o Benfica seja interveniente, não se adiantando no marcador numa fase inicial, é sempre para um jogador do Benfica.

Admito que os factos possam contradizer-me, mas esta é a sensação que tenho. A rábula já aborrece, tantas foram as suas representações.

Os adversários recorrem sistematicamente a faltas para evitarem o que poderá resultar numa jogada perigosa ou simplesmente para quebrarem o ritmo de jogo enquanto os árbitros, por seu turno, se limitam ao uso do apito, até que o ocaso do preâmbulo do primeiro cartão amarelo do jogo se dá ao ser indicado (por vezes duas ou três vezes conforme necessário), geralmente de forma teatral, que não mais serão permitidas as faltas sem que se lhes suceda a admoestação de um cartão amarelo. Invariavelmente, entre essas faltas constam uma ou duas claramente para cartão inexplicavelmente deixado no bolso (alguns comentadores, benevolentes ou fanáticos, teorizam sobre a gestão da partida). E eis que, inevitavelmente, um qualquer jogador do Benfica faz uma falta para cartão e é admoestado. Um clássico. A mais recente reposição da rábula aconteceu no Bessa.

Longe de mim justificar a derrota com este fenómeno. Perdemos porque fomos piores que o adversário e não tivemos a sorte do jogo, a qual pouco procurámos, há que reconhecê-lo. Decerto que, no entanto, a “gestão da partida” não só não nos ajudou como ainda nos prejudicou. E mais preocupa o evidente contraste com a actuação absolutamente desastrosa do árbitro na primeira parte do Paços de Ferreira – Porto, em claro benefício dos segundos, como está a ser, em mais uma época, habitual...

Jornal O Benfica - 6/11/2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Depois das eleições

Enquanto escrevo, há três candidaturas para a eleição dos órgãos sociais do Sport Lisboa e Benfica (há umas horas havia quatro). Apoiei uma delas publicamente e todas merecem o meu respeito e consideração, pois reconheço-lhes, sem excepção, o benfiquismo com que se propõe a gerir os destinos do clube e o firme propósito da contribuição positiva para a causa benfiquista.

Independentemente que quem tiver merecido a confiança da maioria dos associados do Sport Lisboa e Benfica, ontem (quinta-feira) tratou-se, não obstante ter havido jogo e o início de um novo mandato, somente de mais um dia da história centenária do clube, mais precisamente, se não me enganei nas contas, o 42616º, e tantos outros lhe sucederão certamente.

Muito foi sendo dito e escrito ao longo da campanha, e é nesse contexto que se deverá confinar o teor das afirmações. Independentemente dos escolhidos pela maioria nas eleições, é o clube de todos os sócios que os eleitos têm a honra, o privilégio e a suprema responsabilidade de dirigir.

A este propósito convém recordar as sábias palavras de Miguel Magalhães (que cito de cor), proferidas aquando da sua eleição, em 1987, integrado na lista liderada por João Santos (com o devido agradecimento ao meu amigo João Loureiro, antigo director deste jornal, que me contou o episódio): “No Benfica, quando há eleições, não há inimigos nem adversários, há apenas benfiquistas que se revezam na missão de servir o nosso querido e glorioso clube”.

Passadas as eleições não há, ou não deve haver, “vieiristas”, “lopistas” ou “gomistas”, só benfiquistas. Quem quer que tenha sido eleito é – tem de ser – o presidente de todos os benfiquistas! Viva o glorioso Sport Lisboa e Benfica!

Jornal O Benfica - 30/10/2020

Notas soltas

- Recorro a Churchill para exprimir o que penso sobre a vídeoarbitragem no futebol português: “É uma charada, envolta em mistério, dentro de um enigma”. Nem com tecnologia isto lá vai. E, na dúvida, já se sabe para que lado as decisões continuam a cair maioritariamente;

- Em Vila do Conde, fizemos a melhor exibição de que tenho memória naquele campo. Vulgarizámos um adversário que há vários anos tem sido dos mais competitivos em Portugal e há poucas semanas esteve a um minuto de eliminar o AC Milan da Liga Europa. Não é, evidentemente, caso para euforia, mas reitero o meu entusiasmo para a presente temporada. Relevante mesmo, embora muito falte para terminar o campeonato e, por isso, pouco signifique, é o avanço de cinco pontos para o Porto. Um Porto claramente beneficiado pelas arbitragens neste início de prova, há que dizê-lo;

- A equipa dedicou o triunfo a Luís Santos, técnico de equipamentos, falecido na semana passada. É perceptível o quanto os jogadores, actuais e antigos, respeitavam e gostavam de Luís Santos. As equipas também se fazem destes elementos, cujo trabalho deve ser pautado pela competência, sobriedade, confidencialidade e solidariedade nos desaires. Pessoas que sabem o seu papel, cumprindo-o sem qualquer protagonismo numa actividade híper mediática;

- E dedicou igualmente a André Almeida, vítima de um infortúnio que o afastará dos relvados por tempo indeterminado, mas longo certamente. Sou um admirador do André. Poderá não ser um grande jogador da bola, mas é um excelente futebolista. Pelos muitos títulos conquistados e jogos efectuados (além dos que ganhará e fará ainda), tem um lugar reservado na história do clube. Que não haja dúvidas quanto a isso, nem quanto ao seu regresso!

Jornal O Benfica - 23/10/2020

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...