quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Gala da ignomínia

 Ainda no outro dia estava a pensar sobre o que poderia ser alterado no futebol português com vista à sua melhoria. Pensei em inúmeras medidas, mas reconheço as minhas óbvias limitações neste domínio, pois nem sequer me passou pela cabeça aquela que foi apresentada, com pompa e circunstância, pela Liga Portugal na cerimónia de lançamento da nova temporada: o novo logótipo.

Percebe-se que Proença, notoriamente emproado, vislumbre um futuro radioso agora que a Liga apresenta uma nova imagem. Afinal, toda a sua carreira foi feita de cosmética. Por ele, em campo, e por quem, não obstante as sucessivas péssimas arbitragens, lustrou o seu currículo ano após ano.

Mas a dádiva de um novo logótipo, que nada acrescenta ou altera, nunca seria completa se, a acompanhá-la, não fosse atribuído um prémio denominado “prestígio” a uma personagem da estirpe de Valentim Loureiro. Talvez faltem, aos membros da direcção da Liga, os essenciais electrodomésticos. No entanto, desde já advirto que não existem máquinas de lavar despudor ou de secar a vergonha alheia.

Ah, e fez-se um sorteio. O nosso calendário não é bom nem mau, é o que é e contra tal não há grandes argumentos. Registo o acerto da decisão de se tentar proteger, dentro do razoável, as equipas que participam nas competições europeias... nem tudo é mau! Porém devo dizer que, mesmo tendo de perder mais tempo a ler as condicionantes ao sorteio do que a analisar os resultados do mesmo, não encontrei uma única que verse sobre a aparente regra que obriga a que jogos do Porto sejam dirigidos maioritariamente por árbitros da AF Porto. São as condicionantes não escritas as que mais me preocupam...

Jornal O Benfica - 4/9/2020

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Elogio à formação

Diz-se que “à terceira é de vez”, assim como se evoca que “não há duas sem três”. Estes dois aforismos contradizem-se, mas ao povo pouco ou nada interessa a credibilidade das suas máximas, nem tal afecta, que se saiba, o omnipresente PIB, o sacrossanto saldo da balança comercial ou as inúteis sondagens online de jornais. Mas hoje, enquanto escrevo esta crónica - falta agora meia hora para o início da final da UEFA Youth League - torna-se problemático encontrar conforto na sabedoria popular supostamente inerente à consagração de aforismos, especialmente se antitéticos.

É de ressalvar, no entanto, que a terceira final disputada em sete edições da UEFA Youth League, independentemente do seu desfecho, justifica o elogio ao projecto de formação que tem sido desenvolvido pelo Sport Lisboa e Benfica.

Embora considere que o “resultadismo” e a “campeonite” podem prejudicar o retorno que a formação deve dar, há que reconhecer que os títulos são uma consequência natural do trabalho bem feito. Não por acaso, desde que a aposta benfiquista na formação passou a dar retorno, também os títulos surgiram e a presença em finais da “champions” dos juniores passou a ser quase normal.

Do meu ponto de vista, a formação serve unicamente para aumentar a competitividade do nosso plantel profissional. Seja pelo contributo desportivo de atletas formados no Benfica Campus, seja porque, pela alienação de passes desses atletas, aumentamos a nossa capacidade de investimento, é-me indiferente. Só me importa que, no final de cada temporada, a nossa equipa sénior arrecade troféus. E é inegável que, nos últimos sete anos, a nossa formação tenha sido instrumental nos muitos títulos conquistados. Obrigado!

Jornal O Benfica - 28/08/2020

Cá vamos

Tem sido divertido o folhetim Cavani. Se calhar, quando o caro leitor ler esta crónica (note que os colunistas enviam os textos para a redacção até terça-feira), o uruguaio já é nosso jogador ou optou por outro clube. Ou talvez nada tenha acontecido, sabendo-se de antemão, neste último caso, que várias coisas, os seus contrários e inúmeras variantes destes terão sido avançadas pela comunicação social.

Eu, como qualquer benfiquista, adoraria contar com o contributo de um jogador da craveira de Cavani no nosso plantel, mas analisemos, por agora, a existência da possibilidade.

O mais relevante, nesse domínio apenas, é, porventura, ninguém considerar interdita a contratação, pelo Benfica, de um jogador situado num nível, futebolístico, económico e mediático, inusitado face ao que estamos habituados. O investimento seria elevadíssimo e sem grande potencial de retorno financeiro para além do que, embora não seja despiciendo, deriva do contributo desportivo que o jogador possa dar. Não deixa de ser sintomático que haja um consenso generalizado sobre a seriedade da tentativa de uma contratação destas, tratando-se, na prática, do reconhecimento generalizado da capacidade de investimento que o Benfica soube criar na última década.

Entretanto chegaram Waldschmidt, Everton “Cebolinha” e Vertonghen. Também estas contratações, às quais se poderão acrescentar as de Raul de Tomás, Vinícius, Weigl e Pedrinho ao longo da temporada passada, pelos montantes envolvidos, são muito reveladoras. Voltámos a ter, finalmente, capacidade de investimento claramente superior à dos nossos adversários internos e creio que nos fixámos, a nível europeu, no patamar abaixo daquele reservado aos chamados tubarões. 

Jornal O Benfica - 21/08/2020

Pontapé de saída

Gostei bastante da entrevista concedida por Jorge Jesus à BTV, em que nada foi esquecido ou escamoteado.

Na linha do que ficara patenteado na apresentação do nosso novo treinador, foi reforçada a ambição de recolocar o futebol benfiquista no trilho do sucesso. Se dominarmos as próximas temporadas, não tenho a mínima dúvida de que, no futuro, faremos a retrospectiva do decénio e considerá-lo-emos hegemónico da nossa parte. 2019/20 foi uma desilusão, somente vencemos a Supertaça. Ainda assim, nos últimos sete anos, conquistámos 15 dos 28 troféus em disputa, mais do que todos os nossos adversários juntos conseguiram. Fazer da última temporada e de 2017/18 excepções será o desígnio de todos os benfiquistas e de quem o serve e representa nos próximos anos.

Mas houve mais que manifestações ambiciosas para o futuro próximo do Benfica. Entre o muito que poderia destacar, escolho a convicção de Jorge Jesus acerca da formação.

Primeiro deixou bem vincado que a competência não se restringe a escalões etários mais velhos e que terá sempre de ser, independentemente da idade, o factor determinante na escolha dos jogadores que compõe o plantel. Depois alargou, e bem, o conceito de formação a atletas que, não tendo percorrido as camadas jovens do clube, são contratados em idades precoces com o intuito de se desenvolver, ao máximo, o seu potencial. Por último, defendeu a necessidade de dar tempo, logo jogo, às jovens promessas, o que passa, na esmagadora maioria dos casos, pela maturação na equipa B ou o recurso a empréstimos. Não poderia estar mais de acordo. Até porque se aparecerem outros João Félix ou Renato Sanches, as oportunidades surgirão naturalmente, em nome da competência.

Jornal O Benfica - 14/08/2020

Vislumbrar o futuro

Não me importaria que a apresentação de Jorge Jesus tivesse ocorrido logo após o desaire na final da Taça de Portugal. Jogámos mal e não soubemos aproveitar a justa superioridade numérica. O nosso adversário jogou mal e fomos piores. E ainda podemos reclamar da sorte, naquele lance em que Jota acertou no poste já no tempo adicional. Em suma, a final espelhou a época desastrada e inesperada da nossa equipa. Poderíamos e deveríamos ter feito melhor.

Agora, com o regresso de Jorge Jesus, abrem-se novas perspectivas, logo prometidas e reiteradas na apresentação. Estou convicto de que, com o mesmo plantel sob o comando do nosso novo treinador, teríamos apresentado melhores níveis exibicionais e conseguido melhores resultados. E ainda mais convicto estou de que se verificará um salto qualitativo no plantel com Jorge Jesus. Alguns jogadores, inseridos numa nova dinâmica, serão mais competitivos. Outros desenvolverão as suas capacidades e renderão de acordo com o seu potencial. E chegarão atletas cuja competência será indiscutível. Foi o que Jorge Jesus nos habituou no passado, não espero menos agora.

Ganharemos tudo? Provavelmente não, embora seja esse o objectivo. Teremos, no entanto, a garantia de que seremos mais competitivos e de que não dependeremos do súbito surgimento de um jogador que faça a diferença. O Benfica voltará a ser forte no futebol, aproveitando plenamente os muitos e excelentes recursos que hoje coloca à disposição de quem lidera a equipa. Não professo amanhãs que cantam, mas a música será outra certamente! Com Jorge Jesus estaremos sempre mais próximos de títulos. Não se trata de crença, mas antes da constatação da sua inegável competência. Boa sorte!

Jornal O Benfica - 07/08/2020

Rumo à 30ª!

Não perderei uma oportunidade, sempre que o assunto surgir, de reiterar que a Taça de Portugal de futebol foi estreada na época 1921/22. Chamou-se Campeonato de Portugal e, em 1938/39, viu a sua designação alterada para “Taça de Portugal.

Não é uma questão de opinião ou mesmo de interpretação do que se manteve na competição, apesar do nome diferente, nessa temporada e daí em diante. O troféu é o mesmo, as placas dos vencedores continuaram a ser colocadas no troféu original, os moldes de disputa da prova são semelhantes e a imprensa de então, para lá de passada uma década, continuava a apresentar o palmarés da Taça de Portugal desde o seu início, em 1921/22.

Basta, como argumento irrefutável para demonstrar que a Taça de Portugal se trata do Campeonato de Portugal com designação diferente, utilizar o que a própria Federação Portuguesa de Futebol escreveu no relatório da temporada 1938/39: “Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos da Liga e de Portugal passaram a designar-se, respectivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal”.

Perante isto, por vezes, é alegado que o vencedor da Taça de Portugal, quando se chamava ainda Campeonato de Portugal, era apelidado, pela imprensa, de campeão de Portugal. O que não deixa de ser verdadeiro. Mas tal não significa que fosse o campeão nacional, pois um campeão nacional, como é evidente, só o é ao vencer um Campeonato Nacional, e esse só começou a ser disputado em 1934/35.

Nada impediria, por exemplo, de proclamar o Benfica como o campeão da Supertaça 2019. Assim como nada impediu o jornal do Sporting, em 1964, de declarar, na primeira página, “somos campeões da Europa na Taça das Taças”. Campeões há muitos, da vida e do que se quiser, mas campeão nacional só o é quem vence um campeonato nacional.

Jornal O Benfica -31/07/2020

Jorge Jesus, de novo

Em 12 de junho de 2015, após o anúncio da contratação pelo Sporting, escrevi, sobre Jorge Jesus, que “com toda a competência e mérito que lhe são reconhecidos, foi uma peça importante nas conquistas (e derrotas) encarnadas nos últimos anos.”

Foco-me no mérito e competência do nosso novo treinador e acredito que estaremos muito bem servidos nesse cargo. Jorge Jesus é hoje melhor treinador do que quando chegou ao Benfica pela primeira vez, pois acumulou experiência e títulos ao mais alto nível, no Benfica e Flamengo.

Desvalorizo alguns dislates da sua parte durante a passagem pelo Sporting. Acho perfeitamente compreensível que um treinador, acabado de ser bicampeão nacional, ao sair do Benfica para o Sporting se sinta acossado. Afinal, ninguém gosta de ser despromovido. E tendo em conta que a grande maioria dessas declarações visavam o seu sucessor Rui Vitória, entendi-as, sobretudo, como uma tentativa de destabilização do principal candidato ao título. Não foi elegante, mas percebe-se. E eu aí não perdi uma única oportunidade de o criticar, como criticarei quem quer que ataque o treinador que, em dado momento, sirva o Benfica.

Além disso, o Benfica está hoje mais bem preparado do que estava no passado para acolher Jorge Jesus. Não só a capacidade de investimento, sem recurso sistemático ao endividamento, é maior, como a nossa formação ganhou, nestes últimos anos, o reconhecimento generalizado da sua enorme competência. Contrariamente à ideia vigente, Jesus deu oportunidades a vários jovens jogadores, alguns até da formação. E o excelente trabalho desenvolvido no Seixal é hoje mais reconhecido do que antes, crendo eu que Jesus saberá tirar proveito disso. Estou confiante no nosso sucesso!

Jornal O Benfica - 24/07/2020

Realista

Há uma citação de Melville, celebérrimo autor de Moby Dick, a quem agradeço sobretudo Bartleby, o escrivão, que assenta bem à ideia da necessária plausibilidade dos objectivos: “Alimenta todas as coisas com a comida que lhes é conveniente, isto é, se o alimento for alcançável.”

O Benfica está hoje numa encruzilhada, concluída a extraordinária e enormemente desafiante recuperação do clube a diversos níveis, desde a credibilidade perdida à urgente modernização e edificação de infra-estruturas, passando pela maximização de receitas, além do lado desportivo, afinal o desígnio supremo, bem patente nos muitos títulos conquistados na última década. Como se costuma dizer hoje, o Sport Lisboa e Benfica voltou a ser um clube apetecível. E ainda bem!

O clube regressou ao seu estado natural, aquele da dramatização extremada de um desaire, em Portugal, resultante do desencontro com as elevadas expectativas depositadas nas nossas equipas. E a Europa voltou a ser encarada como estando à mão de semear, sendo aqui que se solicitam cuidados redobrados.

Se aspirar a ganhar sempre a nível doméstico é legítimo, estaremos conscientes da real medida do que poderá ser o nosso “sucesso europeu”? Chegar sempre aos oitavos e lutar pelos quartos da Champions é, em rigor, um desejo consentâneo com o contexto competitivo em que nos inserimos. A gritante menor capacidade de investimento face à dos “tubarões” europeus assim o determina. Por exemplo, desde 2004/05, só três clubes, uma vez cada, de países que não Alemanha, Espanha, Inglaterra e Itália chegaram às meias-finais da prova, veremos o que fará agora o poderoso financeiramente PSG... Sabemos a comida que nos convém, mas devemos perceber qual o alimento que está ao nosso alcance...

Jornal O Benfica - 17/07/2020

Ismo... só o do benfiquismo!

Não é por sanha anti-fascista – é irrelevante, neste contexto, o meu posicionamento ideológico – que tantas vezes elogio a independência, face ao poder político, do Sport Lisboa e Benfica durante a ditadura. Motiva-me, sobretudo, combater o revisionismo e a propaganda maliciosa vindas de quem, por ignorância ou má fé, tenta conspurcar a nossa gloriosa história. Da mesma forma, não uso nem deturpo factos facilmente embelezáveis para alimentar a ideia de que o Benfica assumiu intencionalmente um papel relevante na luta pela liberdade.

A contínua realização de eleições livres e democráticas, a alergia às datas mais simpáticas ao antigo regime ou a inexistência de filtros sociais ou ideológicos na admissão de sócios e, mais significativo ainda, na eleição para os órgãos sociais, assim como na indigitação para cargos nos mais variados departamentos, nomeadamente o jornal, resultam de uma ideia há muito enraizada no clube de que “o Benfica, só o Benfica e nada mais do que o Benfica” importa quando do Benfica se trata (desde 1912 que os nossos estatutos interditam manifestações de carácter político ou religioso).

A consagração desta ideia repercutiu-se em diversos níveis, prevalecendo sempre a crença de que todos os benfiquistas, sem excepção, podem e devem contribuir para o engrandecimento, a honra e a glória do clube. A inclusão e a tolerância há muito que imperam no Benfica. E numa semana em que o nosso atleta Ricardo dos Santos foi vítima de racismo no Reino Unido, quero enviar-lhe um abraço solidário e manifestar o meu orgulho de pertencermos a um clube que já na primeira metade do século passado contribuía, pelo exemplo, para a mitigação deste flagelo na nossa sociedade.

Jornal O Benfica - 10/07/2020

Bruno Lage

No auge da veneração a Lage e ao seu trabalho, pensei que faltava ver ainda duas facetas do nosso treinador para se aquilatar definitivamente a sua competência, conforme possível distanciada e amadoristicamente.

Como lidaria com o eventual insucesso, que quase não conhecera até então (a eliminação na Liga Europa criou alguma renitência, mas secundarizada face à extraordinária campanha no campeonato), e como planearia a época e construiria o plantel.

Não o escrevo para exibir supostos dotes de adivinhação ou uma pretensa capacidade invulgar de antecipação. Primeiro porque as dúvidas por mim colocadas eram meramente hipotéticas, eu admirava Lage. Segundo porque a nossa equipa iniciou a época brilhantemente e reagiu muito bem ao desaire caseiro com o Porto. Na Liga dos campeões, encarei o início titubeante como uma consequência, sobretudo, de lacunas competitivas do futebol português. Afinal de contas, passeávamos a nível nacional, apesar da tal derrota, e o desempenho na Europa até melhorou significativamente ao longo da fase de grupos.

O quase ano e meio de Lage deveria ser caso de estudo. Pela positiva e negativa, houve marcas significativas. O percurso é inusitado, com a extraordinária ascensão seguida de uma derrocada sem precedentes. Por exemplo, 18 triunfos nos primeiros 19 jogos do campeonato esta época, só superado pelo pleno de vitórias em 1972/73. Mas só dois triunfos nos últimos 13 jogos em competições oficiais, igualando os piores registos. E mesmo apenas com duas vitórias nas últimas dez jornadas, Lage ainda é o 3º melhor treinador de sempre do Benfica, em percentagem de vitórias, com mais de trinta jogos nesta prova. Há uns meses ninguém adivinharia este desfecho.

Jornal O Benfica - 03/07/2020

É o que temos

Proponho um desafio: será incompetência, amnésia selectiva, critério editorial, falta de assunto ou caça ao clique? Leia e decida (as hipóteses não são mutuamente exclusivas).

Vários órgãos de comunicação social, na sequência da publicação do prospecto de lançamento do Empréstimo Obrigacionista 2020-23, apressaram-se a “revelar” que a Benfica, SAD já tinha adiantado metade das receitas de direitos televisivos. Propositadamente ou não, e aproveitando a emissão do empréstimo obrigacionista, tentaram passar a ideia de que a Benfica, SAD estará a atravessar supostas dificuldades financeiras, o que contrastaria com a realidade apresentada nos últimos anos. A alguns, tal o afã e entusiasmo notórios, só lhes faltou escarrapacharem no título “Afinal não é só o Porto e o Sporting”.

É verdade que a Benfica, SAD já adiantara metade dessa receita. Fê-lo em fevereiro de 2018 e em abril de 2019. Ambas as operações foram objeto de comunicados à CMVM e amplamente noticiadas, além de, obviamente, constarem em todos os relatórios e contas, anuais e semestrais, publicados pela Benfica, SAD desde então. As contas são públicas e auditadas, nada disto é novidade, já nem sequer é requentado.

E o novo empréstimo obrigacionista? Folgo, antes de mais, que notícias de empréstimos obrigacionistas envolvendo a Benfica SAD versem unicamente emissões e reembolsos, há quem, pelo contrário, tenha de adiar pagamentos ou veja a emissão recusada. E a necessidade parece-me evidente: gestão de tesouraria cautelosa. Além da perda significativa de receitas devido à pandemia, alguém poderá garantir que, na próxima temporada, haja público nos estádios ou que as competições europeias sejam realizadas normalmente?

Jornal O Benfica - 26/06/2020

Estátuas

A súbita deriva iconoclasta a que temos assistido nos últimos dias, com as estátuas no epicentro da discórdia, dá azo a idiotices, exageros e injustiças da mais variada ordem, não obstante a validade de muitos dos argumentos utilizados e até justeza numa ou noutra situação. De igual modo, tornou-se num manancial para os humoristas.

José Pina, dilecto humorista para alguns, adepto sectário para todos, perguntou pela estátua de Eusébio devido a uma fotografia deste com Salazar. Terá sido, certamente, uma piada em jeito provocatório, mas quanto a Pina, conhecendo-se-lhe inúmeras alarvidades, atoardas e difamações versando o Benfica, é legítimo duvidar dos seus propósitos. Inclino-me, no entanto, para mais um produto da sua reconhecida veia humorística.

Até porque, se a estátua de Eusébio estivesse mesmo em causa devido a uma fotografia do melhor jogador português de sempre com Salazar, o Sporting, dada a proliferação de figuras proeminentes do Estado Novo nos seus órgãos sociais durante a ditadura, teria de ser extinto.

Basta constatar o currículo dos presidentes dos clubes para se perceber quem teria mais influência nesse período nefasto de Portugal. Com funções relevantes no aparelho fascista houve, pelo menos, Góis Mota, Cazal Ribeiro, Salazar Carreira, Viana Rebelo, Ribeiro Ferreira, Oliveira Duarte no Sporting e Urgel Horta, Ângelo César, Augusto Pires de Lima, Cesário Bonito e Júlio Ribeiro Campos no Porto. No Benfica houve Mário Madeira, presidente durante pouco mais de três anos, e com uma diferença significativa em relação aos mencionados acima: foi eleito livre e democraticamente pelos seus consócios e não por uma assembleia de delegados...

Jornal O Benfica - 19/06/2020

O normal deste jornalismo é mau

Esta semana fomos brindados com um artigo miserável publicado no respeitável Público e uma justificação lastimável do seu director-adjunto, David Pontes.

O artigo versa sobre contratos entre Benfica, Aves e jogadores, que poderão criar uma suposta subalternidade do Aves face ao Benfica, o que poderia condicionar o desempenho desportivo do Aves em jogos com o Benfica.

Não sendo o anátema suficiente, ainda escamoteia a legalidade dos contratos em causa, bem como a sua aplicação generalizada no futebol, em Portugal e no estrangeiro, apresentando o Benfica como se fosse o inventor e fomentador único das tais cláusulas. De forma patética e nunca vista onde impera a seriedade jornalística, socorre-se de opiniões de “especialistas” jurídicos que requereram anonimato, o que me faz sentir tentado a revelar que, de acordo com alguns especialistas em jornalismo meus conhecidos, mas que preferem manter o anonimato, o autor da peça e o Público prestaram um favor a alguém.

Mas mais grave foi a justificação de David Pontes, ao evocar que, no artigo, é possível identificar suspeitas várias e que, portanto, o normal do futebol é mau. Ou seja, o jornal Público levantou suspeitas infundadas sobre contratos para depois o seu director-adjunto usar essas suspeitas infundadas para caracterizar o futebol português, com o Benfica no epicentro de todos os males. Seria maquiavélico se planeado assim. Talvez tenha sido apenas um acidente de percurso.

Parafraseando David Pontes, o normal deste jornalismo é mau e é preciso repeti-lo e que não nos habituemos. E, acrescento eu, espero que o Público continue a ser uma reserva fundamental do bom jornalismo em Portugal, não obstante este episódio lamentável.

Jornal O Benfica - 12/06/2020

Entrevista

Há diversas formas de avaliar um presidente, sendo que prefiro aquela proposta por Joaquim Bogalho: Deve ter-se em conta o estado do clube quando se toma posse, o que foi feito ao longo do(s) mandato(s) e o estado em que se deixa o clube ao sucessor.

Não é um exercício fácil, pois requer profunda cultura benfiquista (conhecimento) e distanciamento da espuma dos dias. Enquanto Luís Filipe Vieira for presidente, e se, entretanto, não mudar de opinião em relação aos seus antecessores, continuarei a sentir-me dividido entre Bogalho e Maurício Vieira de Brito quanto ao “melhor presidente” da história do SLB.

Salvaguardadas estas questões, considero mais que justo incluir, por agora, Luís Filipe Vieira na categoria de candidato a essa “eleição”. O clube melhorou em cada um dos seus mandatos e, para aferi-lo, basta ver o tipo de crítica mais comum em cada momento.

Se hoje se lhe exige um Benfica europeu mais pujante, há dez anos apontavam-se-lhe os escassos títulos nacionais.

Se hoje se lhe exige maior investimento na equipa de futebol, há dez anos era o elevado passivo o que mais atormentava os benfiquistas.

Se hoje se lhe exige o aumento da capacidade de retenção de talento, há dez anos entendia-se como uma inevitabilidade a saída de todo e qualquer jogador perante a necessidade de facturação.

E se hoje se lhe exige menos “obra”, há quinze anos poucos tiveram a clarividência de perceber os benefícios decorrentes, na sua plenitude, do pesadíssimo investimento na construção de um novo estádio e do Benfica Campus.

Na entrevista à BTV identifiquei a determinação habitual e uma visão estratégica para o futuro do Benfica. Gostei muito!

Jornal O Benfica - 05/06/2020

Regresso!

 Se tudo correr bem (ou se nada correr mal) a bola voltará a rolar nos relvados portugueses da primeira liga (nem todos são sempre de “primeira liga”) já na próxima quarta-feira (quinta-feira, dia de Benfica, é o que verdadeiramente interessa).

O uso excessivo de parêntesis acima (não me levem a mal) é propositado. As dez jornadas do campeonato, mais a final da Taça, oxalá sejam realizadas, serão, espero poder vir a dizê-lo daqui a uns anos, um breve hiato na nossa vivência benfiquista. No meu caso em particular, tal é a frequência com que vou ao estádio da Luz, sempre, sinto que o Benfica só joga verdadeiramente em casa se eu lá estiver nas bancadas. Mesmo a ocasional alteração de lugar, que é rara e nunca desejada, revela-se-me, de certa forma, desarmoniosa.

Mas pior que futebol sem público é nenhum futebol. Teremos jogos para ver, golos para festejar e, assim o esperamos, títulos para celebrar. Exigir a eventual perpetuação da suspensão das competições – quando será possível a reabertura dos estádios? – seria um atentado à sobrevivência do futebol tal como o conhecemos.

Pelas avultadas quebras de receitas (direitos televisivos e patrocinadores), mas também por um fenómeno de desabituação. Desconheço estudos sobre este hipotético fenómeno, mas desconfio que, a cada dia que as novas plataformas de distribuição de entretenimento conquistam adeptos, o potencial de transferência destes existe em alguma medida. Afinal, os dias continuarão a ter 24 horas e as carteiras não engordarão certamente. Dir-me-ão que tal nunca aconteceria, mas acho avisado mitigar-se esse risco. E nós, os que vamos aos estádios, até somos minoritários. É na TV, de longe, que se vê mais futebol.

Jornal O Benfica - 29/05/2020

Visita à capital

Já escrevi sobre a falta de pudor, quanto à instrumentalização do Presidente da República, com objectivos comunicacionais, pelo que não me alongarei sobre esse assunto. Que fique registada, no entanto, mais uma inscrição na longa lista de atitudes e actos que consubstanciam a ideia de que, lá para aqueles lados, não se olham aos meios para se atingirem os fins.

Centremo-nos, por agora, no fastidioso “centralismo” e na atoarda “promiscuidade com os governantes”.

Não obstante a obtenção do desejado palco para mais uma tentativa de condicionamento dos decisores, o que é certo é que o rei do “quem não chora, não mama” veio à “capital do império” ao beija-mão.

“Senhor Presidente, dê-nos uma ajudinha, somos uns coitadinhos a quem ninguém nos dá nada. Esqueça lá isso do centro de estágio, do estádio, do canal de televisão, dos investidores que só serão reembolsados sabe-se lá quando, das nomeações de árbitros locais, que isso até é para poupar nas deslocações... o nosso canal, que não é nosso, é da região, precisa de ajuda!”

Não se sabe o que Marcelo terá dito, nem sequer a sua postura corporal, dada a sua conhecida hipocondria e o seu interlocutor, mas hão-de ter sido abordadas coisas, o quê não interessa, não nos esqueçamos que o objectivo era o palco.

De qualquer das formas, o único canal de clube em Portugal – perdão, é regional – a receber uma ajuda do Estado em tempos de pandemia acabou mesmo por ser o (F.C.) Porto Canal. 23 mil euros podem não ser grande coisa, mas o canal também não o é. Afinal, alguém sabe para que serve o dito para além de uns jogos das modalidades e formação e a divulgação de correspondência privada truncada e adulterada?

Jornal O Benfica - 22/05/2020

Regresso à normalidade

 Que ingenuidade, a de Marcelo Rebelo de Sousa, ao deixar-se instrumentalizar por uma personagem maior do lado pantanoso do futebol...

Por mera “coincidência”, os capitães do F.C. Porto, pouco antes da audiência de Marcelo a Pinto da Costa sobre o Porto Canal, insurgiram-se publicamente contra o que consideram ser um atentado à sua liberdade enquanto cidadãos. Lá falaram de coisas e, garantido o palco no final da reunião, o presidente portista debitou outras, incluindo considerações sobre a retoma das competições até que, finalmente, disse o que lhe interessava: não havendo jogos, o Porto deve ser o campeão, confundindo ao evocar o precedente da II Liga e do Campeonato de Portugal pois, como todos sabemos, mesmo havendo subidas e descidas, não há campeões. O objectivo parece-me evidente: se ganharem na secretaria, ficarão felizes (afinal, na secretaria ou em reuniões na Rua da Madalena, tanto faz), mas o que é mesmo essencial é assegurar a receita da presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, não vá surgir pela frente um qualquer Krasnodar.

E o famigerado “centralismo”... Na boca de Pinto da Costa, regionalização soa sempre a regionalismo bacoco, assim como descentralização um mero veículo para a obtenção de mais benefícios. A descentralização que sempre lhe interessou já há muitos anos que está solidificada: Veja-se onde está a Liga e quem a lidera, de onde veio o presidente da Federação e quem de facto sempre tem mandado no Conselho de Arbitragem, para além das sempre úteis parcerias com autarquias amigas, que os custos de fazer um estádio, montar um canal de televisão ou usufruir de um centro de estágio são, fina ironia, demasiado elevados para quem os paga...

Jornal O Benfica - 15/05/2020

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...