terça-feira, 29 de junho de 2021

Euro (2)

Na semana passada versei sobre a indiferença que sinto pela selecção e obtive várias reacções, umas de estupefacção, outras de aprovação por razões erradas.

Sobre as primeiras, faço notar a irracionalidade do vínculo emocional no desporto. E se este é válido para a pertença, por que razão não o há-de ser também para o alheamento, por muito que nos impinjam patriotismo artificial a roçar, na mensagem, o nacionalismo? E quanto às segundas, reafirmo que nada me move contra. Embirrar com esta ou aquela figura ou desaprovar isto ou aquilo na Federação não me condiciona. Se Portugal vencer, tanto melhor. Só que não tenho nada que ver com isso, tanto me faz.

Retrospectivamente, a minha indiferença terá começado na percepção de que Portugal não contava para o Totobola. Acresceu, em determinada altura, o escasso contributo benfiquista e o entendimento da selecção se tratar do pináculo dum futebol português podre. Depois uma certa arrogância, reconheço, por achar caricato haver tanta gente que, a cada dois anos, se tornava adepta de futebol via “a equipa de todos nós”. Mas também um princípio: para mim não há “equipa de todos nós” se no todos se inclui quem manifestamente desprezo, não quero misturas.

Depois, em 1996, irritou-me a turba lusa, repleta de neoconvertidos ao futebol, reduzir à sorte o magnífico gesto técnico de Poborsky frente a Portugal. E, em 2004, apesar de ainda freneticamente entusiasmado com alguns golos portugueses, não senti qualquer tristeza pela derrota na final e guardei sobretudo indignação pela chantagem emocional de Scolari ao versar sobre patriotismo e a apelar por bandeirinhas (com pagodes) em cada janela. Foi o ponto final. E sinto pena: A alegria que teria tido em 2016…

Jornal O Benfica - 25/6/2021

Números da semana (29)

2

Esta coluna foi dedicada por inteiro a Jardel na semana passada, pelo que é com atraso que se enaltece a dobradinha da nossa equipa feminina de polo aquático. E também o 3º lugar no Campeonato de andebol (feminino), que poderia ter sido melhor, porém há que referir que esta se tratou apenas da segunda época após o regresso benfiquista ao escalão maior (e 2019/20 não chegou a ser concluída);

8

Neste fim-de-semana terá início a final do Campeonato Nacional de hóquei em patins (feminino). 8 é o número de títulos consecutivos que a nossa equipa procurará alcançar;

17,69

Pichardo fez a marca do ano no triplo salto contribuindo, assim, para o crescente entusiasmo em torno da sua participação olímpica. E não deixa de ser curioso como, para alguma comunicação social, de “atleta cubano do Benfica” tem vindo a evoluir para “o português”. Consiga ele o tão almejado ouro em Tóquio e não me admirarei que essa mesma comunicação social tergiverse acerca do feito do atletismo português e pelo caminho tente sonegar o contributo benfiquista;

30

“Faltam 30 metros ao futebol português”, dizia-se no final dos anos 80. Ter visto a exibição confrangedora de Portugal frente à Alemanha relembrou-me este axioma ultrapassado. Só que hoje, ao contrário desses tempos, são raros os treinadores portugueses de topo que enveredam por este tipo de futebol e todos os jogadores da selecção portuguesa jogam ao mais alto nível, a maior parte no estrangeiro. Só faltam 30 metros por opção. E o responsável chama-se Fernando Santos. Dir-me-ão que venceu em 2016, mas não me peçam explicações. E muito menos questionem o obreiro desse feito, que não vale a pena. Por óbvias que sejam as respostas, não se espera que o acaso as dê.

Jornal O Benfica - 25/6/2021

terça-feira, 22 de junho de 2021

Euro

Escrevo esta crónica enquanto se aproxima o início da participação portuguesa no Euro2020. Perguntar-me-ão alguns benfiquistas o que terão a ver com isso, mas à falta de melhor argumento relembro o Rafa, o Vertonghen e o Seferovic ao serviço das suas selecções, além dos vários atletas formados no Benfica presentes na prova. E esse argumento é, a par da paixão por futebol, o que realmente me motiva neste certame.

Já há muitos anos que deixei de sofrer pela selecção (em 2004 já não senti a derrota na final por aí além). Não me move qualquer antipatia, muito menos o desejo de que Portugal não vença. Sou realmente indiferente, tenho testemunhas que ainda se surpreendem por isso. Torço pelo sucesso de jogadores do Benfica e daqueles que serviram condignamente o clube. E vibro com o bom futebol. Nos primeiros dias apreciei a Itália, fiquei chocado e depois aliviado com a situação do Eriksen, contentei-me com o triunfo da Holanda ao cair do pano por ser mais que merecido e agradeci estar vivo ao ver o segundo golo da República Checa. E lamento profundamente a insipidez da maior parte dos jogos. É o tipo de futebol que está instalado, o da procura constante, em posse, dos equilíbrios, para mal de quem sonha com chicuelinas e reviengas, passes de morte e golos extraordinários. Espero que não passe de uma moda.

A indiferença relativamente ao destino da selecção portuguesa não me desqualifica enquanto português, e era só o que faltaria. Apesar de cada vez mais desvalorizar fronteiras geográficas, políticas e culturais, talvez em reacção ao recrudescimento de nacionalismos bacocos, considero-me patriota e adoro Portugal. Não troco cozido à portuguesa por qualquer iguaria internacional. Mas, no desporto, a minha nação é o Benfica, o qual me preenche plenamente.

Jornal O Benfica - 18/6/2021 

Números da semana (28)

(Edição Jardel)

5

Só há 5 tetracampeões na história do Benfica, Jardel é um deles, com André Almeida, Fejsa, Luisão e Salvio;

7

Jardel é também um exemplo para os mais jovens. Na 3ª e 4ª temporadas no Benfica, jogou um total de 7 vezes pela equipa B, sem qualquer inflexão no elevado compromisso com o clube;

11

Épocas ao serviço do Benfica. Houve apenas 50 futebolistas, em cerca de 1200, que jogaram pela equipa de honra em 11 ou mais temporadas (critério: participação em pelo menos um jogo em cada época, incluindo particulares);

14

Títulos e troféus conquistados por Jardel de águia ao peito. Campeão nacional 5 vezes, venceu 2 Taças de Portugal, 5 Taças da Liga e 2 Supertaças (fez parte de plantéis que venceram mais duas);

19

Golos marcados pelo Benfica (16 em competições oficiais, 12 no Campeonato), dois deles decisivos na caminhada para o tri em 2016 (golos das vitórias na 30ª e 32ª jornadas);

21

Jardel demorou a conquistar os benfiquistas. Há duas formas de consegui-lo, assim seja inequívoco o compromisso com o clube e pelo menos aceitável, segundo padrões benfiquistas, o talento para o futebol: personificar um adepto aguerrido em campo e/ou qualidades futebolísticas excepcionais. Jardel tornou-se consensual pela primeira via num jogo com o V. Guimarães, em que fez quase todo a partida com uma protecção na cabeça. Soube-se depois que necessitou de 21 pontos para fechar um golpe profundo. Fez o sacrifício que qualquer adepto julga que faria naquelas circunstâncias;

320

Jogos de Jardel, incluindo particulares, pela equipa de honra do Benfica. É o 44º mais utilizado de sempre. Em competições oficiais participou em 288 desafios (34º). No Campeonato representou o clube em 165 ocasiões.

Jornal O Benfica - 18/6/2021

Rival invisível

É impressionante ouvir os vários testemunhos acerca do impacto, a todos os níveis, do surto de Covid no seio do plantel (série “Rival Invisível”, disponível no Benfica Play e redes sociais do clube). Pela extensão em tão curto espaço de tempo, em que chegou a haver, salvo erro, 25 infectados em simultâneo (jogadores, técnicos e estrutura de apoio), o Benfica teve de lidar com uma situação que assumiu contornos quase únicos a nível mundial.

Este é um documento precioso que nos ajuda a perceber, em profundidade, o que se passou com a equipa naquele período da temporada.

Não entendo a série como uma mera peça ilibatória do rendimento em campo, mas antes considero-a essencial para a compreensão das circunstâncias extremamente adversas com que o plantel se deparou em determinado momento e que, por força da insatisfação com os resultados, foram injustamente menosprezadas.

Mais do que as questões de natureza desportiva, saúde ou aptidão física para a competição futebolística, relevo a dimensão humana. Por boa vontade que tenha, só remotamente poderei compreender pelo que passaram os elementos do plantel naquela altura.

A angústia por eventuais consequências nefastas para a carreira (caso grave de Daniel dos Anjos, da B), o receio de prejudicar os familiares e, num plano secundário, mas sempre latente e prioritário para os adeptos, a impossibilidade de reversão de um percurso desportivo aquém das legítimas expectativas, certamente foram dificílimos de lidar e ultrapassar e só com a passagem do tempo e o restabelecimento da saúde esvaneceram.

Haverá muito a corrigir para regressarmos ao título já na próxima temporada. Mas é um erro menosprezar o impacto do surto de covid na nossa equipa em 2020/21.

Jornal O Benfica - 11/6/2021

Números da semana (27)

3

Fernando Pimenta (prata e bronze) e João Ribeiro (prata) foram os canoístas medalhados ao serviço de Portugal no Campeonato da Europa.

8

Convocados para o Europeu que beneficiaram da formação do Benfica (incluo Nélson Semedo que chegou ao Benfica aos 18 anos e fez o seu percurso na B, na qual se converteu num lateral de eleição). E oito são também os vice-campeões europeus sub21 formados no Benfica. Estes dados não motivam a comemoração benfiquistas, mas constituem-se como uma demonstração cabal da excelente qualidade do trabalho desenvolvido no Benfica Campus na última década e meia;

9,84%

Aumento orçamentado dos custos das modalidades em 2021/22, depois do recuo motivado pela quebra de receitas devido à pandemia. É uma boa notícia: grande parte deste crescimento será canalizado certamente para o apetrechamento dos vários plantéis, sabendo-se que desde há duas décadas que o investimento nas modalidades tem respeitado sempre a sustentabilidade económica e financeira do clube;

12

Exclusões de dois minutos de jogadores do Benfica na final da Taça de Portugal, além da expulsão do treinador Chema Rodríguez. Ninguém põe em causa a qualidade do nosso oponente, o FC Porto, mas a já de si muito difícil tarefa com que a nossa equipa se deparava foi, assim, tornada praticamente impossível;

74

Assinalam-se hoje, dia 11, 74 anos do falecimento de Cosme Damião. Considerado o “pai” do benfiquismo, foi um dos fundadores, jogador de eleição, treinador de elevado mérito e dirigente inexcedível em empenho e benfiquismo. Foi um dos esteios do desenvolvimento inicial do clube, incansável na acção, visionário nas decisões. Teve o seu tempo e hoje é justamente reconhecido por isso. “Sem Cosme não haveria Benfica”.

Jornal O Benfica - 11/6/2021

terça-feira, 8 de junho de 2021

Desperdício de talento

Crónica publicada no Dinheiro Vivo. Também publicada, em papel, no suplemento que acompanha as edições do Diário de Notícias e Jornal de Notícias.

Dinheiro Vivo - 5/6/2021

2020/21 - Futebol

O Benfica tem uma dimensão que o obriga a, pelo menos, vencer tanto como os outros no seu conjunto. Esta asserção não deve ser, no entanto, levada à letra em cada época específica, pois só faz sentido se aplicada a um período alargado, no mínimo de quatro ou cinco anos, e se verificadas as condições propícias, dos pontos de vista financeiro, institucional e estrutural, que tem sido o caso há pouco mais de uma década, para assegurar competitividade face à concorrência.

Ao se tirar ilações gerais e definitivas assentes nas ocorrências de uma só época, poderá estar-se a incorrer num erro, por óbvias que são as limitações dessa abordagem. Cada época é circunscrita a um contexto concreto, o qual é influenciado por diversas variáveis, incluindo não recorrentes (o surto de Covid no plantel e estrutura que o apoia é um exemplo). Mas poderá dar-nos pistas, as quais não devem ser ignoradas.

Para o futebol (masculino), 2020/21 é, simultaneamente, uma época para esquecer (em sentido figurado) e, na prática, para lembrar. O investimento foi fortíssimo, com a contratação de diversos internacionais, regressou um treinador campeão nacional três vezes e finalista de duas finais europeias pelo clube, e as condições, sob todos os aspectos, oferecidas pelo clube para que o trabalho seja desenvolvido estão na vanguarda do que melhor se faz a nível mundial.

Discernir o peso das variáveis incontroláveis no rendimento da equipa, para que se possa identificar onde realmente se errou e, assim, poder evitar a repetição de erros, é fundamental. Confio plenamente que essa identificação está feita e que serão encontradas as soluções adequadas. Não necessitamos de qualquer revolução, antes de ajustes cirúrgicos.

Jornal O Benfica - 4/6/2021

Números da semana (26)

6

Jogadores ligados contratualmente ao Benfica convocados por Rui Jorge para o europeu de sub-21. Gonçalo Ramos e Jota marcaram à Itália no jogo que carimbou o acesso às meias-finais. Gedson, Tomás Tavares e Florentino também jogaram;

8

Jogadores formados no Benfica convocados por Fernando Santos para o Euro’21 (aos quais acresce um pela Suécia), comprovando inequivocamente o excelente trabalho desenvolvido pelo Benfica na área da formação aos longo dos últimos 10/15 anos;

12

Na cerimónia de apresentação de um novo parceiro comercial, a Wizink, Domingos Soares Oliveira revelou que serão 12 os anúncios deste âmbito ao longo de junho, entre novos parceiros e renovações de contrato. Em tempos de pandemia, com a inevitável desaceleração da actividade económica a nível global, este é um bom sinal quando à vitalidade e dinâmica da vertente comercial do Benfica;

15

O Benfica está na final dos playoffs do Campeonato Nacional de Futsal pela 15ª vez em 17 edições no actual formato (vencemos 7, incluindo a última). É a 13ª vez que defrontamos o Sporting na final;

17

Atletas do Benfica convocados para as selecções de sub-18, sub-17 e sub-16. Continua-se a trabalhar bem no Benfica Campus;

60

Passaram 60 anos da conquista da nossa 1ª Taça dos Clubes Campeões Europeus e da estreia de Eusébio pelo Benfica em competições oficiais. Nunca será demais relembrar que a segunda ocorreu no dia seguinte à primeira, significando que jogámos a 2ª mão dos quartos-de-final da Taça de Portugal obrigados, pela Federação Portuguesa de Futebol, a recorrer à equipa das reservas. Esta nem os revisionistas de algibeira, que mentem despudoradamente ao afirmarem que o Benfica foi o “clube do regime”, conseguem explicar.

Jornal O Benfica - 4/6/2021

terça-feira, 1 de junho de 2021

Agridoce

Primeiro o ácido: Perder é sempre mau independentemente das circunstâncias, por mais nefastas e incontroláveis que sejam. Para o Benfica, perder uma competição (ou um jogo) é contranatura porque abala o mais fundamental do etos benfiquista, caracterizado por uma cultura de vitória bem enraizada, e é dissonante da projecção que fazemos do nosso Glorioso. Benfica é, para nós, benfiquistas, sinónimo de ganhar, logo a derrota na final da Taça de Portugal foi negativa.

Avaliar as razões da derrota remete-nos, normalmente, para o domínio do subjectivo, porém há excepções. E este caso é uma delas, pois ficará para sempre a dúvida do que poderia ter feito a nossa equipa se não tivesse sido espoliada das suas possibilidades de lutar pelo triunfo.

A arbitragem de Nuno Almeida foi vergonhosa. A expulsão de Helton por volta dos 17 minutos deveria figurar junto da palavra “aberração” em todos os dicionários ilustrados. A maioria dos especialistas de arbitragem dividiram-se entre o erro e a decisão legítima que não tomariam. Ora, Nuno Almeida, que nos sonegara um penálti com o V. Guimarães e fizera vista grossa, como VAR, noutro com o Nacional, há muito que perdera o direito de lhe ser concedida a dúvida legítima. Diz-se que abandonará a arbitragem, fá-lo tardiamente.

E o doce: Por falta de espaço, mas não de satisfação, admiração e orgulho, resumo o que penso sobre a nossa equipa de futebol feminino: São campeãs à Benfica! Chegar ao jogo decisivo, para mais realizado no estádio do adversário na luta pelo título, e vencer por inapeláveis 0-3 é fabuloso. Este é um projecto no qual predomina a excelência. E ficará na história a obra de arte de Kika Nazareth que resultou no bom golo de Cloe Lacasse. Parabéns!

Jornal O Benfica - 28/05/2021

Números da semana (25)

1

1º título de campeão nacional do Benfica no futebol feminino. O sorteio ditou um Sporting-Benfica na última jornada e, por altura do apito inicial, bastar-nos-ia um empate para assegurar o título. A vitória concludente, por 0-3, abrilhantou a notável conquista. O futebol feminino dá ainda os primeiros passos no clube, imperando a excelência desde que foi dado o mote. Parabéns!

2

Triunfos, ambos no Porto, nas meias-finais do Campeonato de hóquei em patins. Na quarta-feira houve jogo: se ganhámos estamos na final, caso contrário teremos mais duas oportunidades para selar o apuramento;

13

Finais perdidas da Taça de Portugal (12 com a designação “Taça de Portugal”) em 42 presenças (38). A taxa de aproveitamento de finais continua alta, mas importa retomar o trilho das vitórias o mais rápido possível numa competição que continua a ser imensamente acarinhada pelos adeptos apesar de sucessivamente desvalorizada pelo organizador (afunilamento dos participantes nas rondas iniciais, calendarização desinteressante, modelo de meias-finais menos “arriscado”, degradação do estádio Nacional e segunda final consecutiva noutro palco);

26

Seferovic terminou a temporada com 26 golos em competições oficiais (22 no Campeonato), a um do seu melhor registo de águia ao peito (2018/19), sendo o melhor marcador da equipa na época que agora findou. São números assinaláveis tendo em conta que, dos 48 jogos em que foi utilizado, apenas em 32 deles alinhou na condição de titular. Em quatro temporadas soma 69 golos (54 na liga, 75 incluindo jogos particulares), situando-se na 34ª posição no ranking dos goleadores benfiquistas em competições oficiais (25º no Campeonato e 43º considerando todos os jogos);

Jornal O Benfica - 28/5/2021

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...