segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A temporada 2016/17

Na minha crónica publicada em Outubro do ano passado, defendi que a atribuição de um título de campeão do mercado se trata de um exercício pueril. Em qualquer sector de actividade, ainda mais no futebol, nem tudo o que parece bem no papel resulta na prática e esta temporada em particular é um bom exemplo disso mesmo.

Na altura, a generalidade dos analistas considerou o conjunto de operações de aquisição e cedência de passes de atletas realizadas pelo Sporting no mercado de Verão o melhor entre os chamados três grandes. Passados nove meses, e um terceiro lugar no campeonato a enorme distância do campeão, além do insucesso precoce nas restantes competições, sucederam-se os lamentos de Jorge Jesus, o treinador leonino, quanto à carência de soluções no plantel à sua disposição, contrariando as avaliações por terceiros após o fecho de mercado.

Há um erro comum neste tipo de análise: Soma-se tudo. Isto é, listam-se os reforços, comparam-se estes com as saídas, parte-se do princípio que os novos jogadores apresentarão um rendimento mais elevado que os anteriores (nos casos em que saem estrelas, presume-se que as entradas sonantes as compensarão), dá-se por certo que a evolução das “promessas” continuará e que o desempenho de atletas consagrados atingirá, no mínimo, níveis semelhantes aos anteriormente obtidos. Não se considera, no entanto, a possibilidade de ocorrência de lesões, inadaptações ao clube, ao treinador, aos colegas, aos métodos de trabalho ou ao modelo táctico, problemas pessoais, ou ainda sobreposição de competências (por vezes mantendo ou mesmo criando lacunas) entre elementos do plantel.

Mas mesmo mantendo a opinião sobre a inutilidade da atribuição de títulos de campeão do mercado de transferências, considero que existem pistas indiciadoras de quem poderá ter saído a ganhar desse período (ou a perder menos, no caso português, dado que a necessidade de entradas de dinheiro é o que normalmente mais condiciona as decisões tomadas pelos clubes).

Por exemplo, se o desempenho na temporada anterior tiver atingido um patamar satisfatório, a estabilidade é o factor mais decisivo. Até em casos de equipas mal sucedidas, poucos reforços, mas bons (aqueles que possivelmente suprimirão as lacunas identificadas no plantel), serão, à partida, melhor rentabilizados do ponto de vista desportivo. As revoluções nos plantéis são, tendencialmente, infrutíferas no curto prazo. Nos desportos colectivos há dinâmicas imprescindíveis que raramente são conseguidas no imediato, colocando em risco a obtenção de bons resultados desportivos.

Avaliando à posteriori a temporada 2016/17 – reconheço que agora é fácil, mas julgo beneficiar do facto de ter defendido a mesma opinião há nove meses – o Benfica foi o campeão de mercado (na medida em que tal poderá ser definido). Se no presente se torna numa evidência porque, do meu ponto de vista, campeões de mercado são aqueles que se sagram campeões no campo, em Outubro o factor mais relevante a ter em consideração foi a estabilidade. Do onze titular na época anterior, apenas dois jogadores haviam saído: Gaitán e Renato Sanches. Se para o lugar do jovem médio português não chegara qualquer reforço sonante (embora se antevisse que Pizzi regressaria a essa posição e que André Horta poderia desempenhar esse papel), em substituição do argentino surgira outro atleta das pampas, Cervi, o melhor jogador do campeonato do mundo de sub20, Zivkovic, e um dos mais destacados atletas em Portugal, Rafa, além do regresso de Salvio, que passara lesionado a maior parte da temporada anterior. Em nenhuma outra posição se poderia antever qualquer eventual constrangimento para os encarnados (excepto eventuais lesões), dado que todos os atletas importantes da época anterior permaneceram no plantel (à excepção de Talisca que apresentara inconsistência ao longo do ano). A acrescentar a este saldo de entradas e saídas, a equipa técnica manteve-se à frente da equipa, gozando de um factor importantíssimo no futebol, emanado do sucesso obtido meses antes: mais uma vez, estabilidade.

No caso portista, a simples mudança de equipa técnica acarretou alguma indefinição. Porém, o ponto de partida era, em virtude do fraco desempenho na temporada anterior, claramente mais recuado que o dos seus adversários. Relativamente à construção do plantel, o elevado investimento era tido como necessário de forma a equilibrar, no curto prazo, as possibilidades de regresso à conquista de títulos. Houve, no entanto, uma lacuna que transitou da temporada passada e que me parece ter sido fundamental no decurso da época que agora finda: A ausência de jogadores com títulos no seu currículo. As excepções encontram-se em Maxi Pereira e Casillas, que não obstante as boas temporadas conseguidas, não são hoje os mesmos jogadores que já foram no passado. Este factor parece-me deveras significativo, tendo em conta a míngua de títulos dos azuis e brancos nos últimos anos em contraste com décadas de sucesso constante. Os adeptos, ávidos das celebrações a que tanto estavam habituados, passaram rapidamente do apoio ao transporte de ansiedade das bancadas para o relvado, colocando dificuldades acrescidas aos intentos dos inexperientes (hábito de ganhar) jogadores portistas. Acresce que só em Janeiro chegou Soares, um atleta que, integrado no modelo de jogo de Nuno Espírito Santo, conseguiu materializar em golos a produção ofensiva da equipa, mais caracterizada por ser musculada que por ser criativa ou resultar de soluções tácticas. Em suma, os portistas sentiram a pressão, não conseguindo aproveitar algumas oportunidades para se colocarem na liderança da classificação e recolher benefícios de uma eventual dinâmica positiva que daí se poderia gerar.

Do lado sportinguista verificou-se um falhanço total. A época até nem começou mal, mas a partir do momento em que o chão lhe começou a fugir dos pés, entrou numa espiral negativa de que nunca mais se conseguiu soltar. Além dos erros de casting na construção do plantel e da incapacidade compreensível para colmatar as saídas de Slimani (Bas Dost é um goleador impressionante, mas fica muito aquém do argelino nas restantes vertentes do jogo) e João Mário (menos desequilibrador que o excelente Gelson Martins, mas mestre a pensar o jogo colectivo), contribuiu decisivamente o factor pressão. Se as catorze temporadas sem sucesso no campeonato (agora quinze) são enormemente penalizadoras para a equipa (os adeptos têm a ideia de um Sporting vencedor que já não existe, colocando pressão desmesurada na equipa), creio que a realização de eleições foi igualmente penalizadora para a equipa neste domínio. Por vezes deu-me a sensação que a estratégia comunicacional implementada pelo Sporting visou, demasiadas vezes, proteger os interesses do candidato presidencial Bruno de Carvalho do que os objectivos da equipa de futebol. A contrastar, no entanto, com esta percepção que guardo do percurso leonino esta época, esteve a excelente decisão tomada em Janeiro, reconhecendo, no fundo, erros cometidos meses antes ao dispensar alguns jogadores e conseguindo, com essa decisão, a redução da massa salarial nos meses que restavam da temporada.

A questão da comunicação também marcou a presente época. Não me alongarei agora sobre este tema, pois já o fiz anteriormente, mas sublinho o protagonismo inusitado dos directores de comunicação no futebol português. Obviamente, não diminuo a relevância da sua actuação, mas por favor, e a bem do futebol, resguardem-se nos seus gabinetes e deixem os holofotes para quem realmente interessa aos adeptos: Os treinadores e os jogadores. São eles quem vendem bilhetes e subscrições de canais de televisão, não tenhamos quaisquer dúvidas disso.


Termino com outro tema marcante da temporada e que prometo desenvolver numa crónica futura: A notícia da implementação do vídeoárbitro na primeira divisão do futebol português. Trata-se de uma excelente notícia! Espero, no entanto, que a concretização da utilização de tecnologias de apoio à tomada de decisão dos árbitros seja muito bem ponderada. Há dois meses escrevi uma crónica defendendo o vídeoárbitro e realço agora a minha principal preocupação quanto à sua utilização: Contrariamente aos vários desportos em que o vídeoárbitro tem sido utilizado com sucesso, o futebol caracteriza-se pela raridade dos golos. Condicionar os festejos de todos ou da maior parte dos golos à espera por uma decisão da equipa de arbitragem, prejudicará o futebol. Limitar a aplicabilidade deste recurso a situações concretas poderá ser a forma mais ajuizada de implementar esta medida. E, já agora, que às primeiras dúvidas, não se coloque em causa a idoneidade e isenção dos operadores de câmara… Em todo o caso, os meus parabéns à Federação Portuguesa de Futebol pelo seu empenho nesta questão.

Vida Económica - 26/5/2017

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