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segunda-feira, 29 de abril de 2024

Números da semana (172)

2

O Benfica tem de superar uma diferença de 2 golos para chegar à final da EHF European Cup Women de andebol;

3

Na Taça de Portugal de regatas em linha, foram 3 as vitórias de canoístas do Benfica. Messias Baptista triunfou em K1 200 metros e K1 500 metros, e Fernando Pimenta ganhou em K1 1000 metros;

15

Com o golo apontado no desafio com o Farense, Kökcü foi o 4º, na presente temporada em competições oficiais, a atingir as 15 participações diretas na finalização de golos. Soma 5 golos e 10 assistências. A lista é encabeçada por Rafa (34; 20+14), seguido por Di María (29; 16+13) e Aursnes (15; 4+11). Perto de atingirem este marco estão Neres (14; 4+10), Arthur Cabral (13; 11+2) e João Mário (12; 9+3);

18

Excluindo autogolos, a lista de marcadores do Benfica na presente época em jogos oficiais ascende a 18 membros com a entrada, no desafio com o Farense, de Carreras;

44

Otamendi passou a integrar o top-30 dos futebolistas do Benfica com mais jogos nas competições europeias organizadas pela UEFA. Soma 44, tantos quanto Carlos Manuel, Chalana, João Pinto e José Henrique (quinteto na 28ª posição);

50

Com a procura a exceder a oferta em cerca de 35%, foi totalmente realizada a emissão do empréstimo obrigacionista pela Benfica SAD num montante de 50 milhões de euros. São 3542 os investidores neste instrumento financeiro, que remunera, em 5,1%, o investimento, representando o prémio de risco (diferença entre taxa de juro praticada e a taxa swap a três anos, que serve de referência ao cálculo do prémio de risco) mais baixo de sempre nas 15 ofertas de subscrição pública de obrigações colocadas no mercado pela Benfica SAD.

Jornal O Benfica - 26/4/2024

quarta-feira, 6 de março de 2024

Números da semana (164)

3

O Benfica obteve o 3º lugar na Taça dos Clubes Campeões Europeus de corta-mato;

3’27’’

Frente ao Portimonense, o Benfica marcou 3 golos em 3 minutos e 27 segundos. O anterior intervalo de tempo menor para marcar 3 golos no atual estádio da Luz era 4’32’’ e foi conseguido com o Vilafranquense para a Taça de Portugal em 2020/21;

5

Rafa superou o registo de Cardozo e é o 5º com mais tempo de utilização em jogos oficiais no atual estádio da Luz (11498 minutos, incluindo tempos adicionais);

10

Passaram 10 anos, no dia 25 de fevereiro, que faleceu Mário Coluna;

22

Rafa passou a ser o 22º melhor marcador do Benfica no Campeonato Nacional com 62 golos, tantos quanto Jordão. Em competições oficiais, chegou aos 89 golos e ficou a apenas 1 de João Pinto, o 24º mais goleador de águia ao peito;

27

Rafa soma 313 jogos e alcançou Arsénio na 27ª posição do ranking dos futebolistas com mais jogos pela equipa de honra do Benfica em competições oficiais (caso tenha defrontado o Sporting, passa a ser o 26º, a par de Rogério Carvalho). E leva 65 jogos nas competições europeias, tantos quanto André Almeida e Pizzi. O trio ocupa a 11ª posição neste ranking benfiquista;

70

Roger Schmidt chegou às 70 vitórias em jogos oficiais no banco benfiquista ante o Portimonense. Precisou de 94 jogos (4º melhor registo: Riera, 90; Hagan e Rui Vitória, 92 – considerando vitórias após desempate nos “penáltis”);

1789

Sócios que receberam os anéis de platina (44) e os emblemas de ouro (185) e de prata (1560) pelos 75, 50 e 25 anos de associados, respetivamente. Em 2023 haviam sido 1152.

* Não inclui o Sporting – Benfica.

Jornal O Benfica - 1/3/2024

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Da batotice e da hipocrisia

Não foi só na Nazaré que foram avistadas ondas gigantes esta semana. Também aconteceram na Póvoa de Varzim, na final da Taça da Liga de futsal. E aí foi um set que deveria corar de vergonha os responsáveis da modalidade.

A corrente e vento iniciais foram favoráveis ao Sporting, mas a maré benfiquista fez-se notar no decurso do jogo. O Benfica reduziu a desvantagem e procurou incessantemente chegar a bom porto. Numa das várias investidas, faltava cerca de minuto e meio para o derradeiro apito, surgiu a primeira onda, protagonizada por um jogador leonino.

Foi a da falta de desportivismo e atropelo à ética de Taynan. Nem com barbatanas conseguirá fugir à péssima imagem dada de si mesmo. E depois ainda demonstrou, na prática, que a chico espertice é diferente de inteligência. Escreveu nas redes sociais que errou por impulso, para logo acrescentar que usou o regulamento. Além de batoteiro, é incoerente, embora merecedor de “likes” de colegas e adeptos. E lá apagou a tal publicação, mas “uma vez na internet, para sempre na internet”.

De seguida veio a vaga da incredulidade. Taynan foi apenas admoestado com um cartão amarelo, vá-se lá perceber isto. Ricardinho resumiu bem o tema com uma pergunta numa rede social: “Isto acabou mesmo de acontecer na final da Taça da Liga entre Benfica e Sporting!??????”

Seguiu-se a onda da lata. Afirmou o treinador do Sporting: “Estão a desvalorizar a vitória do Sporting e isso é feio. (…) É um não assunto”.

Pelo contrário, é o único assunto. Se Taynan não for severamente castigado e não houver repetição do jogo, passa a haver legitimidade para que as equipas usem este recurso rasteiro sempre que entenderem necessário. O castigo é leve, tratar-se-á mesmo de um não assunto de acordo com este treinador, logo depreende-se que só os tansos sofrerão golos.

Veio ainda a onda da ridicularia. Como é possível que o autor desta batota seja considerado o homem do jogo? Em que mundo vive e que valores do desporto defende quem atribuiu o prémio ao protagonista deste comportamento miserável?

E não poderia faltar a onda da hipocrisia e canalhice. Os responsáveis sportinguistas pseudo condenam o acto, alegando que se terá tratado de uma reacção a suposta falta de fairplay, desculpabilizando-o sob a forma de acto irreflectido. Não só foi batoteiro por impulso, usando o regulamento, como ainda foi uma vítima das circunstâncias, coitadinho.

A apregoada superioridade moral da agremiação do Lumiar é constantemente contrariada pela realidade. Como se enquadra esta atitude de Taynan na afirmação (ou piada) de Frederico Varandas “a nossa dignidade vale mais do qualquer título”?

Digni quê? Diz o povo que “palavras, leva-as o vento”, mas aquelas proferidas por moralistas leoninos, como facilmente se percebe, nem sequer resistem à mais leve brisa. Em verdade, querem, despudoradamente, ganhar a qualquer custo, enquanto alardeiam virtudes por praticar. Assim o demonstram recorrentemente.

Jornal O Benfica - 26/1/2024

sábado, 30 de dezembro de 2023

Agora escolha

Há os estúpidos, há os maldosos e há os estúpidos que são maldosos e vice-versa, agora escolha o leitor. Lanço este desafio referindo-me ao autor anónimo de uma peça publicada no Record na sequência do jogo com o AVS, intitulada “Luz teve a pior casa da época”. O antetítulo também é sugestivo e, por isso, deve ser igualmente considerado: “Menos de 50 mil para o jogo da Allianz Cup”.

Dirá o Record, os factos estão correctos. Mas a forma como os factos são apresentados não tem justificação aceitável. Repare-se no teor da notícia: “Com o Natal a aproximar-se e a uma quinta-feira à noite, o duelo decidia o futuro do Benfica na Allianz Cup, mas a Luz ficou bem longe de uma enchente. De resto, o recinto das águias registou a pior assistência na atual temporada, com 48.959 espectadores presentes nas bancadas, face aos 52.609 que haviam assistido ao triunfo sobre o Famalicão (2-0), a 25 de novembro, para a 4ª eliminatória da Taça de Portugal.”

É óbvia a tentativa de criação de uma imagem de fracasso de afluência de público. E esta é a versão corrigida! A original dizia, em mau português, porém mais revelador, “(…) 48.959 espectadores presentes nas bancadas, a superar os 52.609 que haviam assistido ao triunfo…“. A superar a pior anterior, atenção!

Haveria outras formas de apresentar estes mesmos factos, talvez desrespeitando critérios editoriais desta publicação. E não me parece que só por benfiquismo se justificaria a opção por elas:

- Foi a 7ª maior assistência da temporada em todas as competições nacionais (de todos os clubes – as seis primeiras são do Benfica para o Campeonato Nacional);

- Foi a 11ª maior assistência da temporada em todas as competições oficiais (de todos os clubes – as nove primeiras são do Benfica para o Campeonato Nacional e Liga dos Campeões, mais um jogo do FC Porto na Liga dos Campeões);

- Foi a 2ª maior assistência de sempre na Taça da Liga. O jogo do Benfica com o AVS só foi superado pelo embate com o Sporting, também no estádio da Luz, das meias-finais em 2010/11, no qual estiveram presentes 49.652 espectadores.

Portanto, agora escolha!

P.S.: A Liga Portugal, bem, tem envidado esforços na atracção de público aos jogos e empenha-se ainda mais na autopromoção das suas iniciativas no âmbito deste desafio. Infelizmente, até hoje (26 de dezembro de 2023, 22:13), esta extraordinária afluência de público não motivou qualquer menção no seu site oficial. Um lapso, certamente.

Jornal O Benfica - 29/12/2023

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Chamar o azar

A última peça do famoso dramaturgo Molière é intitulada “O doente de cisma”. É uma comédia em que o personagem principal é hipocondríaco e, por isso, pretende que a filha se case com um médico para que possa poupar nas despesas de saúde. O mais caricato é que, passada uma semana da estreia da peça, quando se realizou a quarta sessão, Molière desmaiou e faleceu pouco depois. O povo pode resumir a moral deste acontecimento a uma frase: “não se deve chamar o azar”.

Não sou dado a superstições nem a mezinhas, logo este é dos axiomas populares a que não atribuo qualquer valor. Mas existe, de facto, “chamar o azar” enquanto imagem de atitudes ou enquanto explicação simplista, e à posteriori, de causas que levam a consequências.

No domínio das atitudes enquadram-se os mal-intencionados, seja por feitio ou por interesses próprios (não confundir com os adeptos, as suas ânsias e pessimismos). São aqueles que se julgam mais relevantes do que na realidade o são e que procuram disfarçar de opinião inconfessáveis desejos. Inconscientes da sua insignificância, acham que, por reiterarem uma ideia e propalarem-na sob diversas capas, por mais ridículas que sejam, a realidade encarregar-se-á de lhes dar razão.

O Schmidt isto, o Schmidt aquilo, e para usar uma expressão popular, por agora “metem a viola no saco”. Claro que se o Benfica não vier a atingir os seus objectivos, esses serão os primeiros a tocar os acordes do “eu tinha razão”, mas essa já a perderam. Quem os ouvisse, por esta altura o Benfica estaria fora das competições europeias e afastado da luta do título. E continuam a ser pagos, digam o que disserem sabe-se lá com que motivação ou propósito.

A outra variante está relacionada com a explicação simplista dos acontecimentos. Por exemplo, esta semana o treinador do FC Porto aludiu à expulsão de Fábio Cardoso na Luz e de Pepe em Alvalade para justificar, pelo menos em parte, as derrotas em ambos os jogos. Claro que nesta ponta da Europa onde tanto se diz adorar o futebol, mas que se fala tão pouco do mesmo, não ocorreu a qualquer jornalista, mesmo aqueles que não abraçam o treinador do FC Porto a seguir a uma conferência de imprensa, perguntar se a razão dessas expulsões não seria de ordem táctica e/ou mental. Deixaram, cordialmente, que ficasse no ar um espectro de suspeição quanto às arbitragens, apesar de, como é evidente, não ser esse o caso.

O que Sérgio Conceição fez foi, agora simplifico eu, “chamar o azar”. Fê-lo na Luz ao deixar Neres e Rafa em situações de um para um em transição e fê-lo em Alvalade ao continuar a confiar num jogador que, quanto mais as qualidades definham, mais expostas ficam as debilidades, que no caso de Pepe se trata de descontrolo emocional com apetência para comportamentos violentos só sustentável devido à complacência de árbitros.

Retorno ao “chamar o azar” das superstições: não me diz nada. E por isso não tenho pejo em admitir que estou convicto de que o Benfica será campeão. A boa exibição em Braga não surgiu de geração espontânea, tratando-se antes do mais recente episódio de um período em que equipa tem estado bem, mesmo em jogos com resultado adverso, e que acredito que perdurará até final da época.

Jornal O Benfica  - 22/12/2023

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Ganhar em Braga

O futebol é maravilhoso. As regras são simples e é fácil de compreender. A raridade do golo faz com que seja mais difícil de prever o resultado de cada jogo e essa é a principal razão por que este desporto é repleto de momentos mágicos e narrativas variadas.

Veja-se o exemplo de Arthur Cabral. Trata-se de um jogador que demora em se afirmar no Benfica, carregando nos ombros as elevadas expectativas depositadas em si, geradas pelo significativo investimento na sua contratação e num percurso entusiasmante até chegar à Luz. Acresce que joga numa posição cuja função principal – marcar golos - tem sido apontada como uma das debilidades da equipa, com consequências óbvias em pelo menos quatro pontos desperdiçados no campeonato (Casa Pia e, gritantemente, Farense).

E foi protagonista de um gesto censurável.

Reconheceu o erro, foi humilde, pediu desculpa, prometeu doravante evitar comportamentos irrefletidos e assegurou que está focado em atingir os níveis exibicionais que motivaram a sua contratação. Beneficiou de apoio e compreensão de colegas e equipa técnica e, estou convencido, da tolerância da generalidade dos benfiquistas. Passados poucos dias, foi, com muita classe, o herói improvável em Salzburgo.

Mais do que uma mera narrativa interessante, esta sequência de acontecimentos mostra porque Roger Schmidt, quando inacreditavelmente maltratado por alguns benfiquistas no estádio da Luz, foi prontamente defendido pelos jogadores, tanto pelas habituais escolhas como pelos menos utilizados. Schmidt não deixou, depois, cair Arthur Cabral, lançando-o logo no jogo seguinte.

É por demais evidente, por muito que profissionais da comunicação desonestos intelectualmente tentem convencer-nos do contrário, que há um fortíssimo espírito de grupo no plantel benfiquista. Só com essa qualidade o Benfica poderia ter feito a notável exibição em Salzburgo após dois empates para o campeonato, qualquer deles injusto (o último inqualificavelmente injusto) não obstante a verborreia de alguns teóricos e vários maledicentes. Só com união e crença na qualidade própria a equipa do Benfica não se deixou abalar pelo golo sofrido em Salzburgo, persistindo na concretização do objetivo de apuramento para a Liga Europa, alcançando-o.

Agora, em Braga, ver-se-á como corre. O jogo é difícil, tudo é possível, mas acredito na vitória porque vejo a equipa a jogar bem nos últimos jogos, mesmo naqueles em que não ganhou (exceptuando em Moreira de Cónegos, onde foi menos impetuosa). E porque, nesta temporada, já venceu duas vezes o Porto, uma o Sporting e fez em Salzburgo exactamente o que precisava de fazer.

P.S.: Disse-o ontem logo a seguir ao golo e fica aqui escrita a minha fezada. O Arthur Cabral marcará 22 golos na presente época.

Jornal O Benfica - 15/12/2023

segunda-feira, 27 de novembro de 2023

A ter em conta

Que o Benfica é o maior clube português em todos os domínios relevantes, qualquer um sabe, até aqueles que não o admitem publicamente, seja por interesse ou por receio de reação alérgica. Mais do que factual, é axiomático, só deixando margem para discussão a ordem de grandeza em relação aos adversários.

Este tema secular (nos anos 20 do século passado estiveram muito em voga as taças de popularidade, geralmente da iniciativa da imprensa e atribuídas com recurso a ovações) não é de lana-caprina.

É determinante, por exemplo, para as decisões dos patrocinadores sobre o alvo e a dimensão do seu investimento. E, devido à imposição governamental da exploração centralizada dos direitos televisivos, redobrou a relevância. Isto é, partindo-se do pressuposto, que não é certo, de que a matriz de distribuição das receitas televisivas incluirá o peso das preferências clubísticas, se é que se pretende minimamente justa num país cujas assimetrias no clubismo são gigantes.

A recente publicação do relatório e contas 2022/23 do Futebol Clube do Porto (finalmente e com buraco financeiro acima de 191 milhões de euros!) permite, em conjunto com outras fontes, comparar alguns dados, tão actuais quanto possível, dos três clubes mais populares em Portugal (as estimativas variam entre 80 e 95% de todos os adeptos).

Nos dois maiores estudos efectuados sobre a massa adepta do futebol em Portugal, ambos num período de menor fulgor benfiquista no futebol, o Benfica surgiu destacadíssimo. A Bola/Marktest – 7668 inquiridos, SLB 40,4%, FCP 19,2%, SCP 20,3%; Vox Populi (1997-2001) - 8169 inquiridos, SLB 50,3%, FCP 23,1%, SCP 22,5%; Ademais, num estudo feito para a banca (em 2012), estimou-se que 48,4% dos detentores de conta bancária eram benfiquistas (24,8% portistas e 22,4% sportinguistas).

E há dados que robustecem as conclusões destes estudos (entre parêntesis a percentagem de Porto e Sporting relativamente ao Benfica).

Retirados dos RC 2022/23, temos: Número de sócios: SLB - 298948; FCP - 122744 (41%); SCP - 137849 (46,1%); Receitas de quotização: 18,8M€; 6M€ (31,9%); 10,4M€ (55,3%).

Retirados do site da Liga Portugal, temos (2022/23): Espectadores nos jogos em casa: SLB - 970837; FCP - 604536 (72,5%); SCP - 497967 (51,3%); Espectadores nos jogos em casa sem três grandes: SLB - 846514; FCP - 604536 (71,4%); SCP - 419091 (49,5%); Espectadores nos jogos fora (capacidade limitada dos estádios mitiga as diferenças): SLB - 237716; FCP - 226251 (95,2%); SCP - 225053 (94,7%); Espectadores nos jogos fora sem três grandes (capacidade limitada…): SLB - 148869; FCP - 124695 (83,8%); SCP - 113328 (76,1%).

Jornal O Benfica - 24/11/2023

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

As crises do Benfica

A do treinador, que já perdeu, desde que chegou ao Benfica, um dos sete jogos frente a Sporting e Porto, ganhando somente quatro, três na presente temporada, um deles valendo a conquista da Supertaça, não conseguindo sequer, neste particular, apresentar um número redondo como os 10 clássicos e dérbis consecutivos sem ganhar de Rúben Amorim ou arranjar desculpa atrás de desculpa para justificar insucessos como é costume de Sérgio Conceição. E que, em 45 jornadas do campeonato com Roger Schmidt, o Benfica só tenha estado na frente em 35, agora e em todas de 2022/23;

A do plantel, por ter vários jogadores lesionados ou que já se lesionaram na presente temporada, não podendo tais ocorrências, como é óbvio, conferir qualquer margem de tolerância relativamente ao desempenho. Também por terem deixado tudo em campo com o Sporting, tornando a recuperação física mais exigente;

A exibicional, sobre a qual o último jogo, frente ao Sporting, é elucidativo: mais golos, mais remates, mais remates enquadrados, mais oportunidades de golo criadas, mais golos esperados, mais bolas nos ferros, mais cantos, mais posse de bola, mais toques na bola, mais dribles bem-sucedidos e percentagem de sucesso mais alta de dribles, mais duelos ganhos, incluindo aéreos, mais recuperações de bola, mais passes efectuados, acertados e decisivos, mais garra, mais cabeça (e, segundo os analistas, mais dois possíveis penáltis sonegados)… tudo, mas mesmo tudo mais, menos as faltas cometidas, os erros e os golos sofridos, além, claro, da justiça da vitória, que essa, como só poderia ser, deve ser atribuída por inteiro ao Sporting porque sim;

A institucional, cuja instabilidade já motivou desacatos e pancadaria na mais recente Assembleia-Geral do FC Porto;

A financeira, pelos capitais próprios da SAD que, apesar de se situarem acima dos 113 milhões de euros, em gritante contraste com a do FC Porto e muito acima da sportinguista (mesmo com a caríssima ajuda da banca), estarem muitíssimo abaixo da valorização bolsista de todas as empresas do Nasdaq e do Nyse, em conjunto;

Por fim, a associativa, porque, se é provável que o Sport Lisboa e Benfica tenha mais sócios do que todos os outros clubes juntos e angarie receitas de quotização em idêntica proporção, a verdade é que somos menos de dez milhões e não conseguimos ter uma média de 200 mil espectadores por jogo no Estádio da Luz.

São tantas as crises que nem sobra uma, por mini que seja, para os outros.

Jornal O Benfica - 17/11/2023

terça-feira, 7 de novembro de 2023

"O que é demais enjoa"

As críticas à equipa e a Roger Schmidt, sejam provenientes da comunicação social ou dos adeptos, são normais. O desempenho (até ver) aquém das muito elevadas expectativas, formadas, em parte, por se tratar do Benfica e pelo forte investimento no defeso, mas também pela excelente temporada passada com o treinador alemão, assim o determina. O que não se pode aceitar é a perseguição de que Schmidt tem sido alvo.

É inaudito que haja uma campanha em curso nalguma comunicação social a um treinador que, nos seus primeiros 70 jogos oficiais no Benfica, obteve 53 vitórias, perfazendo uma percentagem de sucesso de 75,71%, o que só Cosme Damião, Béla Guttmann, e Fernando Riera conseguiram superar em igual período (considerando vitórias ou derrotas após desempate nos “penáltis”). E que leva 81,4% de vitórias no Campeonato Nacional desde que chegou ao Benfica, uma percentagem inferior somente às alcançadas por Manuel Alexandre (13 jogos apenas) e Jimmy Hagan em toda a história encarnada na competição.

A estupefacção aumenta ao se observar o seguinte: Sérgio Conceição, nos primeiros 70 jogos oficiais no FC Porto, ganhou 52 (74,29%). E Rúben Amorim, no mesmo conjunto de jogos iniciais no Sporting, venceu 51 (72,86%). Qualquer deles com desempenho abaixo de Roger Schmidt e beneficiários, indubitavelmente, de maior tolerância.

Campeão nacional, vencedor da Supertaça, quarto finalista da Liga dos Campeões de um Benfica recordista de pontos na fase de grupos não chega, pelos vistos, para um conjunto de jogos menos felizes (ainda assim a três pontos da liderança e uma Supertaça conquistada), como se o Benfica, na sua história, tivesse ganho todas as partidas do Campeonato Nacional ou tido, sempre, extraordinárias campanhas europeias.

Roger Schmidt, por ter contribuído para uma grande época, não goza, nem poderia gozar, de tolerância infinita. Os eventuais erros podem ser apontados e daí não vem mal ao mundo.

No entanto, chega a ser indigna a forma como já há quem, no actual contexto, se dedica insistentemente, nos meios de comunicação social, a pedir a sua cabeça. Serão, por certo, aqueles que, vendo a cabeça de Schmidt rolar, se apressariam a pedir a do próximo treinador do Benfica, fosse ele quem fosse. Schmidt, no fundo, é um mero dano colateral de uma muito enraizada vontade de prejudicar o Benfica…

Jornal O Benfica - 3/11/2023

sábado, 28 de outubro de 2023

Muito para ganhar

O percurso na Liga dos Campeões da presente temporada é, até ao momento, desapontante, para mais na sequência de duas presenças consecutivas nos quartos de final e de uma época excecional ao nível, também, das exibições.

Claro que, agora, compete à equipa do Benfica tentar fazer o melhor possível, procurando, apesar da dependência de terceiros, o apuramento para as rondas a eliminar, até porque essa é, não o alcançando, a melhor forma de lograr a continuidade nas provas europeias, mesmo que seja na Liga Europa.

O que está feito, feito está. É imperativo que se melhore o que tiver de ser melhorado e sobretudo se tenha a capacidade para destrinçar as várias competições, impedindo que o desempenho europeu, para já, abaixo das expectativas, influencie o estado de espírito do plantel ao ponto de afectar a luta pelos restantes objetivos.

É necessária liderança e maturidade para que não se repitam 2017/18 e 2019/20, cujos plantéis do Benfica, nessas épocas, me pareceram permeáveis às críticas pelo desempenho europeu, soçobrando no Campeonato Nacional.

Neste momento é importante reter o seguinte: o Benfica, em 2023/24, já conquistou a Supertaça; leva, depois da derrota no jogo inaugural, sete triunfos consecutivos na Liga, incluindo o clássico com o FCPorto; e está em prova na Taça de Portugal e Taça da Liga, tendo tudo ainda para continuar nas competições europeias.

Olhemos para o passado e recordemos que houve várias grandes equipas do Benfica cujo desempenho na Europa foi aquém do expectável, porém mantendo-se firmes na busca de mais um título nacional, conseguindo-o diversas vezes. Continuar a apoiar a equipa é determinante, pois são os jogadores quem nos representa em campo. E temos muito para ganhar em 2023/24.

Jornal O Benfica - 27/10/2023

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Semana agridoce

A vitória ao FC Porto foi mais do que justa. O Benfica, porque tem mais equipa e joga melhor, ganhou conforme esperado, pecando somente pelo resultado escasso. Foi bastante superior, mereceu o triunfo. A derrota com o Inter espelha a superioridade dos italianos na segunda parte e Trubin foi o melhor em campo.

No clássico, Roger Schmidt surpreendeu com a presença de Di María e Neres no onze inicial. Mais do que o argentino ter marcado assistido pelo brasileiro, saliento a dificuldade que a equipa do FC Porto teve para suster as investidas benfiquistas sempre que a bola circulou com velocidade de um lado ao outro do campo. Nessas situações, o talento individual, mais liberto do espartilho portista, fez a diferença. Não fosse a ineficácia, teria sido goleada.

Ouvi e li até à exaustão que o vermelho mostrado a Fábio Cardoso condicionou o FC Porto e enviesa a análise. É evidente que condicionou e teve influência, mas discordo da tese do enviesamento da análise.

Recuemos à Supertaça, disputada em agosto: o FC Porto começou melhor, pressionante, teve mais remates. O Benfica equilibrou o jogo por volta dos 20/25 minutos, Roger Schmidt fez alterações ao intervalo e a partida mudou, com o Benfica a ser muito superior e a ganhar por 2-0. Desta feita, não foi diferente: o FC Porto teve o ímpeto inicial, embora bem menor do que no jogo anterior. Fábio Cardoso foi expulso e a toada passou a ser de equilíbrio. Ao intervalo, Roger Schmidt fez mudanças, não de jogadores, mas, pareceu-me, da forma como Neves e Kokcu estavam a atacar, assumindo o risco de passes verticais e a fazerem circular a bola mais rapidamente, e só deu Benfica. Tendo em conta a Supertaça, alguém poderá afirmar que, com Fábio Cardoso em campo, o rumo do jogo não seria mais ou menos o mesmo?

E nada disto pode escamotear o facto de a expulsão ter sido mais do que justa. Um lance que nasce numa transição rápida e tem em Neres, que jogou no onze com Di María para surpresa de toda a gente, o protagonista mor (eu próprio, que coloquei essa hipótese na BTV após o jogo com o Portimonense, não acreditei, no dia do clássico, que pudesse acontecer).

Aliás, para Artur Soares Dias, o VAR do jogo, até houve uma expulsão perdoada. João Pinheiro talvez tenha razão em ter optado pelo amarelo, mas mais importante é perceber como essa jogada aconteceu, em tudo similar à da expulsão, mas protagonizada por Rafa. Ou seja, o Benfica teve uma estratégia muito bem definida naquela primeira parte, sabendo que os jogos – tanto este como o da Supertaça e todos – têm duas metades.

E o mesmo se aplica a Milão. O inter alterou ao intervalo subindo as linhas e o Benfica não foi capaz de suster as investidas adversárias. A primeira parte foi positiva, a melhor oportunidade é mesmo do Benfica e ficou um penálti por assinalar sobre Neres (já me cansa ser prejudicado pela arbitragem frente ao Inter). No segundo tempo, os italianos foram claramente superiores.

Muito bem esteve Trubin, que já estava a ser queimado por tanta gente ao fim de dois ou três jogos. Houve até um jornal que teve o desplante de entrevistar um antigo guarda-redes, agora treinador de um clube da segunda divisão ucraniana, que nada mais fez do que regurgitar um arrazoado de críticas ao jovem guarda-redes seu compatriota. Pareceu escolhido a dedo. E é com o dedo apontado que eu pergunto: quando sai a próxima entrevista a esse perito?

Termino dizendo que já tive tempo, desde terça-feira, para confirmar dois dados que até cheguei a duvidar em função do que tem sido dito desde o jogo: sim, o Inter foi mesmo à final da Liga dos Campeões na temporada passada e lidera a Serie A.

Jornal O Benfica - 6/10/2023

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

Vamos ganhar!

Tenho lido e ouvido repetidamente uma ladainha sobre atributos do FC Porto que já enjoa. Não é desta semana, tem anos. E sempre que há um clássico, lá vem ela, qual mantra de pessimistas e mal-intencionados.

“Contra o Benfica, é o jogo da vida deles”, “medo cénico”, “aguentam melhor a pressão” e outros que tais, todos querem dizer o mesmo e nenhum tem validade se pararmos por um segundo e nos lembrarmos que, nas últimas três partidas, ou seja desde que Roger Schmidt chegou ao Benfica, foram duas vitórias para o nosso lado, qualquer delas antecedida por estes mesmíssimos argumentos.

E que tal olhar para cada um dos jogadores mais utilizados do Benfica e tentar descortinar essa suposta sina. Mas quem, afinal, se amedronta, ou seja lá o que for? Um dos muitos estrangeiros, quase todos há pouco tempo em Portugal? O Otamendi? Deixem-me rir. O Di María dos grandes palcos? Só pode ser piada. Os portugueses, como o António Silva e o João Neves, que não tremem e parecem ter nascido ensinados sobre como se joga futebol? Ou o Rafa, que até já marcou duas vezes no Dragão em triunfos benfiquistas? Por favor…

O que esta conversa reflecte é o pessimismo de alguns benfiquistas e, sobretudo, a vontade dos nossos adversários. Tomara eles que a historieta do medo fosse verdadeira. E tentam que o seja, disso não duvido. Se se socorreram de Delanes Vieiras e Alexandrinos, não hão-de acreditar no poder de sugestão, que até é comprovado cientificamente?

Este discurso, ainda por cima, é pernicioso. Relega, para um plano secundário, as duas vitórias nos últimos três jogos, os inúmeros exemplos de arbitragens prejudiciais ao Benfica ao longo de décadas e também erros próprios, que os houve, em diversos desafios. Além de alimentar os anseios dos benfiquistas, logo muito audíveis durante o jogo caso o FC Porto esteja por cima durante cinco minutos (como se tal fosse inconcebível perante um bom adversário), correndo-se, aí sim, o perigo da equipa se enervar.

A realidade é esta: o Benfica tem um treinador capaz de implementar um futebol mais atrativo e um plantel melhor. Tem jogado uns furos claramente acima, tem tudo para ganhar hoje, assim como o fez na Supertaça.

Tal significa que o jogo é fácil e a vitória está assegurada? De todo. O FC Porto tem potencial para ser organizado defensivamente, jogará nos limites da agressividade que o árbitro permitir, torneará as dificuldades da pressão alta do Benfica com passes longos, apostará muito nos duelos individuais e segundas bolas, tentará ocupar o meio-campo encarnado, colocará vários jogadores na área benfiquista e terá uma equipa, apesar de menos talentosa, evidentemente mais física.

E então? Não foram exactamente estes os predicados tão propalados antes da Supertaça com o resultado que se conhece?

Desconheço antecipadamente, como é óbvio, o desfecho do jogo. Só sei que estou confiante e a razão é simples: a equipa do Benfica merece que se confie nela.

Jornal O Benfica - 29/9/2023

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Bom início de 2023/24

No que à conquista de troféus respeita, o começo de temporada não poderia ser mais auspicioso para o Benfica. Para já, no futebol e nas modalidades de pavilhão, oito disputados, oito ganhos, dando expressão a uma aposta pujante no eclectismo, tanto em abrangência (género e quantidade) como em competitividade das equipas.

Melhorar em relação à extraordinária temporada passada é um objetivo vincadamente ambicioso, mas acertado. Nestas seis modalidades, ganhámos 27 das 44 competições em que participámos (46 existentes). Comparando, repetimos os triunfos das Supertaças de futsal no masculino e de andebol, futebol e futsal no feminino, além da Taça Vítor Hugo de basquetebol. Ainda ganhámos a Supertaça de futebol em que não participáramos e a Supertaça de basquetebol e a Elite Cup de hóquei em patins, nas quais não havíamos sido felizes.

Resumindo, nos oito troféus iniciais da temporada, ganhámos todos, sendo que, nestas competições na época anterior, celebráramos cinco. Notável!

Dar continuidade ao sucesso alcançado é o desiderato que se impõe. Em 2022/23 ganhámos uns impressionantes oito em 12 campeonatos. Conseguiremos igualar ou ainda melhorar este desempenho em 2023/24? Mesmo sabendo da enorme dificuldade, acredito que sim. Uma crença alicerçada em benfiquismo e na constatação dos bons plantéis que temos à disposição.

Com a publicação do relatório e contas do Sport Lisboa e Benfica relativo a 2022/23, sabemos agora que a temporada passada foi bem-sucedida também noutras vertentes além da desportiva.

Quase 300 mil sócios activos, recorde de receitas operacionais, recorde também de várias das parcelas que compõe as receitas operacionais, com particular ênfase na quotização e merchandising, números históricos nas visitas ao estádio e museu e, finalmente, mais um exercício lucrativo (o 14º consecutivo sem influência das participadas), reforçando assim os fundos patrimoniais do clube.

Saúde desportiva, associativa e financeira. Que o Benfica siga, em 2023/24, as mesmas pisadas da época transata nestes domínios!

Jornal O Benfica - 22/9/2023

domingo, 17 de setembro de 2023

Pensar o futebol

A iniciativa “Thinking football summit” é boa. Reúne muitos dos protagonistas do futebol português para falarem sobre este, revelando muito do que se vai fazendo com vista ao salto qualitativo necessário, apesar de também expor as diferentes velocidades (e direcções) a que se movem alguns dos protagonistas.

Senão, vejamos:

O presidente do Sport Lisboa e Benfica, Rui Costa, entrevistado por Vanda Cipriano, coordenadora do departamento de comunicação da Liga Portugal e antiga jornalista do Record, abordou temas como o título conquistado na temporada passada, a ambição de novas conquistas, o sonho europeu, o investimento no estádio e sua envolvente para melhorar a experiência dos adeptos, potenciar o apoio e atrair mais público, a notável procura dos benfiquistas por lugares de época e bilhetes, as perspetivas para o Benfica Campus, a marca Benfica, a eventualidade do naming do estádio, a conciliação entre aspectos desportivos e financeiros na gestão desportiva, a relevância da formação na estratégia definida, o modelo de governação, o trabalho de equipa ao nível das decisões, o papel dos dirigentes no desenvolvimento do futebol, a centralização dos direitos televisivos, o posicionamento do Benfica relativamente à melhoria do futebol português sempre salvaguardando os interesses próprios, os constrangimentos face a campeonatos de outros países e mais algum que me tenha escapado.

Em claro contraste, o presidente do Futebol Clube Porto, Pinto da Costa, entrevistado por Rui Cerqueira, da comunicação do Futebol Clube do Porto, mandou bocas e nada acrescentou.

Não surpreende. Ainda recentemente, o FC Porto não se fez representar no Liga Portugal Awards devido, ao que parece, a uma qualquer querela com a CNN Portugal, tal é o respeito pela Liga e o empenho na promoção do futebol nacional. Já para não referir a míngua de conferências de antevisão aos jogos do treinador portista nesta temporada.

Para quem tivesses dúvidas, assim se esclarece quem é interessado em desenvolver e modernizar o futebol português e quem, pelo contrário, não mais pretende além da insistência em fazer do passado presente, moldando-se às exigências quotidianas com os objectivos, métodos e postura de sempre.

Houve muitos outros intervenientes, uns interessantes (desde logo Roger Schmidt), outros nem por isso. E um momento difícil de assimilar.

Vítor Murta, presidente do Boavista, passados dias de um árbitro se ter deixado ludibriar por mais uma das milhentas simulações de Taremi, a qual, vá lá, foi revertida apesar das comunicações do VAR estarem em baixo por falta de electricidade na fonte de alimentação do sistema no estádio do Dragão, afirmou o seguinte: “O Taremi simula? Qual é o problema? Está lá a fazer o papel dele. (…) Andarmos a falar de tomadas. O Taremi está lá a fazer o papel dele e o árbitro e o videoárbitro que façam os seus. Cada um tem o seu papel, temos de cuidar do futebol e deixar de dar tiros nos pés.”

Concordo com a última afirmação. E sugiro a Vítor Murta que comece por se retratar, pois seria uma boa maneira de não dar (mais) tiros nos pés.

Jornal O Benfica - 15/9/2023

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Tudo isto é triste, tudo isto é futebol português

Esta é a minha 414ª crónica no jornal O Benfica, sinto que devo inovar. Portanto, desta vez, por estranho que possa parecer à primeira vista, escrevo-a à moda do Porto.

Para não dar azo a confusões, esclareço que não se trata de uma homenagem aos grandes escritores portuenses ou a uma tentativa de trocadilho do género “cada um escreve a sua”. Refiro-me mesmo ao clube fundado, em 1906, por José Monteiro da Costa, aquele do animal imaginário como símbolo, tratando-se este, porventura, ao invés de uma referência a um antigo brasão da cidade, antes a um apelo à nossa criatividade e persistência para encontrarmos razões, além do amor ao Benfica, que nos façam levar a sério o futebol português tão maltratado pelo FC Porto.

Sei que é arriscado, não só por escrever para a publicação oficial do Glorioso, mas também por haver uma elevada probabilidade de enganar os leitores. E há a questão substantiva: ao longo do tempo esperado para que esta crónica seja lida, o caro leitor não descortinará argumentos válidos, figuras de estilo memoráveis ou ideias originais merecedoras de citação ou reflexão.

Salva-se o editor. Deixarei cair a caneta tantas vezes quanto as necessárias para que a pegue do chão e, mesmo que à vista de toda a gente, desencante a ideia ou a frase que fará com que a minha crónica valha a pena. Independentemente disso, criticá-lo-ei, está-me na massa do sangue e sei que, quanto mais centrado no alvo da minha pretensa ira tornada pública, mais propenso a safar-me crónicas vindouras ele estará.

Não julguem que sou tanso. Nada disto é assumido e se interpretam o que aqui lêem como uma confissão, desenganem-se. Negarei tudo! Esbracejarei e espernearei para lá dos limites do potencial humano. Gritarei até que vos doam os ouvidos. Ameaçarei subversões e revoltas. E os meus apaniguados e amigos de conveniência acreditarão, ou fingirão que acreditam, em tudo o que escrevo. Não tenho opiniões, emito sentenças. E, se insistirem muito, falem com uns mitras no meu bairro, as minhas marionetas de persuasão, sempre solícitos em fazer valer os meus pontos de vista.

A suposta irrelevância dos meus escritos faz parte de uma cabala concebida para me tentar mandar abaixo. Não roubo ideias, as minhas melhores frases não me são sugeridas, os trocadilhos mais engraçados são todos da minha verve. Sei bem quem são os meus inimigos. Escrevem noutros jornais, falam em televisões, dominam os meandros do comentário e impedem-me, porque me invejam, cobiçam a minha originalidade e, obviamente, odeiam-me, de ser sempre o melhor cronista. É tempo de acabar com o centralismo literário e opinativo!

Estimo, porém, que o tempo reservado para a leitura desta crónica se esfumou. Todos, detractores de sempre e para sempre, acham que nada de jeito foi lido, mas acabei de saber pelo editor que posso escrever mais uns parágrafos. Quantos, pergunto. Até que escrevas algo que valha a pena, responde-me. E acrescenta que me dará uma mãozinha se necessário for.

(…)

(…)

(…)

Aproveito o tempo adicional para perguntar à Liga se os constantes mergulhos proveitosos de Taremi tornam o produto “futebol português” mais apetecível no estrangeiro. E também para fazer notar, segundo comunicado do Conselho de Arbitragem, que “o VAR foi introduzido em Portugal em maio de 2017 e o tempo de funcionamento sem quebras do serviço é de 99,8 por cento”. Coincidência das coincidências, se bem percebi, não funcionou na plenitude quando foi necessário avaliar um penálti inexistente, mas assinalado a favor do FC Porto, devido a falta de electricidade numa tomada no estádio do Dragão. E termino com isto: como diz um conhecido meu, o FC Porto protestar o jogo com o Arouca lembra o parricida que pede ao juiz uma atenuante da pena por ser órfão.

Jornal O Benfica - 8/9/2023

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Critérios muito criteriosos

Ainda o campeonato mal começou e já os casos de arbitragem se sucedem a um ritmo vertiginoso, embora tão português que não surpreenda.

Convém dizer, no entanto, que em jogos do Benfica não se pode dizer, para já, que haja uma tendência de óbvio prejuízo. Um possível penálti por assinalar a favor, uma eventual expulsão perdoada a um adversário e o vermelho mostrado a Musa que, havendo margem para discussão, entende-se perfeitamente. Não é nada mau face ao que estamos habituados. Afinal, nas últimas dez épocas em que ganhámos seis campeonatos, tivemos menos 21 penáltis do que o FC Porto e menos 25 do que o Sporting. Jogámos claramente mais tempo em inferioridade numérica e espantosamente muito menos tempo em superioridade numérica. São factos.

Mas os jogos de FC Porto e Sporting têm sido repletos de erros, sobretudo se fossem aplicados os mesmos critérios usados em jogos do Benfica. O que mais precisará de fazer Eustáquio ou Gyokeres, só para citar um jogador de cada adversário na luta pelo título, para verem um vermelho? Musa pisou a bola, escorregou, embateu violentamente de sola num adversário e foi expulso, jogadores há do FC Porto que, sem terem pisado a bola nem escorregado, cometeram faltas com igual perigo para oponentes e os cartões ficaram no bolso. Ou Gyokeres, cujos cotovelos são especiais, pois parecem adquirir imunidade a partir do primeiro amarelo admoestado.

E houve ainda um golo em fora de jogo porque o vídeoárbitro se enganou a colocar as linhas, outros, que valeram pontos, para lá dos descontos e um penálti conveniente, que ajudou o FC Porto a conseguir a reviravolta no resultado já no tempo adicional do jogo em Vila do Conde. Este último é um bom exemplo do que são critérios muito criteriosos.

Erros haverá sempre, mesmo com VAR, e por isso fiz questão de enunciar decisões prejudiciais ao Benfica que, apesar de darem azo a críticas, são aceitáveis. O que não pode acontecer é o que se tem visto nestas três jornadas em partidas de FC Porto e Sporting: critérios tão díspares em relação aos aplicados em lances do Benfica que, por beneficiarem sempre os mesmos, parecem muito criteriosos.

É evidente que o Benfica poderia ter tido mais sorte e feito um pouco mais no Bessa, mas tal não pode escamotear os evidentes benefícios a FC Porto e Sporting neste início de temporada.

Jornal O Benfica - 1/9/2023

terça-feira, 22 de agosto de 2023

“O futebol és tu”

Começo por dizer que aplaudo todas as iniciativas que fomentem a ida de adeptos aos estádios. Logo, aplaudo a iniciativa “O futebol és tu”, promovida pela Liga na presente temporada.

No entanto, creio que o problema que esta acção procura mitigar resulta de outras questões mais profundas. A venda de bilhetes a preços mais baixos torna a ida a um estádio mais comportável, mas tem um impacto nulo nas restantes variáveis, tais como, entre outras, as condições de acesso e permanência nas bancadas, a segurança, a qualidade dos relvados, os horários dos jogos, o nível dos espectáculos ou a competência das arbitragens.

E não ajuda que a Liga tente doirar a pílula neste tema. São várias as frentes carecidas de soluções, todas devem ser abordadas com carácter de urgência.

Repare-se no comunicado da Liga sobre a iniciativa, intitulado “O estrondoso sucesso do arranque da campanha O Futebol és Tu”, no qual são divulgados uma série de dados que procuram justificar o elogio em sede própria.

Face aos dados apresentados, não nego o impacto positivo da medida, embora longe de “estrondoso”. Mas há que relativizá-los, bastando para isso constatar que seis dos nove jogos realizados tiveram uma assistência inferior a 5700 espectadores e cinco das partidas não ultrapassaram os 4300 adeptos nas bancadas.

Mesmo a tão evocada melhoria na taxa média de ocupação dos estádios deveria causar incómodo, ao invés da autopromoção. A maioria das lotações são exíguas e, ainda assim, esteve-se longe de casas cheias. Exceptuando-se o caso do Moreirense, cujos 5674 espectadores no jogo com o FC Porto ocuparam 92,2% dos lugares disponíveis, só mais dois estádios tiveram apresentaram uma moldura humana acima dos 70% da capacidade disponível (Bessa e Alvalade, ou seja, jogos do Benfica e Sporting).

É curto, muito curto. Tão curto que o “sucesso estrondoso” só se aplica à falta de noção ou vergonha.

É a liga faz de conta que temos. A mesma que, enquanto diz aos adeptos que o futebol são eles, permite que muitos deles paguem 70€ por um bilhete e sejam limitados no uso de adereços relativos ao clube que apoiam, sem que se perceba a razão, dado que, segundo relatos de quem lá esteve, todos os adeptos nessa bancada eram afectos ao clube visitante, o Benfica. A confirmar-se, a pretensa medida de segurança não mais é do que uma tentativa de ilusão quanto à dimensão da massa adepta do clube visitado. Nada de novo, diga-se de passagem.

Jornal O Benfica - 18/8/2023

segunda-feira, 31 de julho de 2023

Notas soltas

- Diogo Ribeiro é um prodígio. 18 anos apenas, o mais novo na final do Mundial nos 50 metros mariposa (o seguinte tinha 20 anos, os restantes 22 ou mais), conquistou a prata, a primeira medalha de um português. Desde Yokochi, em 1987, que não havia um português (individual, masculino) numa final de uma prova num Campeonato do Mundo. E, naquela que nem sequer é a sua melhor especialidade (100 metros livres), foi 10º nas meias-finais. Extraordinário!

- Se sou o primeiro a relativizar as vitórias e boas exibições na pré-época, serei o último, também, a relevar uma derrota e uma exibição apagada numa metade da partida. Neste tipo de jogos, dou importância a sinais que, por sua vez, nos dão pistas, não mais do que isso. O jogo com o Burnley não correu bem, mas, do meu ponto de vista, o sinal mais interessante teve a ver com a dinâmica que a equipa (mais aproximada do 11 base) imprimiu na última meia hora da primeira parte, com um futebol rápido, variado, pressionante e inspirado, apesar de infeliz na concretização;

- Esta semana soubemos da inovação relativamente ao VAR (divulgação de alguns áudios) e demos conta do regozijo em causa própria do Conselho de Arbitragem. É lamentável. Não há, nesta decisão, qualquer acto que fomente a transparência. O que teremos é a divulgação de áudios escolhida a dedo. Claro que poderá haver um propósito pedagógico, outro elucidativo, mas o que impera é a criação de mais uma potencial ferramenta de condicionamento através da escolha selectiva dos áudios tornados públicos. Transparência seria a divulgação integral dos áudios. Ainda mais transparente seria a comunicação ao vivo das decisões, como acontece na NBA, na NFL, no râguebi… assim não temos sequer uma meia medida, porque de transparência esta medida nada tem;

- O Benfica é impressionante. A entrada no mercado dos fan tokens, através da plataforma Socios.com, foi um sucesso. Conseguiu mesmo ser, de acordo com um responsável da plataforma (citado pelo Negócios), a melhor emissão do ano. 500 mil fan tokens colocados em 24 horas e isto porque, no primeiro dia, a subscrição estava limitada a 100 por subscritor;

- Parabéns Museu Benfica Cosme Damião pelo 10º aniversário. É um excelente museu, muito mais do que um repositório de taças. E há todo um conjunto de valências de que o clube dispõe devido à sua existência, promovendo o estudo da história benfiquista e um conjunto de iniciativas de divulgação da mesma à disposição dos sócios e adeptos.

Jornal O Benfica - 28/7/2023

segunda-feira, 24 de julho de 2023

Ânimo aos pessimistas militantes

Gosto do defeso. Chamam-lhe, com propriedade, silly season – época tonta – apesar das decisões importantes que são tomadas pelos clubes nesta altura. É campo fértil para entusiasmos desmesurados, os fatalismos tendem a esvanecer depressa, a inconsequência das emoções impera. E isso diverte-me.

Acresce o interesse inusitado por eventos cuja relevância é manifestamente reduzida. Ver futebolistas a correrem à volta do relvado de jogo torna-se um gerador prolífero de pistas para se adivinhar o onze titular; um sorriso de um jogador à chegada ao centro de estágio logo é transformado numa promessa velada de inauditas conquistas; um qualquer pormenor da camisola alternativa poderá provocar a sensação de que se estará a hipotecar o triunfo dos títulos almejados.

E há os jogos particulares, em teoria mais propícios ao estímulo de bocejos, na prática, para alguns, uma plataforma de formação de opiniões definitivas, para quase todos, desafios de suprema importância, imperdíveis, bálsamos de vínculo emocional após a inatividade que os confrontos entre selecções não preenchem.

Nada disto é tonto. É paixão e dedicação, é clubismo, e pouco será mais importante, para quem o sente, do que o amor por um clube.

Tão importante que são múltiplas as vivências e todas são válidas. Mesmo aquelas que me chateiam, das quais relevo as norteadas pelo pessimismo militante exacerbado, imune a sucessos e a provas dadas, mais enfático no defeso por carência de acontecimentos substantivos. É mais comum do que se possa imaginar.

Na preparação para cada episódio do programa “A Época em Revista na BTV”, no qual participo, procuro apreender o estado de espírito da nação benfiquista ao longo da temporada. Consulto fóruns, vejo os comentários de cada jogo nas redes sociais e nas notícias online. Após uma época de sucesso como 2022/23, esta análise retrospectiva torna-se caricata, embora seja compreensível que, ao longo do ano, seja acentuada a dimensão de escape de anseios e frustrações.

Menos aceitável é, no entanto, esta mesmíssima postura no defeso. Não atinge, porventura, uma percentagem considerável de adeptos, mas fico perplexo com as críticas que vou encontrando a Roger Schmidt, Norberto Alves, Nuno Resende ou Marcel Matz, só para nomear os treinadores das equipas masculinas campeãs nacionais.

Bem já me disse o meu pai muitas vezes: um treinador, para que haja muita gente a achá-lo incompetente, só precisa de vir para o Benfica. E eu aproveito para parafrasear a Margaret Thatcher, de quem não sou particular admirador, mas gosto da frase: Se alguns benfiquistas vissem um qualquer treinador do Benfica a andar sobre o rio Tejo, diriam que o faz por não saber nadar.

O que vale é que somos tantos benfiquistas que muitos, no caso do Benfica, pode cingir-se a uma pequena fatia da massa adepta. E sei que só assim pode ser, tal foi o sucesso em 2022/23.

Jornal O Benfica - 21/7/2023

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Estupefacção só para incautos

Que o futebol português é pródigo em fenómenos do Entroncamento, localidade que nunca sequer teve um clube ao mais alto nível, já todos o sabemos. Ainda assim não deixa de ser extraordinária a sua inesgotável capacidade para nos surpreender.

Um exercício que deveria ser relativamente pacífico – a escolha do melhor jogador de um campeonato – que, feitas e refeitas as análises, se cingiria à opção entre dois ou três dos futebolistas que mais se distinguiram ao longo da temporada, é transformado, pelo absurdo do escolhido, em mais um episódio que contribui para a ideia de que um interesse particular se sobrepõe à integridade das decisões.

Interesse esse que, neste caso, parece óbvio: a valorização do passe de um jogador, sem dúvida muito bom, apesar do feitio, das atitudes e do comportamento, ao serviço de um clube tido como necessitado de realizar vendas rápidas para cumprir o fairplay financeiro da UEFA.

Não há, obviamente, qualquer elemento que comprove esta teoria, mas as suspeitas são legítimas. Repare-se: eleger quem mais se distinguiu na Liga pode obedecer a vários critérios, tais como golos, assistências, peso no desempenho (de acordo ou acima das expectativas) da equipa que representa, qualidade exibicional, regularidade, etc. E, para esbater o efeito temporal, uma vez que as memórias mais recentes prevalecem, há a possibilidade de recurso aos prémios mensais para se constatar quais foram os jogadores premiados durante a época.

Tanto para analisar, nada que valide a escolha. Otávio não se distinguiu em qualquer dos itens estatísticos apresentados no site da Liga à excepção das assistências, no qual integra o grupo dos terceiros (fez 7 assistências e apontou 5 golos). E, para cúmulo dos cúmulos, o cuspidor não ganhou qualquer prémio de jogador do mês ao longo da época. Pior: nem sequer foi um dos três mais votados em cada prémio mensal.

Expectável seria que Otávio nem sequer fosse considerado para o 11 do ano. Não foi um dos três mais votados em cada mês, não marcou muitos golos, houve quem fizesse mais assistências e fez parte de uma equipa cujas exibições não agradaram a quem quer que fosse, nem sequer ao mais empedernido dos adeptos do seu clube. E não se sagrou campeão.

Lunática distinção, para ser simpático. E, por isso, até porque é improvável que todos tenham enlouquecido de repente, não há como, mesmo sabendo do teor conspirativo desta convicção, não acreditar que o lobby esteve em alta por estes dias.

Agradeço, no entanto, que este tenha sido o resultado. É sempre bom que nos recordem, de vez em quando, quão movediças são as areias em que nos movimentamos.

Jornal O Benfica - 30/6/2023

Números da semana (198)

1 Florentino é o novo recordista de jogos oficiais pela primeira equipa do Benfica no atual estádio da Luz entre os formados no Benfica Ca...