segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Números da semana (2)

46

Total de jogadores a marcarem, pelo menos, meia centena de golos em “jogos oficiais” de águia ao peito. Seferovic faz agora parte deste lote restrito de jogadores, depois de ter bisado frente ao Vilafranquense (tem 51 golos e é o 44º melhor de sempre);

47

Foram muitas as dificuldades sentidas para ultrapassar a teia defensiva montada pelo V. Guimarães. Mérito para o nosso adversário que soube bloquear um Benfica que, nos 19 jogos em competições oficiais disputados na presente temporada, já marcou 47 golos. É preciso recuar a 2009/10 para encontrarmos uma época tão prolífera neste domínio. E depois a 1989/90.

86

Golos marcados por Pizzi ao serviço do Benfica em competições oficiais. O internacional português promete ser presença assídua nesta coluna e é agora o 25º melhor marcador de sempre do clube em “jogos oficiais”. Na Liga Europa/Taça UEFA, soma agora 8 golos em 12 jogos, igualando o desempenho de Filipovic. Falta-lhe um golo para alcançar Simão na 3ª posição. Considerando todas as competições europeias, totaliza 13 golos e é o 9º no ranking, a par do 8º, Isaías;

300

Jogos de Pizzi pelo Benfica em competições oficiais, o 30º a alcançar esta marca;

328.65

Diferença, em milhões de euros e de acordo com estimativas do site Transfermarkt (consultado na 3ª feira), do valor dos plantéis entre o 13º mais valioso, o Arsenal, e o 31º, o Benfica, o primeiro não pertencente às cinco ligas mais ricas. Porventura significativo, mas nada que nos deva atemorizar!

1947

Nome do novo troféu do panorama competitivo nacional do hóquei em patins e que teve uma estreia auspiciosa, com o Benfica a ser o primeiro a inscrever o nome no palmarés. Muitos parabéns à nossa equipa!

Jornal O Benfica - 18/12/2020

Grandeza do Benfica

Defrontar o Arsenal relembra-me sempre o “Fever Pitch”, de Nick Hornby, publicado em 1992 e considerado, diria unanimemente, como um dos melhores livros sobre futebol. O autor, escritor consagrado, descreve magistralmente, num registo autobiográfico, a paixão por futebol e o fanatismo por um clube, no caso o nosso próximo adversário na Liga Europa.

Hornby confessa que despertou definitivamente para o futebol com a final da TCCE de 1968, na qual o Manchester United derrotou o Benfica, e termina a narração em 1991 quando se está a preparar para sair de casa e ir até Highbury para ver um jogo do seu clube, também frente ao Benfica (a nossa vitória, por 1-3, é o epílogo perfeito para o livro, e digo-o muito satisfeito, mas sem qualquer ironia).

Leio muitos livros sobre futebol e, por isso, sei o muito que o Benfica é referenciado e, por conseguinte, respeitado. Não me incomodam as menções aos nossos desaires porque tenho a consciência de que, caso não fosse relevante ganharem-nos, elas não existiriam. O triunfo sobre o Benfica não é um mero dado estatístico, mas um feito em si mesmo.

O Benfica está nas biografias de Best, Charlton, Clough, Cruyff, Pelé, Puskás e tantos outros que se notabilizaram ao longo dos tempos no futebol. Veja-se George Best, cuja consagração precoce da sua genialidade futebolística ocorreu em 1965, com a exibição feita no estádio da Luz. Ou de Pelé, que se recorda sempre da exibição pelo Santos na Luz. Ou da matreirice do mítico Brian Clough, quando liderava o Derby County e encharcou o relvado nos dias anteriores à recepção ao Benfica em 1972. Há muitos mais exemplos, mas precisaria do jornal inteiro. Talvez escreva um livro sobre o tema...

Jornal O Benfica - 18/12/2020

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Números da semana (1)

1.25 – golos por jogo de Darwin na Liga Europa. Cinco em quatro jogos na época de estreia são esclarecedores quanto ao enorme potencial do jovem uruguaio;

5 – Posição de Pizzi no ranking de goleadores benfiquistas na Liga Europa/Taça UEFA. Soma sete golos, os mesmos que Saviola, mas em menos jogos. Nas competições europeias, é o 11º melhor de sempre, marcou 12, tantos quanto Simão, o 9º, João Pinto e Salvio;

7 – Triunfos nas primeiras nove jornadas do Campeonato Nacional. Os números não dizem tudo, mas são factuais. Melhor só em onze das 86 edições anteriores (duas nas últimas 30);

21 – Golos benfiquistas na Liga NOS em 2020/21. Só em seis temporadas, nas últimas trinta, o Benfica marcou mais nas primeiras nove jornadas. Porém os onze golos sofridos recomendam melhorias neste capítulo;

26 – Jogos consecutivos, na qualidade de visitado, sem conhecer a derrota na Liga Europa. Um recorde da competição. Jorge Jesus liderou a equipa em 22 destas partidas, nas quais se incluem duas relativas a meias-finais e quatro a quartos-de-final, todas vitoriosas;

93.41 – Tempo de jogo (quatro minutos adicionais) quando Waldschmidt assinou o golo (o sexto da conta pessoal) que valeu o triunfo frente ao Paços de Ferreira. Imagine-se a celebração caso houvesse público no estádio...;

100 – Jogos de Rafa no Campeonato Nacional ao serviço do Benfica. O golo ao Paços de Ferreira foi o seu 31º de águia ao peito na prova e guindou-o a 45º melhor de sempre pelo clube. São números impressionantes, tendo em conta que não cobra grandes penalidades e que foi titular em somente 72 partidas. Nos 151 jogos “oficiais” pelo Benfica, leva 41 golos (55º), os mesmos de Gaitán, mas em menos 104 jogos;

Jornal O Benfica - 11/10/2020 (escrito anteriormente ao Standard Liège - Benfica)

Lagartices

Haverá reacção mais típica de um sportinguista do que aquela do presidente leonino após o jogo em Famalicão? Disse Varandas: “Este golo jamais seria anulado aos nossos rivais”, referindo-se abusiva e delirantemente a Benfica e Porto, e que o preocupa “a natureza como é visto o VAR nos jogos em que o Sporting perdeu pontos”, acrescentando que lhe custa muito “ver quatro pontos retirados por se utilizar mal o VAR”. E para que se atingisse o expoente máximo do lagartismo, justificou o tal “erro”, pois “seriam quatro pontos de avanço e começam a tremer”.

Sobre a rivalidade, refira-se que deriva da implantação social dos clubes e de razões históricas, mas nem por sombras, no presente, da força futebolística. E, por isso, é com um misto de vergonha alheia e sadismo que oiço Varandas aludir a um pretenso receio dos “rivais” por, imagine-se, a possibilidade do Sporting, quase sempre perdedor nas últimas quatro décadas, poder dispor de uma vantagem de quatro pontos à nona jornada. O Sporting nunca deixará de ser o Sporting e é com isso que conto quando faz umas flores, quase nunca me decepcionando.

E o VAR... não obstante as costumeiras e pretensiosas alusões tipicamente lagartas duma pretensa exclusividade de comportamentos éticos recomendáveis, só o preocupa os erros quando o Sporting perdeu pontos. Que um seu jogador tenha marcado um golo irregular, como foi o caso de Pedro Gonçalves ao Moreirense na semana anterior, já não é da sua conta. Nem a questão da legalidade: objectivamente, Coates fez falta. Um detalhe que, de um ponto de vista lagarto, convém escamotear, não vá pensar-se, afinal, que “má utilização do VAR” signifique, nada surpreendentemente, “inconveniente ao Sporting”...

Jornal O Benfica - 11/12/2020

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Antitético

Proponho, a todos os editores de dicionários ilustrados, que se passe a usar uma imagem de Lito Vidigal a acompanhar o adjectivo antitético. O homem é treinador de futebol, mas não é futebol que treina.

Sendo justo, todos os princípios elementares do jogo podem ser identificados no futebol, que não é futebol, de Lito Vidigal: onze jogadores de cada lado, duas balizas e uma bola. Alternadamente, em cada parte, numa das balizas evita-se a todo o custo que a bola entre, na outra, mesmo que por mera casualidade, pretende-se que a dita atravesse a linha de golo.

Creio que, para se ser um jogador de futebol que não jogue futebol sob as ordens de Lito Vidigal, são necessárias características especialíssimas, entre as quais predomina a gestão inteligente da dor, aguda em vantagem, inexistente em desvantagem. Valoriza-se muito, também, a apetência para a dramatização. E mais é pedido a outros profissionais como, por exemplo, o homem/mulher do spray milagroso, a quem se recomenda apurada forma física pois, não sei se será boato, consta que, em vantagem, chega a correr mais do que alguns jogadores durante os jogos.

Junte-se a um adversário desta estirpe a repetida coincidência do estado do relvado se adequar, na perfeição, a esta abordagem antitética do futebol e, em mais ocasiões do que as desejadas, que até nem me parece que tenha sido o caso desta vez, os árbitros permissivos ou colaborantes, e assim se torna possível que um treinador de futebol que não treina futebol lá vá sobrevivendo no mundo do futebol...

P.S.: Não me apercebi logo do penálti sobre Everton, mas tive a certeza imediata que não seria assinalado. Vasco Santos, no VAR, dá-nos garantias quanto à previsibilidade das decisões.

Jornal O Benfica - 4/12/2020

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Escócia

Por razões familiares, em tempo de pandemia, teletrabalho, semi confinamentos, quarentenas e afins, é na Escócia que tenho passado a maior parte do tempo desde finais de Agosto. Festejei o sorteio que juntou Rangers e Benfica perante a possibilidade de poder ver ao vivo o Benfica neste país, embora cedo tenha percebido que se afiguraria bastante improvável. Faltam 48 horas para o início do jogo e ainda não desisti.

Para quem não conhece, descrevo a Escócia numa única palavra: Imperdível. Quem já cá veio sabe que não exagero. E aos bem-aventurados futuros visitantes, confiantes nos seus conhecimentos do idioma local, recomendo que se preparem mentalmente para a seguinte realidade: se é inglês que os escoceses falam, não foi inglês que vos ensinaram na escola. Eventualmente o ouvido é treinado, garanto-vos, porém, demora anos. Vale que, apesar do ar abrutalhado desta gente, predomina a simpatia para com os estrangeiros – não sendo estes ingleses, claro está – o que facilita a comunicação. E acrescento um detalhe relevante O verão, aqui, é um mito. Ao contrário do vento, que se faz sentir forte e quase constantemente.

Retomando o que verdadeiramente interessa, e perante a hipótese, ainda que remota, de poder ir ao Ibrox ver o Benfica, um amigo desabafou que, com tantas ausências, no meu lugar não iria. Não poderia discordar mais deste estado de alma. O meu amor ao Benfica é incondicional. Num certo sentido, as circunstâncias são irrelevantes na minha vivência do benfiquismo, só influindo no estado de espírito, nunca nos traços identitários. E convenhamos que, perspectivando o onze provável a dois dias do jogo, recheado de internacionais, fica demonstrada a qualidade do nosso plantel. Acredito num bom resultado!

Jornal O Benfica - 27/11/2020

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Darwin e o futuro

Os amantes de literatura sobre futebol têm a noção perfeita de que a história e os feitos são importantes, até fundamentais para a compreensão do jogo e da sua evolução, mas é, a par das vivências pessoais e da paixão por jogar à bola, nas histórias e no contexto das mesmas que reside o fascínio pelo fenómeno futebolístico.

Não haverá melhor exemplo desta realidade do que o contraste entre o dado objetivo “Alemanha campeã do mundo em 1974” e a asserção subjectiva de que os preceitos do “futebol total” do finalista vencido, a Holanda, alicerçada no Ajax, de Michels e Cruyff, ainda hoje influenciam as abordagens tácticas.

Não estou agora a renegar a estatística, à qual, em particular a relativa ao futebol e basquetebol benfiquistas, dedico apaixonadamente parte do meu tempo. É essencial saber, por exemplo, que Darwin já marcou cinco golos e fez seis assistências nos primeiros onze “jogos oficiais” de águia ao peito. Os números permitem-nos comparar e estabelecer paralelismos ou acentuar diferenças, não obstante o seu carácter burocrático, por vezes enganador.

E aí surgem as histórias enquanto factor diferenciador, apesar de maleáveis por vontade dos fregueses. Estou convicto de que muito se escreverá sobre Darwin na próxima década. E a acompanhar os números entusiasmantes dos seus primeiros passos na alta competição, terá obrigatoriamente de se versar sobre o golo marcado à Colômbia esta semana, o segundo pelo Uruguai à terceira internacionalização.

O miúdo que carrega nos ombros a responsabilidade de ser considerado o sucessor de dois vultos do futebol mundial, Cavani e Suárez, o que seria um fardo para muitos, viu numa nesga de espaço a possibilidade de ser feliz e não hesitou. Marcou um grande golo, marcará muitos mais!

Jornal O Benfica - 20/11/2020

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Inesperado

A estupefacção e desilusão sentidas por todos os benfiquistas com o desempenho da nossa equipa de futebol nos últimos três jogos são normais, ainda mais no contexto que o Benfica atravessa, caracterizado por cinco títulos nacionais em sete temporadas, pese embora o insucesso da época passada, regresso de um treinador competente e ganhador no clube e avultado investimento no apetrechamento do plantel.

É natural que as expectativas sejam elevadas, pois são-no sempre a partir do momento em que o símbolo do Sport Lisboa e Benfica é carregado ao peito por jogadores num campo de qualquer modalidade. E, no caso do futebol na presente temporada, as sete vitórias consecutivas e o bom nível exibicional na maior parte delas exacerbaram esta característica do benfiquismo.

O que parecia tornar-se num passeio afigura-se agora a subida ao Alto do Stelvio na Volta a Itália. E nós não gostamos, pois claro, mesmo não sabendo nós, em rigor, por falta de experiência nas últimas décadas, não obstante os muitos títulos conquistados recentemente, o que será exactamente um passeio.

Multiplicam-se agora as análises sobre lacunas no plantel ou opções do treinador, sem nunca se questionar como terá sido possível a série de triunfos anterior. Os pessimistas militantes antevêem desgraças de dimensões bíblicas; os optimistas incuráveis nem pestanejam. Prefiro esperar para ver, acreditando que poderemos ser mais agressivos no ataque e que parte dos problemas defensivos se tornaram visíveis devido a acasos infelizes (golos contra a corrente do jogo, expulsão prematura...), em evidente desacordo com a turma do “eubemavisei”, que o tempo, creio e sobretudo desejo, se encarregará de desmentir, para felicidade de todos.

Jornal O Benfica - 13/11/2020

Amarelos

Há um fenómeno no futebol português que, de tão recorrente, já passou a regra tácita: o primeiro cartão amarelo de um jogo em que o Benfica seja interveniente, não se adiantando no marcador numa fase inicial, é sempre para um jogador do Benfica.

Admito que os factos possam contradizer-me, mas esta é a sensação que tenho. A rábula já aborrece, tantas foram as suas representações.

Os adversários recorrem sistematicamente a faltas para evitarem o que poderá resultar numa jogada perigosa ou simplesmente para quebrarem o ritmo de jogo enquanto os árbitros, por seu turno, se limitam ao uso do apito, até que o ocaso do preâmbulo do primeiro cartão amarelo do jogo se dá ao ser indicado (por vezes duas ou três vezes conforme necessário), geralmente de forma teatral, que não mais serão permitidas as faltas sem que se lhes suceda a admoestação de um cartão amarelo. Invariavelmente, entre essas faltas constam uma ou duas claramente para cartão inexplicavelmente deixado no bolso (alguns comentadores, benevolentes ou fanáticos, teorizam sobre a gestão da partida). E eis que, inevitavelmente, um qualquer jogador do Benfica faz uma falta para cartão e é admoestado. Um clássico. A mais recente reposição da rábula aconteceu no Bessa.

Longe de mim justificar a derrota com este fenómeno. Perdemos porque fomos piores que o adversário e não tivemos a sorte do jogo, a qual pouco procurámos, há que reconhecê-lo. Decerto que, no entanto, a “gestão da partida” não só não nos ajudou como ainda nos prejudicou. E mais preocupa o evidente contraste com a actuação absolutamente desastrosa do árbitro na primeira parte do Paços de Ferreira – Porto, em claro benefício dos segundos, como está a ser, em mais uma época, habitual...

Jornal O Benfica - 6/11/2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Depois das eleições

Enquanto escrevo, há três candidaturas para a eleição dos órgãos sociais do Sport Lisboa e Benfica (há umas horas havia quatro). Apoiei uma delas publicamente e todas merecem o meu respeito e consideração, pois reconheço-lhes, sem excepção, o benfiquismo com que se propõe a gerir os destinos do clube e o firme propósito da contribuição positiva para a causa benfiquista.

Independentemente que quem tiver merecido a confiança da maioria dos associados do Sport Lisboa e Benfica, ontem (quinta-feira) tratou-se, não obstante ter havido jogo e o início de um novo mandato, somente de mais um dia da história centenária do clube, mais precisamente, se não me enganei nas contas, o 42616º, e tantos outros lhe sucederão certamente.

Muito foi sendo dito e escrito ao longo da campanha, e é nesse contexto que se deverá confinar o teor das afirmações. Independentemente dos escolhidos pela maioria nas eleições, é o clube de todos os sócios que os eleitos têm a honra, o privilégio e a suprema responsabilidade de dirigir.

A este propósito convém recordar as sábias palavras de Miguel Magalhães (que cito de cor), proferidas aquando da sua eleição, em 1987, integrado na lista liderada por João Santos (com o devido agradecimento ao meu amigo João Loureiro, antigo director deste jornal, que me contou o episódio): “No Benfica, quando há eleições, não há inimigos nem adversários, há apenas benfiquistas que se revezam na missão de servir o nosso querido e glorioso clube”.

Passadas as eleições não há, ou não deve haver, “vieiristas”, “lopistas” ou “gomistas”, só benfiquistas. Quem quer que tenha sido eleito é – tem de ser – o presidente de todos os benfiquistas! Viva o glorioso Sport Lisboa e Benfica!

Jornal O Benfica - 30/10/2020

Notas soltas

- Recorro a Churchill para exprimir o que penso sobre a vídeoarbitragem no futebol português: “É uma charada, envolta em mistério, dentro de um enigma”. Nem com tecnologia isto lá vai. E, na dúvida, já se sabe para que lado as decisões continuam a cair maioritariamente;

- Em Vila do Conde, fizemos a melhor exibição de que tenho memória naquele campo. Vulgarizámos um adversário que há vários anos tem sido dos mais competitivos em Portugal e há poucas semanas esteve a um minuto de eliminar o AC Milan da Liga Europa. Não é, evidentemente, caso para euforia, mas reitero o meu entusiasmo para a presente temporada. Relevante mesmo, embora muito falte para terminar o campeonato e, por isso, pouco signifique, é o avanço de cinco pontos para o Porto. Um Porto claramente beneficiado pelas arbitragens neste início de prova, há que dizê-lo;

- A equipa dedicou o triunfo a Luís Santos, técnico de equipamentos, falecido na semana passada. É perceptível o quanto os jogadores, actuais e antigos, respeitavam e gostavam de Luís Santos. As equipas também se fazem destes elementos, cujo trabalho deve ser pautado pela competência, sobriedade, confidencialidade e solidariedade nos desaires. Pessoas que sabem o seu papel, cumprindo-o sem qualquer protagonismo numa actividade híper mediática;

- E dedicou igualmente a André Almeida, vítima de um infortúnio que o afastará dos relvados por tempo indeterminado, mas longo certamente. Sou um admirador do André. Poderá não ser um grande jogador da bola, mas é um excelente futebolista. Pelos muitos títulos conquistados e jogos efectuados (além dos que ganhará e fará ainda), tem um lugar reservado na história do clube. Que não haja dúvidas quanto a isso, nem quanto ao seu regresso!

Jornal O Benfica - 23/10/2020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Ângelo

Desde miúdo que, para mim, “Ângelo” era sinónimo de benfiquismo e grandeza. Apercebi-me da presença constante do nome Ângelo nos maiores feitos do clube ao perscrutar os livros sobre o Benfica, mas era pela voz do meu pai que “Ângelo” ressoava em mim como um símbolo benfiquista, merecedor de admiração incondicional e de múltiplos elogios.

Havia uma clara distinção entre a linha da frente e os outros. O Ângelo fazia parte dos outros, igualmente imprescindíveis. A polivalência do Cavém, a “loucura” do Cruz, a classe do Germano e a raça, mas com técnica, do Ângelo, em nada eram desmerecidas pelo meu pai nas sucessivas e reiteradas loas, obviamente nostálgicas, ao Benfica europeu da década de 60.

E, quanto ao Ângelo, acrescia a particularidade do meu pai ter tido o privilégio de o ter conhecido. O Ângelo não era apenas um dos maiores nomes da história do Benfica, sabia-o também um defensor intransigente da causa benfiquista, um formidável contador de histórias e um homem que conjugava uma rara capacidade para se mostrar disciplinador com os miúdos que formava enquanto, num registo informal, agraciava os convivas com o seu sentido de humor apurado.

E os anos passaram, cresci, desenvolvi a minha cultura benfiquista e tornei-me autor de vários livros sobre o nosso clube. Foi na apresentação de um deles que o Ângelo, o super-herói, passou a ser, para mim, de carne e osso, o Senhor Ângelo. A humildade e simpatia do Senhor Ângelo foram desconcertantes. Não fiquei seguro de ele se ter apercebido do meu aperto de mão carregado de admiração, adquirida e herdada, que sentia por ele. E, por isso, fiz questão de a verbalizar. Nunca esquecerei a resposta: “Meu amigo, todos fazemos o que podemos pelo nosso Benfica”. Paz à sua alma!

Jornal O Benfica - 16/10/2020

Bem vindo Otamendi

Optimista, me confesso, nunca hei-de entender plenamente o benfiquismo autofágico. A mentalização, dos pessimistas militantes, para lidarem com uma eventual decepção no futuro é compreensível; já a irritante predisposição para, confirmadas as propaladas desgraças, logo se recolherem louros por uma suposta capacidade premonitória (só evocada quando se acerta), nem por isso.

Não está em causa o arrebatado amor pelo clube, a dedicação ou o enorme desejo de sucesso e conquistas, pelo que estranho ainda mais, por tão recorrente, que estes benfiquistas em tudo vejam defeitos e que quase nada os satisfaça. Chamam-lhe exigência, mas é outra coisa qualquer. Algumas das reacções à estreia de Otamendi são exemplificativas do que estou a tentar explicar.

Saiu Rúben Dias, entrou Otamendi. Por conseguinte, Rúben Dias foi imediatamente elevado ao estatuto de Humberto Coelho, enquanto que, a Otamendi, já só deveria restar o Chipre ou a Arábia Saudita.

A exibição categórica de Otamendi na primeira parte ante o Farense, no seu primeiro jogo da época passados escassos dias da chegada a Portugal, motivou, diria à falta de melhor expressão, uma decepção feliz nesse tipo de benfiquistas. Otamendi mostrou todos os seus excelentes atributos e eles, desconfiadamente, pensaram “talvez sirva”. Com o desacerto na segunda parte ressurgiu a má vontade e o lamento “Com o Rúben isto não teria acontecido”. Não interessa que Rúben Dias, não obstante o seu enorme valor como futebolista, tenha sido o protagonista de diversos lances infelizes (de resto, como qualquer outro defesa central). Ou que tenha sido mais que evidente a falta sobre Otamendi no segundo golo do Farense. Só a “exigência”, como a apelidam.

Jornal O Benfica - 9/10/2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Para lá do Benfica

“O que mais poderei procurar?”, pergunta Nemorino (tradução livre de “Che più cercando io vo?”) na ópera O Elixir do Amor, de Donizetti, mais concretamente na celebérrima ária Una Furtiva Lacrima. Lembrei-me desta passagem ao constatar a emoção de Fejsa durante toda a entrevista, concedida à BTV, para assinalar a despedida do Benfica.

Rodeado pelos 14 troféus que ajudou o clube a conquistar (embora não tenha jogado em duas das quatro supertaças), o nosso (agora) antigo jogador desfez-se em pranto, incapaz de suster as lágrimas, como que se perguntando o que mais poderá procurar após sete anos de águia ao peito.

Fejsa não foi formado no Benfica, mas defendeu as nossas cores com benfiquismo. Graças ao seu profissionalismo, competência, dedicação, espírito de equipa, capacidade de superação e competitividade, portanto, numa palavra, mística, o sérvio revelou ser um jogador modelo para todos os que ambicionam, um dia, merecer a suprema honra de representar o nosso clube.

Rúben Dias reúne as mesmas qualidades de Fejsa, mas exacerbadas pelo benfiquismo de berço, além de ter ainda muitos anos de futebolista pela frente. Embora mais contido que o antigo colega, aquela pausa na entrevista rápida após o jogo com o Moreirense foi muito reveladora. O Rúben não interrompeu o discurso para pensar no que haveria de dizer; pelo contrário hesitou porque sabia perfeitamente o que lhe ia na alma. Tento imaginar-me no lugar dele: convicto de ter dado o passo certo, futebolística e, sobretudo, financeiramente, mas ciente de que, só talvez num futuro a longo prazo, voltaria a orgulhar-me de representar o meu clube. As libras são muitas e a ambição profissional é satisfeita, mas não deve ser fácil.

Jornal O Benfica - 02/10/2020

Mais do mesmo

Na semana passada insurgi-me contra o tratamento noticioso das contas apresentadas pela Benfica, SAD. Os excelentes resultados foram quase ignorados em detrimento do cumprimento apertado de uma recomendação da UEFA no âmbito do fair play financeiro.

Assim, já não estranhei que, após a eliminação da Liga dos Campeões, se multiplicassem os Nostradamus, mesmo reconhecendo o forte revés, desportivo e financeiro, que o desaire implica. Qualquer um perceberá que a sonegação dessa enorme receita é muito relevante, mas daí até cenários apocalípticos vai uma grande distância.

Vi de tudo, até alguém, publicado num jornal de economia, a confundir o montante de uma compra com o custo contabilizado dessa compra numa época. Não há grande mal que o cidadão comum ignore o conceito contabilístico de amortizações... a menos que o atropele num meio especializado.

Como este houve outros, só diferindo na criatividade com que abordaram a questão. De todos resultou a mesma lapalissada: A Benfica, SAD, se não vender jogadores, dará prejuízo.

Mas convém realçar que 2020/21 só terminará em 30 de junho. Havendo necessidade de vender jogadores, tanto poderá ser hoje como no final da época. E confirmando-se o hipotético prejuízo, qual é o problema que ocorra de vez em quando? A lucrar há sete anos consecutivos, a Benfica, SAD tem capitais próprios a rondar os 161 M€, significativamente acima do capital social, comprovando que há resultados acumulados positivos. Acresce que não existe para distribuir dividendos aos accionistas. E num ano em que se investe fortemente no apetrechamento do plantel, é natural que se verifique deficit, sabendo-se que se incrementa a probabilidade de retorno desportivo e financeiro...

Jornal O Benfica - 25/09/2020

E o fair play jornalístico?

O aforismo sobejamente conhecido, popularizado em inglês, no news is good news (não haver notícias é boa notícia) há muito que caracteriza, na perfeição, a relação entre a comunicação social e os consumidores de notícias. Só é notícia o que está mal. E se nada está mal, o ciclo noticioso tem de continuar a ser alimentado de alguma forma. A transformação do sector nos últimos 25 anos, nomeadamente a acentuada redução das receitas, agudizou esta tendência. E o tratamento dado ao último relatório e contas apresentado pela SAD do Benfica é, na melhor das hipóteses, só mais um exemplo paradigmático deste contexto.

Sob qualquer prisma, deve-se reconhecer as magníficas contas apresentadas. Resumindo: Segundo maior lucro da história, o sétimo consecutivo; Reforço dos capitais próprios muito para lá do capital social; Aumento do activo; Queda do passivo na ordem dos 10%; Endividamento financeiro aquém dos 100 milhões de euros, o mais baixo da década; Dívida líquida a atingir um mínimo histórico; Recorde de receitas (quase 300 M€); Rendimentos operacionais, sem atletas, que bateriam o máximo anterior não fosse a pandemia; Etc.

Perante isto, o que foi destacado na comunicação social? O cumprimento, à risca, de uma recomendação da UEFA no âmbito do Fair Play Financeiro. Vou repetir: o cumprimento de uma recomendação! E nem valerá a pena mencionar que, nos restantes indicadores e recomendações, a situação da SAD do Benfica é exemplar. Isto num país que tem um clube intervencionado pela UEFA e outro que, não fossem os perdões da banca, desculpem, a reestruturação da dívida bancária, se calhar já nem existiria. E ambos estão falidos tecnicamente há vários anos, um mero pormenor.

Necessidade ou agenda?

Jornal O Benfica - 18/09/2020

Falta de pudor

É sabido que, numa casa, quando a necessidade entra pela porta da frente, o pudor foge a sete pés pelos fundos.

No Sporting há muito que a necessidade se instalou, passando a regra e manifestando-se sob diversas formas e feitios. As soluções, sempre alegadamente miríficas, raramente resolvem os problemas, pois estes assentam em algo estrutural e manifestamente irresolúvel. Trata-se do Benfica. Perderão sempre na comparação, não há volta a dar-lhe, por muito que insistam em (sobre)viver acima das possibilidades.

Naturalmente que tal estado de coisas promove a instabilidade. O Sporting será sempre um projecto inacabado, aquém do proposto. E resulta disto que quem o lidera se sinta na contingência de ter de propalar supostos feitos de forma sistemática.

Agora são as contas apresentadas em tempos pandémicos. Alardeiam o lucro e o seu maior volume de negócios de sempre, regozijando-se de o terem conseguido apesar da pandemia. E eu prefiro constatar que o desequilíbrio estrutural se agudizou (39 milhões de euros negativos nos resultados operacionais sem atletas) e sorrio devido ao quadro dos resultados operacionais ajustados que expurga o efeito da pandemia, indemnizações e provisões, como se estas duas últimas não ocorressem todos os anos. E o mais caricato é que assim se fica a saber que o impacto directo da pandemia se ficou por 3,7 milhões de euros, o que não justifica a grandeza do prejuízo operacional ou muito menos faz valer as desculpas de mau pagador aquando do “roubo” do treinador ao Braga.

P.S.: Por falar em necessidade, vendo-se na contingência de, por uma vez, se ter de cumprir regras em Contumil, as críticas a Mendes foram metidas no bolso. Lá o pudor não se esvai pelos fundos da casa... nunca sequer lá esteve.

Jornal O Benfica - 11/09/2020

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Gala da ignomínia

 Ainda no outro dia estava a pensar sobre o que poderia ser alterado no futebol português com vista à sua melhoria. Pensei em inúmeras medidas, mas reconheço as minhas óbvias limitações neste domínio, pois nem sequer me passou pela cabeça aquela que foi apresentada, com pompa e circunstância, pela Liga Portugal na cerimónia de lançamento da nova temporada: o novo logótipo.

Percebe-se que Proença, notoriamente emproado, vislumbre um futuro radioso agora que a Liga apresenta uma nova imagem. Afinal, toda a sua carreira foi feita de cosmética. Por ele, em campo, e por quem, não obstante as sucessivas péssimas arbitragens, lustrou o seu currículo ano após ano.

Mas a dádiva de um novo logótipo, que nada acrescenta ou altera, nunca seria completa se, a acompanhá-la, não fosse atribuído um prémio denominado “prestígio” a uma personagem da estirpe de Valentim Loureiro. Talvez faltem, aos membros da direcção da Liga, os essenciais electrodomésticos. No entanto, desde já advirto que não existem máquinas de lavar despudor ou de secar a vergonha alheia.

Ah, e fez-se um sorteio. O nosso calendário não é bom nem mau, é o que é e contra tal não há grandes argumentos. Registo o acerto da decisão de se tentar proteger, dentro do razoável, as equipas que participam nas competições europeias... nem tudo é mau! Porém devo dizer que, mesmo tendo de perder mais tempo a ler as condicionantes ao sorteio do que a analisar os resultados do mesmo, não encontrei uma única que verse sobre a aparente regra que obriga a que jogos do Porto sejam dirigidos maioritariamente por árbitros da AF Porto. São as condicionantes não escritas as que mais me preocupam...

Jornal O Benfica - 4/9/2020

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Elogio à formação

Diz-se que “à terceira é de vez”, assim como se evoca que “não há duas sem três”. Estes dois aforismos contradizem-se, mas ao povo pouco ou nada interessa a credibilidade das suas máximas, nem tal afecta, que se saiba, o omnipresente PIB, o sacrossanto saldo da balança comercial ou as inúteis sondagens online de jornais. Mas hoje, enquanto escrevo esta crónica - falta agora meia hora para o início da final da UEFA Youth League - torna-se problemático encontrar conforto na sabedoria popular supostamente inerente à consagração de aforismos, especialmente se antitéticos.

É de ressalvar, no entanto, que a terceira final disputada em sete edições da UEFA Youth League, independentemente do seu desfecho, justifica o elogio ao projecto de formação que tem sido desenvolvido pelo Sport Lisboa e Benfica.

Embora considere que o “resultadismo” e a “campeonite” podem prejudicar o retorno que a formação deve dar, há que reconhecer que os títulos são uma consequência natural do trabalho bem feito. Não por acaso, desde que a aposta benfiquista na formação passou a dar retorno, também os títulos surgiram e a presença em finais da “champions” dos juniores passou a ser quase normal.

Do meu ponto de vista, a formação serve unicamente para aumentar a competitividade do nosso plantel profissional. Seja pelo contributo desportivo de atletas formados no Benfica Campus, seja porque, pela alienação de passes desses atletas, aumentamos a nossa capacidade de investimento, é-me indiferente. Só me importa que, no final de cada temporada, a nossa equipa sénior arrecade troféus. E é inegável que, nos últimos sete anos, a nossa formação tenha sido instrumental nos muitos títulos conquistados. Obrigado!

Jornal O Benfica - 28/08/2020

Cá vamos

Tem sido divertido o folhetim Cavani. Se calhar, quando o caro leitor ler esta crónica (note que os colunistas enviam os textos para a redacção até terça-feira), o uruguaio já é nosso jogador ou optou por outro clube. Ou talvez nada tenha acontecido, sabendo-se de antemão, neste último caso, que várias coisas, os seus contrários e inúmeras variantes destes terão sido avançadas pela comunicação social.

Eu, como qualquer benfiquista, adoraria contar com o contributo de um jogador da craveira de Cavani no nosso plantel, mas analisemos, por agora, a existência da possibilidade.

O mais relevante, nesse domínio apenas, é, porventura, ninguém considerar interdita a contratação, pelo Benfica, de um jogador situado num nível, futebolístico, económico e mediático, inusitado face ao que estamos habituados. O investimento seria elevadíssimo e sem grande potencial de retorno financeiro para além do que, embora não seja despiciendo, deriva do contributo desportivo que o jogador possa dar. Não deixa de ser sintomático que haja um consenso generalizado sobre a seriedade da tentativa de uma contratação destas, tratando-se, na prática, do reconhecimento generalizado da capacidade de investimento que o Benfica soube criar na última década.

Entretanto chegaram Waldschmidt, Everton “Cebolinha” e Vertonghen. Também estas contratações, às quais se poderão acrescentar as de Raul de Tomás, Vinícius, Weigl e Pedrinho ao longo da temporada passada, pelos montantes envolvidos, são muito reveladoras. Voltámos a ter, finalmente, capacidade de investimento claramente superior à dos nossos adversários internos e creio que nos fixámos, a nível europeu, no patamar abaixo daquele reservado aos chamados tubarões. 

Jornal O Benfica - 21/08/2020

Pontapé de saída

Gostei bastante da entrevista concedida por Jorge Jesus à BTV, em que nada foi esquecido ou escamoteado.

Na linha do que ficara patenteado na apresentação do nosso novo treinador, foi reforçada a ambição de recolocar o futebol benfiquista no trilho do sucesso. Se dominarmos as próximas temporadas, não tenho a mínima dúvida de que, no futuro, faremos a retrospectiva do decénio e considerá-lo-emos hegemónico da nossa parte. 2019/20 foi uma desilusão, somente vencemos a Supertaça. Ainda assim, nos últimos sete anos, conquistámos 15 dos 28 troféus em disputa, mais do que todos os nossos adversários juntos conseguiram. Fazer da última temporada e de 2017/18 excepções será o desígnio de todos os benfiquistas e de quem o serve e representa nos próximos anos.

Mas houve mais que manifestações ambiciosas para o futuro próximo do Benfica. Entre o muito que poderia destacar, escolho a convicção de Jorge Jesus acerca da formação.

Primeiro deixou bem vincado que a competência não se restringe a escalões etários mais velhos e que terá sempre de ser, independentemente da idade, o factor determinante na escolha dos jogadores que compõe o plantel. Depois alargou, e bem, o conceito de formação a atletas que, não tendo percorrido as camadas jovens do clube, são contratados em idades precoces com o intuito de se desenvolver, ao máximo, o seu potencial. Por último, defendeu a necessidade de dar tempo, logo jogo, às jovens promessas, o que passa, na esmagadora maioria dos casos, pela maturação na equipa B ou o recurso a empréstimos. Não poderia estar mais de acordo. Até porque se aparecerem outros João Félix ou Renato Sanches, as oportunidades surgirão naturalmente, em nome da competência.

Jornal O Benfica - 14/08/2020

Vislumbrar o futuro

Não me importaria que a apresentação de Jorge Jesus tivesse ocorrido logo após o desaire na final da Taça de Portugal. Jogámos mal e não soubemos aproveitar a justa superioridade numérica. O nosso adversário jogou mal e fomos piores. E ainda podemos reclamar da sorte, naquele lance em que Jota acertou no poste já no tempo adicional. Em suma, a final espelhou a época desastrada e inesperada da nossa equipa. Poderíamos e deveríamos ter feito melhor.

Agora, com o regresso de Jorge Jesus, abrem-se novas perspectivas, logo prometidas e reiteradas na apresentação. Estou convicto de que, com o mesmo plantel sob o comando do nosso novo treinador, teríamos apresentado melhores níveis exibicionais e conseguido melhores resultados. E ainda mais convicto estou de que se verificará um salto qualitativo no plantel com Jorge Jesus. Alguns jogadores, inseridos numa nova dinâmica, serão mais competitivos. Outros desenvolverão as suas capacidades e renderão de acordo com o seu potencial. E chegarão atletas cuja competência será indiscutível. Foi o que Jorge Jesus nos habituou no passado, não espero menos agora.

Ganharemos tudo? Provavelmente não, embora seja esse o objectivo. Teremos, no entanto, a garantia de que seremos mais competitivos e de que não dependeremos do súbito surgimento de um jogador que faça a diferença. O Benfica voltará a ser forte no futebol, aproveitando plenamente os muitos e excelentes recursos que hoje coloca à disposição de quem lidera a equipa. Não professo amanhãs que cantam, mas a música será outra certamente! Com Jorge Jesus estaremos sempre mais próximos de títulos. Não se trata de crença, mas antes da constatação da sua inegável competência. Boa sorte!

Jornal O Benfica - 07/08/2020

Rumo à 30ª!

Não perderei uma oportunidade, sempre que o assunto surgir, de reiterar que a Taça de Portugal de futebol foi estreada na época 1921/22. Chamou-se Campeonato de Portugal e, em 1938/39, viu a sua designação alterada para “Taça de Portugal.

Não é uma questão de opinião ou mesmo de interpretação do que se manteve na competição, apesar do nome diferente, nessa temporada e daí em diante. O troféu é o mesmo, as placas dos vencedores continuaram a ser colocadas no troféu original, os moldes de disputa da prova são semelhantes e a imprensa de então, para lá de passada uma década, continuava a apresentar o palmarés da Taça de Portugal desde o seu início, em 1921/22.

Basta, como argumento irrefutável para demonstrar que a Taça de Portugal se trata do Campeonato de Portugal com designação diferente, utilizar o que a própria Federação Portuguesa de Futebol escreveu no relatório da temporada 1938/39: “Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos da Liga e de Portugal passaram a designar-se, respectivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal”.

Perante isto, por vezes, é alegado que o vencedor da Taça de Portugal, quando se chamava ainda Campeonato de Portugal, era apelidado, pela imprensa, de campeão de Portugal. O que não deixa de ser verdadeiro. Mas tal não significa que fosse o campeão nacional, pois um campeão nacional, como é evidente, só o é ao vencer um Campeonato Nacional, e esse só começou a ser disputado em 1934/35.

Nada impediria, por exemplo, de proclamar o Benfica como o campeão da Supertaça 2019. Assim como nada impediu o jornal do Sporting, em 1964, de declarar, na primeira página, “somos campeões da Europa na Taça das Taças”. Campeões há muitos, da vida e do que se quiser, mas campeão nacional só o é quem vence um campeonato nacional.

Jornal O Benfica -31/07/2020

Jorge Jesus, de novo

Em 12 de junho de 2015, após o anúncio da contratação pelo Sporting, escrevi, sobre Jorge Jesus, que “com toda a competência e mérito que lhe são reconhecidos, foi uma peça importante nas conquistas (e derrotas) encarnadas nos últimos anos.”

Foco-me no mérito e competência do nosso novo treinador e acredito que estaremos muito bem servidos nesse cargo. Jorge Jesus é hoje melhor treinador do que quando chegou ao Benfica pela primeira vez, pois acumulou experiência e títulos ao mais alto nível, no Benfica e Flamengo.

Desvalorizo alguns dislates da sua parte durante a passagem pelo Sporting. Acho perfeitamente compreensível que um treinador, acabado de ser bicampeão nacional, ao sair do Benfica para o Sporting se sinta acossado. Afinal, ninguém gosta de ser despromovido. E tendo em conta que a grande maioria dessas declarações visavam o seu sucessor Rui Vitória, entendi-as, sobretudo, como uma tentativa de destabilização do principal candidato ao título. Não foi elegante, mas percebe-se. E eu aí não perdi uma única oportunidade de o criticar, como criticarei quem quer que ataque o treinador que, em dado momento, sirva o Benfica.

Além disso, o Benfica está hoje mais bem preparado do que estava no passado para acolher Jorge Jesus. Não só a capacidade de investimento, sem recurso sistemático ao endividamento, é maior, como a nossa formação ganhou, nestes últimos anos, o reconhecimento generalizado da sua enorme competência. Contrariamente à ideia vigente, Jesus deu oportunidades a vários jovens jogadores, alguns até da formação. E o excelente trabalho desenvolvido no Seixal é hoje mais reconhecido do que antes, crendo eu que Jesus saberá tirar proveito disso. Estou confiante no nosso sucesso!

Jornal O Benfica - 24/07/2020

Realista

Há uma citação de Melville, celebérrimo autor de Moby Dick, a quem agradeço sobretudo Bartleby, o escrivão, que assenta bem à ideia da necessária plausibilidade dos objectivos: “Alimenta todas as coisas com a comida que lhes é conveniente, isto é, se o alimento for alcançável.”

O Benfica está hoje numa encruzilhada, concluída a extraordinária e enormemente desafiante recuperação do clube a diversos níveis, desde a credibilidade perdida à urgente modernização e edificação de infra-estruturas, passando pela maximização de receitas, além do lado desportivo, afinal o desígnio supremo, bem patente nos muitos títulos conquistados na última década. Como se costuma dizer hoje, o Sport Lisboa e Benfica voltou a ser um clube apetecível. E ainda bem!

O clube regressou ao seu estado natural, aquele da dramatização extremada de um desaire, em Portugal, resultante do desencontro com as elevadas expectativas depositadas nas nossas equipas. E a Europa voltou a ser encarada como estando à mão de semear, sendo aqui que se solicitam cuidados redobrados.

Se aspirar a ganhar sempre a nível doméstico é legítimo, estaremos conscientes da real medida do que poderá ser o nosso “sucesso europeu”? Chegar sempre aos oitavos e lutar pelos quartos da Champions é, em rigor, um desejo consentâneo com o contexto competitivo em que nos inserimos. A gritante menor capacidade de investimento face à dos “tubarões” europeus assim o determina. Por exemplo, desde 2004/05, só três clubes, uma vez cada, de países que não Alemanha, Espanha, Inglaterra e Itália chegaram às meias-finais da prova, veremos o que fará agora o poderoso financeiramente PSG... Sabemos a comida que nos convém, mas devemos perceber qual o alimento que está ao nosso alcance...

Jornal O Benfica - 17/07/2020

Ismo... só o do benfiquismo!

Não é por sanha anti-fascista – é irrelevante, neste contexto, o meu posicionamento ideológico – que tantas vezes elogio a independência, face ao poder político, do Sport Lisboa e Benfica durante a ditadura. Motiva-me, sobretudo, combater o revisionismo e a propaganda maliciosa vindas de quem, por ignorância ou má fé, tenta conspurcar a nossa gloriosa história. Da mesma forma, não uso nem deturpo factos facilmente embelezáveis para alimentar a ideia de que o Benfica assumiu intencionalmente um papel relevante na luta pela liberdade.

A contínua realização de eleições livres e democráticas, a alergia às datas mais simpáticas ao antigo regime ou a inexistência de filtros sociais ou ideológicos na admissão de sócios e, mais significativo ainda, na eleição para os órgãos sociais, assim como na indigitação para cargos nos mais variados departamentos, nomeadamente o jornal, resultam de uma ideia há muito enraizada no clube de que “o Benfica, só o Benfica e nada mais do que o Benfica” importa quando do Benfica se trata (desde 1912 que os nossos estatutos interditam manifestações de carácter político ou religioso).

A consagração desta ideia repercutiu-se em diversos níveis, prevalecendo sempre a crença de que todos os benfiquistas, sem excepção, podem e devem contribuir para o engrandecimento, a honra e a glória do clube. A inclusão e a tolerância há muito que imperam no Benfica. E numa semana em que o nosso atleta Ricardo dos Santos foi vítima de racismo no Reino Unido, quero enviar-lhe um abraço solidário e manifestar o meu orgulho de pertencermos a um clube que já na primeira metade do século passado contribuía, pelo exemplo, para a mitigação deste flagelo na nossa sociedade.

Jornal O Benfica - 10/07/2020

Bruno Lage

No auge da veneração a Lage e ao seu trabalho, pensei que faltava ver ainda duas facetas do nosso treinador para se aquilatar definitivamente a sua competência, conforme possível distanciada e amadoristicamente.

Como lidaria com o eventual insucesso, que quase não conhecera até então (a eliminação na Liga Europa criou alguma renitência, mas secundarizada face à extraordinária campanha no campeonato), e como planearia a época e construiria o plantel.

Não o escrevo para exibir supostos dotes de adivinhação ou uma pretensa capacidade invulgar de antecipação. Primeiro porque as dúvidas por mim colocadas eram meramente hipotéticas, eu admirava Lage. Segundo porque a nossa equipa iniciou a época brilhantemente e reagiu muito bem ao desaire caseiro com o Porto. Na Liga dos campeões, encarei o início titubeante como uma consequência, sobretudo, de lacunas competitivas do futebol português. Afinal de contas, passeávamos a nível nacional, apesar da tal derrota, e o desempenho na Europa até melhorou significativamente ao longo da fase de grupos.

O quase ano e meio de Lage deveria ser caso de estudo. Pela positiva e negativa, houve marcas significativas. O percurso é inusitado, com a extraordinária ascensão seguida de uma derrocada sem precedentes. Por exemplo, 18 triunfos nos primeiros 19 jogos do campeonato esta época, só superado pelo pleno de vitórias em 1972/73. Mas só dois triunfos nos últimos 13 jogos em competições oficiais, igualando os piores registos. E mesmo apenas com duas vitórias nas últimas dez jornadas, Lage ainda é o 3º melhor treinador de sempre do Benfica, em percentagem de vitórias, com mais de trinta jogos nesta prova. Há uns meses ninguém adivinharia este desfecho.

Jornal O Benfica - 03/07/2020

É o que temos

Proponho um desafio: será incompetência, amnésia selectiva, critério editorial, falta de assunto ou caça ao clique? Leia e decida (as hipóteses não são mutuamente exclusivas).

Vários órgãos de comunicação social, na sequência da publicação do prospecto de lançamento do Empréstimo Obrigacionista 2020-23, apressaram-se a “revelar” que a Benfica, SAD já tinha adiantado metade das receitas de direitos televisivos. Propositadamente ou não, e aproveitando a emissão do empréstimo obrigacionista, tentaram passar a ideia de que a Benfica, SAD estará a atravessar supostas dificuldades financeiras, o que contrastaria com a realidade apresentada nos últimos anos. A alguns, tal o afã e entusiasmo notórios, só lhes faltou escarrapacharem no título “Afinal não é só o Porto e o Sporting”.

É verdade que a Benfica, SAD já adiantara metade dessa receita. Fê-lo em fevereiro de 2018 e em abril de 2019. Ambas as operações foram objeto de comunicados à CMVM e amplamente noticiadas, além de, obviamente, constarem em todos os relatórios e contas, anuais e semestrais, publicados pela Benfica, SAD desde então. As contas são públicas e auditadas, nada disto é novidade, já nem sequer é requentado.

E o novo empréstimo obrigacionista? Folgo, antes de mais, que notícias de empréstimos obrigacionistas envolvendo a Benfica SAD versem unicamente emissões e reembolsos, há quem, pelo contrário, tenha de adiar pagamentos ou veja a emissão recusada. E a necessidade parece-me evidente: gestão de tesouraria cautelosa. Além da perda significativa de receitas devido à pandemia, alguém poderá garantir que, na próxima temporada, haja público nos estádios ou que as competições europeias sejam realizadas normalmente?

Jornal O Benfica - 26/06/2020

Estátuas

A súbita deriva iconoclasta a que temos assistido nos últimos dias, com as estátuas no epicentro da discórdia, dá azo a idiotices, exageros e injustiças da mais variada ordem, não obstante a validade de muitos dos argumentos utilizados e até justeza numa ou noutra situação. De igual modo, tornou-se num manancial para os humoristas.

José Pina, dilecto humorista para alguns, adepto sectário para todos, perguntou pela estátua de Eusébio devido a uma fotografia deste com Salazar. Terá sido, certamente, uma piada em jeito provocatório, mas quanto a Pina, conhecendo-se-lhe inúmeras alarvidades, atoardas e difamações versando o Benfica, é legítimo duvidar dos seus propósitos. Inclino-me, no entanto, para mais um produto da sua reconhecida veia humorística.

Até porque, se a estátua de Eusébio estivesse mesmo em causa devido a uma fotografia do melhor jogador português de sempre com Salazar, o Sporting, dada a proliferação de figuras proeminentes do Estado Novo nos seus órgãos sociais durante a ditadura, teria de ser extinto.

Basta constatar o currículo dos presidentes dos clubes para se perceber quem teria mais influência nesse período nefasto de Portugal. Com funções relevantes no aparelho fascista houve, pelo menos, Góis Mota, Cazal Ribeiro, Salazar Carreira, Viana Rebelo, Ribeiro Ferreira, Oliveira Duarte no Sporting e Urgel Horta, Ângelo César, Augusto Pires de Lima, Cesário Bonito e Júlio Ribeiro Campos no Porto. No Benfica houve Mário Madeira, presidente durante pouco mais de três anos, e com uma diferença significativa em relação aos mencionados acima: foi eleito livre e democraticamente pelos seus consócios e não por uma assembleia de delegados...

Jornal O Benfica - 19/06/2020

O normal deste jornalismo é mau

Esta semana fomos brindados com um artigo miserável publicado no respeitável Público e uma justificação lastimável do seu director-adjunto, David Pontes.

O artigo versa sobre contratos entre Benfica, Aves e jogadores, que poderão criar uma suposta subalternidade do Aves face ao Benfica, o que poderia condicionar o desempenho desportivo do Aves em jogos com o Benfica.

Não sendo o anátema suficiente, ainda escamoteia a legalidade dos contratos em causa, bem como a sua aplicação generalizada no futebol, em Portugal e no estrangeiro, apresentando o Benfica como se fosse o inventor e fomentador único das tais cláusulas. De forma patética e nunca vista onde impera a seriedade jornalística, socorre-se de opiniões de “especialistas” jurídicos que requereram anonimato, o que me faz sentir tentado a revelar que, de acordo com alguns especialistas em jornalismo meus conhecidos, mas que preferem manter o anonimato, o autor da peça e o Público prestaram um favor a alguém.

Mas mais grave foi a justificação de David Pontes, ao evocar que, no artigo, é possível identificar suspeitas várias e que, portanto, o normal do futebol é mau. Ou seja, o jornal Público levantou suspeitas infundadas sobre contratos para depois o seu director-adjunto usar essas suspeitas infundadas para caracterizar o futebol português, com o Benfica no epicentro de todos os males. Seria maquiavélico se planeado assim. Talvez tenha sido apenas um acidente de percurso.

Parafraseando David Pontes, o normal deste jornalismo é mau e é preciso repeti-lo e que não nos habituemos. E, acrescento eu, espero que o Público continue a ser uma reserva fundamental do bom jornalismo em Portugal, não obstante este episódio lamentável.

Jornal O Benfica - 12/06/2020

Entrevista

Há diversas formas de avaliar um presidente, sendo que prefiro aquela proposta por Joaquim Bogalho: Deve ter-se em conta o estado do clube quando se toma posse, o que foi feito ao longo do(s) mandato(s) e o estado em que se deixa o clube ao sucessor.

Não é um exercício fácil, pois requer profunda cultura benfiquista (conhecimento) e distanciamento da espuma dos dias. Enquanto Luís Filipe Vieira for presidente, e se, entretanto, não mudar de opinião em relação aos seus antecessores, continuarei a sentir-me dividido entre Bogalho e Maurício Vieira de Brito quanto ao “melhor presidente” da história do SLB.

Salvaguardadas estas questões, considero mais que justo incluir, por agora, Luís Filipe Vieira na categoria de candidato a essa “eleição”. O clube melhorou em cada um dos seus mandatos e, para aferi-lo, basta ver o tipo de crítica mais comum em cada momento.

Se hoje se lhe exige um Benfica europeu mais pujante, há dez anos apontavam-se-lhe os escassos títulos nacionais.

Se hoje se lhe exige maior investimento na equipa de futebol, há dez anos era o elevado passivo o que mais atormentava os benfiquistas.

Se hoje se lhe exige o aumento da capacidade de retenção de talento, há dez anos entendia-se como uma inevitabilidade a saída de todo e qualquer jogador perante a necessidade de facturação.

E se hoje se lhe exige menos “obra”, há quinze anos poucos tiveram a clarividência de perceber os benefícios decorrentes, na sua plenitude, do pesadíssimo investimento na construção de um novo estádio e do Benfica Campus.

Na entrevista à BTV identifiquei a determinação habitual e uma visão estratégica para o futuro do Benfica. Gostei muito!

Jornal O Benfica - 05/06/2020

Regresso!

 Se tudo correr bem (ou se nada correr mal) a bola voltará a rolar nos relvados portugueses da primeira liga (nem todos são sempre de “primeira liga”) já na próxima quarta-feira (quinta-feira, dia de Benfica, é o que verdadeiramente interessa).

O uso excessivo de parêntesis acima (não me levem a mal) é propositado. As dez jornadas do campeonato, mais a final da Taça, oxalá sejam realizadas, serão, espero poder vir a dizê-lo daqui a uns anos, um breve hiato na nossa vivência benfiquista. No meu caso em particular, tal é a frequência com que vou ao estádio da Luz, sempre, sinto que o Benfica só joga verdadeiramente em casa se eu lá estiver nas bancadas. Mesmo a ocasional alteração de lugar, que é rara e nunca desejada, revela-se-me, de certa forma, desarmoniosa.

Mas pior que futebol sem público é nenhum futebol. Teremos jogos para ver, golos para festejar e, assim o esperamos, títulos para celebrar. Exigir a eventual perpetuação da suspensão das competições – quando será possível a reabertura dos estádios? – seria um atentado à sobrevivência do futebol tal como o conhecemos.

Pelas avultadas quebras de receitas (direitos televisivos e patrocinadores), mas também por um fenómeno de desabituação. Desconheço estudos sobre este hipotético fenómeno, mas desconfio que, a cada dia que as novas plataformas de distribuição de entretenimento conquistam adeptos, o potencial de transferência destes existe em alguma medida. Afinal, os dias continuarão a ter 24 horas e as carteiras não engordarão certamente. Dir-me-ão que tal nunca aconteceria, mas acho avisado mitigar-se esse risco. E nós, os que vamos aos estádios, até somos minoritários. É na TV, de longe, que se vê mais futebol.

Jornal O Benfica - 29/05/2020

Visita à capital

Já escrevi sobre a falta de pudor, quanto à instrumentalização do Presidente da República, com objectivos comunicacionais, pelo que não me alongarei sobre esse assunto. Que fique registada, no entanto, mais uma inscrição na longa lista de atitudes e actos que consubstanciam a ideia de que, lá para aqueles lados, não se olham aos meios para se atingirem os fins.

Centremo-nos, por agora, no fastidioso “centralismo” e na atoarda “promiscuidade com os governantes”.

Não obstante a obtenção do desejado palco para mais uma tentativa de condicionamento dos decisores, o que é certo é que o rei do “quem não chora, não mama” veio à “capital do império” ao beija-mão.

“Senhor Presidente, dê-nos uma ajudinha, somos uns coitadinhos a quem ninguém nos dá nada. Esqueça lá isso do centro de estágio, do estádio, do canal de televisão, dos investidores que só serão reembolsados sabe-se lá quando, das nomeações de árbitros locais, que isso até é para poupar nas deslocações... o nosso canal, que não é nosso, é da região, precisa de ajuda!”

Não se sabe o que Marcelo terá dito, nem sequer a sua postura corporal, dada a sua conhecida hipocondria e o seu interlocutor, mas hão-de ter sido abordadas coisas, o quê não interessa, não nos esqueçamos que o objectivo era o palco.

De qualquer das formas, o único canal de clube em Portugal – perdão, é regional – a receber uma ajuda do Estado em tempos de pandemia acabou mesmo por ser o (F.C.) Porto Canal. 23 mil euros podem não ser grande coisa, mas o canal também não o é. Afinal, alguém sabe para que serve o dito para além de uns jogos das modalidades e formação e a divulgação de correspondência privada truncada e adulterada?

Jornal O Benfica - 22/05/2020

Regresso à normalidade

 Que ingenuidade, a de Marcelo Rebelo de Sousa, ao deixar-se instrumentalizar por uma personagem maior do lado pantanoso do futebol...

Por mera “coincidência”, os capitães do F.C. Porto, pouco antes da audiência de Marcelo a Pinto da Costa sobre o Porto Canal, insurgiram-se publicamente contra o que consideram ser um atentado à sua liberdade enquanto cidadãos. Lá falaram de coisas e, garantido o palco no final da reunião, o presidente portista debitou outras, incluindo considerações sobre a retoma das competições até que, finalmente, disse o que lhe interessava: não havendo jogos, o Porto deve ser o campeão, confundindo ao evocar o precedente da II Liga e do Campeonato de Portugal pois, como todos sabemos, mesmo havendo subidas e descidas, não há campeões. O objectivo parece-me evidente: se ganharem na secretaria, ficarão felizes (afinal, na secretaria ou em reuniões na Rua da Madalena, tanto faz), mas o que é mesmo essencial é assegurar a receita da presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, não vá surgir pela frente um qualquer Krasnodar.

E o famigerado “centralismo”... Na boca de Pinto da Costa, regionalização soa sempre a regionalismo bacoco, assim como descentralização um mero veículo para a obtenção de mais benefícios. A descentralização que sempre lhe interessou já há muitos anos que está solidificada: Veja-se onde está a Liga e quem a lidera, de onde veio o presidente da Federação e quem de facto sempre tem mandado no Conselho de Arbitragem, para além das sempre úteis parcerias com autarquias amigas, que os custos de fazer um estádio, montar um canal de televisão ou usufruir de um centro de estágio são, fina ironia, demasiado elevados para quem os paga...

Jornal O Benfica - 15/05/2020

terça-feira, 12 de maio de 2020

Fim de quarentena


Todos estamos agradecidos aos benfiquistas que há uns poucos meses dedicaram parte do seu tempo, dinheiro e esforço para homenagearem vinte glórias do Benfica através da aplicação de stencils do rosto dessas glórias na Rotunda Cosme Damião, acompanhados da inscrição “Ousem um lugar na nossa história” e do emblema do Sport Lisboa e Benfica. Não sabemos quem são pois, muito bem, entendem que o destaque deve ser dado aos homenageados e não a quem os homenageia.

Na terça-feira de manhã acordámos com a notícia de que este magnífico exemplar de arte urbana e benfiquismo havia sido vandalizado por uns energúmenos que se julgam adeptos do Sporting. Ainda durante essa manhã houve benfiquistas que se mobilizaram e limparam as paredes, preservando os stencils. E, no dia seguinte, foram contempladas mais glórias. Perante o desalento da constatação de mais um acto aviltante, esses benfiquistas, ao invés de alimentarem o ódio com mais ódio, responderam com amor redobrado ao Benfica. Em suma, à Benfica!

Entretanto, depois da panaceia da dita legalização de claques, o Secretário de Estado do Desporto voltou a insistir, em entrevista, nos supostos méritos do famigerado cartão de adepto. Vá lá que não se tenha lembrado de obrigar esses adeptos a usarem uma estrela de David ao peito...

O que João Paulo Rebelo parece não querer entender é o seguinte: Há adeptos que, como é o caso destes benfiquistas, a terem algo que os identifique, seria uma medalha de mérito. E há outros, como os palermas que, mal terminou o confinamento obrigatório, focaram-se imediatamente numa tentativa de agressão ao Benfica, têm de ser afastados do futebol. Tão simples quanto isto. Sem cartões patéticos, nem legalizações-fantoche!

Jornal O Benfica - 08/05/2020

Quarentena VI


Na semana passada fomos brindados pelo New York Times com um artigo sobre a justiça e o futebol portugueses. Lá como cá, usou-se Benfica para garantir leitores, quer no título, quer a abrir o texto. Isso é perceptível através da leitura da peça, o que exige saber inglês e não ser preguiçoso ou mal-intencionado.

Assim que foi publicado, os propagandistas de meia tijela portistas logo se apressaram, quase acotovelando-se, a destacar o tal artigo, ambicionando figurarem no pódio do servilismo, recheado de anti-benfiquismo, voluntarista e acrítico ao Papa. Alguma comunicação social portuguesa aproveitou a deixa – concertadamente ou por mera vocação ou incompetência (selectiva?) – e replicou os dislates dos outros miseráveis sem dar igual destaque ao conteúdo do artigo por inteiro. E, claro, alguns tontos do Lumiar aproveitaram para darem uma prova de vida.

O artigo parte da escusa pedida pelo juiz nomeado no caso de Rui Pinto para especular sobre a influência social do Benfica e... dos outros dois “grandes”. O jornalista omite que o Benfica nada tem que ver com o caso e surgem declarações especulativas, nos primeiros parágrafos, de “algumas pessoas” e da Madre Ana Gomes do Rato. Porém, a peça continua, o que, tudo espremido, sobra a única acusação concreta, convenientemente ignorada, que passo a transcrever: “Pinto da Costa foi ilibado do envolvimento num escândalo de corrupção após as provas de escutas telefónicas que indiciavam a sua ligação a um esquema de suborno a árbitros terem sido consideradas inadmissíveis por um juiz”. Obrigado, portanto, aos propagandistas de algibeira andrades, recomendando-lhes que leiam integralmente os artigos que publicitam alegremente...

Jornal O Benfica - 01/08/2020

domingo, 26 de abril de 2020

Quarentena V


Gustave Flaubert, na eclosão da guerra franco-prussiana, confrontado com todos os que se desdobravam na asserção de que nada seria igual no futuro, afirmou, contrariando e expondo a vacuidade dessas palavras, que “seja o que for que aconteça, continuaremos estúpidos”. O futuro encarregou-se de validar o seu cepticismo face à humanidade...

É por isso, talvez, que sinto dificuldade em acolher declarações reveladoras de intenções benévolas emanadas de uma suposta introspecção motivada por circunstâncias extremas, por parte de quem, no passado, pela sua conduta, só demonstrou mover-se por interesses próprios ou, pelo menos, nada fez para alterar o curso dos acontecimentos.

Veja-se o exemplo de Infantino, presidente da FIFA, ao dizer que “este período de pausa é perfeito para reformar o futebol mundial”. O mesmo que, conhecendo-se os escândalos relacionados com a atribuição do mundial ao Qatar, não conseguiu – terá tentado? – que o mundial deixasse de ser organizado por esse país ou que não enjeitou a oportunidade de se manifestar satisfeito com o progresso das obras dos estádios no Qatar, participando na escamoteação das condições sub-humanas a que muitos dos trabalhadores dessas empreitadas foram sujeitos... Deve ser levado a sério?

Razão tem Tiago Pinto ao afirmar que “por mais que o mundo mude, o Benfica vai ter a necessidade de continuar a ganhar”. Desenganem-se aqueles que acham que, no essencial, haverá grandes modificações. Assim como o Benfica terá de continuar a ganhar, a deriva anti-benfiquista, sediada em Contumil com uma sucursal no Lumiar, na qual não interessam os meios para se atingirem os fins, persistirá desesperada e insistentemente. Não duvidemos!

Jornal O Benfica - 24/04/2020

terça-feira, 21 de abril de 2020

Quarentena IV


Muito se tem recomendado A Peste, de Camus, ou O Diário da Peste de Londres, de Daniel Defoe, e eu também quero contribuir, propondo o Némesis, do Philip Roth, em que o notável escritor descreveu o impacto, na comunidade, do surto epidémico de poliomielite ocorrido em Newark, em 1944. E já que estamos numa espiral de recomendações literárias, apesar de, infeliz e, creio, tragicamente, não haver assim tantos leitores, prossigamos nessa senda.

No meu caso, confessando-me um privilegiado, as minhas referências literárias para enfrentar a pandemia remetem-me, também, para o Camus, mas ao ensaio O Mito de Sísifo, pois é como Sísifo que me sinto diariamente ao tratar da máquina de lavar loiça, tarefa que me foi atribuída por mera apetência organizacional e total inaptidão culinária, oferecendo-se a coincidência de ter de me caber alguma tarefa doméstica e de alguém ter de tratar da loiça.

E ainda, por ter mais tempo em mãos do que o costume, aconselho a Apologia do Ócio, do Robert Louis Stevenson. Se tenho agora algo de sobra, esse é o tempo. O que, num certo sentido, ou mesmo em vários, se trata de uma dádiva. Tempo para o ócio, entendido por oposição ao trabalho. Tempo para ser, estar, pensar, nada fazer ou nada produzir, além do meu bem-estar e satisfação.

Não admira, portanto, a celebridade de Stevenson (escreveu mais umas coisitas) e a seguinte história envolvendo-o inadvertidamente: Depois de morrer, a sua ama de infância começou a vender o cabelo do escritor que lhe teria cortado e guardado religiosamente durante décadas. Vendeu o suficiente para estofar um sofá, contou Julian Barnes. E isto fez-me pensar nos diários desportivos em tempos de quarentena, fazendo pela vida...

Jornal O Benfica - 17/04/2020

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quarentena III


Na semana passada partilhei a minha embirração pelos discursos, mais moralistas que moralizadores, no ocaso dos telejornais, proferidos por pivots imbuídos de um sentido de missão que, de tão sofregamente manifestado, já se confunde com insistência numa receita supostamente vencedora de audiências. Esses pivots, a continuarem assim, e tendo em conta as naturais limitações das redacções, ainda terão de contratar autores de livros de auto-ajuda para lhes escreverem o sermão diário...

Mas, verdade seja dita, poderia ter referido outros casos como, por exemplo, o aproveitamento generalizado das marcas para, seja por comunicação directa, seja via publicidade, nos atolarem de mensagens pseudo inspiradoras e alertas variados, além de, entretanto, nos lembrarem que existem, claro está. Enfim, já não se pode cumprir uma quarentena em paz.

E, mesmo desligando a televisão ou evitando a publicidade, nem sequer se pode aguardar serenamente pelo fim da quarentena quando esta se revela terreno fértil para a hipocrisia. Veja-se o jornal O Jogo, ao qual só lhe falta defender na sua primeira página, e mais valeria que o fizesse, que o título de campeão covid-19/20 tem de ser atribuído inapelavelmente ao Porto. Quase todos os dias, senão todos, merece destaque algo que indicie ser essa é a única solução possível. A acontecer, o que seria um autêntico apito infeccioso, não surpreenderia por aí além. Nem também que o festejassem alegremente... Resta-me acrescentar que já não detectava tanto empenho do jornal O Jogo desde a última entrevista feita a Pinto da Costa em que, miraculosamente, conseguiu evitar questionar o presidente portista sobre o estado financeiro da SAD e do clube a que preside.

Jornal O Benfica - 10/04/2020

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Quarentena II


Diz o povo que em tempo de guerra não se limpam armas. Curiosamente, nesta que vivemos, até convém limpá-las assiduamente, mas as do nosso inimigo, pois trata-se das nossas próprias mãos.

Já se vê, pela lógica deste pensamento, que a quarentena tem os seus efeitos. Há uns dias dei por mim farto de estar em casa e a ir até ao meu carro, onde permaneci umas horas e li parte de um livro da Anna Burns – “Milkman” – no qual é particularmente bem descrito o ambiente de terror vivido nos anos 70/80 na Irlanda do Norte, onde houve, de facto, uma guerra, no sentido clássico do termo. Nesta, que só Pacheco Pereira parece recusar-se a referir-se-lhe nesses termos, pedem-nos para ficarmos em casa, lavarmos as mãos e praticarmos distância social, o que em certos casos nem é grande o sacrifício, talvez seja mesmo uma benesse.

Para quem tem saúde e não é obrigado a arriscá-la em nome de outrem, e ainda para quem não começa a sofrer já com a paragem da economia, além das saudades de familiares e amigos, os maiores desafios têm sido ocupar o tempo entre paredes (perdeu-se a desculpa “não tenho tempo para ler”) e estar atento aos noticiários de algumas TVs (salva-se a RTP) para se mudar de canal imediatamente antes do início da evangelização diária dos pivots de serviço, num tom que alterna entre a reprimenda e a (proto) inspiração. Como não percebo do assunto, nem me preocupo com audiências, preferiria ouvir notícias. E garanto-vos que não haverá discurso tão inspirador quanto os actos praticados por pessoas e instituições, por vezes pouco ou nada noticiados, entre os quais as doações avultadíssimas do Benfica e dos elementos da sua equipa profissional de futebol, que mereciam mais destaque.

Jornal O Benfica - 3/4/2020

terça-feira, 31 de março de 2020

Quarentena

Levado à letra, Almada Negreiros estava enganado. Aos portugueses, tendo todos os defeitos, não é necessária a coragem por só lhes faltarem as qualidades para serem um “povo completo”. A forma ordeira, empenhada e quase massificada com que a recomendação de distanciamento social foi acolhida e respeitada contradiz esse pessimismo acerca de Portugal, não obstante o previsível botabaixismo que se seguirá, afinal uma das actividades predilectas dos nossos tempos livres.

Teremos, porventura, limitações de toda a espécie, mas compensamo-las com resiliência, voluntarismo e serenidade, entre outras, além da propensão para um certo fatalismo que, embora geralmente indutor de entropias várias, é agora, em tempos de crise extrema como a que vivemos, uma virtude. Aceitar a inevitabilidade de consequências nefastas será o primeiro passo para combatê-las e, pelo menos, mitigá-las. Haveremos de enveredar por um chorrilho de acusações, mas no final do dia interessar-nos-á, sobretudo, que possamos juntarmo-nos à mesa para convivermos, comermos, bebermos e desdenharmos seja lá do que for.

E há o Sport Lisboa e Benfica, exemplo bastante para refutar a tal citação do Almada, pois foram portugueses que o criaram e desenvolveram, inspirados numa visão utópica, logo incumprida, mas continuamente perseguida e almejada. Cada benfiquista tem uma visão para o Benfica, sabendo que o nosso querido clube estará sempre aquém do que projectamos para ele. Nesta catástrofe, a acção da Fundação Benfica e das Casas do Benfica, os planos de contingência e sua imediata implementação no clube e a avultada doação ao Sistema Nacional de Saúde aproximam o Benfica, indubitavelmente, da minha visão do Benfica.

Jornal O Benfica - 27/03/2020

Miseráveis


Passados poucos dias da interrupção das competições desportivas e de quase tudo o resto no país devido ao coronavírus, não se fazendo ideia de quando regressaremos à normalidade, logo os propagandistas portistas de serviço a reclamar a atribuição do título de campeão nacional de futebol.

A única decisão possível será, considerando que estão dez jornadas por disputar, não haver campeão esta temporada. Eles, no entanto, por falta de dignidade, escrúpulos e vergonha, já se movimentam para tentarem que o título lhes caia no colo.

Já são muitos anos a não olharem a meios para atingirem os fins e sabem, por experiência própria, sem se preocuparem com isso, que passados alguns anos de homologada a classificação, quase ninguém prestará atenção às notas de rodapé.

Como, por exemplo, as relativas aos alargamentos das edições do Campeonato Nacional em 1939/40 e 1941/42, ambos para possibilitarem a participação do F.C. Porto, o qual não conseguira o apuramento através do Campeonato Regional. O primeiro desses benefícios até resultou em título para os portistas, mas que lhes interessa isso? Ou aquela ainda acerca dos seis pontos retirados em 2007/08 devido a práticas de corrupção anos antes, castigo a que não recorreram, aceitando implicitamente a culpa, não obstante terem sido ilibados, passados dez anos, por questões administrativas...

Ou, só para dar mais uns exemplos da irrelevância das notas de rodapé, aquela em que, nos seus exercícios revisionistas sobre Calabote, omitem sempre que foram os campeões na época em questão... Ou a da treta do clube do regime em que nunca revelam que o F.C. Porto era instituição de utilidade pública, ao contrário do Benfica...


Jornal O Benfica - 20/03/2020

Mais fortes


Não sinto particular orgulho pelos excelentes resultados financeiros apresentados pela Benfica, SAD no primeiro semestre da corrente época, no seguimento de vários anos de recuperação económica acentuada do clube e SAD. Mas estou bastante satisfeito e, sobretudo, tendo em conta o estado calamitoso dos nossos adversários, encaro o futuro com elevado e justificado optimismo. Acredito que continuaremos a dominar o panorama desportivo nacional e que poderemos dar um salto qualitativo a nível europeu.

Mas este salto deve ser bem estruturado, de acordo com as possibilidades financeiras do Benfica, de forma a que, uma vez atingido o patamar acima daquele em que nos situamos presentemente – ou seja, passar da presença regular na fase de grupos da Liga dos Campeões à disputa frequente dos quartos-de-final – o façamos sem hipotecarmos a sustentabilidade financeira da SAD, para que não caíamos numa situação desesperada como a que vivem Porto e Sporting actualmente.

Seria fácil concentrar o investimento todo numa temporada e esperar que, bafejados pela sorte, que seria sempre necessária, fizéssemos um brilharete. E se corresse mal?

Para obter (relativo) sucesso continuado a nível europeu (candidato crónico aos quartos-de-final), o Benfica terá de crescer sustentadamente a vários níveis, fomentando a competitividade e estabilidade do plantel. A aposta no Seixal é essencial enquanto complemento da maior capacidade de retenção de talento e das contratações cirúrgicas, que envolvem, necessariamente, extraordinária competência no scouting e poder de investimento. Nada disto será possível sem as magníficas contas que alguns afirmam, errada e até perniciosamente, que “não interessam para nada”...

Jornal O Benfica - 13/03/2020

Desiludido...

...mas nada derrotado. Era só o que faltava. Restam onze jornadas, há 33 pontos em disputa e sejamos claros, não obstante os erros que se possam apontar à nossa equipa, temos sobretudo de lamentar a falta de eficácia e de alguma sorte também. O nível exibicional apresentado nas últimas partidas tem estado aquém do desejado, mas seria manifestamente injusto considerar que os resultados espelharam o que se passou em campo, em particular nos jogos com Braga e Moreirense, os quais, pela quantidade de oportunidades de golo criadas, poderíamos ter ganho sem contestação.

Fruto dos desaires, vimo-nos ultrapassados na classificação por um F.C. Porto que não tem convencido. Estou convicto de que, persistindo as exibições descoloridas do nosso adversário, o mais certo será, assim o permitam as equipas de arbitragem, que venha a perder pontos.

É, portanto, proibido desistir. Esta restrição aplica-se ao plantel e a todos nós, benfiquistas, a quem caberá o dever de empurrar a equipa para o bicampeonato que, não duvido, está ao nosso alcance. E diga-se, em abono da verdade, que não refiro nada de transcendental. Ainda no ano passado foi desta forma que conseguimos, todos juntos, conquistar um título que, esse sim, parecia perdido.

P.S.: A cerimónia de entrega dos anéis de platina e dos emblemas de dedicação é um dos pontos altos da militância benfiquista. Comove-me, em particular, ver a emoção dos sócios agraciados com o anel de platina e sonho com o dia, em 2028, em que receberei o emblema de ouro. E, sobretudo, satisfaz-me constatar, a cada ano, a vitalidade associativa do Sport Lisboa e Benfica. Este ano foram mais de três milhares aqueles a quem o clube retribuiu a filiação clubística!

Jornal O Benfica - 06/03/2020

Raridades...


Sem qualquer tipo de ironia, nem sequer sarcasmo, estou convicto de que Jackson Martínez não falhou propositadamente a grande penalidade frente ao F.C. Porto.

É certo que descrever o falhanço como uma aberração ou afirmar que a bola foi parar ao Douro é insuficiente para dar uma ideia aproximada do sucedido. Diria, talvez, que a bola tomou o rumo das teorias da conspiração, passou metros acima da barra conforme requerido nesse contexto, pontapeada por um atleta em tempos dado como reformado após anos de serviço enormemente apreciados por quem anteviu, naquele momento e no pé do seu ídolo, a possibilidade de um sério revés na perseguição ao líder.

Não aconteceu, é futebol, mas imagine-se o chinfrim se Jackson se chamasse Jonas ou Cardozo, e alinhasse por um clube, se existisse, tido como um entreposto do Benfica. O insolvente, o proto procurador geral da república desportiva do Twitter e o eremita das catacumbas de Contumil não se calariam, beneficiando da sempre solícita colaboração de órgãos de comunicação social outrora respeitados, mas agora nitidamente capturados, para amplificar as insinuações e acusações, os pseudojulgamentos na praça andrade e as exigidas condenações.

Mas recuemos ao lance que originou a grande penalidade, uma falta que se revelou evidente nas repetições e acertadamente assinalada pelo VAR, o que por si só é uma raridade, já que o beneficiado da decisão não foi o F.C. Porto. Acresce que nem árbitro nem VAR da partida em questão pertencem à Associação de Futebol do Porto, outra raridade. É caso para dizer que as boas decisões não acontecem por acaso. E também para perguntar se, desta vez, o Fontelas Gomes se distraiu nas nomeações ou se subavaliou o impacto da quinta-feira europeia...


Jornal O Benfica - 28/02/2020

Aqui d'el Rei


Marega, como Tomás Tavares, Renato Sanches ou Nélson Semedo, só para evocar casos recentes relacionados com futebolistas do Benfica, foi vítima dos impropérios de energúmenos pouco imaginativos que recorreram ao insulto racista para antagonizarem um jogador da equipa adversária. O francês/maliano rejeitou a dupla acusação de ser adversário e ter a tez escura, disse basta e, muito legitimamente, recusou continuar em campo.

De repente, todos reconhecemos que há racismo em Portugal. E, ainda mais subitamente, apercebemo-nos da normalização da cultura do insulto e da violência nas bancadas dos estádios de futebol (e pavilhões). A urgência generalizada de se dizer qualquer coisa vitalizou até alguns espantalhos, como o Presidente da Liga, Pedro Proença, ou o Secretário de Estado do Desporto, João Paulo Rebelo, obrigando-os a pronunciarem-se sobre o assunto, não obstante ainda recentemente, à semelhança de muitas outras situações, se terem remetido a um silêncio ensurdecedor acerca dos bonecos, trajados à Benfica e à árbitro, enforcados num viaduto. Mais vale tardíssimo que nunca.

Há muito que grassa o sentimento de impunidade no futebol, prevalecendo a inacção. E, por vezes, lá se estabelecem umas regras draconianas, obviamente impossíveis de serem cumpridas, para que se possa afirmar que alguma coisa se tentou fazer, apesar de ser evidente que apenas se perpetua o que está mal.

Dois pequenos passos: Dos clubes e comunicação social, rejeição dos eufemismos e condenação veemente da violência, incluindo a verbal, sem excepções, atenuantes ou relativizações; Responsabilização individual de quem pratica a violência (expulsão e recusa do acesso aos estádios; denúncia às autoridades).

Jornal O Benfica - 21/02/2020

Acredite ou não, estamos em 2020


Coacção a árbitros; Vandalização de Casas do Benfica; Agressões a benfiquistas; Distúrbios junto ao hotel em que a nossa equipa pernoitou; Intimidação, à máfia, de benfiquistas e árbitros; Faixas insultuosas; Interferência no balneário; Arremesso de objectos ao nosso guarda-redes; Etc.

E o que farão Liga, Federação e Governo a este respeito? Nada! Talvez debitem umas meras palavras de circunstância, em que referirão genericamente a necessidade de todos zelarmos pela imagem do futebol português ou qualquer outra inocuidade. Mas haverá diferenças.

Proença, caso não se remeta a um silêncio estratégico, di-lo-á com um sorriso. Fernando Gomes assumirá um ar grave. E João Paulo Rebelo, burocraticamente, que esse só se motiva verdadeiramente com a panaceia da legalização das claques, talvez debite uma qualquer mediocridade, pois é a sua natureza.

Luís Filipe Vieira clamou, e bem, pela nomeação de árbitros estrangeiros em jogos de Benfica e Porto. O clima de intimidação e coacção aos árbitros é terceiro-mundista, os árbitros estão obviamente condicionados – a alternativa é serem uma cambada de ladrões. E o presidente da APAF que, pelos vistos, relativiza esta barbaridade, logo se insurgiu contra a sugestão. Não me surpreendeu.

Fontelas Gomes também não. Nomeou, para um dos jogos mais importantes do ano, um árbitro da AF Porto, com estabelecimento comercial aberto na cidade do Porto, cujo histórico é, nomeadamente desde que foi interpelado por adeptos portistas no Centro de Alto Rendimento da Maia, notoriamente benéfico para o F.C. Porto. E, para VAR, o tipo que protagonizou o famigerado e patético episódio da moeda de cinco cêntimos no estádio da Luz. Não haveria mais ninguém?


Jornal O Benfica - 14/02/2020

Clássico


Décadas de arbitragens horríveis, creolinas, abéis e outros quejandos, além de algumas equipas mais fracas, fizeram com que, a determinada altura, perspectivar um jogo em casa do F.C. Porto se tornasse num cenário dantesco em que a dúvida assentava, ao invés de quem sairia vencedor da partida, na forma como seríamos derrotados. Se não fosse pelo futebol jogado, lá haveria de aparecer o operador da guilhotina, trasvestido de árbitro, sempre solícito e servil à causa portista, para decepar as nossas legítimas aspirações. Tivemos de melhorar muito a qualidade dos nossos plantéis para conseguirmos nivelar o campo e lutarmos por resultados positivos.

Nos últimos cinco anos, vencemos duas vezes e empatámos outras duas, perdendo somente numa ocasião. Não por acaso, fomos campeões nacionais cinco vezes nas últimas seis épocas, o que demonstra cabalmente a superioridade das nossas equipas ao longo deste período.

Jogar hoje no Dragão continua a ser o jogo mais difícil para o Benfica. As circunstâncias, amanhã, serão mais favoráveis do que o costume, mas as nossas vitórias surgem pelo que fazemos no campo e não por aspectos laterais.

Ganhando poderemos, e sem qualquer euforia, começar a gerir a temporada de acordo com a participação na Liga Europa, sabendo que só um cataclismo inverteria a marcha do campeão. Empatando, ficaremos bem encaminhados para o título. Perdendo, continuaremos a dispor de uma vantagem pontual interessante, relembrando que a derrota na primeira volta com o F.C. Porto não nos impediu de chegarmos a sete pontos de avanço. A receita é simples: ignorar o contexto, enfrentar eventuais adversidades e jogar à Benfica. Desse modo, estaremos sempre mais próximos de ganharmos!

Jornal O Benfica - 07/02/2020

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Ao (des)milímetro


A velocidade média de um jogador de futebol, quando arranca e sprinta, é 29 Kms/hora (35 metros em 4.3 segundos). Ou seja, ligeiramente acima de 8 metros por segundo. Se o VAR, em Portugal, usar 300 frames por segundo, o que estaria na vanguarda deste tipo de tecnologia, significa que, entre cada frame, há uma distância média de 2,7 cms.

Escolher o frame exacto é, de certa forma, aleatório, e as linhas têm de coincidir com a parte do corpo mais adiantada (de dois jogadores, outro passo complicado). Portanto, é evidente que deveria haver uma margem de erro suficiente para prevenir os erros até certa medida. E a lei do jogo até é indicativa de quem deverá ser beneficiado nessa margem: os atacantes.

Acontece que o Benfica teve um golo anulado devido a um fora-de-jogo, supostamente, por escassos quatro centímetros. Dois frames antes, em 300 (0,006666 segundos antes), e as linhas rigorosamente colocadas e possivelmente teria sido golo.

Felizmente ganhámos e este lance foi irrelevante para definir o vencedor. Assim como o da grande penalidade por marcar a nosso favor, numa falta mais que evidente sobre Rúben Dias. Se no fora de jogo abusivamente assinalado houve centímetros a mais, no (não) penálti houve, nas lentes de árbitro e vídeoárbitro, se as usam, dioptrias a menos. Ou não precisam de lentes, o que piora a situação. Não me surpreende, infelizmente.

P.S. A propósito do trágico falecimento de Kobe Bryant, além de manifestar o meu pesar e partilhar a enorme admiração que lhe devotei, apraz-me referir que as homenagens póstumas, como os cemitérios, servem mais aos vivos do que aos mortos. Esta é uma das razões, talvez a principal, do meu orgulho pelo nosso extraordinário museu.

Jornal O Benfica - 31/1/2020

Sete pontos de avanço


Começo por louvar o acto de benfiquismo do juiz desembargador do tribunal da relação do Porto, Eduardo Pires, ao pedir escusa do processo que condenou o F.C. Porto e afins a pagarem cerca de dois milhões de euros de indemnização ao Benfica. Fê-lo por considerar que o seu benfiquismo – sócio há mais de 50 anos e (pequeno) accionista da SAD – poderia levantar suspeitas quanto à sua imparcialidade no julgamento dos recursos interpostos pelos condenados e pelo Benfica.

Considero, no entanto, canhestro que um juiz, cujo exercício da sua profissão assenta no escrupuloso respeito pela lei, se sinta na obrigação de recusar um processo devido à sua preferência clubística. E o mais grave é que fez muito bem, pois os propagandistas de vão de escada, as caixas de ressonância dessa propaganda e alguns idiotas úteis já se encarregaram de lhe demonstrar que está coberto de razão.

Isto porque, conforme revelado pelo juiz, recebera e recusara um convite do call center do Benfica para visitar o Benfica Campus. E, ao tomarem conhecimento deste facto, os propagandistas de vão de escada logo aproveitaram para insinuar uma relação entre a nomeação do juiz e a existência desse convite.

Acontece que as visitas ao Benfica Campus começaram em setembro e foram já convidados milhares de sócios do Benfica, respeitando o critério da antiguidade. Só eu, que saiba, conheço seis nossos consócios, sendo que um deles foi o meu pai, que visitaram as nossas extraordinárias instalações no Seixal e não me consta que qualquer deles seja juiz.

Ideal mesmo, para que não se levantem suspeitas, é arranjar algum promotor turístico, daqueles que recomendam Vigo, para julgar o caso.

Jornal O Benfica - 24/1/2020

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...