sábado, 27 de janeiro de 2018

Continuaremos na luta

É opinião generalizada (e acertada, do meu ponto de vista) de que houve um Benfica pré e outro, para muito melhor, pós Krovinonic. Mas se me parece indiscutível que o jovem croata se revelou uma peça fundamental na melhoria substancial da produção futebolística da nossa equipa, já me parece abusivo considerar-se que tal se deveu unicamente à sua enorme capacidade técnica e táctica.

A alteração de sistema foi fundamental, face ao rendimento titubeante de Pizzi e às dificuldades de Jonas, na primeira metade desta época, para ser, simultaneamente, o principal concretizador e criador das manobras ofensivas. Pizzi passou a jogar apoiado no meio-campo, o que o libertou de algumas responsabilidades ofensivas e, sobretudo, reduziu-lhe o espaço que lhe cabe nas tarefas defensivas. Jonas, por seu turno, ganhou liberdade de movimentos e, curiosamente, por jogar sem um jogador mais fixo ao seu lado, tem beneficiado de mais espaço na área contrária. Krovinovic revelou-se o apoio ideal a Pizzi e demonstrou a importância de dar seguimento a todas as jogadas, não só pela intencionalidade ofensiva, mas também por raramente perder a posse de bola, evitando assim desequilíbrios defensivos. A mudança de sistema beneficiou também os extremos e laterais, pois passaram a rarear as situações de inferioridade numérica junto às linhas.


Porém, entretanto, a equipa, como um todo, subiu de forma, reencontrou-se com o seu objectivo principal, o penta, pois é notório que os níveis anímicos estão mais elevados. Neste momento, é bastante mais fácil para João Carvalho ou Zivkovic (acredito que seria uma boa opção) assumirem as despesas que têm estado a cargo de Krovinovic do que teria sido há uns meses...

Jornal O Benfica - 26/1/2018

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Rumo ao penta

Muito honestamente, não acredito que os futsalistas do Sporting tenham facilitado intencionalmente a vitória do Benfica na final da Taça da Liga. A nossa equipa apresentou-se notavelmente sólida do ponto de vista defensivo e foi competente no capítulo ofensivo, conseguindo aproveitar cinco das inúmeras oportunidades de golo criadas. O mérito do triunfo pertenceu inteiramente à equipa do Benfica, que não haja qualquer dúvida. Assim como na excelente vitória alcançada em Braga pela nossa equipa de futebol.

O Benfica, com Rui Vitória, saiu vitorioso do Minho mais uma vez. E sublinhe-se que a equipa roçou o brilhantismo do ponto de vista táctico, exibindo-se a alto nível e demonstrando que está comprometida com o desígnio do penta. Se em tempos poderá ter dado a sensação a alguns benfiquistas (e a todos os analistas sequiosos por um desaire do Benfica) de se ter instalado uma certa descrença no balneário benfiquista, hoje, no seguimento das últimas jornadas, já não há quem duvide da sintonia entre as palavras e os actos, em que as manifestações de candidatura ao título são mesmo para serem levadas a sério. Faltam 16 jornadas, 16 finais, e eu, à semelhança da esmagadora maioria dos benfiquistas, acredito que temos condições para lutar pelos três pontos em cada uma delas.


Entretanto, no jogo em Braga ocorreu mais um caso – o penálti sobre Jonas – que permitiu identificar os “especialistas” da arbitragem que parecem tudo menos imparciais. Segundo as regras, que são claras neste caso, é irrelevante avaliar a posição de Jonas, uma vez que a falta foi cometida antes do nosso avançado disputar o lance. A incompetência é demasiada para ser credível, sobra o antibenfiquismo…

Jornal O Benfica - 19/1/2018

110 Histórias à Benfica

O "110 Histórias à Benfica" foi publicado em Fevereiro de 2014 pela Prime Books, coincidindo com o 110º aniversário do Sport Lisboa e Benfica. É uma versão revista, melhorada e aumentada do "100 Histórias à Benfica". Escrevi-o em co-autoria com o Fernando Arrobas novamente, e nem outro cenário faria sentido. Foi o meu primeiro livro publicado por uma editora.

Através do responsável de merchandising e licenciamento da marca, chegámos à fala com a Prime Books, que era uma das editoras licenciadas pelo clube. Embora não fizesse ideia numa fase inicial, a publicação por uma editora licenciada pelo Benfica era fundamental, pois só assim o livro poderia ter o selo "Produto oficial SLB" e, consequentemente, ser vendido na loja e site do Benfica.

Confesso que essa inevitabilidade não me entusiasmou numa primeira instância. Julguei que, por já termos "queimado" cerca de 700 potenciais compradores, a ideia não colheria entusiasmo por parte da Prime Books e o projecto morreria à nascença. No entanto, ao fim de cinco minutos de reunião, o director-geral da Prime Books, Jaime Cancella de Abreu, disse-me que tinha interesse em publicar o livro e que achava que, com algumas modificações, estariam reunidas as condições para viabilizar o investimento.

Comparando o "110 Histórias à Benfica" com a versão original, todas as melhorias partiram de sugestões do Jaime. E foram as seguintes (além da actualização dos dados estatísticos):
- Mais dez histórias: O objectivo foi diferenciar os livros e aproveitar o 110º aniversário do clube;
- Eliminar o constrangimento de uma história por página, o que nos permitiu aprimorar os textos;
- Acrescentar citações, tabelas, etc, às histórias, se não a todas, à larga maioria delas;
- Nova capa e paginação;

Em suma, o profissionalismo e know-how da Prime Books expôs o nosso amadorismo e reconheço-o agradecido. O lançamento esteve previsto para Novembro de 2013, o que não veio a acontecer devido à revisão, que se revelou mais demorada do que julgávamos. O adiamento para Fevereiro seguinte foi sugerido pelo marketing do Benfica, que assim poderia incluir a obra na gama de produtos relacionada com o aniversário do clube.

Devido ao falecimento de Eusébio em 5 de Janeiro de 2014, o clube, e muito bem, cancelou todas as iniciativas previstas para o aniversário. Apesar do lançamento do livro continuar programado para Fevereiro, eu e o Fernando, assim como a Prime Books, entendemos que não faria sentido realizar a sessão de apresentação naquela altura. Não estávamos, e julgo que nenhum benfiquista estaria, para festividades. Regozijo-me, no entanto, pela dor da nação benfiquista ter sido canalizada para o apoio à equipa de futebol, sem dúvida alguma essencial para o regresso ao estatuto de campeão nacional.

Apesar da escassa promoção, que se limitou às redes sociais, da edição de autor do "100 Histórias à Benfica", da inexistência da apresentação e da publicação de mais dois livros nesse ano, as vendas foram boas (hoje sobram poucas unidades de uma tiragem considerada normal para livros de desporto em Portugal). Escusado será de dizer que já pensava no próximo...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Livro "100 Histórias à Benfica"

Para todos os efeitos, este foi o meu primeiro livro, apesar de nunca o referir na minha bibliografia. Escrito e concebido em parceria com o Fernando Arrobas, foi publicado em Dezembro de 2012 (edição de autor). O bicampeão europeu José Augusto teve a gentileza de escrever o prefácio, o que nos honrou imensamente e que, por si só, já valeria o tempo e empenho dedicados a este projecto.

A participação num grupo de benfiquistas no Facebook foi fulcral para o surgimento do "100 histórias à Benfica". Esse grupo, cuja actividade, entretanto, diminuiu drasticamente, foi o responsável por diversas iniciativas em prol do Benfica, sendo as mais conhecidas, talvez, a placa da fundação em Belém, no edifício onde o clube foi fundado, um vídeo de apoio à equipa de futebol divulgado em Abril de 2013 (19/04) e as pinturas junto a uma das entradas do estádio da Luz (Farmácia Franco; Cosme Damião; Coluna; etc).

Inicialmente, o propósito desse grupo era o de juntar benfiquistas curiosos por conhecer a história do clube. Ao fim de algum tempo, apercebi-me de que, não só tinha muito para contar (desde miúdo a devorar livros sobre o Benfica...), como havia inúmeros interessados nas histórias que ia partilhando. A ideia do livro pareceu-me óbvia e o conceito simples e cativante: 100 histórias sobre a história do Benfica, cada uma contada de forma a ocupar uma página (o que dificultou bastante porque cada história tem exactamente 28 linhas, nem mais, nem menos).

A selecção de 100 histórias foi o primeiro passo e também o mais difícil. A história do Benfica é tão vasta e gloriosa que acabei não por escolher, mas por excluir imensas histórias (esta experiência influenciaria a forma como o meu terceiro (quarto) livro, "Plantel Glorioso" foi concebido). Salvo erro, identifiquei 157 histórias que julguei merecedoras de serem contadas, apesar de filtrar antecipadamente essa lista com recurso a critérios relativamente apertados do meu ponto de vista. Feita a lista, lancei mãos à obra.

A meio do processo, pensei em desistir, talvez por não ter a motivação suficiente para encontrar o tempo necessário à conclusão do livro no prazo que estipulara. O entusiasmo inicial esboroara-se e foi por essa altura que o Fernando Arrobas se revelou fundamental.

O Fernando também fazia parte do grupo de benfiquistas referido acima e foi aí que nos reencontrámos após longos anos sem qualquer contacto. Rapidamente admirei a sua cultura benfiquista e a nossa amizade foi crescendo, até que acabámos por conversar sobre o livro que eu estava a escrever. O seu entusiasmo foi tal que, em boa hora, decidi convidá-lo para escrever o resto do livro comigo. Por um lado, aliviei a minha carga de trabalho, por outro renovei o meu entusiasmo. Além disso, algumas das sugestões do Fernando melhoraram indiscutivelmente o livro, não só ao nível do conteúdo, mas também e principalmente no formato, sem menosprezar o trabalho de revisão que creio ter saído claramente beneficiado da parceria. Daí até ao produto final foi rápido e o que estava pensado para ser uma brincadeira tornou-se algo mais ou menos sério.

As fotos do João Paulo Trindade acrescentaram valor ao livro. É um excelente fotógrafo que, passados dois ou três anos, foi contratado pelo Benfica. Fiquei tão feliz por ele como pelo clube, pois está muito bem servido.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Benfiquismo

Não me apetece escrever sobre iníquos cuja vontade de ganhar serve de pretexto suficiente para perpetrar uma campanha vergonhosa e atentatória do bom nome do Benfica, muito menos sobre incompetentes que se deixam coagir por trogloditas ou difamadores. Pelo contrário, referirei exemplos, ocorridos esta semana, do que me motiva enquanto benfiquista e amante do desporto.

A cadência goleadora de Jonas é tal que, por vezes, ofusca o brilhantismo das suas acções em campo. A inteligência apurada e a técnica requintada empregues pelo nosso avançado em campo são raras, ainda mais se agrupadas. Acresce a águia ao peito, e os golos, imensos, para todos os gostos e feitios, além dos títulos, perfazendo a simbiose perfeita que me leva, não a invejá-lo, mas a admirá-lo profundamente por ser o homem que personifica a fantasia mais arreigada na minha existência, a de ser o melhor futebolista do Benfica.

No basket, um minuto, que prometia arrastar-se por ser o último de um jogo decidido, tornou-se no mais interessante da partida. Imprevisivelmente, um jovem da equipa B concretizou três triplos consecutivos. Acontece que esse miúdo carrega o apelido pesado do seu pai, Lisboa. Não sei se o Rafael atingirá o estrelato na modalidade, mas os genes estão lá. E sobretudo tem a capacidade de trabalho que lhe permite sonhar e, para já, ter protagonizado um momento inesquecível.


Por fim, o falecimento de Gastão Silva, aos 94 anos, votado ao esquecimento – talvez seja este o maior problema da velhice – cujo contributo incomensurável para a causa benfiquista nunca deverá ser olvidado. Viver o Benfica é também reconhecer e agradecer o contributo de quem tanto o ajudou a crescer. Obrigado!

Jornal O Benfica - 12/1/2018

Dérbi

O que escrever antes do dérbi sabendo que, qualquer que seja o tema abordado, será relegado para segundo plano em detrimento das incidências da partida. Os jogos com o Sporting, apesar de o FC Porto se ter tornado no nosso principal adversário, são os mais me entusiasmam, não só por ser lisboeta ou por conhecer a história de ambos os clubes e sua rivalidade, mas também e sobretudo por ser de um tempo em que, na infância, ao conhecer um potencial novo amigo, a resposta à pergunta obrigatória se seria benfiquista ou sportinguista poderia condicionar a natureza da relação. Claro que nem a partilha do benfiquismo garantiria proximidade ou, pelo contrário, o antagonismo excluíria de imediato a possibilidade de amizade, mas é evidente que a afinidade clubística tornaria tudo mais fácil.

Então não o sabia, embora já o adivinhasse, mas há uma marca indelével do benfiquismo que diferencia os benfiquistas dos sportinguistas (e portistas). Os benfiquistas, como os outros, são adeptos do seu clube e não gostam dos rivais. Porém, distingue-nos não encontrarmos na antipatia pelos rivais um estímulo essencial à nossa existência. Neste plano, tanto Sporting como FC Porto não são apenas clubes, mas um patético anticlube também. E quando essa característica extravaza o mero sentimento e se consubstancia numa campanha miserável que visa, única e exclusivamente, denegrir o seu ódio de estimação, o Benfica, sinto um misto de raiva e desprezo conflituantes, dando por mim indeciso se os hei-de insultar ou remetê-los à sua insignificância.


Enfim, espero que tenhamos ganho o dérbi. Empatar na Luz com o Sporting é triste, perder é humilhante. Na prática, como com qualquer adversário.

Jornal O Benfica - 5/1/2018

2018

Com a chegada do novo ano, renovam-se as expectativas de acordo com o contexto da época em curso. Assim, no futebol, espero a conquista do penta. É certo que a nossa equipa não tem conseguido exibir-se ao nível que todos aguardávamos e que as restantes competições foram entretanto perdidas, mas estou convicto que 2018 será ano de penta e de mais uma Supertaça.

Não apenas por fé, mas porque creio que a equipa técnica e os jogadores saberão acrescentar regularidade aos bons períodos exibicionais alcançados em vários dos jogos mais recentes. Prevejo ainda que a B se classificará a meio da tabela e será bem sucedida no desiderato benfiquista do firmamento do clube quanto à sua capacidade formadora. João Félix, Gedson Fernandes, Florentino Luís e Ferro são os que, do meu ponto de vista, mais possibilidades têm, neste momento, de poderem vir a ter a oportunidade de integrarem o plantel da equipa “principal” num futuro próximo.


Quanto às restantes modalidades, não espero menos que o título nacional em atletismo, basquetebol, hóquei em patins e voleibol. Um senão apenas para o hóquei, por não confiar – e julgo ter razão para isso – na arbitragem portuguesa e em quem a dirige. Teremos que ser bem mais fortes que os adversários e desejo que Pedro Nunes e os nossos atletas nunca se deixem abater pelas dificuldades que nos são indecentemente impostas. Relativamente ao andebol e futsal, sofremos o constrangimento de termos partido atrás da concorrência (isto é, não entramos em loucuras e preferimos garantir a sustentabilidade das modalidades que gastarmos mundos e fundos que não temos). Porém, ambas as equipas têm melhorado o seu nível competitivo e poderão vencer.

Jornal O Benfica - 29/12/2017

Vídeoárbitro

O futebol português é tão caricato quanto previsível. Quando a Federação Portuguesa de Futebol anunciou a intenção de implementação da vídeoarbitragem em Portugal, escrevi uma crónica em que argumentei em prol dessa decisão, mas deixei uma advertência aos que pensavam que o recurso a tecnologias de apoio à decisão dos árbitros resolveria os problemas da arbitragem portuguesa e, sobretudo, aos que, ingenuamente, julgavam que o ambiente conflituoso em torno da arbitragem se dissiparia.

Com vídeoarbitragem, o futebol português não deixaria de ser o futebol português, isto é, uma actividade na qual pululam os agitadores e, simultaneamente, impera a incapacidade para o reconhecimento do mérito dos adversários. Chega a ser quase irrelevante ganhar ou perder, desde que se garanta que a percepção da justiça ou injustiça dos triunfadores prevaleça em quem ganha e perde, respectivamente. De alguma forma, todos ganham e talvez seja melhor assim! Além disso, persistiriam os lances de difícil análise, sujeitos à interpretação dos árbitros, árbitros assistentes e vídeoárbitros, e as análises de observadores supostamente isentos (como se a maior parte não tenha a sua agenda, seja devido a preferência clubística ou posicionamento no sector da arbitragem), já para não mencionar o barulho criado com o objectivo do condicionamento da actuação futura dos diversos agentes.

Importa, por isso e antes de mais, perceber que a vídeoarbitragem, enquanto instrumento de apoio à decisão dos árbitros, é indiscutivelmente útil. São já inúmeros os exemplos em que esta ferramenta corrigiu más decisões da equipa de arbitragem no campo ou confirmou boas decisões, porém passíveis de contestação aparentemente legítima no campo. Ainda recentemente, no Paços de Ferreira – Boavista (como, entre tantos outros, no Sporting – Estoril nos descontos), a equipa caseira adiantou-se no marcador nos primeiros minutos. Se não fosse o vídeoárbitro, o tento inaugural da partida teria sido erradamente anulado devido a um pretenso fora-de-jogo. Como este ocorreram já diversos casos que legitimam a utilização do vídeoárbitro. Porém, temos assistido igualmente a decisões que levantam questões pertinentes quanto à utilidade desta ferramenta e que, do meu ponto de vista, derivam da má concepção do protocolo de actuação do vídeoárbitro. O FC Porto – Benfica é um bom exemplo, em que subsistiram dúvidas quanto ao acerto de diversas decisões da equipa de arbitragem.

Para resumir, evoco apenas dois lances que expõem a necessidade de melhoria do protocolo de utilização do vídeoárbitro: Uma entrada violenta de Felipe sobre Jonas; O lance mal anulado por fora-de-jogo ao ataque portista que poderia ter resultado em golo.

Quanto ao primeiro lance, o defeito do protocolo reside na não interferência do vídeoárbitro em lances de interpretação e difícil ajuizamento do árbitro, o que julgo não fazer qualquer sentido. O princípio de não interferência neste tipo de lances, além da dificuldade em se aquilatar se o vídeoárbitro deverá ou não informar o árbitro que o lance deverá ser revisto, coloca o vídeoárbitro numa posição em que contesta a decisão do árbitro. No enquadramento actual, as decisões finais são do árbitro de campo, mas fortemente influenciadas pelo contributo do vídeoárbitro. Logo, e até para evitar situações em que o vídeoárbitro prefira não intervir por alguma forma de deferência em relação ao árbitro, será desejável que se permita ao vídeoárbitro questionar as decisões do árbitro sempre que entender, ficando claro que o objectivo é providenciar uma ferramenta ao árbitro para a tomada de decisões, ao invés de o colocar numa posição de alguma forma fragilizada. Para tal é essencial que a decisão (definitiva) seja tomada pelo árbitro através do visionamento das imagens sempre que haja alguma dúvida. No caso particular do tal lance de Felipe, Jorge Sousa entendeu que não deveria admoestar o central portista com um cartão. À luz do protocolo, o vídeoárbitro não interpelou o árbitro para o fazer ou rever o lance e decidir. Após o jogo, todos os analistas consideraram que o jogador deveria ter recebido um cartão, só divergindo na cor. O amarelo teria condicionado a actuação do jogador. O vermelho a da equipa.

No segundo lance referido, houve um fora-de-jogo mal assinalado que interrompeu uma jogada de perigo iminente para a baliza benfiquista. Na continuação do lance, a bola chegou até a entrar na baliza, mas é errada a afirmação de que existiu um golo mal anulado. O protocolo do vídeoárbitro, neste tipo de lances, não chegou a ser aplicado. As regras ditam que o árbitro, ao ter uma indicação do árbitro assistente de que há fora-de-jogo, deverá aguardar pelo desfecho da jogada. Por desfecho da jogada entende-se o primeiro remate após a indicação de fora-de-jogo, o qual foi defendido pelo guardião benfiquista Varela. O vídeoárbitro já não poderia ser utilizado na recarga ao primeiro remate. O mesmo se passara na jornada anterior, no Benfica – Estoril, em que uma jogada em tudo semelhante (a diferença é que o primeiro remate foi à barra) poderia ter resultado num golo benfiquista (também Jonas chegou a marcar). Com o vídeoárbitro, esta regra deveria ter sido melhorada, podendo-se estender o conceito de “desfecho da jogada” e recorrer-se, sempre que necessário, à consulta de imagens para a tomada de decisão (por exemplo, a jogada não terminaria enquanto a equipa adversária se limitasse a tentar impedir que a bola entrasse na sua baliza).

Porém, o constrangimento mais relevante no vídeoárbitro relativamente aos lances de fora-de-jogo reside na avaliação do trabalho dos árbitros assistentes. Um erro posteriormente corrigido devido a indicação do vídeoárbitro conta como um erro. Ou seja, para efeitos de avaliação do árbitro assistente, é como se o vídeoárbitro não existisse. Percebe-se a intenção, pois um erro é um erro, no entanto julgo que, existindo o vídeoárbitro, deveria convidar-se os árbitros assistentes a não sentirem tanta necessidade de se protegerem. O problema é o seguinte: Um lance em fora-de-jogo tem mais probabilidades de ser transformado em golo e os árbitros sabem-no, enquanto um fora-de-jogo mal assinalado interrompe a jogada ou levanta dúvidas se seria golo mesmo que a bola entre na baliza porque, geralmente, os defesas e o guarda-redes desistem do lance. E isto faz toda a diferença na gravidade do erro, contrariando as indicações dadas aos árbitros assistentes que, em caso de dúvida, deverão beneficiar a equipa atacante.

Para tornear este problema, bastaria seguir o que tem sido feito noutras modalidades que adoptaram o vídeoárbitro há alguns anos. No râguebi e no futebol americano, existe o conceito da bandeira. Em poucas palavras, há uma indicação de falta mas o jogo continua. Se o lance for determinante, exige-se a revisão das imagens televisivas após a sua conclusão. No basquetebol, esta possibilidade aplica-se às dúvidas quanto aos lançamentos de dois ou três pontos. Se um dos árbitros tiver dúvidas se o lançamento convertido tiver sido de dois ou três pontos, dá uma indicação aos oficiais de mesa para que, na paragem de jogo seguinte, o lance seja revisto. A vantagem está em permitir que a equipa que sofreu o cesto possa repor a bola rapidamente em jogo e que não seja prejudicada devido à dificuldade dos árbitros em avaliarem o lance anterior, além, evidentemente, da defesa da verdade desportiva.

Porque é de verdade desportiva que trata o recurso a tecnologias de apoio à decisão dos árbitros. Se, no fim de uma competição, se chegasse à conclusão que o vídeoárbitro só teria tido aplicabilidade num único lance, já seria positivo. E está à vista que, não obstante os defeitos do protocolo implementado e eventuais erros aqui ou ali, foram vários os lances que foram bem ajuizados em cada uma das jornadas.


Entretanto, enquanto o futebol português se entretém a discutir o acessório, chamo a atenção para o que City Football Group tem vindo a fazer e as repercussões que a sua actuação no futebol poderá vir a ter na forma como o futebol será organizado no futuro. Não se trata apenas da empresa que detém o capital do Manchester City, mas de um grupo que controla directa ou indirectamente sete clubes, além de outras valências futebolísticas. E não é caso único, bastando referir a Red Bull e os seus quatro clubes. Qual será o primeiro clube ou SAD portuguesa a integrar um destes grupos? Fica a questão e talvez tema para uma próxima crónica…

Vida Económica - 22/12/2017

O Benfiquismo é sempre a solução

O Benfica está sob um ataque sem precedentes, com origem criminosa e o aparente beneplácito de diversas autoridades, perpetrado por gente sem escrúpulos que convive confortavelmente com a ideia de que os meios, por mais ignóbeis que sejam, justificam os fins. A simbiose entre o ódio ao Benfica e o instinto de sobrevivência é o seu combustível. São uns sabujos, são reles, uns miseráveis. São os legítimos herdeiros em vida de décadas de práticas que desvirtuaram a competição futebolística em Portugal. São indignos, uns escroques, são asquerosos.

Olho por olho, dente por dente? Não! Somos o Benfica! Saberemos combater estes indigentes com benfiquismo, que foi, é e será sempre o que mais os atinge. Por cada pormenor da vida privada ou segredo de negócio expostos na praça pública, mais benfiquismo. Por cada insinuação, benfiquismo acrescido. Por cada tirada demagógica, insidiosa ou caluniosa, reagiremos com infinito benfiquismo, reduzindo-os à sua insignificância.

Passada a espuma dos dias, o Benfica continuará a ser o Benfica e o Benfiquismo indestrutível. Estes ignorantes subestimam a fé inquebrantável no nosso Benfica. Venham eles e venham os outros, que nós cá estaremos, de águia ao peito, imunes ao lodo do antibenfiquismo.


P.S. A FPF que crie uma comissão para analisar os títulos corruptos no futebol português. Levaríamos uma abada, mas, ao contrário da dedicada aos títulos desportivos, não seria motivada por revisionismo. Relatório da FPF 1938/39: “Por virtude da reforma a que se procedeu no Estatuto e Regulamentos da Federação, os Campeonatos das Ligas e de Portugal passaram a designar-se, respectivamente, Campeonatos Nacionais e Taça de Portugal”.

Jornal O Benfica - 22/12/2017

VARiável

Já há muitos anos que aprendi que o que Pinto da Costa diz publicamente não deve ser levado a sério. Fala de acordo com as circunstâncias e com os seus interesses, o que é normal, mas, no seu caso, simultaneamente revelador de uma forma de estar na competição desportiva em que não me revejo. Acho mais relevante o que diz em privado por telefone.

A existência do VAR, como a de qualquer tecnologia que auxilie os árbitros na difícil tarefa de arbitrar um jogo de futebol, é em si mesma positiva. Porém, para Pinto da Costa, a julgar pelas suas declarações após o clássico da penúltima jornada, o VAR deveria beneficiar o FC Porto e prejudicar os seus adversários. Só assim se entende que o VAR não tenha sido criticado após o FC Porto – Belenenses. Ou mesmo esta semana, devido ao primeiro golo portista em Setúbal. Nestes casos, e de um ponto de vista portista, o VAR não serve mesmo para nada: Os árbitros, no campo, actuaram em conformidade.

Aparentemente, o VAR, para Pinto da Costa, não serve, mas só de vez em quando, à semelhança dos telemóveis, se as suas chamadas forem gravadas por terceiros e publicadas no youtube tornando públicos os métodos da afamada estrutura portista. Assim como as agências de viagens, se for descoberto que facturas emitidas a árbitros apareçam na contabilidade portista. Ou ainda os juízes, evidentemente imprestáveis a não ser para avisarem que se planeiam detenções ou para se decidirem pela inadmissibilidade de provas sobre práticas de corrupção.


Mas atenção, se Pinto da Costa quer o fim do VAR, acabe-se com ele imediatamente. Basta comparar o conteúdo das escutas reveladas no youtube com décadas das suas queixas sobre a arbitragem para se perceber a razão...

Jornal O Benfica - 15/12/2017

A morte de uma crónica anunciada

Não é engano. Deturpo deliberadamente o título de um dos vários romances notáveis de Gabriel García Márquez porque me parece adequado face ao momento actual do futebol português.

É mais que evidente que vários opinadores e imensos detractores profissionais se preparavam para, finda a última jornada, sentenciarem a falência do desiderato benfiquista para esta temporada: o penta. Afinal, parece-me indiscutível que continuamos na luta como, aliás, nunca deixámos de o estar. Por outro, tudo o que envolve o F.C. Porto faz-me pensar, por vezes, que o futebol português pertence ao domínio do realismo mágico de García Márquez, embora trágico seja o adjectivo que melhor o caracterize.


De mágico subsiste apenas o dragão, o animal mitológico escolhido para símbolo do clube portista. Mas do ilusório, e por isso trágico, há muito por onde escolher como, por exemplo: A data da fundação; O revisionismo da relação dos clubes com o Estado Novo (por exemplo, o F.C. Porto foi elevado a Instituição de Utilidade Pública em 1928, com os benefícios daí inerentes, mais de três décadas antes do Benfica); A criação de inimigos imaginários (“centralismo”); A projecção, nos outros, das suas falhas éticas e comportamentais na competição desportiva (quinhentinhos, apito dourado, etc); Ou até se revela em factos caricatos, como a existência de um exército liderado por um macaco ou a proliferação de “Pintos” ou de “Fernandos Gomes”, este a fazer lembrar o extraordinário “Cem Anos de Solidão”, no caso, “35 Anos de Podridão”. Salve-se que o patriarca, no seu outono, parece cada vez mais um general no seu labirinto. E que ao veneno da madrugada, de um dos seus soldadinhos, já ninguém preste atenção.

Jornal O Benfica - 8/12/2017

O Benfica

Não sei qual será o desfecho do clássico, mas a última jornada, na qual o Benfica rubricou uma excelente exibição e goleou o V. Setúbal, além de final e inusitadamente o F. C. Porto ter sido vítima de uma boa arbitragem, cedendo dois pontos nas Aves, permitiu mitigar o risco, em caso de derrota no Dragão, de nos afastar da corrida pelo título. Assim, uma eventual derrota, embora dificultadora da prossecução dos nossos objectivos, deixar-nos-á a uns recuperáveis seis pontos. Um empate colocar-nos-á numa posição que, não sendo a ideal, não deixará de ser interessante. A vitória significará, indubitavelmente, a revitalização do estatuto de principal candidato ao título. É certo que a estatística não nos favorece, mas não menos verdade é que será a primeira vez que visitaremos o F.C. Porto enquanto tetracampeões. A urgência do triunfo é deles. Nós limitar-nos-emos a tentarmos cumprir o nosso desígnio: Ganhar, sempre!

Ganhador é também o nosso jornal, que acabou de cumprir o seu 75º aniversário. Recordo-me de, na minha infância, perscrutar avidamente as páginas do O Benfica. Foi a partir dele que, a par da vivência benfiquista proporcionada pelos meus pais, comecei a assimilar conceitos que considero basilares no benfiquismo: Participação na vida associativa; Acompanhamento constante da actividade do clube e conhecimento da sua história; Respeito pela pluralidade de opinião; Eclectismo.


Acontece que tenho, desde a edição de 13 de Fevereiro de 2015, o privilégio de contribuir semanalmente para o nosso jornal, partilhando a minha opinião sem quaisquer constrangimentos. A honra que me é concedida suplanta imensamente o tempo e a responsabilidade devidos. Obrigado!

Jornal O Benfica - 1/12/2017

Assim vai o mundo da bola…

Excelente a entrevista a Luís Filipe Vieira na BTV! Foi a voz dos benfiquistas na indignação, incisivo na denúncia e presidencial em tudo o que é estratégico. Se outra medida faltasse para avaliá-la, bastariam as reacções dos adversários: A gasta ironia de um lado, a patetice grosseira do outro.

Pinto da Costa e os seus acólitos lembram-me o António Mourão: “Ó tempo, volta p’ra trás, traz-me tudo o que eu perdi, tem pena e dá-me a vida, a vida que eu já vivi”. O apito, desta feita, é de pechisbeque, mas convém acautelarmo-nos pois a experiência é um posto. E os soldados? Abominam o youtube, mas dominam os emails de outrem e os perfis do Facebook de quem lhes dá jeito. É coagido e intimidado? Não tome “Pedroproença”, um fármaco composto por inacção, vaidade e oportunismo, concebido para preservação do tacho. Vá antes à Polícia Judiciária, que há quem já sinta saudades de Vigo.

Já Bruno de Carvalho deixa-me dividido. Se me divirto e lhe agradeço o cariz amulético da sua presidência para os nossos intentos, também me importuna. É como ter obras intermináveis no apartamento ao lado. É barulho inconsequente, mas está lá. O que vale é que “tenho em casa muitos rolos de papel higiénico, cujas folhas têm inscrita uma citação sua adequada à situação”.


Agora e sempre, muito bem faz Luís Filipe Vieira em apelar à união dos benfiquistas. Borges Coutinho, há quatro décadas, explicou porquê: “Os laços de solidariedade que unem todos os benfiquistas têm-se revelado não apenas indestrutíveis, mas progressivamente mais apertados através dos tempos e de todas as vicissitudes. Este é que é o grande segredo da força e da grandeza crescentes do Sport Lisboa e Benfica". Apoiado!

Jornal O Benfica - 17/11/2017

Estamos na luta!

As arbitragens na última jornada foram vergonhas. Os erros gritantes cometidos no Dragão e Alvalade são incompreensíveis e passíveis da suspeita de derivarem do ambiente de intimidação, condicionamento e coacção sentido nos últimos tempos.

Observámos ainda, pela primeira vez, uma brecha na solidariedade dragarta emanada da comunhão do objectivo de interrupção a qualquer custo da hegemonia benfiquista. O tom foi diferente, pois são também diferentes as motivações. Enquanto do lado leonino assistimos a uma despudorada colagem do Benfica aos benefícios portistas, do outro o ataque foi unicamente dirigido ao favorecimento do Sporting.

Creio não estar enganado ao pensar que tanto F.C. Porto como Sporting estão falidos moral e economicamente. A SAD portista, intervencionada pela UEFA, falida tecnicamente e provavelmente a contas com uma situação de tesouraria asfixiante, nunca se conseguirá livrar do espartilho por si criado: o crescimento social e desportivo alicerçado no confronto e nas relações de poder. Em resumo, a lógica bairrista consolidou a sua base de apoio, mas impede o crescimento. As exigências financeiras aumentaram, porém não se verificou o necessário acompanhamento da subida das receitas. Sobram as relações de poder...


O caso sportinguista é mais simples: O Novo Banco e o BES, via restruturação financeira (nomeadamente as VMOC), estão agora para o sporting como o avô do José Alvalade esteve para o neto quando quis fundar um clube no Campo Grande. Disse o Alvalade: “Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa”. O problema é nunca ter conseguido ser tão grande como o Benfica, condicionando a sua postura e comportamento.

Jornal O Benfica - 10/11/2017

Desporto português

O Maques é funcionário do ano. Veremos se, na instituição para que trabalha, a investigação da PJ acerca de crimes de acesso ilegítimo, violação de correspondência e ofensa a Pessoa Coletiva, caso o implique de alguma forma, contribui para o seu bis. Estou convencido que sim;

Pinto da Costa não deu os parabéns ao funcionário do ano por email porque não o tem (já chegámos a 2017?). Telefone e telemóvel, provavelmente, receia usar. Recomendo que vá a Vigo, onde há bons cybercafés. Bem sei que não sou juiz, mas recomendo-o de boa fé;

Bruno de Carvalho sente saudades da construção civil. Por favor, permaneça no futebol! Somos tetracampeões desde que foi eleito, não nos desgrace. Se necessitar, imagine que o futebol é uma grande empreitada, apesar de constrangimentos como o dono da sua obra – interromper a todo o custo a hegemonia benfiquista – não usar email porque não o tem. E cuidado com os capatazes que contrata, pois é muito feio cortar as pernas, mesmo que numa fotografia, a um dos seus pedreiros mais qualificados. E olhe que os instrumentos de precisão devem ser usados sempre e não apenas quando dá jeito, sejam eles autoniveladores ou vídeoinspectores; Desaconselho igualmente a contratação de um director de obra que, à primeira contrariedade, receba guia de marcha. Especialmente se, no seu anterior emprego, tiver criado todas as condições para que a sua empresa pudesse competir entre as melhores;


E uma palavra ao homem anti-olés de Oliveira de Azeméis, escusava era de ter atacado os futsalistas do Benfica. Depois constatei as suas preferências leoninas no Facebook e, afinal, não se tratou de irritação, mas de um permanente estado de azia. Olé!

Jornal O Benfica - 3/11/2017

Boa vitória

E por falar em cartilhas… Bastou o Benfica ganhar um jogo para que os vídeoparvos saltassem a terreiro com as suas verdades alternativas. É caso para dizer que entre insolventes e papagaios não há quaisquer falhas de comunicação. Se eu pudesse provar que estão coordenados, recomendá-los-ia para gestores do SIRESP. Espero que continuem, é sinal de que consideram o Benfica um adversário temível.

Enfim, ganhámos indiscutivelmente na deslocação à Vila das Aves, numa partida em que Rui Vitória manteve a aposta em Svilar, Rúben Dias e Diogo Gonçalves (porque são bons jogadores e não pela sua tenra idade), além de ter tido a coragem de decidir de acordo com as suas convicções, ao remeter para o banco o indiscutível Pizzi. Pouco me interessa agora se foi uma boa ou má decisão, mas valorizo ter sido aquela que, naquele jogo em particular, o nosso treinador achou ser a melhor. Parece-me fundamental que não se olhe aos nomes nas camisolas – o importante é o emblema. E o Pizzi, que tanta qualidade tem acrescentado à equipa desde que chegou ao clube, e não obstante ter começado o jogo no banco, entrou com a atitude do campeão que é e desempenhou um papel importante na nossa vitória.


E por falar em nomes nas camisolas, há um que nos remete imediatamente para conceitos futebolísticos como classe e faro de baliza: Jonas. Com o bis alcançado no passado fim-de-semana, o brasileiro, com 97 golos, passou a ser o 20º melhor marcador da história do Benfica em competições oficiais (e o 16º no Campeonato Nacional). É o segundo melhor estrangeiro de sempre, ainda distante dos 172 de Cardozo, mas marca mais dois golos a cada dez jogos em média do que o paraguaio. Notável!

Jornal O Benfica - 27/10/2017

Absurdo

Não percebo de linguagem jurídica, muito menos de direito, e corrijam-me se estiver enganado, a rejeição da providência cautelar acerca da divulgação de supostos emails do Benfica, nos termos em que foi anunciada, parece-me inequivocamente absurda.

Diz o juiz, quanto à eventual concorrência desleal, que “manifestamente, não é concebível uma transferência de adeptos ou sócios de um clube para o outro” e, como tal, não ficou provado que a situação constitua o “instituto da concorrência desleal", o que pressupõe “a existência de concorrência entre empresas na luta pela captação e fidelização da clientela por forma a expandir a sua actividade e ganhar e manter a quota de mercado”.


Ora, não é assim tão raro que alguém mude de clube, especialmente em tenra idade. Pressupor que a divulgação de supostos emails, com o aparente intuito de denegrir a imagem de um clube, não afectará a reputação desse clube e, eventualmente, a preferência clubística das crianças, poderá ser um erro de avaliação. Além disso, reduzir a concorrência entre clubes à disputa pelos afectos dos adeptos revela uma total incompreensão pelo fenómeno desportivo. Os clubes não só disputam adeptos como também fãs e curiosos. A distinção é importante, pois poderá haver quem, não sendo de um clube, se sinta tentado a ir a determinado estádio para ver um jogo de futebol. É o caso evidente dos muitos turistas que vemos na Luz e ignorar que as acusações infundadas poderão chegar a esses potenciais consumidores é não ter em conta os ecos da infâmia do Porto Canal na comunicação social estrangeira. E a captação de crianças talentosas para a prática de futebol? E jogadores profissionais? E os patrocinadores, os parceiros?

Jornal O Benfica - 20/10/2017

Sem complacência

O Benfica até poderá não ser o clube mais poderoso do mundo – só um demente, em evidente estado delirante e sob o efeito de psicotrópicos, poderia afirmá-lo – mas é, indubitavelmente, o maior e melhor clube português. Assim o dizem todos os estudos de mercado sobre adeptos de futebol aquém e além-fronteiras, o número de sócios, as receitas de quotização, patrocínios, bilheteira e merchandising e o palmarés conquistado no conjunto das modalidades, nomeadamente o do futebol, mas não só. Só não é um axioma porque o futuro é incerto e talvez daqui a uns mil anos seja outra a realidade, embora me pareça bastante improvável.

Todos os portugueses atentos ao desporto o sabem. Só por fanatismo ou por um mecanismo psicológico de auto-defesa alguém poderá convencer-se do contrário. E, como tal, todos os que representam o Benfica sabem que, para os benfiquistas, as vitórias do clube são uma mera consequência da sua grandeza. A competência e o empenho até poderão ser exaltados quando se justifica, sendo, no entanto, considerados o mínimo exigível a quem tem a honra de envergar a camisola do glorioso. Trocando por miúdos, triunfar é normal, perder é desonroso.


Tudo isto é pernicioso. Os nossos adversários invejam-nos, detractam-nos e cobiçam o tanto que conquistámos e conquistaremos. Parecem estar dispostos a tudo, sem olharem a meios, logo têm que ser denunciados e combatidos. Ignorá-los até poderá parecer salutar, mas fortalece-os. Não lhes poderemos dar descanso. Como, por exemplo, em meados dos anos 60, quando Paulino Gomes Júnior, então director do jornal, não poupou um presidente leonino durante semanas a fio por nos ter acusado, no Brasil, de sermos um clube xenófobo.

Jornal O Benfica - 13/10/2017

Nulla in mundo pax sincera

Lembro-me de ter dez ou onze anos e folhear o livro “Benfica, 85 anos de história”, escrito por Carlos Perdigão, António Manuel Morais e José de Oliveira. Nos anos seguintes li e reli a obra, o que me despertou a curiosidade por querer saber mais sobre a história do nosso clube. Sendo filho de um benfiquista cujo gosto por partilhar os seus vastos conhecimentos sobre o glorioso é inexcedível, calculo que a posse daquele livro e a vontade de agradar ao meu pai tenha sido a simbiose perfeita para querer aprofundar a minha cultura benfiquista desde tenra idade.

Em 1994, por altura do 90º aniversário do Sport Lisboa e Benfica, os autores citados e João Loureiro dedicaram o seu tempo e sabedoria à publicação do extraordinário “Benfica, 90 anos de glória”, um livro de grande formato, com mais de trezentas páginas, que perscrutei avidamente. Desde então li integralmente inúmeros livros sobre o Benfica, incluindo a obra inspiradora e monumental de Mário de Oliveira e Rebelo da Silva, de 1954, sobre a história do SLB nos seus então 50 anos de vida, ou o “100 anos de lenda”, de Carlos Perdigão, só para citar os melhores.


Em nenhum deles consta o tetracampeonato. Nem mesmo em nenhum dos cinco livrinhos que tive o prazer de escrever, nem mesmo de outro de que fui organizador, apesar do último ter sido escrito e publicado em 2016. Em nenhum! E esse tetra e os seus protagonistas figurarão certamente em todo e qualquer livro ainda por escrever sobre a história do Benfica. A contestação aos obreiros do tetra passados escassos meses dessa conquista, por infundada que possa ser, é legítima. Já os insultos nem sequer merecerão uma triste nota de rodapé.

Jornal O Benfica - 6/10/2017

Cidade desportiva

Foi com enorme satisfação que acolhi a notícia da construção da cidade desportiva das modalidades. É mais uma prova, se necessário fosse, que as direcções presididas por Luís Filipe Vieira encaram seriamente o eclectismo, parte integrante da matriz fundacional do nosso clube. Poderá parecer um mero pormenor, mas fui dos que esteve presente, e votou contra, numa célebre Assembleia-Geral realizada no Casal Vistoso em que o investimento nas modalidades foi colocado em causa.

O Sport Lisboa e Benfica, reduzido ao futebol, não seria o Sport Lisboa e Benfica, o principal promotor do desporto em Portugal. E não teria à sua disposição um instrumento poderoso para a expansão do benfiquismo e potenciação da transformação de adeptos em sócios. Os milhares de atletas e seus familiares têm, nas modalidades, uma oportunidade de representarem e/ou contribuírem para o crescimento do clube, reforçando o seu sentimento de pertença. A aposta nas modalidades é um sustentáculo do clube a longo prazo. Não percebê-lo é não perceber o Benfica.


Claro que o Benfica, à semelhança da sociedade, não é imutável. Confesso-me saudosista da cidade desportiva do estádio da Luz, em que a prática de todas as modalidades era quase inteiramente lá concentrada e era possível conviver com outros sócios durante a semana. Porém, os tempos mudam, a pressão imobiliária fez-se sentir e a vida moderna desvalorizou o lado recreativo dos clubes em detrimento das famílias. Sinto nostalgia, mas também pragmatismo. O Benfica, mais que se adaptar aos tempos, deve tentar marcar o seu ritmo. É o que está a fazer com mais esta obra, fundamental para a formação de atletas e transmissão dos valores benfiquistas.

Jornal O Benfica - 29/9/2017

A inevitabilidade da Superliga Europeia

Recentemente, Domingos Soares Oliveira, o CEO da SAD do S.L. Benfica, foi eleito para a direcção da Associação Europeia de Clubes de futebol. Esta eleição é prestigiante para o próprio e para o Benfica, assim como, no passado, o foi para Fernando Gomes e F.C. Porto, quando o actual presidente da Federação Portuguesa de Futebol era administrador da SAD portista e desempenhou as mesmas funções na ECA.

Para Domingos Soares Oliveira, existem “vários desafios, alguns específicos e outros comuns”, entre os quais destacou três, o que me leva a pensar que serão aqueles que, no futuro próximo, mais serão discutidos entre os membros da associação: A possibilidade de existência de uma Superliga e o acesso à mesma; os centros de treino de excelência de jogadores; e a janela de transferências. Quanto aos dois últimos, serei breve.

Relativamente aos centros de treino de excelência de jogadores, parece-me que a FIFA e a UEFA deram os passos possíveis no sentido da valorização do trabalho desenvolvido pelos clubes formadores. A primeira através da criação do mecanismo de solidariedade, em que 10% do valor total de cada transferência é entregue ao(s) clube(s) formador(es). A segunda ao excluir as despesas inerentes à formação de jogadores no âmbito da avaliação do chamado fairplay financeiro. Ir mais longe seria difícil, até porque, na União Europeia, há livre circulação de pessoas. A ECA, sim, poderá ter uma palavra a dizer nesta matéria, caso os seus membros se decidirem por uma espécie de pacto de não-agressão.

Quanto à janela de transferências, todos os anos assistimos a negócios entre clubes em cima do prazo do fecho do mercado, quando as competições estão já em andamento. Na sua génese, os prazos foram definidos com uma intenção benigna: Os clubes, após os primeiros jogos da temporada, estariam mais aptos a identificarem eventuais lacunas nos seus plantéis e supri-las recorrendo à aquisição de jogadores. Teriam também mais tempo para avaliarem se os jogadores teriam qualidade, ou não, para integrarem os plantéis. No entanto, a realidade extravasou o plano das intenções, resultando numa desigualdade evidente entre os clubes mais endinheirados e a sua concorrência, ao estenderem ao máximo as negociações até um momento que, se pressionados pelo prazo limite, pagam as cláusulas de rescisão e arrumam a questão. Tal parece benéfico para os clubes vendedores, dando a impressão que poderão limitar-se a esperar por 31 de Agosto e rentabilizarem ao máximo os seus activos. Porém, deparam-se com dois constrangimentos que condicionam a sua actuação no mercado: Por um lado, a incerteza da venda de determinados jogadores e a finitude dos recursos impede-os de contratarem substitutos sem terem a garantia de que venderão os tais jogadores. Por outro, os atletas, cientes de que estarão perto de passarem a auferir salários mais elevados, pressionam os dirigentes para que estes se decidam pela venda do seu passe. Se antecipar o prazo do fecho de mercado é a solução mais óbvia, creio que a criação de um mecanismo intermédio poderia ser a ideal. Por exemplo, nas duas semanas finais da janela de transferências, a capacidade de investimento dos clubes estar limitada a uma percentagem do montante total despendido ou recebido desde a reabertura do mercado de transferências pela aquisição ou alienação de passes.

Mas a Superliga Europeia de futebol é a grande questão e sempre tive a sensação que foi com o propósito da criação da mesma, ou talvez apenas com a possibilidade de ameaça da sua criação enquanto instrumento de pressão junto da UEFA, que a Associação Europeia de Clubes foi criada.

O futebol é gerido, a nível mundial, pela FIFA. Dela fazem parte mais de duas centenas de associados (as federações de futebol de cada país), que se agrupam por confederações, como é o caso da UEFA, da qual a Federação Portuguesa de Futebol faz parte. A FIFA, criada em 1904, é responsável pela organização do futebol e de competições internacionais, nomeadamente os Campeonatos do Mundo de selecções e clubes. A UEFA, fundada em 1954, organiza as competições europeias de clubes, além do Campeonato da Europa de selecções. No entanto, contrariamente ao que parece ser evidente, o monopólio da organização das competições internacionais resulta somente da antecipação e não de qualquer outra razão. O primeiro Campeonato do Mundo foi realizado em 1930, passados 26 anos da fundação da FIFA. A UEFA organizou o primeiro Campeonato da Europa em 1960, seis anos depois de ter sido criada, e até a sua primeira competição europeia de clubes, a Taça dos Clubes Campeões Europeus, só passou a estar na égide da UEFA em 1956, na sua segunda edição, pois a primeira fora da iniciativa do jornal francês L’Équipe. Aliás, já antes se haviam disputado provas oficiais, porque organizadas por federações, de âmbito internacional, como foram os casos das taças Mitropa ou Latina, a qual foi conquistada pelo Benfica em 1950.

Resumindo, a FIFA foi fundada nos primórdios do futebol (só em Inglaterra já se disputavam competições há décadas), num tempo em que o contacto entre as poucas equipas existentes em cada país era muito limitado. Mesmo a UEFA, criada meio século depois, quando as competições nacionais já atingiam alguma maturidade e já se haviam realizado algumas experiências de competições internacionais, conquistou o seu espaço pela quase inexistência desse género de provas, tornando-se, à semelhança da FIFA, monopolista da organização de competições.

Nas raras ocasiões em que a eventual criação de uma Superliga Europeia de futebol é tema de análise em Portugal, logo são apontados supostos constrangimentos à sua criação baseados numa pretensa impossibilidade dos clubes em tomarem uma iniciativa desse cariz e, assim, enfrentarem a UEFA. Por vezes até se reconhece que os clubes poderiam ter a capacidade de se organizarem e tentarem promover uma competição internacional entre si, mas logo são apontadas inúmeras possibilidades de retaliação da UEFA e FIFA que inviabilizariam logo à partida o arrojo dos clubes. Esquecem-se, no entanto, que quem manda efectivamente no futebol são os adeptos porque são eles os consumidores de futebol. E as suas motivações estão bem tipificadas: afecto clubista e prazer de ver os melhores artistas. Ora, se os adeptos pagam para ver a sua equipa ou os seus jogadores preferidos, pagarão independentemente de quem organiza as provas. Os jogadores e treinadores quererão representar os clubes que melhor lhes pagarão e esses serão os que conseguirão granjear maiores receitas, independentemente, mais uma vez, de quem organiza as competições. Não se trata de um lirismo, já aconteceu no basquetebol, cuja popularidade à escala europeia está abaixo do futebol, mas muito acima de qualquer outra modalidade. E tanto a FIFA e a UEFA como os clubes de futebol conhecem perfeitamente o caso do basquetebol europeu.

Em 1991, foi criada a ULEB, a associação de ligas europeias de basquetebol. O passo foi dado pelas ligas de clubes de Espanha, Itália e França, as quais, nos anos seguintes, viram juntar-se-lhes as de outros países (a grega foi a primeira, em 1996). O seu propósito foi assumido desde o início: Organização de competições europeias de basquetebol à margem da FIBA e da FIBA Europa, as congéneres da FIFA e da UEFA na modalidade. E a razão foi clara: Os clubes não identificavam qualquer vantagem na existência de um intermediário para gerir os seus interesses comuns, nomeadamente a captação de receitas. Finalmente, em 2000, a ULEB anunciou a criação da Euroliga.

Claro está, a FIBA Europa não assistiu impávida e serena às movimentações dos clubes. Foi de ameaça em ameaça e de retaliação gorada em retaliação gorada até à capitulação final. A tentativa derradeira foi a de ameaçar as federações dos países cujos clubes participam nas competições da ULEB de não poderem competir nas provas internacionais de selecções, tentando assim que fossem os jogadores a pressionarem os clubes para que a FIBA voltasse a organizar as principais competições europeias de clubes. Como se esperava, jogadores e treinadores, como profissionais que são, obedeceram a quem mais lhes pode pagar e não demonstraram interesse suficiente em provocarem uma reversão do modelo competitivo de clubes a nível europeu. Já antes a FIBA Europa havia tentado impedir os clubes de participarem nas competições nacionais, mas imagine-se, por exemplo, o campeonato nacional de futebol português sem Benfica e Porto…

No presente, a ULEB organiza duas competições, a Euroliga, com 16 equipas (os finalistas disputam 35 a 37 jogos) e a Eurocup, com 24 clubes. Dos 16 clubes participantes na Euroliga, 11 são fixos (Barcelona, Baskonia e Real Madrid de Espanha, Olympiacos e Panathinaikos da Grécia, Anadolu Efes e Fenerbahce da Turquia, Maccabi Tel Aviv, Olimpia Milano, CSKA e Zalguiris de Israel, Itália, Rússia e Lituânia respectivamente) e os restantes são apurados através da Eurocup, da classificação nos campeonatos nacionais ou por convite. Na prática, a ULEB garante que, na sua principal competição, participam os 16 melhores clubes de basquetebol na Europa em cada ano, isto é, os que não só têm teoricamente melhores equipas como os que garantem mais público e maior investimento (por exemplo, em 2016, os maiores orçamentos foram do CSKA, Fenerbahce e Real Madrid, com 35, 27 e 23 milhões de euros respectivamente). Tudo isto sem que uma entidade intermediária fique com uma fatia significativa das receitas provenientes dos patrocinadores e direitos televisivos.


A UEFA, beneficiando do exemplo da experiência nefasta para a FIBA Europa, tem sido mais inteligente que a sua congénere e, ao invés de entrar em conflito com os clubes, tem aumentado a percentagem das receitas distribuídas aos clubes participantes na Liga dos Campeões e da Liga Europa. Um dia não haverá acordo, resta saber quando.

Vida Económica - 22/9/2017

Estamos na luta

Escrevo esta crónica antes do Benfica-Braga, mas parece-me evidente que a nossa equipa de futebol não atravessa um bom momento. No entanto, acho incompreensível o relativo desespero manifestado por alguns benfiquistas após os desaires frente ao Boavista e CSKA.

Evidentemente que é desagradável ver a nossa equipa a exibir-se abaixo das nossas expectativas e os resultados ficarem aquém do esperado. No entanto, julgo que deveríamos ter aprendido com o passado recente a nível desportivo, em que soubemos apoiar mesmo quando não tínhamos mais que o nosso benfiquismo para nos motivar. Não se confunda o que escrevo com seguidismo ou mesmo acomodação ao sucesso ou sobranceria em relação aos adversários. Antes refiro-me à capacidade para constatar que, apesar do início de campeonato periclitante, há toda uma temporada pela frente para melhorarmos, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, há dois anos, com os mesmos líderes no balneário, banco e bastidores.

Por outro lado, as excelentes contas da SAD relativas ao exercício 2016/17 (lucro de cerca de 45 milhões de euros, redução do passivo em 4%, redução acentuada do endividamento bancário, ausência de antecipação de receitas, etc), acentuando a tendência verificada nos últimos anos, demonstram que o Benfica tem um rumo bem definido do qual não se desviará. É certo que o futebol é o momento, mas o desafio para quem nos dirige passa por preparar o clube para todos os momentos, e não somente o mais imediato.


P.S. Está de parabéns a nossa equipa de andebol pela excelente entrada no campeonato. As vitórias frente ao Águas Santas e F.C.Porto são um excelente indicador do que poderemos esperar dos nossos andebolistas.

Jornal O Benfica - 22/9/2017

Em defesa da geometria descritiva

Quando há mais de vinte anos, no ensino secundário, desperdicei a oportunidade de estudar geometria descritiva no 12º ano, não imaginava o teor da disciplina na sua plenitude. Sabia do que se trataria em parte: “Técnicas para representação de objectos tridimensionais num plano bidimensional”. Porém desconhecia que, nas últimas aulas, ensinar-se-iam metodologias de deturpação dessas técnicas em prol de objectivos comunicacionais no futebol português. Infelizmente, optei por noções de administração pública.

Até à introdução do vídeo-árbitro no futebol português, ignorei conceitos básicos da disciplina como, por exemplo, o “ponto de fuga”. Muito honestamente, sempre pensei que ponto de fuga designasse a Madalena, com destino à Galiza, e com os devidos agradecimentos a um juiz amigo. Mas estava enganado.

Pelos vistos é outra coisa e estamos sempre a aprender: “O ponto de fuga é um ente do plano de visão, que representa a intersecção aparente de duas, ou mais, rectas paralelas, segundo um observador num dado momento”. Ao ler esta definição, encontro pelo menos três constrangimentos óbvios: E se os observadores forem cretinos? E se o momento for o que os cretinos entenderem que lhes dá mais jeito? E se os cretinos deturparem o plano de visão?


Ora, parece-me evidente que a coisa não seria para levar a sério. No entanto, não há cretinos que tenham voz se não existirem néscios que reproduzam a mensagem acriticamente. Que figurinha fazem os jornalistas que se demitem da sua função e não perguntam aos cretinos por rectas paralelas, cortes e afins quando o vídeoárbitro repõe a verdade desportiva em seu favor… É caso para se dizer que a insídia se intersecta com o laxismo.

Jornal O Benfica - 15/9/2017

Venham eles...

Por vezes sou acusado, enquanto comentador da BTV e colunista do O Benfica, de me focar excessivamente nos adversários, incorrendo, inclusivamente, numa suposta infracção das directrizes emanadas da política de comunicação do clube, em que se pede aos benfiquistas que se preocupem somente com o Benfica.

Porém, do meu ponto de vista, preocupar-me com o nosso Benfica é precisamente o que faço com o privilégio que me é oferecido, mesmo quando as práticas portistas ou sportinguistas são o tema central das minhas análises. O Benfica não compete sozinho ou unicamente contra si próprio. O Benfica está inserido num contexto que, por sua vez, é constituído por diversos agentes, cada qual com um determinado comportamento.

Neste momento, parece-me evidente que a postura dos nossos rivais é norteada por um objectivo partilhado entre si, o qual, numa primeira fase, se confunde com o interesse de cada um e, por isso, vai adiando o risco de colisão. Por outras palavras, Sporting e Porto pretendem interromper a hegemonia benfiquista no futebol português. Até ver, o importante para eles é que o penta benfiquista seja evitado.


Se, por acaso, o Benfica não puder ser campeão, só um deles poderá sê-lo e aí sim um deles dará o primeiro passo contra o outro. Compete-nos zelar pelo adiamento desse momento, pelo que teremos que ser competentes no campo e fora dele, denunciando os ataques infames gizados no Lumiar e nas Antas, combatendo a fusão de interesses entre os principais adversários e defendendo-nos dos sucessivos ataques protagonizados por desesperados aparentemente sem quaisquer escrúpulos. É pena que assim seja, mas é o que temos…

Jornal O Benfica - 8/9/2017

Pós-verdade

Diz-se vivermos na era da pós-verdade, em que os factos são distorcidos apelando-se a crenças pessoais e emoções para condicionar a opinião pública. Discordo porque a referência à pós-verdade nestes termos dá a ideia de se tratar de uma novidade, quando não o é. Aliás, Nietzsche já defendia a inexistência de factos, subsistindo antes as versões.

Há, porém, duas diferenças do nosso tempo em relação a todos os outros: O acesso generalizado à “informação” e a velocidade da sua propagação. Torna-se, portanto, fundamental que a pós-verdade seja denunciada e que os seus instigadores sejam combatidos tão célere quanto eficazmente. Pode-se combater a pós-verdade com outras pós-verdades, criando confusão. Mas casos há em que a base de sustentação da pós-verdade é tão frágil que os factos, se bem comunicados, serão suficientes para a desmontarem.


Dou dois exemplos: O “caso Calabote” e o “clube do regime”. Se o primeiro se desmonta recordando que o FCP foi campeão nessa temporada e divulgando crónicas de jornais da época, declarações de intervenientes e o processo que levou à irradiação do árbitro – por ter mentido no relatório e não pela sua actuação – já o segundo bastará evocar que o SLB, ao contrário dos outros “grandes”, nunca deixou de ter eleições livres e democráticas durante a ditadura e teve, entre as principais figuras do clube inúmeros declarados oposicionistas. No entanto, o segundo exemplo é de tal forma grave que o SLB não deverá, do meu ponto de vista, limitar-se a desmentir quem usa e abusa dessa acusação vil e infundada, devendo também colocar processos por difamação a quem a promove e a quem, quais meras caixas-de-ressonância, a difunde na esfera pública.

Jornal O Benfica - 1/9/2017

Futebol online

Quando quero referir-me a algo ou alguém que não cabe no tema da minha crónica, geralmente remeto-o para o último parágrafo, quase à laia de notas finais. No entanto, hoje decidi inverter essa tendência estilística e começo por um elogio aos diários desportivos, em particular ao jornal A Bola. Para tal terei que recuar dois anos e resumir significativamente o que escrevi em Agosto de 2015.

Na altura critiquei os diários desportivos por dedicarem quase exclusivamente as suas primeira páginas ao futebol. Referi as razões que julgo estarem na base dessa opção editorial e sublinhei que as compreendo – nomeadamente a necessidade de vendas no curto prazo, o que lhes coarcta o estímulo de novos públicos no futuro para que eventualmente estanquem a perda de leitores. Raros, ou mesmo inexistentes, terão sido os exemplos de uma primeira página desde então em que o destaque não tenha sido dado ao futebol e, por isso, sinto-me obrigado, embora sem qualquer favor, a louvar o A Bola por, na passada segunda-feira, nos ter presenteado com a parangona “rainha do sofrimento” e uma imagem de Inês Henriques, que se sagrou campeã do mundo e bateu o recorde mundial dos 50 Kms marcha, do topo ao fundo da sua primeira página. Nas restantes chamadas de capa (cinco), constou o futebol e qualquer delas, num dia normal, poderia ter sido o tema de capa principal. Também o Record, no terço superior da primeira página, destacou o feito de Inês Henriques, e o Jogo, embora mais comedido e também no topo, o fez. Porém, a novidade (nestes últimos anos) esteve na primeira página quase unicamente dedicada a um assunto que não o futebol pelo jornal A Bola, daí o meu elogio público, esperando que as suas vendas, nesse dia, não tenham, pelo menos, sido menores que o costume.

Mas quem tem a gentileza de ler as minhas crónicas sabe que também costumo criticar a imprensa desportiva pela pouca atenção prestada ao lado do negócio do futebol e quase nunca à antecipação de cenários originados por determinados acontecimentos nesse domínio. Na semana passada tivemos mais um destes casos: o anúncio do lançamento, em vários países (Brasil, México, Argentina, Estados Unidos da América, Espanha, Itália, Alemanha, França e Inglaterra), de uma plataforma tecnológica que poderá reconfigurar o consumo do desporto enquanto produto televisivo, o Sportflix.

À semelhança do Netflix numa fase inicial (entretanto já evoluiu), o Sportflix não terá produção própria, limitando-se a retransmitir produtos de outras estações. Promete incluir na sua oferta alguns dos conteúdos mais apelativos, como os campeonatos de futebol de Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Espanha (entre outros, mas não o português…), ou a NBA, a NFL, o UFC, a Fórmula 1 e os Jogos Olímpicos. Terá uma mensalidade de 17€ para os clientes domésticos e 21€ para empresas e poderá ser acedido de qualquer aparelho com acesso à internet (por exemplo, o pacote premium da Sporttv, na NOS, tem um custo mensal de 28€).

Tendo em conta os novos hábitos de consumo de produtos televisivos, em particular dos mais jovens, cuja propensão para o fazerem através de dispositivos móveis é notória, o Sportflix, se conseguir realmente disponibilizar os conteúdos prometidos (há dias surgiu o comunicado da Fox Sports América Latina, que alega ter 61 milhões de clientes em 19 países, a desmentir categoricamente quaisquer contactos ou negociação com a Sportflix para a cedência de direitos televisivos), poderá tornar-se rapidamente, se não encarada como tal já, na ameaça mais significativa aos canais televisivos dedicados ao desporto.

É previsível que, numa fase inicial e à semelhança do que se sucedeu com a Netflix, haja resistência por parte dos maiores operadores, não cedendo conteúdos e tentando inviabilizar o acesso em vários países. Porém, partindo do pressuposto que a Sportflix terá músculo financeiro para criar uma base de clientes que lhe permita exponenciar a sua capacidade de investimento, mais cedo ou mais tarde tentará intrometer-se na disputa pelos conteúdos e assumirá as despesas de produção. O mais provável é que esse passo, a ser dado, vise nichos de mercado numa primeira instância, mas uma vez suplantadas as dificuldades iniciais, o futuro tornar-se-á imprevisível.

Até porque, apesar de não ter encontrado qualquer referência na comunicação social portuguesa, já existe um operador deste género lançado há um ano, a DAZN, disponível na Alemanha, Áustria, Suíça e, recentemente, Canadá e Japão (anuncia ter transmitido em directo cerca de 8000 eventos desportivos). Se no Canadá, no qual só há um mês passou a estar disponível, se limitará ao futebol americano numa fase inicial, na Alemanha tem as ligas de futebol inglesa, espanhola, francesa e italiana (além de resumos da liga alemã) como produtos estrela. De acordo com uma notícia, a partir de 2018/19 transmitirá também a Liga dos Campeões, enquanto que, no Japão, terá a liga japonesa de futebol.

A estratégia da DAZN é assumida: Criar uma base de clientes que lhe permita, juntamente com anunciados dois biliões de dólares reservados para a sua segunda fase de desenvolvimento, proceder à adquisição de conteúdos exclusivos. A Netflix, que em Junho anunciou ter alcançado 100 milhões de utilizadores, também começou timidamente, porém foi com produtos exclusivos, como as séries “House of cards”, “Orange is the new black”, “Narcos” ou “Stranger things”, entre outras, que obteve um grande impulso nas suas vendas, não só pelas subscrições do serviço como até pela revenda das séries, como é o caso da “House of Cards” à SIC e posteriormente à TVSéries em Portugal.

Fazendo a ponte para a conjuntura futebolística nacional, ressaltam dois aspectos pouco ou nada focados. Por um lado, a cedência dos direitos televisivos por parte dos clubes às operadoras que, não obstante os elevados montantes conseguidos tendo em conta os contratos anteriores (Porto e Sporting quase triplicaram a sua facturação e Benfica quintuplicou relativamente ao período anterior ao que explorou por sua conta os seus direitos televisivos), são todos de longa duração (Benfica – de 2016/17 até 2025/26, Porto e Sporting de 2018/19 até 2027/28) e incluem todas as plataformas, o que significa que, dada a evolução tecnológica cada vez mais acelerada nesta área, representa um risco significativo no que concerne à comparação entre facturação e potencial de facturação, nomeadamente nos últimos anos de vigência destes contratos.

Por outro lado, Porto e Sporting já anteciparam receitas de direitos televisivos cuja entrada em vigor ainda nem sequer ocorreu: No caso portista, foi a antecipação de 18,6M€ a receber da Altice, com início em 31/12/2018, em dez prestações mensais de 2.666.667 euros (relatórios e contas do 1º semestre de 2016/17); No caso do Sporting, tendo por base o relatório do 1º semestre de 2016/17, esse montante ascendeu a 4,75 milhões de euros (“A rúbrica de cedência de créditos futuros decorre do montante não corrente relacionado com antecipação de receitas sem recurso, do contrato celebrado com a NOS, realizada com uma entidade bancária no primeiro trimestre da presenta época”). No relatório seguinte, o montante desta rúbrica cresceu para 21,057 milhões de euros, se bem que não explicita tratar-se de direitos televisivos (“A rúbrica de cedência de créditos futuros decorre do montante não corrente relacionado com antecipação de receitas sem recurso”), embora seja o mais provável, na minha opinião.


A antecipação de receitas operacionais indicia dificuldades de tesouraria e faz transparecer um investimento excessivo face à capacidade de angariação de receitas. Se o sucesso desportivo acontecer, é provável que as receitas cresçam (em que medida é outra questão), caso contrário… Mas o problema não se esgota por aqui. Perpetuando-se em crescendo, como uma bola de neve, os gastos acima dos proveitos, há-de chegar uma altura em que não mais poderão ser antecipadas receitas de direitos televisivos (porque já o foram na sua totalidade), a não ser que um novo contrato, ou a extensão do vigente, seja negociado. Como é evidente, nesse contexto, a posição negocial do(s) clube(s) estará enfraquecida e as consequências são, ao contrário do futuro das plataformas online de distribuição de conteúdos desportivos, bastante previsíveis. Basta ver o que aconteceu ao Benfica quando vendeu à pressa os direitos televisivos em 1993 e, anos mais tarde, quando durante anos recebeu cerca de metade dos rivais por optar por não renegociar o contrato então em vigor e esperar por uma posição negocial mais forte. É certo que lhe permitiu tornar a BTV num canal de subscrição e hipervalorizar, face ao passado, os seus direitos televisivos (e os dos seus rivais), mas os anos de espera – poucos títulos – não foram os mais felizes para os seus adeptos.

Vida Económica - 25/8/2017

Jonas

Todos nos lembramos da primeira intervenção de Jonas ao serviço do Benfica: Um cabrito a um arouquense. Com o nulo ao intervalo, o brasileiro estreou-se na Luz, o tal que, na demanda insaciável dos nossos adversários por nos verem falhar, mas também por parte de benfiquistas pessimistas militantes, logo lhe havia sido colocado o rótulo de reformado. Não foi mau como cartão-de-visita, porém não se ficaria por esse lance genial numa partida em que o 0-0 teimou até aos 75 minutos. Uma assistência brilhante, que acabou por não o ser devido à inépcia de um colega, e a finalização, plena de oportunidade, que nos deu o 4-0 no ocaso da partida, acalentaram-nos a esperança no acerto da sua contratação. No jogo seguinte, um hat-trick na Covilhã. E, na primeira época em Portugal, apesar do começo tardio para Jonas, só não se sagrou melhor marcador do campeonato porque, inexplicavelmente, Jackson Martínez beneficiou da atribuição de dois golos que não foram da sua autoria (no Restelo e no Bessa).


Desde então Jonas firmou-se como o melhor jogador da nossa equipa e mesmo na época passada, em que passou largos períodos ausente por lesão, acabou por ser fundamental na conquista do título. Jonas usa o relvado para expor a sua arte, performativa porque parte do diálogo com a bola para transformar a seu favor o contexto em que se vê inserido. Vê-lo jogar é ter a oportunidade de confirmar que o futebol é mais fácil do que parece, mas só para alguns, os poucos que, como o Jonas, adivinham os lances e executam-nos independentemente do grau de dificuldade. E o resto são golos, muitos golos, 90 em competições oficiais, o 22º melhor de sempre do Benfica em pouco mais de três anos.

Jornal O Benfica - 25/8/2017

Legais

Sorte? 21 remates, umas dez oportunidades de golo, centrais metamorfoseados em Baresis… E dizem eles que fomos bafejados pela sorte em Chaves porque, perante uma excelente equipa, procurámos a vitória incessantemente, dominámos a partida especialmente na segunda parte e apenas conseguimos ganhar com um golo no tempo adicional, como se esse tempo não fizesse parte do jogo. Sorte é ter um Pizzi com visão de jogo extraordinária e rara habilidade para passar a bola em profundidade, um Rafa que seria titular indiscutível em qualquer outra equipa do campeonato e um Seferovic, contratado a “custo zero”, que chegou, tem marcado e vencerá.

Mudando de assunto, quero dizer aos nossos consócios com as quotas em dia e detentores de Red Pass no piso 0 dos topos sul e norte do estádio da Luz, que não são ilegais. Era só o que faltava que alguém vos pudesse obrigar a constituírem-se em associação de adeptos organizados. O ponto 3 do artigo 46º da Constituição da República Portuguesa é claríssimo: “Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação nem coagido por qualquer meio a permanecer nela”.


Será que, à semelhança do que acontece noutros clubes, não poderiam encontrar 30 ou 40 pessoas que não se importassem de “dar o nome” e, assim, constituírem uma “claque”? Eu não o faria! Bem à portuguesa, tornar-se-iam “legais”, mas contornando a lei, que é o que tem sido feito desde que esta entrou em vigor. A mesma que especifica que “é expressamente proibido o apoio (…) a grupos organizados de adeptos que adoptem sinais, símbolos e expressões que incitem à violência, ao racismo e à xenofobia (…)”. Chapecoense, Eusébio, SLB, SLB… Portugal é um país faz de conta…

Jornal O Benfica - 18/8/2017

Benfica

São comuns, entre nós, os panegíricos à língua portuguesa por ser a única que contém uma palavra que descreve um sentimento de perda ou ausência de algo ou alguém. Refiro-me à saudade, como qualquer lusófono saberá.

Até há uns anos, achei sempre que “saudade” tornava o nosso idioma singular, porém a minha namorada, que é holandesa, apesar de apreciar a “saudade”, contrariava-me porque a sua língua materna contém também uma palavra sem tradição literal em qualquer outra (“gezellig”, um determinado estado de conforto físico e psicológico). Por um acaso feliz, num qualquer aeroporto, encontrámos um livro dedicado a palavras que existem somente numa língua.


Pois bem, o cenário é aterrador para os laudatórios do português. Percorrer aquele livro dá a sensação que todas as línguas têm palavras que só nelas existem – há uma que descreve o tempo que se demora a comer uma banana – e, por isso, dou por mim, de vez em quando, à procura de outras para além da saudade. “Benfica” é uma boa candidata. É o nome do nosso clube e de uma freguesia, mas se aplicada na adjectivação, consoante o sujeito, poderá adquirir significados múltiplos. Por exemplo, um benfiquista, ao afirmar que tem passado uma manhã Benfica, só poderá estar a referir-se a feitos e sensações extraordinárias. Pelo contrário, a mesma frase dita por um anti-benfiquista, significará que está a ser acometido por desgraças que lhe provocam simultaneamente tristeza, frustração, autocomiseração e inveja. E proponho também outra que defina antigos árbitros de futebol que, impedidos pela idade de destilarem ódio ao Benfica num relvado, o façam agora em páginas de jornais e na televisão: os vídeoparvos.

Jornal O Benfica - 11/8/2017

Sinto-me seguro

Ele há coisas do diabo. Associar o estádio da Luz a qualquer questão relacionada com segurança remete-nos unicamente para a excelência das suas condições. Não tem fosso no qual poderão cair adeptos, por exemplo. Ainda recentemente foi escolhido pela UEFA para a realização de uma final da Liga dos Campeões e é, como se tem observado, o palco preferencial da Federação Portuguesa de Futebol para as partidas da sua selecção.

Não é, no entanto, à prova de comportamentos de gente transtornada psicologicamente, como os pirómanos. Menos ainda se esses, ao satisfazerem o seu desejo de provocarem incêndios, não sejam minimamente criticados pelos dirigentes do seu clube. Nem tão pouco se revela eficaz perante a actuação, vá lá, musculada do primeiro bate, depois pergunta, de um tipo de polícia que, de quando em vez, dispara para o ar e atinge quem, por ser homem, está impossibilitado de voar. Ou mesmo a um nível de muitíssima menor gravidade, como num caso passado comigo, pacato cidadão pagador dos meus impostos e que até me barbeio com alguma regularidade (embora menor que a desejada por mãe e namorada), que por ter andado distraidamente junto a uma chamada linha de segurança, fui empurrado e insultado por um troglodita fardado e armado, por certo instruído para se situar acima da lei para fazê-la cumprir.

Mas parece que se fala de claques… De uma vez por todas: os benfiquistas que assistem aos jogos nos sectores geralmente conotados com claques são sócios do Benfica com as quotas em dia e detentores de lugar cativo, vulgo Red Pass. Desde quando é que o direito à livre associação se tornou numa obrigatoriedade?


P.S. A supertaça é um troféu, não é um título.

Jornal O Benfica - 4/8/2017

Assim vai o defeso

O defeso terminado recentemente e a presente pré-época do futebol português têm sido bastante interessantes de analisar sob o ponto de vista do negócio. Os três principais clubes têm implementado estratégias distintas, porque é distinto também o ponto de partida de cada uma delas. Entre eles, é possível distinguir com maior clareza as opções do Benfica face às dos seus rivais – confirmando a regra não escrita do futebol que define que a razão está sempre do lado de quem ganha e que “ganhar só traz vantagens” – mas também entre as de FC Porto e Sporting.

O Benfica goza, actualmente, de uma vantagem competitiva que deriva do sucesso desportivo: A estabilidade. Não me refiro à legitimidade das direcções para tomarem decisões de fundo, pois todas estão, até ver, de pedra e cal à frente dos destinos de cada um dos clubes. Refiro-me antes à margem de manobra para a tomada de decisão. No fundo, o Benfica pode ser gerido a médio/longo prazo porque, apesar da vontade de vencer no imediato se manter intacta, a mesma não é alimentada por um sentimento de urgência. E o curioso é que tem ganho repetidamente, o que legitima a política prosseguida.

Para FC Porto e Sporting a conjuntura é diferente e explica a necessidade da aposta no curto prazo. O primeiro viu-se afastado do título nas últimas quatro temporadas, enquanto o segundo não se sagra campeão nacional de futebol desde 2002. É justo dizer que, para os portistas, dado o palmarés conseguido pelos azuis e brancos nas últimas décadas, quatro ou quinze anos parece mais ou menos o mesmo. O FC Porto sente-se, por isso, obrigado a ganhar o quanto antes, tanto ou mais que o Sporting, cuja míngua de títulos (dois nos últimos 35 anos) em nada condiz com a grandeza da instituição.

Há, no entanto, uma diferença significativa entre ambos: Apesar de tanto FC Porto e Sporting estarem, do meu ponto de vista, obrigados a realizarem encaixes elevados (quer em prol da sua situação económica como da gestão de tesouraria) com a venda de passes de jogadores, os portistas encontram-se ainda limitados no seu raio de acção pela necessidade de cumprimento do acordo estabelecido com a UEFA no âmbito do chamado fairplay financeiro. Ou seja, o FC Porto está mais limitado (ou será protegido?) que o Sporting relativamente a “loucuras” que procuram resolver no imediato constrangimentos estruturais ao nível da competitividade das suas equipas de futebol.

Para já, “dragões” e “leões” estão, numa lógica de curto prazo, a actuar em conformidade com a sua situação económica-financeira e com as restrições daí derivadas. O FC Porto alienou os passes de André Silva (38M€) e Rúben Neves (17.9M€) por montantes significativos, além de outros que representavam gorduras desnecessárias, como Depoitre (4M€), Andrés Fernandéz (2M€) ou Martins Indi (caso se confirme). No que toca a entradas, tem-se limitado a fazer regressar atletas sob contrato – alguns deles poderão ser uma mais-valia desportiva – e a promover elementos da sua equipa B. Quanto ao Sporting, até ao momento mais discreto nas vendas (apenas alienou o passe de Rúben Semedo por 14M€), tem estado bastante activo no apetrechamento do plantel. Porém, só a aquisição de Bruno Fernandes, internacional sub21 que actuava em Itália, envolveu montantes elevados (8.5M€). Piccini e Mattheus, por 3 e 2 milhões de euros respectivamente, são os restantes investimentos relevantes. As duas entradas mais sonantes, Fábio Coentrão e Doumbia, dão-se através de empréstimos, e há ainda Mathieu e André Pinto, chegados a “custo zero”, evidenciando, especialmente nos dois primeiros casos e no do defesa francês, a lógica de curto prazo, pretendendo-se um eventual retorno desportivo imediato sem qualquer eventual retorno financeiro no futuro (excepto, se a equipa obtiver sucesso desportivo, via receitas da liga dos campeões).

Quanto ao Benfica, numa posição bem mais confortável que os seus rivais devido à hegemonia do futebol português conseguida nos últimos anos, persiste na política de valorização de activos, na alienação dos mesmos e na utilização repartida das mais-valias obtidas em novos investimentos (compra de jogadores, inovação em áreas de suporte, ampliação e modernização do centro de treinos, etc) e na redução do passivo. Para os benfiquistas, a legitimação desta gestão acontece por intermédio dos resultados desportivos. Nenhum adepto gosta de ver os seus ídolos partirem para outros clubes, mesmo que por montantes avultados, mas, entre os benfiquistas, subsiste a crença de que o clube tem a capacidade de encontrar substitutos à altura dos que saem, pois é o que tem acontecido sucessivamente nos últimos anos. As vendas de Ederson (40M€), Lindelöf (35M€) e Nélson Semedo (35M€) ocorreram seis meses após a alienação do passe de Gonçalo Guedes (30M€) e um ano depois das de Gaitán (20M€) e Renato Sanches (35M€), só para referir os atletas mais importantes a nível desportivo, pois o conjunto de outras vendas dá a clara sensação que o Benfica tem, neste momento, bem incorporada a ideia de que as operações de compra e venda de passes de atletas, assim como a formação, poderão configurar, também, meras operações financeiras, sem que daí venha mal algum ao mundo e, pelo contrário, proporcione a realização de mais-valias que contribuem significativamente para as boas contas apresentadas.

Mas a análise do “futebol negócio”, neste defeso, não se limita à actuação no mercado dos principais clubes portugueses, muito por culpa do Benfica. Nas últimas semanas, houve três declarações, uma do presidente do Sport Lisboa e Benfica Luís Filipe Vieira e duas do administrador financeiro Domingos Soares Oliveira que me deixaram, por um lado, expectante, e, por outro, desiludido, não pelo conteúdo, mas porque não vi, da parte da comunicação social, o interesse suficiente para explorar os temas, bem mais relevantes para mim que a aborrecida especulação diária sobre o movimento de jogadores.

Começando pela declaração de Luís Filipe Vieira, em que manifestou a intenção de recuperar os capitais próprios da SAD benfiquista o mais depressa possível e a expectativa de, no exercício passado, ter recuperado já entre 40 a 50 milhões de euros (no início do exercício, os resultados transitados eram cerca de 94M€ negativos, com um capital social de 115M€), o que indicia um resultado líquido nessa ordem de valores em 2016/17, para que possa ser implementada uma nova estratégia a partir de 2018 ou 2019 (e com a participação “de todos os benfiquistas”). Que estratégia poderá ser essa e em que medida contribuirá para distanciar a SAD benfiquista das congéneres rivais? Não se sabe e ninguém colocou a pergunta. A resposta poderá ser crucial para antever a competitividade interna do futebol português no futuro próximo. Por exemplo, se o Benfica decidir aumentar o capital da SAD, alienando parte do capital (detém 63% da SAD) com o objectivo de obter meios financeiros que lhe permitam liquidar parte significativa do passivo financeiro, a SAD benfiquista passaria a dispor de cerca de 15M€ adicionais por ano para aplicar em custos operacionais (por exemplo, maior massa salarial), ao invés de, como no presente, canalizá-los para o pagamento de juros.

Quanto às declarações de Domingos Soares Oliveira, uma delas é mais evidente que outra, mas ambas são demonstrativas que o Benfica tem aproveitado o sucesso desportivo no presente para lançar as sementes do eventual sucesso no futuro. Começando pela mais evidente, que vem na linha do que tem vindo a ser feito nos últimos anos, nomeadamente com a BTV e a exploração dos direitos televisivos ou o desenvolvimento do Benfica LAB, entre outros, o administrador da SAD benfiquista afirmou que o Benfica pretende tornar-se “no maior clube do mundo em termos de ciência desportiva”. É um tema pouco sexy, porém, num país cuja capacidade de investimento em jogadores é substancialmente inferior à de outros, atingir o patamar da excelência nas áreas de suporte, como é o caso da ciência desportiva, permite esbater essa distância. “Ciência desportiva” abrange inúmeras áreas de conhecimento e todas poderão ser relevantes na competição.


Finalmente, a revelação de que o Benfica tem estudado a possibilidade de participação na gestão de um clube da Premier League. À primeira vista, parece uma ideia inusitada. No entanto, existem já vários casos em que clubes de vários países e/ou desportos pertencem às mesmas pessoas ou entidades. A ideia passará, provavelmente, por deter uma participação minoritária num clube inglês em troca da exportação de competências (scouting, metodologias de gestão, formas de financiamento, etc), recolhendo dividendos. Numa frase, ensinar a fazer muito com pouco, afinal a especialidade do futebol português.

Vida Económica - 28/7/2017

Heptacampeões!

Nélson Évora, Marco Fortes, Hélio Gomes, Rasul Dabo, Tiago Aperta, Marcos Caldeira, Jorge Paula, Rui Pedro Silva, Bruno Albuquerque e dez pontos de atraso no Campeonato Nacional de atletismo. Parabéns Sporting por mais um vice-campeonato na modalidade e pela alegria de nos ter “roubado” uns quantos atletas. Somos heptacampeões nacionais!

Tem sido absolutamente brilhante o trabalho desenvolvido pela nossa secção de atletismo, impulsionado pelo projecto olímpico, também ele muito bem conduzido. O Benfica não é, actualmente, um mero campeão ocasional na modalidade, sendo antes hegemónico, assim o atestam os sete títulos consecutivos e o repetido sucesso, ano após ano, nos diversos escalões.

Como bem disse Cosme Damião, em 1914, após a saída de Artur José Pereira para o Sporting, “no imediato o dinheiro vence a dedicação. No futuro, a dedicação goleia o dinheiro”. Este axioma do benfiquismo e tantos outros da autoria do “pai do benfiquismo” são a garantia, se devidamente interpretados e aplicados consoante a conjuntura, de estarmos mais perto do sucesso.

Em pleno século XXI, talvez seja necessária uma frase mais longa: O Sporting, não se sabe como, estoira dinheiro. Nós temos dedicação, competência, estratégia e racionalidade no investimento, que é feito em meios humanos e materiais e em metodologias. No imediato, o dinheiro permite fazer umas flores, apresentar uns atletas no relvado. No futuro, todos os factores críticos de sucesso goleiam o dinheiro”. Até porque nós também o temos, mas preferimos investi-lo criteriosamente ao invés de apostarmos todas as fichas nuns aplausos efémeros antes de uma partida de futebol.


P.S: Parabéns também aos nossos triatletas campeões europeus!

Jornal O Benfica - 28/7/2017

Apito desavergonhado

Eles bem podem andar de artifício jurídico em artifício jurídico, que o conteúdo das escutas relativas ao processo “Apito Dourado” permanecerá inalterado. Eles bem podem utilizar excertos de emails, obtidos sabe-se lá como, e deturpá-los a seu bel-prazer, que nunca conseguirão fazer esquecer o que se passou no futebol português ao longo de décadas e muito menos poderão algum vez criar a ideia de que os seus esquemas são agora utilizados por outros.

Chega até a ser cómico, sem ter graça alguma, vê-los a acusarem outros de usarem os seus esquemas que, de artifício jurídico em artifício jurídico, afinal nunca foram os seus. Passados anos, resta apenas um castigado: As empresas de telecomunicações. Nem consigo imaginar os seus prejuízos por aquela gente, aquela gente desavergonhada, despudorada e vigarista, ter restringido o teor das suas chamadas telefónicas. E, já agora, o que pensar sobre a inexistência de qualquer reacção dos patetas alegres? Ai, ai, pobres de espírito… Tanto lhes faz quem ganhará, desde que não seja o Benfica…


Entretanto a vida prossegue e lá continuamos a trabalhar norteados pelo desejo do penta. Não gosto de ver o Benfica perder nem a feijões, e muito menos de o ver goleado, mas o pessimismo desmesurado que detectei em alguns benfiquistas após a derrota frente ao Young Boys parece–me absurdo. E mais ainda atribuir às vendas de Ederson, Lindelöf e Nélson Semedo o estatuto de principal causa da derrocada da nossa equipa no passado sábado. A exibição da nossa equipa esteve longe de ser brilhante, mas enquanto houve pernas também não preocupou. E o mais relevante é que não teria nada que preocupar ou entusiasmar… é pré-época!

Jornal O Benfica - 21/7/2017

Futebolês

No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicio...