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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Vídeoárbitro

O futebol português é tão caricato quanto previsível. Quando a Federação Portuguesa de Futebol anunciou a intenção de implementação da vídeoarbitragem em Portugal, escrevi uma crónica em que argumentei em prol dessa decisão, mas deixei uma advertência aos que pensavam que o recurso a tecnologias de apoio à decisão dos árbitros resolveria os problemas da arbitragem portuguesa e, sobretudo, aos que, ingenuamente, julgavam que o ambiente conflituoso em torno da arbitragem se dissiparia.

Com vídeoarbitragem, o futebol português não deixaria de ser o futebol português, isto é, uma actividade na qual pululam os agitadores e, simultaneamente, impera a incapacidade para o reconhecimento do mérito dos adversários. Chega a ser quase irrelevante ganhar ou perder, desde que se garanta que a percepção da justiça ou injustiça dos triunfadores prevaleça em quem ganha e perde, respectivamente. De alguma forma, todos ganham e talvez seja melhor assim! Além disso, persistiriam os lances de difícil análise, sujeitos à interpretação dos árbitros, árbitros assistentes e vídeoárbitros, e as análises de observadores supostamente isentos (como se a maior parte não tenha a sua agenda, seja devido a preferência clubística ou posicionamento no sector da arbitragem), já para não mencionar o barulho criado com o objectivo do condicionamento da actuação futura dos diversos agentes.

Importa, por isso e antes de mais, perceber que a vídeoarbitragem, enquanto instrumento de apoio à decisão dos árbitros, é indiscutivelmente útil. São já inúmeros os exemplos em que esta ferramenta corrigiu más decisões da equipa de arbitragem no campo ou confirmou boas decisões, porém passíveis de contestação aparentemente legítima no campo. Ainda recentemente, no Paços de Ferreira – Boavista (como, entre tantos outros, no Sporting – Estoril nos descontos), a equipa caseira adiantou-se no marcador nos primeiros minutos. Se não fosse o vídeoárbitro, o tento inaugural da partida teria sido erradamente anulado devido a um pretenso fora-de-jogo. Como este ocorreram já diversos casos que legitimam a utilização do vídeoárbitro. Porém, temos assistido igualmente a decisões que levantam questões pertinentes quanto à utilidade desta ferramenta e que, do meu ponto de vista, derivam da má concepção do protocolo de actuação do vídeoárbitro. O FC Porto – Benfica é um bom exemplo, em que subsistiram dúvidas quanto ao acerto de diversas decisões da equipa de arbitragem.

Para resumir, evoco apenas dois lances que expõem a necessidade de melhoria do protocolo de utilização do vídeoárbitro: Uma entrada violenta de Felipe sobre Jonas; O lance mal anulado por fora-de-jogo ao ataque portista que poderia ter resultado em golo.

Quanto ao primeiro lance, o defeito do protocolo reside na não interferência do vídeoárbitro em lances de interpretação e difícil ajuizamento do árbitro, o que julgo não fazer qualquer sentido. O princípio de não interferência neste tipo de lances, além da dificuldade em se aquilatar se o vídeoárbitro deverá ou não informar o árbitro que o lance deverá ser revisto, coloca o vídeoárbitro numa posição em que contesta a decisão do árbitro. No enquadramento actual, as decisões finais são do árbitro de campo, mas fortemente influenciadas pelo contributo do vídeoárbitro. Logo, e até para evitar situações em que o vídeoárbitro prefira não intervir por alguma forma de deferência em relação ao árbitro, será desejável que se permita ao vídeoárbitro questionar as decisões do árbitro sempre que entender, ficando claro que o objectivo é providenciar uma ferramenta ao árbitro para a tomada de decisões, ao invés de o colocar numa posição de alguma forma fragilizada. Para tal é essencial que a decisão (definitiva) seja tomada pelo árbitro através do visionamento das imagens sempre que haja alguma dúvida. No caso particular do tal lance de Felipe, Jorge Sousa entendeu que não deveria admoestar o central portista com um cartão. À luz do protocolo, o vídeoárbitro não interpelou o árbitro para o fazer ou rever o lance e decidir. Após o jogo, todos os analistas consideraram que o jogador deveria ter recebido um cartão, só divergindo na cor. O amarelo teria condicionado a actuação do jogador. O vermelho a da equipa.

No segundo lance referido, houve um fora-de-jogo mal assinalado que interrompeu uma jogada de perigo iminente para a baliza benfiquista. Na continuação do lance, a bola chegou até a entrar na baliza, mas é errada a afirmação de que existiu um golo mal anulado. O protocolo do vídeoárbitro, neste tipo de lances, não chegou a ser aplicado. As regras ditam que o árbitro, ao ter uma indicação do árbitro assistente de que há fora-de-jogo, deverá aguardar pelo desfecho da jogada. Por desfecho da jogada entende-se o primeiro remate após a indicação de fora-de-jogo, o qual foi defendido pelo guardião benfiquista Varela. O vídeoárbitro já não poderia ser utilizado na recarga ao primeiro remate. O mesmo se passara na jornada anterior, no Benfica – Estoril, em que uma jogada em tudo semelhante (a diferença é que o primeiro remate foi à barra) poderia ter resultado num golo benfiquista (também Jonas chegou a marcar). Com o vídeoárbitro, esta regra deveria ter sido melhorada, podendo-se estender o conceito de “desfecho da jogada” e recorrer-se, sempre que necessário, à consulta de imagens para a tomada de decisão (por exemplo, a jogada não terminaria enquanto a equipa adversária se limitasse a tentar impedir que a bola entrasse na sua baliza).

Porém, o constrangimento mais relevante no vídeoárbitro relativamente aos lances de fora-de-jogo reside na avaliação do trabalho dos árbitros assistentes. Um erro posteriormente corrigido devido a indicação do vídeoárbitro conta como um erro. Ou seja, para efeitos de avaliação do árbitro assistente, é como se o vídeoárbitro não existisse. Percebe-se a intenção, pois um erro é um erro, no entanto julgo que, existindo o vídeoárbitro, deveria convidar-se os árbitros assistentes a não sentirem tanta necessidade de se protegerem. O problema é o seguinte: Um lance em fora-de-jogo tem mais probabilidades de ser transformado em golo e os árbitros sabem-no, enquanto um fora-de-jogo mal assinalado interrompe a jogada ou levanta dúvidas se seria golo mesmo que a bola entre na baliza porque, geralmente, os defesas e o guarda-redes desistem do lance. E isto faz toda a diferença na gravidade do erro, contrariando as indicações dadas aos árbitros assistentes que, em caso de dúvida, deverão beneficiar a equipa atacante.

Para tornear este problema, bastaria seguir o que tem sido feito noutras modalidades que adoptaram o vídeoárbitro há alguns anos. No râguebi e no futebol americano, existe o conceito da bandeira. Em poucas palavras, há uma indicação de falta mas o jogo continua. Se o lance for determinante, exige-se a revisão das imagens televisivas após a sua conclusão. No basquetebol, esta possibilidade aplica-se às dúvidas quanto aos lançamentos de dois ou três pontos. Se um dos árbitros tiver dúvidas se o lançamento convertido tiver sido de dois ou três pontos, dá uma indicação aos oficiais de mesa para que, na paragem de jogo seguinte, o lance seja revisto. A vantagem está em permitir que a equipa que sofreu o cesto possa repor a bola rapidamente em jogo e que não seja prejudicada devido à dificuldade dos árbitros em avaliarem o lance anterior, além, evidentemente, da defesa da verdade desportiva.

Porque é de verdade desportiva que trata o recurso a tecnologias de apoio à decisão dos árbitros. Se, no fim de uma competição, se chegasse à conclusão que o vídeoárbitro só teria tido aplicabilidade num único lance, já seria positivo. E está à vista que, não obstante os defeitos do protocolo implementado e eventuais erros aqui ou ali, foram vários os lances que foram bem ajuizados em cada uma das jornadas.


Entretanto, enquanto o futebol português se entretém a discutir o acessório, chamo a atenção para o que City Football Group tem vindo a fazer e as repercussões que a sua actuação no futebol poderá vir a ter na forma como o futebol será organizado no futuro. Não se trata apenas da empresa que detém o capital do Manchester City, mas de um grupo que controla directa ou indirectamente sete clubes, além de outras valências futebolísticas. E não é caso único, bastando referir a Red Bull e os seus quatro clubes. Qual será o primeiro clube ou SAD portuguesa a integrar um destes grupos? Fica a questão e talvez tema para uma próxima crónica…

Vida Económica - 22/12/2017

A inevitabilidade da Superliga Europeia

Recentemente, Domingos Soares Oliveira, o CEO da SAD do S.L. Benfica, foi eleito para a direcção da Associação Europeia de Clubes de futebol. Esta eleição é prestigiante para o próprio e para o Benfica, assim como, no passado, o foi para Fernando Gomes e F.C. Porto, quando o actual presidente da Federação Portuguesa de Futebol era administrador da SAD portista e desempenhou as mesmas funções na ECA.

Para Domingos Soares Oliveira, existem “vários desafios, alguns específicos e outros comuns”, entre os quais destacou três, o que me leva a pensar que serão aqueles que, no futuro próximo, mais serão discutidos entre os membros da associação: A possibilidade de existência de uma Superliga e o acesso à mesma; os centros de treino de excelência de jogadores; e a janela de transferências. Quanto aos dois últimos, serei breve.

Relativamente aos centros de treino de excelência de jogadores, parece-me que a FIFA e a UEFA deram os passos possíveis no sentido da valorização do trabalho desenvolvido pelos clubes formadores. A primeira através da criação do mecanismo de solidariedade, em que 10% do valor total de cada transferência é entregue ao(s) clube(s) formador(es). A segunda ao excluir as despesas inerentes à formação de jogadores no âmbito da avaliação do chamado fairplay financeiro. Ir mais longe seria difícil, até porque, na União Europeia, há livre circulação de pessoas. A ECA, sim, poderá ter uma palavra a dizer nesta matéria, caso os seus membros se decidirem por uma espécie de pacto de não-agressão.

Quanto à janela de transferências, todos os anos assistimos a negócios entre clubes em cima do prazo do fecho do mercado, quando as competições estão já em andamento. Na sua génese, os prazos foram definidos com uma intenção benigna: Os clubes, após os primeiros jogos da temporada, estariam mais aptos a identificarem eventuais lacunas nos seus plantéis e supri-las recorrendo à aquisição de jogadores. Teriam também mais tempo para avaliarem se os jogadores teriam qualidade, ou não, para integrarem os plantéis. No entanto, a realidade extravasou o plano das intenções, resultando numa desigualdade evidente entre os clubes mais endinheirados e a sua concorrência, ao estenderem ao máximo as negociações até um momento que, se pressionados pelo prazo limite, pagam as cláusulas de rescisão e arrumam a questão. Tal parece benéfico para os clubes vendedores, dando a impressão que poderão limitar-se a esperar por 31 de Agosto e rentabilizarem ao máximo os seus activos. Porém, deparam-se com dois constrangimentos que condicionam a sua actuação no mercado: Por um lado, a incerteza da venda de determinados jogadores e a finitude dos recursos impede-os de contratarem substitutos sem terem a garantia de que venderão os tais jogadores. Por outro, os atletas, cientes de que estarão perto de passarem a auferir salários mais elevados, pressionam os dirigentes para que estes se decidam pela venda do seu passe. Se antecipar o prazo do fecho de mercado é a solução mais óbvia, creio que a criação de um mecanismo intermédio poderia ser a ideal. Por exemplo, nas duas semanas finais da janela de transferências, a capacidade de investimento dos clubes estar limitada a uma percentagem do montante total despendido ou recebido desde a reabertura do mercado de transferências pela aquisição ou alienação de passes.

Mas a Superliga Europeia de futebol é a grande questão e sempre tive a sensação que foi com o propósito da criação da mesma, ou talvez apenas com a possibilidade de ameaça da sua criação enquanto instrumento de pressão junto da UEFA, que a Associação Europeia de Clubes foi criada.

O futebol é gerido, a nível mundial, pela FIFA. Dela fazem parte mais de duas centenas de associados (as federações de futebol de cada país), que se agrupam por confederações, como é o caso da UEFA, da qual a Federação Portuguesa de Futebol faz parte. A FIFA, criada em 1904, é responsável pela organização do futebol e de competições internacionais, nomeadamente os Campeonatos do Mundo de selecções e clubes. A UEFA, fundada em 1954, organiza as competições europeias de clubes, além do Campeonato da Europa de selecções. No entanto, contrariamente ao que parece ser evidente, o monopólio da organização das competições internacionais resulta somente da antecipação e não de qualquer outra razão. O primeiro Campeonato do Mundo foi realizado em 1930, passados 26 anos da fundação da FIFA. A UEFA organizou o primeiro Campeonato da Europa em 1960, seis anos depois de ter sido criada, e até a sua primeira competição europeia de clubes, a Taça dos Clubes Campeões Europeus, só passou a estar na égide da UEFA em 1956, na sua segunda edição, pois a primeira fora da iniciativa do jornal francês L’Équipe. Aliás, já antes se haviam disputado provas oficiais, porque organizadas por federações, de âmbito internacional, como foram os casos das taças Mitropa ou Latina, a qual foi conquistada pelo Benfica em 1950.

Resumindo, a FIFA foi fundada nos primórdios do futebol (só em Inglaterra já se disputavam competições há décadas), num tempo em que o contacto entre as poucas equipas existentes em cada país era muito limitado. Mesmo a UEFA, criada meio século depois, quando as competições nacionais já atingiam alguma maturidade e já se haviam realizado algumas experiências de competições internacionais, conquistou o seu espaço pela quase inexistência desse género de provas, tornando-se, à semelhança da FIFA, monopolista da organização de competições.

Nas raras ocasiões em que a eventual criação de uma Superliga Europeia de futebol é tema de análise em Portugal, logo são apontados supostos constrangimentos à sua criação baseados numa pretensa impossibilidade dos clubes em tomarem uma iniciativa desse cariz e, assim, enfrentarem a UEFA. Por vezes até se reconhece que os clubes poderiam ter a capacidade de se organizarem e tentarem promover uma competição internacional entre si, mas logo são apontadas inúmeras possibilidades de retaliação da UEFA e FIFA que inviabilizariam logo à partida o arrojo dos clubes. Esquecem-se, no entanto, que quem manda efectivamente no futebol são os adeptos porque são eles os consumidores de futebol. E as suas motivações estão bem tipificadas: afecto clubista e prazer de ver os melhores artistas. Ora, se os adeptos pagam para ver a sua equipa ou os seus jogadores preferidos, pagarão independentemente de quem organiza as provas. Os jogadores e treinadores quererão representar os clubes que melhor lhes pagarão e esses serão os que conseguirão granjear maiores receitas, independentemente, mais uma vez, de quem organiza as competições. Não se trata de um lirismo, já aconteceu no basquetebol, cuja popularidade à escala europeia está abaixo do futebol, mas muito acima de qualquer outra modalidade. E tanto a FIFA e a UEFA como os clubes de futebol conhecem perfeitamente o caso do basquetebol europeu.

Em 1991, foi criada a ULEB, a associação de ligas europeias de basquetebol. O passo foi dado pelas ligas de clubes de Espanha, Itália e França, as quais, nos anos seguintes, viram juntar-se-lhes as de outros países (a grega foi a primeira, em 1996). O seu propósito foi assumido desde o início: Organização de competições europeias de basquetebol à margem da FIBA e da FIBA Europa, as congéneres da FIFA e da UEFA na modalidade. E a razão foi clara: Os clubes não identificavam qualquer vantagem na existência de um intermediário para gerir os seus interesses comuns, nomeadamente a captação de receitas. Finalmente, em 2000, a ULEB anunciou a criação da Euroliga.

Claro está, a FIBA Europa não assistiu impávida e serena às movimentações dos clubes. Foi de ameaça em ameaça e de retaliação gorada em retaliação gorada até à capitulação final. A tentativa derradeira foi a de ameaçar as federações dos países cujos clubes participam nas competições da ULEB de não poderem competir nas provas internacionais de selecções, tentando assim que fossem os jogadores a pressionarem os clubes para que a FIBA voltasse a organizar as principais competições europeias de clubes. Como se esperava, jogadores e treinadores, como profissionais que são, obedeceram a quem mais lhes pode pagar e não demonstraram interesse suficiente em provocarem uma reversão do modelo competitivo de clubes a nível europeu. Já antes a FIBA Europa havia tentado impedir os clubes de participarem nas competições nacionais, mas imagine-se, por exemplo, o campeonato nacional de futebol português sem Benfica e Porto…

No presente, a ULEB organiza duas competições, a Euroliga, com 16 equipas (os finalistas disputam 35 a 37 jogos) e a Eurocup, com 24 clubes. Dos 16 clubes participantes na Euroliga, 11 são fixos (Barcelona, Baskonia e Real Madrid de Espanha, Olympiacos e Panathinaikos da Grécia, Anadolu Efes e Fenerbahce da Turquia, Maccabi Tel Aviv, Olimpia Milano, CSKA e Zalguiris de Israel, Itália, Rússia e Lituânia respectivamente) e os restantes são apurados através da Eurocup, da classificação nos campeonatos nacionais ou por convite. Na prática, a ULEB garante que, na sua principal competição, participam os 16 melhores clubes de basquetebol na Europa em cada ano, isto é, os que não só têm teoricamente melhores equipas como os que garantem mais público e maior investimento (por exemplo, em 2016, os maiores orçamentos foram do CSKA, Fenerbahce e Real Madrid, com 35, 27 e 23 milhões de euros respectivamente). Tudo isto sem que uma entidade intermediária fique com uma fatia significativa das receitas provenientes dos patrocinadores e direitos televisivos.


A UEFA, beneficiando do exemplo da experiência nefasta para a FIBA Europa, tem sido mais inteligente que a sua congénere e, ao invés de entrar em conflito com os clubes, tem aumentado a percentagem das receitas distribuídas aos clubes participantes na Liga dos Campeões e da Liga Europa. Um dia não haverá acordo, resta saber quando.

Vida Económica - 22/9/2017

Futebol online

Quando quero referir-me a algo ou alguém que não cabe no tema da minha crónica, geralmente remeto-o para o último parágrafo, quase à laia de notas finais. No entanto, hoje decidi inverter essa tendência estilística e começo por um elogio aos diários desportivos, em particular ao jornal A Bola. Para tal terei que recuar dois anos e resumir significativamente o que escrevi em Agosto de 2015.

Na altura critiquei os diários desportivos por dedicarem quase exclusivamente as suas primeira páginas ao futebol. Referi as razões que julgo estarem na base dessa opção editorial e sublinhei que as compreendo – nomeadamente a necessidade de vendas no curto prazo, o que lhes coarcta o estímulo de novos públicos no futuro para que eventualmente estanquem a perda de leitores. Raros, ou mesmo inexistentes, terão sido os exemplos de uma primeira página desde então em que o destaque não tenha sido dado ao futebol e, por isso, sinto-me obrigado, embora sem qualquer favor, a louvar o A Bola por, na passada segunda-feira, nos ter presenteado com a parangona “rainha do sofrimento” e uma imagem de Inês Henriques, que se sagrou campeã do mundo e bateu o recorde mundial dos 50 Kms marcha, do topo ao fundo da sua primeira página. Nas restantes chamadas de capa (cinco), constou o futebol e qualquer delas, num dia normal, poderia ter sido o tema de capa principal. Também o Record, no terço superior da primeira página, destacou o feito de Inês Henriques, e o Jogo, embora mais comedido e também no topo, o fez. Porém, a novidade (nestes últimos anos) esteve na primeira página quase unicamente dedicada a um assunto que não o futebol pelo jornal A Bola, daí o meu elogio público, esperando que as suas vendas, nesse dia, não tenham, pelo menos, sido menores que o costume.

Mas quem tem a gentileza de ler as minhas crónicas sabe que também costumo criticar a imprensa desportiva pela pouca atenção prestada ao lado do negócio do futebol e quase nunca à antecipação de cenários originados por determinados acontecimentos nesse domínio. Na semana passada tivemos mais um destes casos: o anúncio do lançamento, em vários países (Brasil, México, Argentina, Estados Unidos da América, Espanha, Itália, Alemanha, França e Inglaterra), de uma plataforma tecnológica que poderá reconfigurar o consumo do desporto enquanto produto televisivo, o Sportflix.

À semelhança do Netflix numa fase inicial (entretanto já evoluiu), o Sportflix não terá produção própria, limitando-se a retransmitir produtos de outras estações. Promete incluir na sua oferta alguns dos conteúdos mais apelativos, como os campeonatos de futebol de Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Espanha (entre outros, mas não o português…), ou a NBA, a NFL, o UFC, a Fórmula 1 e os Jogos Olímpicos. Terá uma mensalidade de 17€ para os clientes domésticos e 21€ para empresas e poderá ser acedido de qualquer aparelho com acesso à internet (por exemplo, o pacote premium da Sporttv, na NOS, tem um custo mensal de 28€).

Tendo em conta os novos hábitos de consumo de produtos televisivos, em particular dos mais jovens, cuja propensão para o fazerem através de dispositivos móveis é notória, o Sportflix, se conseguir realmente disponibilizar os conteúdos prometidos (há dias surgiu o comunicado da Fox Sports América Latina, que alega ter 61 milhões de clientes em 19 países, a desmentir categoricamente quaisquer contactos ou negociação com a Sportflix para a cedência de direitos televisivos), poderá tornar-se rapidamente, se não encarada como tal já, na ameaça mais significativa aos canais televisivos dedicados ao desporto.

É previsível que, numa fase inicial e à semelhança do que se sucedeu com a Netflix, haja resistência por parte dos maiores operadores, não cedendo conteúdos e tentando inviabilizar o acesso em vários países. Porém, partindo do pressuposto que a Sportflix terá músculo financeiro para criar uma base de clientes que lhe permita exponenciar a sua capacidade de investimento, mais cedo ou mais tarde tentará intrometer-se na disputa pelos conteúdos e assumirá as despesas de produção. O mais provável é que esse passo, a ser dado, vise nichos de mercado numa primeira instância, mas uma vez suplantadas as dificuldades iniciais, o futuro tornar-se-á imprevisível.

Até porque, apesar de não ter encontrado qualquer referência na comunicação social portuguesa, já existe um operador deste género lançado há um ano, a DAZN, disponível na Alemanha, Áustria, Suíça e, recentemente, Canadá e Japão (anuncia ter transmitido em directo cerca de 8000 eventos desportivos). Se no Canadá, no qual só há um mês passou a estar disponível, se limitará ao futebol americano numa fase inicial, na Alemanha tem as ligas de futebol inglesa, espanhola, francesa e italiana (além de resumos da liga alemã) como produtos estrela. De acordo com uma notícia, a partir de 2018/19 transmitirá também a Liga dos Campeões, enquanto que, no Japão, terá a liga japonesa de futebol.

A estratégia da DAZN é assumida: Criar uma base de clientes que lhe permita, juntamente com anunciados dois biliões de dólares reservados para a sua segunda fase de desenvolvimento, proceder à adquisição de conteúdos exclusivos. A Netflix, que em Junho anunciou ter alcançado 100 milhões de utilizadores, também começou timidamente, porém foi com produtos exclusivos, como as séries “House of cards”, “Orange is the new black”, “Narcos” ou “Stranger things”, entre outras, que obteve um grande impulso nas suas vendas, não só pelas subscrições do serviço como até pela revenda das séries, como é o caso da “House of Cards” à SIC e posteriormente à TVSéries em Portugal.

Fazendo a ponte para a conjuntura futebolística nacional, ressaltam dois aspectos pouco ou nada focados. Por um lado, a cedência dos direitos televisivos por parte dos clubes às operadoras que, não obstante os elevados montantes conseguidos tendo em conta os contratos anteriores (Porto e Sporting quase triplicaram a sua facturação e Benfica quintuplicou relativamente ao período anterior ao que explorou por sua conta os seus direitos televisivos), são todos de longa duração (Benfica – de 2016/17 até 2025/26, Porto e Sporting de 2018/19 até 2027/28) e incluem todas as plataformas, o que significa que, dada a evolução tecnológica cada vez mais acelerada nesta área, representa um risco significativo no que concerne à comparação entre facturação e potencial de facturação, nomeadamente nos últimos anos de vigência destes contratos.

Por outro lado, Porto e Sporting já anteciparam receitas de direitos televisivos cuja entrada em vigor ainda nem sequer ocorreu: No caso portista, foi a antecipação de 18,6M€ a receber da Altice, com início em 31/12/2018, em dez prestações mensais de 2.666.667 euros (relatórios e contas do 1º semestre de 2016/17); No caso do Sporting, tendo por base o relatório do 1º semestre de 2016/17, esse montante ascendeu a 4,75 milhões de euros (“A rúbrica de cedência de créditos futuros decorre do montante não corrente relacionado com antecipação de receitas sem recurso, do contrato celebrado com a NOS, realizada com uma entidade bancária no primeiro trimestre da presenta época”). No relatório seguinte, o montante desta rúbrica cresceu para 21,057 milhões de euros, se bem que não explicita tratar-se de direitos televisivos (“A rúbrica de cedência de créditos futuros decorre do montante não corrente relacionado com antecipação de receitas sem recurso”), embora seja o mais provável, na minha opinião.


A antecipação de receitas operacionais indicia dificuldades de tesouraria e faz transparecer um investimento excessivo face à capacidade de angariação de receitas. Se o sucesso desportivo acontecer, é provável que as receitas cresçam (em que medida é outra questão), caso contrário… Mas o problema não se esgota por aqui. Perpetuando-se em crescendo, como uma bola de neve, os gastos acima dos proveitos, há-de chegar uma altura em que não mais poderão ser antecipadas receitas de direitos televisivos (porque já o foram na sua totalidade), a não ser que um novo contrato, ou a extensão do vigente, seja negociado. Como é evidente, nesse contexto, a posição negocial do(s) clube(s) estará enfraquecida e as consequências são, ao contrário do futuro das plataformas online de distribuição de conteúdos desportivos, bastante previsíveis. Basta ver o que aconteceu ao Benfica quando vendeu à pressa os direitos televisivos em 1993 e, anos mais tarde, quando durante anos recebeu cerca de metade dos rivais por optar por não renegociar o contrato então em vigor e esperar por uma posição negocial mais forte. É certo que lhe permitiu tornar a BTV num canal de subscrição e hipervalorizar, face ao passado, os seus direitos televisivos (e os dos seus rivais), mas os anos de espera – poucos títulos – não foram os mais felizes para os seus adeptos.

Vida Económica - 25/8/2017

Assim vai o defeso

O defeso terminado recentemente e a presente pré-época do futebol português têm sido bastante interessantes de analisar sob o ponto de vista do negócio. Os três principais clubes têm implementado estratégias distintas, porque é distinto também o ponto de partida de cada uma delas. Entre eles, é possível distinguir com maior clareza as opções do Benfica face às dos seus rivais – confirmando a regra não escrita do futebol que define que a razão está sempre do lado de quem ganha e que “ganhar só traz vantagens” – mas também entre as de FC Porto e Sporting.

O Benfica goza, actualmente, de uma vantagem competitiva que deriva do sucesso desportivo: A estabilidade. Não me refiro à legitimidade das direcções para tomarem decisões de fundo, pois todas estão, até ver, de pedra e cal à frente dos destinos de cada um dos clubes. Refiro-me antes à margem de manobra para a tomada de decisão. No fundo, o Benfica pode ser gerido a médio/longo prazo porque, apesar da vontade de vencer no imediato se manter intacta, a mesma não é alimentada por um sentimento de urgência. E o curioso é que tem ganho repetidamente, o que legitima a política prosseguida.

Para FC Porto e Sporting a conjuntura é diferente e explica a necessidade da aposta no curto prazo. O primeiro viu-se afastado do título nas últimas quatro temporadas, enquanto o segundo não se sagra campeão nacional de futebol desde 2002. É justo dizer que, para os portistas, dado o palmarés conseguido pelos azuis e brancos nas últimas décadas, quatro ou quinze anos parece mais ou menos o mesmo. O FC Porto sente-se, por isso, obrigado a ganhar o quanto antes, tanto ou mais que o Sporting, cuja míngua de títulos (dois nos últimos 35 anos) em nada condiz com a grandeza da instituição.

Há, no entanto, uma diferença significativa entre ambos: Apesar de tanto FC Porto e Sporting estarem, do meu ponto de vista, obrigados a realizarem encaixes elevados (quer em prol da sua situação económica como da gestão de tesouraria) com a venda de passes de jogadores, os portistas encontram-se ainda limitados no seu raio de acção pela necessidade de cumprimento do acordo estabelecido com a UEFA no âmbito do chamado fairplay financeiro. Ou seja, o FC Porto está mais limitado (ou será protegido?) que o Sporting relativamente a “loucuras” que procuram resolver no imediato constrangimentos estruturais ao nível da competitividade das suas equipas de futebol.

Para já, “dragões” e “leões” estão, numa lógica de curto prazo, a actuar em conformidade com a sua situação económica-financeira e com as restrições daí derivadas. O FC Porto alienou os passes de André Silva (38M€) e Rúben Neves (17.9M€) por montantes significativos, além de outros que representavam gorduras desnecessárias, como Depoitre (4M€), Andrés Fernandéz (2M€) ou Martins Indi (caso se confirme). No que toca a entradas, tem-se limitado a fazer regressar atletas sob contrato – alguns deles poderão ser uma mais-valia desportiva – e a promover elementos da sua equipa B. Quanto ao Sporting, até ao momento mais discreto nas vendas (apenas alienou o passe de Rúben Semedo por 14M€), tem estado bastante activo no apetrechamento do plantel. Porém, só a aquisição de Bruno Fernandes, internacional sub21 que actuava em Itália, envolveu montantes elevados (8.5M€). Piccini e Mattheus, por 3 e 2 milhões de euros respectivamente, são os restantes investimentos relevantes. As duas entradas mais sonantes, Fábio Coentrão e Doumbia, dão-se através de empréstimos, e há ainda Mathieu e André Pinto, chegados a “custo zero”, evidenciando, especialmente nos dois primeiros casos e no do defesa francês, a lógica de curto prazo, pretendendo-se um eventual retorno desportivo imediato sem qualquer eventual retorno financeiro no futuro (excepto, se a equipa obtiver sucesso desportivo, via receitas da liga dos campeões).

Quanto ao Benfica, numa posição bem mais confortável que os seus rivais devido à hegemonia do futebol português conseguida nos últimos anos, persiste na política de valorização de activos, na alienação dos mesmos e na utilização repartida das mais-valias obtidas em novos investimentos (compra de jogadores, inovação em áreas de suporte, ampliação e modernização do centro de treinos, etc) e na redução do passivo. Para os benfiquistas, a legitimação desta gestão acontece por intermédio dos resultados desportivos. Nenhum adepto gosta de ver os seus ídolos partirem para outros clubes, mesmo que por montantes avultados, mas, entre os benfiquistas, subsiste a crença de que o clube tem a capacidade de encontrar substitutos à altura dos que saem, pois é o que tem acontecido sucessivamente nos últimos anos. As vendas de Ederson (40M€), Lindelöf (35M€) e Nélson Semedo (35M€) ocorreram seis meses após a alienação do passe de Gonçalo Guedes (30M€) e um ano depois das de Gaitán (20M€) e Renato Sanches (35M€), só para referir os atletas mais importantes a nível desportivo, pois o conjunto de outras vendas dá a clara sensação que o Benfica tem, neste momento, bem incorporada a ideia de que as operações de compra e venda de passes de atletas, assim como a formação, poderão configurar, também, meras operações financeiras, sem que daí venha mal algum ao mundo e, pelo contrário, proporcione a realização de mais-valias que contribuem significativamente para as boas contas apresentadas.

Mas a análise do “futebol negócio”, neste defeso, não se limita à actuação no mercado dos principais clubes portugueses, muito por culpa do Benfica. Nas últimas semanas, houve três declarações, uma do presidente do Sport Lisboa e Benfica Luís Filipe Vieira e duas do administrador financeiro Domingos Soares Oliveira que me deixaram, por um lado, expectante, e, por outro, desiludido, não pelo conteúdo, mas porque não vi, da parte da comunicação social, o interesse suficiente para explorar os temas, bem mais relevantes para mim que a aborrecida especulação diária sobre o movimento de jogadores.

Começando pela declaração de Luís Filipe Vieira, em que manifestou a intenção de recuperar os capitais próprios da SAD benfiquista o mais depressa possível e a expectativa de, no exercício passado, ter recuperado já entre 40 a 50 milhões de euros (no início do exercício, os resultados transitados eram cerca de 94M€ negativos, com um capital social de 115M€), o que indicia um resultado líquido nessa ordem de valores em 2016/17, para que possa ser implementada uma nova estratégia a partir de 2018 ou 2019 (e com a participação “de todos os benfiquistas”). Que estratégia poderá ser essa e em que medida contribuirá para distanciar a SAD benfiquista das congéneres rivais? Não se sabe e ninguém colocou a pergunta. A resposta poderá ser crucial para antever a competitividade interna do futebol português no futuro próximo. Por exemplo, se o Benfica decidir aumentar o capital da SAD, alienando parte do capital (detém 63% da SAD) com o objectivo de obter meios financeiros que lhe permitam liquidar parte significativa do passivo financeiro, a SAD benfiquista passaria a dispor de cerca de 15M€ adicionais por ano para aplicar em custos operacionais (por exemplo, maior massa salarial), ao invés de, como no presente, canalizá-los para o pagamento de juros.

Quanto às declarações de Domingos Soares Oliveira, uma delas é mais evidente que outra, mas ambas são demonstrativas que o Benfica tem aproveitado o sucesso desportivo no presente para lançar as sementes do eventual sucesso no futuro. Começando pela mais evidente, que vem na linha do que tem vindo a ser feito nos últimos anos, nomeadamente com a BTV e a exploração dos direitos televisivos ou o desenvolvimento do Benfica LAB, entre outros, o administrador da SAD benfiquista afirmou que o Benfica pretende tornar-se “no maior clube do mundo em termos de ciência desportiva”. É um tema pouco sexy, porém, num país cuja capacidade de investimento em jogadores é substancialmente inferior à de outros, atingir o patamar da excelência nas áreas de suporte, como é o caso da ciência desportiva, permite esbater essa distância. “Ciência desportiva” abrange inúmeras áreas de conhecimento e todas poderão ser relevantes na competição.


Finalmente, a revelação de que o Benfica tem estudado a possibilidade de participação na gestão de um clube da Premier League. À primeira vista, parece uma ideia inusitada. No entanto, existem já vários casos em que clubes de vários países e/ou desportos pertencem às mesmas pessoas ou entidades. A ideia passará, provavelmente, por deter uma participação minoritária num clube inglês em troca da exportação de competências (scouting, metodologias de gestão, formas de financiamento, etc), recolhendo dividendos. Numa frase, ensinar a fazer muito com pouco, afinal a especialidade do futebol português.

Vida Económica - 28/7/2017

Temporada encerrada

A minha última crónica foi escrita na ressaca da conquista benfiquista do tetracampeonato, um feito que os encarnados, ao contrário de Sporting e F.C Porto e apesar de serem os mais titulados a nível nacional, nunca haviam conseguido. Faltava ainda a disputa da final da Taça de Portugal e, desde então, ocorreram esse e outros eventos que me parecem significativos relativamente a uma série de temas já abordados em crónicas anteriores.

Começo pelo lado desportivo. A chamada dobradinha alcançada pelo Benfica fortaleceu a ideia de que as águias atravessam um período hegemónico no futebol português. Além destes títulos, somou ainda o troféu da Supertaça, só falhando a renovação do título da Taça da Liga, sendo derrotado surpreendentemente pelo Moreirense – que acabaria por triunfar na final – nas meias-finais, que nem F.C.Porto ou Sporting marcaram presença. Se estendermos a análise às últimas quatro temporadas, verificamos que o Benfica venceu 11 das 16 provas do calendário futebolístico (4 Campeonatos Nacionais, 2 Taças de Portugal, 3 Taças da Liga e 2 Supertaças). O Sporting venceu uma Taça de Portugal e uma Supertaça, o F.C. Porto ficou-se por uma Supertaça, o Vitória de Guimarães celebrou uma vitória no Jamor e o Moreirense, como referido anteriormente, ergueu o troféu da Taça da Liga uma vez. São números impressionantes e tornam irrefutável a interpretação quanto ao domínio desportivo exercido pelo Benfica nos últimos anos.

A realização da final da Taça de Portugal fez-me recordar que houve, em tempos, um movimento, que não chegou a mexer-se, para retirá-la do estádio Nacional. Do meu ponto de vista, essa decisão teria sido errada.

Desde logo pelo simbolismo, por ser um palco especial que, desde 1946, só por cinco vezes foi preterido em detrimento de outros (em 1961, no estádio das Antas, a pedido do F.C. Porto acedido pela FPF; em 1975, 1976 e 1977, ou seja, nas três primeiras temporadas completas após o 25 de Abril, uma espécie de castigo a uma infra-estrutura simbólica do Estado Novo, optando-se pelo estádio do vencedor da edição anterior, embora as últimas duas tenham sido realizadas nas Antas porque a FPF considerou o estádio do Bessa pequeno para acolher a final; e em 1983, novamente nas Antas e a “pedido” do FC Porto, que ameaçou não comparecer caso a final fosse disputada no Jamor).

Ainda no âmbito do simbolismo, vale a pena referir que a definição de uma espécie de sede permanente para a final da Taça confere à competição uma aura suplementar. Isso nota-se no discurso de dirigentes, treinadores e jogadores antes e depois de uma eliminatória. A expressão “chegar ao Jamor”, recorrentemente utilizada pelos vários intervenientes, é sinónimo de apuramento para a final da Taça, emprestando à prova e, principalmente, aos clubes que disputam a final, uma certa exclusividade.

E há ainda toda a envolvência da final. No Jamor, as condições para promover a confraternização entre adeptos são excelentes. Estima-se que cerca de metade dos espectadores passam o dia na mata em redor do estádio, o que nos remete para a nostalgia de um futebol que já não existe, quase completamente engolido pelo chamado “futebol moderno” e as suas exigências ao nível da segurança. Uma vez por ano, os adeptos de dois clubes podem, em parte, experimentar pela primeira vez ou reviver os hábitos de antigamente, de um tempo em que o futebol era um desporto das e para as massas, sem constrangimentos significativos à forma como se viviam os jogos.

Com a colocação de cadeiras nas bancadas, a lotação do estádio foi reduzida drasticamente. Os números oficiais apontam para 37593 lugares, ainda assim o quarto maior em Portugal, o que significa que aplicando o critério da capacidade, só a Luz, o Dragão e Alvalade poderiam ser utilizados para o evento. O problema do acesso pela praça Maratona, em que era costume gerar um rol de queixas de adeptos devido ao afunilamento de pessoas provocado pela má concepção da entrada e a demora que a revista das forças de segurança implica, foi bem solucionada nos últimos dois anos, não se registando problemas de maior. Sobra o estado do relvado, geralmente aquém do exigível, a inadequação dos balneários, mas não ao ponto de inviabilizar a sua utilização pelas equipas, e a inexistência de cobertura que proteja os adeptos da chuva, caso exista, o que é incomum no final de Maio / princípio de Junho na região de Lisboa (curiosamente, esta época choveu copiosamente ao longo de toda a partida).

Termino as minhas observações acerca do evento e do seu local de realização com uma crítica que não vi ser feita por mais ninguém, mas que me parece pertinente por se tratar, do meu ponto de vista, de um desperdício de tempo e dinheiro. O espectáculo que precede a final é, geralmente, de uma pobreza confrangedora. Além da habitual coreografia, tipicamente caracterizada por uma quantidade inusitada de participantes, mas sem qualquer interesse estético, além de não entreter o público, não beneficia certamente o relvado. Cumulativamente, há um certo anacronismo na exibição militar, em que umas habilidades com dois helicópteros antigos, segundo julgo saber, Allouette III, dos anos 60(?) e a passagem de aviões têm como ponto alto a expelição de fumo. Não deverá ser bom para o ambiente e muito menos torna compreensível o afã da proibição da abertura de tochas nas bancadas, crime para o qual o quadro legal prevê multas e inibição de frequência dos estádios para os prevaricadores. E já nem refiro a eventualidade de ocorrência de um acidente de um dos helicópteros ao pairarem quase sobre as bancadas, pois parto do princípio que não haverá qualquer risco para os milhares de adeptos ali presentes. Como bem diz um amigo meu: “São perfeitamente seguros, só caem de vez em quando”.

Também a vertente feminina do futebol terminou a temporada e o Sporting, vencedor do Campeonato Nacional e Taça de Portugal, acabou por chamar a minha atenção pelo seu assinalável sucesso, assim como um acontecimento, alheio aos leoninos, que diz muito sobre o desporto em Portugal.

É comum os clubes de futebol campeões nacionais e/ou vencedores da Taça de Portugal serem recebidos nos Paços do Concelho a que pertencem. Uma honra concedida aos vencedores, mas que menoriza os restantes desportos. Neste caso, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu bem ao homenagear a equipa feminina do Sporting, mas foi desolador ver a praça vazia pois mereciam, pelo seu esforço e valor, reconhecimento do público. Além disso, creio que os pressupostos da decisão foram errados.

Estou a entrar no domínio da especulação, mas parece-me que o evento se deveu ao acautelamento de eventuais críticas dos responsáveis sportinguistas. Ora, desde que a equipa de futebol do Benfica foi recebida na praça do município, houve campeões de andebol, basquetebol e voleibol (Sporting, Benfica e Benfica, respectivamente), só para citar as modalidades mais populares, e não é público que se tenha sequer cogitado a possibilidade desses campeões se deslocarem à Câmara. São estes pormenores que, todos somados, ajudam a cavar um fosso enorme entre o futebol e os restantes desportos em Portugal, oferecendo de bandeja ao primeiro, em detrimento dos restantes, o quase monopólio do mediatismo, o que se torna pernicioso para o desporto português.

Neste mês tivemos ainda, como factos mais salientes, a reabertura do mercado de transferências no futebol e as sanções da UEFA ao FC Porto no âmbito do fairplay financeiro. Certamente que explorarei estes temas em crónicas futuras, mas o espaço disponível permite-me apenas escrever o seguinte:
- Até ver, o Benfica já vendeu Ederson e Lindelöf, o Sporting cedeu Rúben Semedo e o FC Porto alienou o passe de André Silva. É sinal de que os clubes de campeonatos mais endinheirados estão atentos ao futebol português e também que grassa, embora por razões diferentes consoante o clube, uma certa incapacidade para reter talento futebolístico em Portugal.
- Conforme expectável, o FC Porto foi sancionado pela UEFA devido ao incumprimento do fairplay financeiro. Surpreende-me, sobretudo, que haja quem se mostre surpreendido, pois, em princípio, as contas não mentem. Além de vendas avultadas e de um recuo no investimento, os portistas terão que reduzir significativamente a folha salarial, a mais alta em Portugal nas últimas temporadas.

Vida Económica - 23/6/2017

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A temporada 2016/17

Na minha crónica publicada em Outubro do ano passado, defendi que a atribuição de um título de campeão do mercado se trata de um exercício pueril. Em qualquer sector de actividade, ainda mais no futebol, nem tudo o que parece bem no papel resulta na prática e esta temporada em particular é um bom exemplo disso mesmo.

Na altura, a generalidade dos analistas considerou o conjunto de operações de aquisição e cedência de passes de atletas realizadas pelo Sporting no mercado de Verão o melhor entre os chamados três grandes. Passados nove meses, e um terceiro lugar no campeonato a enorme distância do campeão, além do insucesso precoce nas restantes competições, sucederam-se os lamentos de Jorge Jesus, o treinador leonino, quanto à carência de soluções no plantel à sua disposição, contrariando as avaliações por terceiros após o fecho de mercado.

Há um erro comum neste tipo de análise: Soma-se tudo. Isto é, listam-se os reforços, comparam-se estes com as saídas, parte-se do princípio que os novos jogadores apresentarão um rendimento mais elevado que os anteriores (nos casos em que saem estrelas, presume-se que as entradas sonantes as compensarão), dá-se por certo que a evolução das “promessas” continuará e que o desempenho de atletas consagrados atingirá, no mínimo, níveis semelhantes aos anteriormente obtidos. Não se considera, no entanto, a possibilidade de ocorrência de lesões, inadaptações ao clube, ao treinador, aos colegas, aos métodos de trabalho ou ao modelo táctico, problemas pessoais, ou ainda sobreposição de competências (por vezes mantendo ou mesmo criando lacunas) entre elementos do plantel.

Mas mesmo mantendo a opinião sobre a inutilidade da atribuição de títulos de campeão do mercado de transferências, considero que existem pistas indiciadoras de quem poderá ter saído a ganhar desse período (ou a perder menos, no caso português, dado que a necessidade de entradas de dinheiro é o que normalmente mais condiciona as decisões tomadas pelos clubes).

Por exemplo, se o desempenho na temporada anterior tiver atingido um patamar satisfatório, a estabilidade é o factor mais decisivo. Até em casos de equipas mal sucedidas, poucos reforços, mas bons (aqueles que possivelmente suprimirão as lacunas identificadas no plantel), serão, à partida, melhor rentabilizados do ponto de vista desportivo. As revoluções nos plantéis são, tendencialmente, infrutíferas no curto prazo. Nos desportos colectivos há dinâmicas imprescindíveis que raramente são conseguidas no imediato, colocando em risco a obtenção de bons resultados desportivos.

Avaliando à posteriori a temporada 2016/17 – reconheço que agora é fácil, mas julgo beneficiar do facto de ter defendido a mesma opinião há nove meses – o Benfica foi o campeão de mercado (na medida em que tal poderá ser definido). Se no presente se torna numa evidência porque, do meu ponto de vista, campeões de mercado são aqueles que se sagram campeões no campo, em Outubro o factor mais relevante a ter em consideração foi a estabilidade. Do onze titular na época anterior, apenas dois jogadores haviam saído: Gaitán e Renato Sanches. Se para o lugar do jovem médio português não chegara qualquer reforço sonante (embora se antevisse que Pizzi regressaria a essa posição e que André Horta poderia desempenhar esse papel), em substituição do argentino surgira outro atleta das pampas, Cervi, o melhor jogador do campeonato do mundo de sub20, Zivkovic, e um dos mais destacados atletas em Portugal, Rafa, além do regresso de Salvio, que passara lesionado a maior parte da temporada anterior. Em nenhuma outra posição se poderia antever qualquer eventual constrangimento para os encarnados (excepto eventuais lesões), dado que todos os atletas importantes da época anterior permaneceram no plantel (à excepção de Talisca que apresentara inconsistência ao longo do ano). A acrescentar a este saldo de entradas e saídas, a equipa técnica manteve-se à frente da equipa, gozando de um factor importantíssimo no futebol, emanado do sucesso obtido meses antes: mais uma vez, estabilidade.

No caso portista, a simples mudança de equipa técnica acarretou alguma indefinição. Porém, o ponto de partida era, em virtude do fraco desempenho na temporada anterior, claramente mais recuado que o dos seus adversários. Relativamente à construção do plantel, o elevado investimento era tido como necessário de forma a equilibrar, no curto prazo, as possibilidades de regresso à conquista de títulos. Houve, no entanto, uma lacuna que transitou da temporada passada e que me parece ter sido fundamental no decurso da época que agora finda: A ausência de jogadores com títulos no seu currículo. As excepções encontram-se em Maxi Pereira e Casillas, que não obstante as boas temporadas conseguidas, não são hoje os mesmos jogadores que já foram no passado. Este factor parece-me deveras significativo, tendo em conta a míngua de títulos dos azuis e brancos nos últimos anos em contraste com décadas de sucesso constante. Os adeptos, ávidos das celebrações a que tanto estavam habituados, passaram rapidamente do apoio ao transporte de ansiedade das bancadas para o relvado, colocando dificuldades acrescidas aos intentos dos inexperientes (hábito de ganhar) jogadores portistas. Acresce que só em Janeiro chegou Soares, um atleta que, integrado no modelo de jogo de Nuno Espírito Santo, conseguiu materializar em golos a produção ofensiva da equipa, mais caracterizada por ser musculada que por ser criativa ou resultar de soluções tácticas. Em suma, os portistas sentiram a pressão, não conseguindo aproveitar algumas oportunidades para se colocarem na liderança da classificação e recolher benefícios de uma eventual dinâmica positiva que daí se poderia gerar.

Do lado sportinguista verificou-se um falhanço total. A época até nem começou mal, mas a partir do momento em que o chão lhe começou a fugir dos pés, entrou numa espiral negativa de que nunca mais se conseguiu soltar. Além dos erros de casting na construção do plantel e da incapacidade compreensível para colmatar as saídas de Slimani (Bas Dost é um goleador impressionante, mas fica muito aquém do argelino nas restantes vertentes do jogo) e João Mário (menos desequilibrador que o excelente Gelson Martins, mas mestre a pensar o jogo colectivo), contribuiu decisivamente o factor pressão. Se as catorze temporadas sem sucesso no campeonato (agora quinze) são enormemente penalizadoras para a equipa (os adeptos têm a ideia de um Sporting vencedor que já não existe, colocando pressão desmesurada na equipa), creio que a realização de eleições foi igualmente penalizadora para a equipa neste domínio. Por vezes deu-me a sensação que a estratégia comunicacional implementada pelo Sporting visou, demasiadas vezes, proteger os interesses do candidato presidencial Bruno de Carvalho do que os objectivos da equipa de futebol. A contrastar, no entanto, com esta percepção que guardo do percurso leonino esta época, esteve a excelente decisão tomada em Janeiro, reconhecendo, no fundo, erros cometidos meses antes ao dispensar alguns jogadores e conseguindo, com essa decisão, a redução da massa salarial nos meses que restavam da temporada.

A questão da comunicação também marcou a presente época. Não me alongarei agora sobre este tema, pois já o fiz anteriormente, mas sublinho o protagonismo inusitado dos directores de comunicação no futebol português. Obviamente, não diminuo a relevância da sua actuação, mas por favor, e a bem do futebol, resguardem-se nos seus gabinetes e deixem os holofotes para quem realmente interessa aos adeptos: Os treinadores e os jogadores. São eles quem vendem bilhetes e subscrições de canais de televisão, não tenhamos quaisquer dúvidas disso.


Termino com outro tema marcante da temporada e que prometo desenvolver numa crónica futura: A notícia da implementação do vídeoárbitro na primeira divisão do futebol português. Trata-se de uma excelente notícia! Espero, no entanto, que a concretização da utilização de tecnologias de apoio à tomada de decisão dos árbitros seja muito bem ponderada. Há dois meses escrevi uma crónica defendendo o vídeoárbitro e realço agora a minha principal preocupação quanto à sua utilização: Contrariamente aos vários desportos em que o vídeoárbitro tem sido utilizado com sucesso, o futebol caracteriza-se pela raridade dos golos. Condicionar os festejos de todos ou da maior parte dos golos à espera por uma decisão da equipa de arbitragem, prejudicará o futebol. Limitar a aplicabilidade deste recurso a situações concretas poderá ser a forma mais ajuizada de implementar esta medida. E, já agora, que às primeiras dúvidas, não se coloque em causa a idoneidade e isenção dos operadores de câmara… Em todo o caso, os meus parabéns à Federação Portuguesa de Futebol pelo seu empenho nesta questão.

Vida Económica - 26/5/2017

Em defesa da comunicação social desportiva

Quando, há já mais de dois anos, iniciei esta aventura de escrever sobre o chamado “futebol negócio”, tive como uma das principais motivações a constatação de que o tema é abordado rara e grosseiramente pela generalidade da comunicação social, em particular a desportiva.

O desconhecimento de conceitos básicos relacionados com as contas dos clubes é gritante e essa lacuna permanece inalterada. Ainda recentemente, e só para dar um exemplo simples, o administrador da SAD benfiquista Domingos Soares Oliveira afirmou, numa entrevista colectiva a propósito da emissão de um empréstimo obrigacionista, que “a SAD do Benfica reduziu o endividamento financeiro em 13 milhões de euros no primeiro semestre”. Um dos diários desportivos citou-o e “informou” que o Benfica reduziu a dívida em 13 milhões de euros desde Janeiro, ignorando ou esquecendo que, nas SAD, o primeiro semestre corresponde ao período entre o início de Junho e fim de Dezembro e que, como é evidente, este dado consta no relatório e contas semestral correspondente a esse período, o qual foi objecto de notícia da mesma publicação no mês anterior (salvo raras excepções, estas peças jornalísticas limitam-se à cópia das conclusões dos relatórios).

Porém, o “futebol negócio” não se limita aos aspectos económico financeiros e, por isso, tenho discorrido sobre diversos assuntos, nos quais se inclui o papel dos media enquanto agentes simultaneamente promotores e interessados na promoção do desporto e do futebol em particular. A questão é simples: Quanto maior for o interesse por futebol, mais consumidores existirão para os meios que prestam informação sobre futebol. No entanto, se há uns anos se poderia considerar linear a relação entre consumidores e proveitos neste sector, o advento da internet resultou na diminuição dos hábitos de leitura e na transformação do consumo da televisão, introduzindo disrupção nessa equação.

A reacção dos media a este fenómeno passou, compreensivelmente, por tentar tornar o seu produto mais apetecível a uma base mais alargada de consumidores (e pelo caminho reduzir custos de mão-de-obra). Passou a privilegiar a polémica em detrimento da informação, condensou as peças e baixou os níveis de qualidade do seu produto, conseguindo (será?) chegar a leitores, ouvintes e telespectadores que outrora e presumivelmente não se interessariam por conteúdos extensos. O problema é que tal não pareceu resolver o problema de fundo (queda das receitas) e poderá, a médio/longo prazo, contribuir para o desinteresse generalizado pelo futebol nacional.

No entanto, justo será dizer que os clubes são os principais responsáveis por esta situação. Partindo do princípio, que me parece lógico, que estes são os maiores interessados na promoção do produto futebol, é inconcebível que sejam os dirigentes a fomentar a polémica e a impedir, à comunicação social, o acesso livre aos verdadeiros protagonistas: os treinadores e, principalmente, os jogadores.

Começa logo pelas regras limitativas de acesso aos jogadores: Só é obrigatório que um jogador, a seguir aos jogos, seja entrevistado se houver transmissão televisiva. Já não vou ao ponto de exigir que se estude o que se faz no desporto americano, em que, além da participação de pelo menos dois jogadores nas conferências de imprensa, os jornalistas, mediante determinadas regras, têm acesso ao balneário das equipas e aos jogadores após as partidas e a possibilidade de entrevistarem os atletas imediatamente após os treinos, no recinto em que estes se realizaram. Mas, por exemplo, na Liga dos Campeões, além do flash interview prever a participação de dois jogadores, há a chamada zona mista, em que os jogadores podem ser entrevistados. Outro bom exemplo é do futebol francês e também do brasileiro, em que há a possibilidade de colocar perguntas a um jogador de cada equipa no intervalo do jogo. Em Portugal, nada disto é possível e, para agravar a situação, é raríssimo que os departamentos de comunicação autorizem os jogadores a darem entrevistas ao longo da época.

Perante um cenário destes, o que sobra aos media para que não se tornem em meros anunciantes de resultados ou em instrumentos à disposição dos clubes para a propaganda e o condicionamento da opinião pública? Naturalmente, a polémica, que até se diz vender, sob as mais diversas formas: Parangonas inflamadas e incendiárias emanadas de soundbytes criteriosamente concebidos; Análise exaustiva à actuação dos árbitros; Discussão sobre o sexo dos anjos e berraria avulsa e insultuosa; (...) E o futebol? Repare-se no último clássico disputado há duas semanas entre Benfica e F.C.Porto…

Os mais distraídos poderão ficar surpreendidos, mas tratou-se de um grande jogo. Disputado intensa e lealmente por ambas as equipas, imperou a incerteza no resultado até ao apito final. Foi uma excelente propaganda ao futebol, deixou a questão do título em aberto e, imagine-se, foi bem arbitrado por Carlos Xistra. O que sobrou? Opiniões dos jogadores? Análises técnicas e tácticas? Elogios às equipas? Não, claro que não… Antes uma discussão estéril e pueril sobre se Jonas terá procurado o contacto num lance que resultou em grande penalidade evidente a favor do Benfica, uma falta de Maxi Pereira no lance do golo portista que, apesar de ter realmente existido, ninguém a descortinou no campo ou mesmo na televisão em directo, uma rábula acerca dos bilhetes que se demonstrou não ter razão de ser, uma suposta agressão de Jonas a Nuno Espírito Santo que nem sequer ao próprio treinador portista mereceu qualquer comentário, as participações do Sporting acerca do que entendeu serem atitudes incorrectas do médio benfiquista Samaris e outras questões menores que nada acrescentam e menos se justificam.

Será que os clubes percebem que os jogadores são os verdadeiros protagonistas e que estes, ao invés de surgirem unicamente em sessões de autógrafos no âmbito de eventos de patrocinadores, poderiam contribuir decisivamente para a promoção do futebol caso não lhes fosse vedada a possibilidade de falarem quando e como bem entendessem? É que, além de serem raras as suas declarações, o controlo a que são submetidos resulta em mensagens estereotipadas, desprovidas de conteúdo, irrelevantes e desinteressantes. Tempos houve em que os jogadores falavam livremente e que, apesar de quando em vez incomodarem os clubes que representavam por qualquer declaração irreflectida, na maior parte dos casos só tornavam o produto futebol mais apetecível. O leitor que experimente consultar uma edição de um diário desportivo publicada nos anos 80 e perceberá imediatamente a diferença.

Estarei eu a suplicar por um mundo idílico para os adeptos ou a deixar-me enredar em anacronismos? Não me parece. E não desejo que das minhas palavras se subentenda que defendo a atribuição de um papel acrítico à comunicação social. As polémicas são, por definição, interessantes para o grande público. A diferença reside no tipo de polémica e se estas poderão pôr em causa o interesse pelo jogo e a capacidade dos clubes granjearem receitas no futuro. Mais uma vez me socorro do caso americano, convicto de que em lado algum no mundo se vende melhor o desporto.

Que não haja quaisquer dúvidas quanto à preparação dos jogadores profissionais americanos para enfrentarem as perguntas dos jornalistas. Os departamentos de comunicação são constituídos por inúmeros profissionais, que trabalham exaustivamente a mensagem que deverá ser passada, além de definirem e imporem regras de orientação aos jogadores e aplicarem sanções caso estas não sejam cumpridas. Tentam condicionar o que os atletas dirão aos jornalistas, mas é-lhes inconcebível a ideia de que os deverão silenciar porque entendem e aceitam que são os jogadores quem tem a capacidade de atrair, de forma benigna, a atenção do público.

Entre os milhentos exemplos que poderia evocar, referirei um da NBA em que o protagonista foi Russel Westbrook, uma das mais aclamadas vedetas do basquetebol na actualidade. Após um jogo em que esteve muito abaixo do seu valor e a sua equipa foi copiosamente derrotada por um adversário acessível, a generalidade da comunicação social acusou-o de ter sido o culpado da má exibição colectiva por não ter sido capaz de executar competentemente as jogadas. Na partida seguinte, em que esteve a grande nível, decidiu fazer uma birra na sessão aberta aos jornalistas em pleno balneário. A cada pergunta que lhe foi colocada, e não foram poucas, respondeu sempre que a vitória se deveu à execução. Melhor dizendo, apesar de ir variando a entoação da palavra, respondeu somente “execução”. O vídeo original desta entrevista colectiva está no youtube e tem quase quatro milhões de visualizações, sem contar com as de dezenas de reproduções no youtube e noutras plataformas. No fim, ganhou o produto NBA, com a notoriedade que esta entrevista conquistou.


Em Portugal, um caso destes seria impossível. O futebol é mal tratado por quem o dirige e a comunicação social, sendo primeiro vítima, acaba por ser conivente com quem, por questões imediatistas e em interesse próprio, o prejudica seriamente. Dar o protagonismo a quem o merece – os jogadores – é essencial!

Vida Económica - 21/4/2017

2016/17, “all-in” portista?

O avançado portista Soares é o homem do momento no futebol português. Desde que se estreou na linha avançada do F.C. Porto, fez o gosto ao pé em todas as partidas em que participou no Campeonato Nacional, concretizando nove golos em seis jogos. Independentemente do desfecho da temporada, não será extemporâneo afirmar que a contratação portista alterou o campeonato. O F.C. Porto, de uma equipa bem organizada defensivamente, porém relativamente débil do ponto de vista ofensivo, tornou-se (até ver) também forte nas manobras ofensivas. Até Soares se estrear, na 20ª jornada, de dragão ao peito, os portistas marcaram 37 golos. Nas seis seguintes chegou aos 20 e a disputa do título com o Benfica, que pareceu estar, em dado momento, como que adormecida, voltou a ser uma realidade. Pelo caminho, o Sporting, em princípio, estará definitivamente afastado da corrida.

Porém, esta crónica não versa sobre os méritos (ou deméritos) desportivos da contratação de Soares. Agora é fácil afirmar que foi acertada e seria até ridículo defender o contrário, mas recuemos umas semanas. Quando o avançado brasileiro foi contratado, era notório que o F.C. Porto necessitava de um jogador consistente na finalização e que, mais do que a capacidade concretizadora revelada entretanto, emprestasse à equipa agressividade junto da área. Soares, aos 26 anos, tinha demonstrado no Vitória de Guimarães (22 jogos, 9 golos) e no Nacional (49 jogos, 16 golos) que poderia desempenhar esse papel competentemente, reservando-se contudo, as dificuldades comuns de adaptação a uma nova realidade competitiva, a um modelo de jogo diferente daquele em que se notabilizou anteriormente e a uma abordagem defensiva dos adversários mais cuidada e numerosa. O seu percurso anterior no futebol brasileiro não impressiona: Passagens por diversos clubes de divisões secundárias como o Pelotas, Veranópolis, Treze ou Cerâmica, entre outros, que só os mais profundos conhecedores reconhecem e, tendo em conta as estatísticas conseguidas, nem sequer nesses clubes se notabilizou.

Além disso, convém prestar atenção às péssimas contas apresentadas pela F.C. Porto, SAD. O prejuízo de 29.4 milhões de euros verificados no final do 1º semestre, na sequência de um défice acumulado significativo, resultando no incumprimento do fair play financeiro, aconselha mais que prudência, sob pena do modelo de gestão se tornar – se é que não o é já – insustentável. Neste ponto, sabe-se ainda que, ao prejuízo apresentado, se deverá ter em conta factos subsequentes, como a compra obrigatória do passe de Oliver (20 milhões de euros) e a receita da presença nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões já estar contabilizada, ao contrário do Benfica.

Os mais atentos saberão que a SAD portista contabiliza os prémios da Liga dos Campeões no momento em que adquire o direito a recebê-los, ao contrário das SAD do Benfica e Sporting, que o fazem paralelamente à disputa da competição. Poderá argumentar-se que a crença no sucesso de Soares era inabalável e, assim, o prémio da participação na próxima edição da Liga dos Campeões seria certamente contabilizado no corrente exercício. No entanto, quando a contratação se verificou, não se preveria o desnorte ocorrido em Alvalade e o presumível afastamento precoce da luta pelo apuramento directo da Liga dos Campeões. Por outro lado, há inúmeros exemplos de contratações mal sucedidas em qualquer dos “três grandes”, e nem é preciso recuar anos para encontrá-los. Depoitre, contratado ao Gent pelo F.C. Porto no último defeso por 6.5 milhões de euros (portanto, presume-se que igualmente indicado por Nuno Espírito Santo), tem sido uma desilusão, conseguindo apenas 2 golos em escassos 12 jogos disputados de azul e branco, geralmente como suplente utilizado.

Ora, o risco foi elevado (3.5 milhões de euros por 50% do passe, de acordo com a comunicação social), mas parece-me seguro afirmar que o investimento já está a ter retorno (nem que seja, pelo menos, devido ao apuramento directo para a fase de grupos da Liga dos Campeões na próxima temporada). Mas a pergunta tem que ser feita… Sabendo-se que, no futebol, o que interessa para a generalidade dos adeptos são os resultados desportivos, os quais, ultimamente, têm sido entusiasmantes para os portistas, e que Soares tem sido decisivo no percurso recente do futebol portista, o que se diria se Soares não tivesse obtido sucesso no curto prazo?

Nesse caso, os holofotes estariam certamente direccionados para as contas, pois a tendência negativa perdura, o que poderá pôr em causa a capacidade de investimento futura. Tendo em conta que, do ponto de vista da análise financeira, terá sempre que se estabelecer uma fronteira entre a emoção e a razão, logo não se poderá olvidar o desempenho financeiro. Os 29.4 M€ negativos registados no primeiro semestre de 2016/17, seguem-se ao pior resultado apresentado na história da SAD portista. Em 2015/16, o prejuízo atingiu os 58.4 M€. Desde o final do primeiro semestre de 2014/15 até ao último relatório apresentado, ou seja, decorridos dois anos, o capital próprio da SAD portista decresceu 58 milhões de euros (está agora em falência técnica: -3.4 M€). Não considerando as operações relacionadas com passes de atletas, os custos operacionais (63.7M€) continuam acima dos proveitos operacionais (58.7M€) e, comparando com Benfica (51.3M€) e Sporting (50.5M€), estão cerca de 25% acima dos rivais. Nestes destacam-se os custos de pessoal (38.9M€), contrastando com os 30.5M€ do Benfica e 31.6M€ do Sporting.

A conclusão é óbvia: A inversão da tendência negativa galopante é crucial. E há um indicador que demonstra essa necessidade, porque aponta para presumíveis dificuldades de tesouraria: Ao longo do primeiro semestre, a SAD portista recorreu a várias operações de factoring, totalizando cerca de 36M€ de receitas antecipadas. E o mais grave deste panorama é que apenas 7.7M€ correspondem a um montante por receber da alienação de um passe de jogador (Alex Sandro). O restante está relacionado com receitas operacionais futuras, como os valores a receber dos direitos televisivos (PPTV – 6M€; Altice – 18.6M€), direitos de distribuição do Porto Canal (Altice – 2.7M€), Prémios a receber da UEFA (oitavos-de-final – 6M€) e patrocínios (Altice – 2.3M€; New Balance – 0.34M€). Chamo particular atenção para a antecipação de receitas da venda dos direitos televisivos à Altice que, conforme é referido no relatório, corresponde a “dez prestações mensais de 2.666.667€ com inicio em 31/12/2018”. Ou seja, parte significativa da temporada 2019/20.

Entretanto, do Sporting foram chegando anúncios de bonança, do meu ponto de vista bastante empolados pelo período de campanha eleitoral vivido no clube. Se é verdade que o lucro obtido é impressionante (46.5M€), não menos o é que tal se deveu sobretudo às vendas de Slimani e João Mário, apesar de algum crescimento de várias componentes das receitas operacionais. O impacto positivo dessas operações já foi reduzido pela actividade normal, cujos custos crescentes (os custos com pessoal cresceram 261% em dois anos, 34,4% no último ano) contribuíram para um prejuízo de 16.5M€ no segundo trimestre. É certo que se poderá utilizar o argumento de que se recorrerá porventura, e de novo, à alienação de passes de atletas, mas com que custo desportivo? E que jogadores por que montantes? Há uns meses escrevi acerca do “campeão de mercado” e contrariei a opinião maioritária de que teria sido o Sporting. O seu percurso no campeonato tem-me dado razão (plos vistos não sobrestimei Slimani e João Mário…). E não nos esqueçamos da reestruturação financeira empreendida recentemente… Foram os custos acima dos proveitos em exercícios sucessivos que desencadearam a necessidade de promovê-la.


Quanto ao Benfica, considero os resultados bastante positivos. Não tanto pelo lucro apresentado, que é relativamente baixo (2.6M€), e apesar de ocorrer no primeiro semestre pelo terceiro ano consecutivo. Mas antes por ter acontecido num semestre em que os resultados das operações com passes de atletas foram negativos, contrariamente ao que tem sido costume. Além disso, o passivo decresceu 4,5% (cerca de 20M€) e, mais relevante, foi na parcela de empréstimos contraídos à banca que a maior parte deste recuo se verificou (13M€, tendo um impacto positivo de 1.3M€ nos juros suportados). Os quase 70M€ de proveitos operacionais (subida de 7%), bem acima dos rivais, são outra nota de destaque (assim como uma descida dos custos operacionais em torno dos 3%). E ainda, também aqui em sentido oposto ao F.C. Porto, os factos subsequentes permitirem optimismo quanto ao resultado que será apurado no final do exercício (alienação dos passes de Gonçalo Guedes e Hélder Costa por 45M€, mais-valias de 38.9M€).

Vida Económica - 24/3/2017

Em defesa da arbitragem

Numa entrevista recente ao diário alemão Bild, o director técnico da FIFA, Marco Van Basten, referiu oito medidas que, na sua opinião, poderiam ser tomadas para que o futebol fosse “melhorado e mais honesto”. Van Basten não é um mero director-técnico. O seu percurso de futebolista ao serviço de Ajax, Milan e selecção holandesa, em que se firmou como um dos melhores de sempre da história do futebol, e até a experiência enquanto treinador (Holanda, Ajax, Heerenveen, AZ Alkmaar) concedem-lhe o estatuto de voz autorizada e a sua actual função possibilita-lhe influenciar a forma como o futebol é organizado.

As medidas preconizadas foram as seguinte : Fim do fora de jogo (a título experimental); Penalizações de tempo em vez de cartões amarelos (jogadores excluídos temporariamente); Shootout em vez de grandes penalidades; Expulsão por acumulação de faltas; Últimos dez minutos com o relógio a parar; Calendário mais reduzido; Só o capitão pode protestar com o árbitro; Mais substituições (caso haja prolongamento). Ou seja, quatro delas estão relacionadas directa ou indirectamente com a arbitragem. E compreende-se… Os árbitros são o elo mais fraco do futebol.

Quase sem adeptos e, pela função que desempenham, com a capacidade de condicionar o desfecho de uma partida, os árbitros são frequentemente instrumentalizados por dirigentes e treinadores, como forma de justificação dos insucessos das equipas que dirigem e treinam. São um alvo fácil, no fundo. Mesmo os poucos que admiram o seu trabalho – em regra, pessoas do sector da arbitragem – raramente verbalizam a sua admiração, seja por lutas no sector ou por necessidade de afirmação pessoal enquanto comentadores na comunicação social. O erro é sempre o objecto da apreciação pública e raramente se evidencia suficientemente, como merece, uma boa arbitragem.

Apesar das notórias dificuldades que as regras do jogo representam para o trabalho dos árbitros, estes são, no futebol profissional e quando comparados com outras actividades, muito bem pagos e, por isso, sujeitos ao escrutínio público. Porém, mesmo tendo em conta a tal dificuldade no desempenho da função induzida pelas regras, há aspectos que considero negativos e que poderão ser melhorados. Cingindo-me ao futebol português, parece-me evidente a incapacidade generalizada dos árbitros em gerirem as partidas, nomeadamente no que diz respeito ao capítulo disciplinar e ao anti-jogo.

Mas como bem diz o título da crónica, esta trata da defesa da arbitragem. Van Basten avançou com penalizações de tempo em vez de cartões amarelos, expulsão por acumulação de faltas, paragem do relógio nos últimos dez minutos e exclusividade dos protestos conferida aos capitães de equipa. Por outras palavras, Van Basten reconhece que o fairplay é, grosso modo, “uma treta”. Jogadores e treinadores socorrem-se das regras e da inabilidade dos árbitros para condicionar os jogos, evoluindo a forma como o fazem com o mesmo ritmo da evolução física e táctica do jogo. As instâncias do futebol, pelo contrário, revelam inércia quanto à necessidade de adaptação à evolução do futebol e, muitas das vezes, avançam o argumento inqualificável de que o erro faz parte do jogo, assim como uma suposta necessidade de “democratização” do futebol (nem todos os países e divisões poderiam utilizar os meios tecnológicos, por exemplo) que, por outras palavras, não mais é do que um nivelamento por baixo da qualidade da arbitragem.

Numa indústria que movimenta biliões de euros anualmente, será, no mínimo, anacrónico, constatar que o erro faz parte do jogo e pouco ou nada se fazer para minimizar as ocorrências do mesmo. Os anos de atraso na aplicação (experimental) da tecnologia “olho de falcão” na linha de baliza foram imorais (no ténis já é utilizado desde 2001, no futebol foi testada pela primeira vez em 2012). O alargamento da equipa de arbitragem (com árbitros de baliza, que ajudam mas não resolvem o problema de um só árbitro ter que cobrir uma área imensa) fica ainda aquém de outras modalidades. O controlo do tempo de jogo é quase arbitrário e tendencialmente favorável às equipas que procuram encurtar o tempo útil de jogo. A aplicação dos cartões amarelo e vermelho é nitidamente subjectiva. Ou ainda, só para dar um exemplo caricato, é incompreensível que um árbitro, ao admoestar um jogador com um cartão amarelo, tenha que perder tempo com o seu registo.

O conservadorismo característico do futebol é pernicioso para a modalidade e nem percebo porque as raras alterações bem-sucedidas não são motivadoras de uma maior predisposição para tornar o jogo, como disse Van Basten, “melhor e mais honesto”.

Tempos houve – e refiro-me à era moderna do futebol (início das competições europeias) – em que a regra do fora-de-jogo era diferente (em linha era considerado fora de jogo), as substituições não eram permitidas, não havia cartões amarelos nem compensação formal por perda de tempo, ou os guarda-redes poderiam jogar com as mãos a bola atrasada por colegas de equipa. Talvez sejam estas as alterações no futebol mais significativas nas últimas seis décadas(!) e todas representaram um aumento qualitativo do espectáculo futebolístico. Houve várias alterações de pormenor (uso do spray para definir o local de marcação de um livre e a distância da barreira é uma delas), a grande maioria melhorou o jogo e, mesmo assim, é com enorme relutância que sugestões de mudanças das regras são acolhidas, o que me parece insólito. E depois sobra a figura da equipa de arbitragem, imensamente contestada, regularmente alvo de suspeitas e, porque não assumi-lo, frequentemente incapaz de desempenhar a função com sucesso.

É bom dizer que os restantes agentes do jogo não ajudam a arbitragem. As tentativas de condicionamento de árbitros, por vezes a roçar a coacção, são encaradas com normalidade. Os protestos, após prejuízos, e o silêncio, após benefícios, descredibilizam a mensagem quando esta se trata de propostas de melhorias do sector. O fairplay é “uma treta” e a comunicação social, por norma, não se coíbe de elogiar as equipas e/ou jogadores bem-sucedidos, mesmo que o sucesso tenha sido obtido recorrendo ao anti-jogo. O árbitro é sempre considerado o elo mais fraco, desculpabilizando-o desse modo com referências genéricas à dificuldade da função, sem que se perceba o que motiva essas dificuldades e se procure resolvê-las… O erro fará sempre parte do jogo, mas tal não significa que não deva ser reduzido. O futebol, neste aspecto, está muito atrasado em relação a outras modalidades.

Há casos simples, que poderiam ser melhorados facilmente. Uma das maiores dificuldades está relacionada com a área coberta pelo árbitro, que o obriga a acompanhar de perto atletas sobredotados fisicamente e a tomar decisões em décimas de segundo. Em média, nas competições internacionais, o terreno de jogo tem 105 metros de comprimento e 70 metros de largura (7350 m2). Um árbitro principal é auxiliado por dois árbitros nas linhas laterais e há a possibilidade de ter ainda dois árbitros de baliza a apoiá-lo. O chamado quarto árbitro ocupa-se de aspectos não técnicos. Se houver os tais árbitros de baliza, a área por árbitro é 1470 m2. Caso contrário, é 2450m2. Como há 22 jogadores em campo, são 4.4 ou 7.3 por árbitro. No basquetebol, em que há três árbitros de campo, a área de jogo é de 420m2 e há dez atletas em campo, caberá a cada árbitro, grosso modo, cobrir 140m2 e 3.3 jogadores por árbitro. No futsal, são 5 jogadores por árbitro e a área coberta por cada juiz é cerca de 450m2. Dois árbitros fariam um melhor trabalho certamente.

Outro exemplo respeita o tempo de jogo. Todas as modalidades de pavilhão, ao contrário do futebol, preveem a paragem do tempo. Há diferenças entre elas, mas em nenhuma é concedido tempo adicional pela equipa de arbitragem. No basquetebol, o tempo só não pára após um cesto (exceptuando nos últimos dois minutos), no andebol pára sempre que os árbitros entendem que a paragem será mais demorada que o considerado normal para cada situação de jogo, no futsal para em quase todas as situações. O curioso é que, não obstante as diferenças do tempo de jogo entre estas modalidades e as especificidades de cada uma, regra geral os jogos duram cerca de uma hora e 45 minutos, à semelhança do futebol. Jogos de 60 minutos com paragem do relógio em determinadas situações poderia ser a solução contra o anti-jogo.


Finalmente, embora mais exemplos poderiam ser dados, a utilização de ferramentas de apoio à decisão. No basquetebol, o uso de vídeoárbitro é permitido em algumas situações como determinar se a bola foi lançada no tempo de jogo, entre muitas outras. No râguebi há um quarto árbitro que, caso a equipa de arbitragem não chegue a um consenso na avaliação de um lance, poderá socorrer-se de imagens televisivas. No ténis há muitos anos que o “olho de falcão” é utilizado de forma generalizada. Porque não no futebol? Os testes não têm corrido bem, mas aperfeiçoando o uso de tecnologias (aliás, os intercomunicadores são uma boa ferramenta e já são usados), as arbitragens serão melhores e o futebol só terá a ganhar com isso. Pela paixão que desperta e pelo dinheiro que movimenta, o futebol não poderá continuar a resistir ao progresso. Por um futebol melhor e mais honesto!

Vida Económica - 24/2/2017

A informação sobre o “futebol negócio” é rudimentar…

Desde há vários anos que sigo atentamente o tema “futebol negócio” e não me recordo de este ter provocado tamanha agitação nas redes sociais como a que se seguiu à divulgação do oitava edição do relatório produzido pela UEFA no âmbito do fair play financeiro (“The European Club Footballing Landscape”). Nas plataformas online de várias publicações, não só as desportivas, tornou-se no artigo mais lido do dia. A informação constante no relatório tem por base os relatórios e contas dos clubes, os quais são utilizados pela UEFA para o licenciamento dos clubes no âmbito da participação nas provas por si organizadas e, também, para a avaliação do cumprimento dos critérios estabelecidos no chamado fair play financeiro.

Contribuiu para tal o tom alarmista com que foi noticiada uma única tabela, em 130 páginas, sobre dívida líquida e em que o Benfica ocupou a segunda posição em 2014/15. As finanças do futebol europeu constituem o tema de fundo. O curioso é que, da parte dos clubes, não foi encontrado o devido eco, com o Benfica a limitar-se a afirmar que “não está preocupado nem tem muitos comentários a fazer” e o presidente leonino, Bruno de Carvalho, através da sua página oficial no Facebook, a ficar-se por uma constatação de se tratar de “mais uma prova de que o trabalho feito com esforço, dedicação e devoção é sempre recompensado”, chamando a atenção para dois gráficos referentes ao crescimento da média de assistências e ao lucro líquido, nos quais consta o Sporting. Também Angelino Ferreira, antigo administrador da FC Porto, SAD, se pronunciou, em entrevista à RTP, sobre o assunto. No entanto, desvalorizou o indicador em causa por ter relevância limitada se analisado isoladamente, aliás conforme está explicado no relatório.

O “futebol negócio”, há que reconhecer, é mal tratado pela comunicação social portuguesa. Geralmente, as notícias resumem-se à transcrição das conclusões dos relatórios e das declarações dos responsáveis dos clubes, quase sempre sem qualquer escrutínio. Para agudizar esta lacuna, não bastas vezes se confundem conceitos técnicos, desinformando assim os leitores, já de si pouco versados no tema. E depois surge a clubite, influenciada pelo momento desportivo, com os adeptos a formarem opinião de acordo com os seus interesses. Uma consulta rápida às caixas de comentários das peças relativas a este tema permite percebê-lo com clareza. A generalidade dos benfiquistas desvalorizou o assunto, evocando os sucessos desportivos posteriores à época em análise. Em sentido contrário, a maior parte dos adeptos dos seus rivais procurou encontrar nestes dados a justificação para os resultados desportivos ocorridos no passado recente, desresponsabilizando assim implicitamente os seus clubes da penúria de títulos que os tem assolado.

Ora, a notícia de que o Benfica “é o segundo clube com maior dívida da Europa” não corresponde à realidade nem sequer é essa a informação constante no relatório da UEFA. Na realidade, o gráfico incide sobre dívida líquida, um indicador que, no caso do relatório em apreciação, é diferente do clássico. Ao endividamento financeiro deduzido das disponibilidades, deverá ainda acrescentar-se ou retirar-se o saldo das transferências de passes de atletas por pagar ou receber. Além do mais, os dados referem-se a 2014/15 e, portanto, o exercício seguinte já terminou e passou, inclusivamente, um semestre do corrente. As notícias, ao apresentarem o estudo como se contivesse factos ocorridos no presente, induziram os leitores em erro. A questão temporal parece um mero detalhe, mas os factos subsequentes são de tal forma relevantes (transferências de jogadores, resultados líquidos, etc.), que o ranking, em 2015/16, poderá ser totalmente diferente em termos globais. No caso nacional, no que me foi possível estimar, a Benfica, SAD apresentará uma redução na dívida líquida (definida pela UEFA) de cerca de 11 milhões de euros, enquanto que as SAD do Sporting e Porto terão um aumento de um montante a rondar os 20 e os 30 milhões de euros, respectivamente. Ademais, conforme já referi em diversas crónicas, é necessária alguma cautela quando nos dedicamos a comparar indicadores financeiros das SAD dos “três grandes”. Neste caso em particular, há que ter em conta o aumento de capital da SAD portista ocorrido há poucos anos, nomeadamente pela incorporação de 47% do capital da Euroantas, a sociedade que detém o estádio do Dragão. Tal significa que 53% do passivo relacionado com a construção do estádio, composto sobretudo, senão mesmo quase totalmente, por endividamento bancário, não faz parte das contas da SAD. Não é o caso das SAD benfiquista e sportinguista, pois estas, também devido a operações de aumento de capital, passaram a deter a 100% as sociedades donas dos estádios. No caso leonino, há a questão das VMOC. Ao transformar endividamento financeiro em capital, a situação é melhor do que seria, principalmente se os riscos de perda da maioria do capital da SAD forem ignorados.

Também os maus resultados alcançados em 2015/16 ao nível das contas pelas SAD portista (58,4M€ negativos) e sportinguista (31,9M€ negativos) poderão ter motivado a quase inexistência de comentários sobre a propalada “segunda maior dívida europeia” do Benfica por parte de responsáveis rivais. A agudizar o cenário, o Benfica juntou ao sucesso desportivo alcançado, que é o que realmente importa aos adeptos, um lucro de 20,4 milhões de euros, além de que, já em 2016/17, no momento em que o relatório da UEFA foi publicado, as expectativas de revalidação do título nacional são elevadas e, entre os três, é o único que se mantém na Taça de Portugal e Taça da Liga. Acresce que no futebol portista e sportinguista ocorreram factos atípicos em 2014/15. No F.C. Porto atingiu-se um volume de transferências extraordinário de cerca de 100 milhões de euros. E, devido à forma como contabiliza os prémios da Liga dos Campeões (no momento da aquisição do direito a receber), registou, nessa temporada, dois acessos à fase de grupos. Quanto ao Sporting, o lucro obtido em 2014/15 foi fortemente influenciado pela restruturação financeira, nomeadamente pela “actualização de passivos não correntes”, em cerca de 12 milhões de euros, que gerou a acusação, por parte dos rivais, de perdão de dívida, e sobretudo a alienação do passe de Marcos Rojo por 20 milhões de euros. Então, não tinha sido ainda constituída qualquer provisão para o caso de as pretensões sportinguistas no diferendo com a Doyen serem negadas, como acabaram por ser, pelos tribunais, e o proveito da venda foi registado na sua totalidade.

Porém, a deficiente interpretação do conteúdo do relatório e subsequente má informação prestada pela generalidade da comunicação social não se ficou por aqui. Por exemplo, num quadro referente ao crescimento da média de espectadores, em que o Sporting ficou colocado num assinalável nono lugar, foi transformado por alguns meios na nona melhor média de espectadores na Europa. Outro caso tem a ver com a relação entre dívida líquida, no qual o valor do Benfica foi 3,3, e receitas operacionais. Não encontrei uma única notícia que explicasse que a UEFA não considerou as transferências de passes de atletas para chegar a estes valores e muito menos encontrei o rácio aplicado a Porto e Sporting. A questão das transferências de atletas é particularmente significativa, pois é notório que estas são parte inalienável do modelo de negócio do futebol. No caso português, e este fica bem patente no relatório da UEFA, são essenciais à competitividade dos clubes a nível europeu e até mesmo à sua sobrevivência face aos níveis de custos e endividamento. Em 2014/15, no que me foi possível apurar, a FC Porto, SAD, neste rácio, teve o valor mais baixo entre os “três grandes”, a rondar o 1,4. O Sporting atingiu 2,35, embora, se os 127 milhões de euros de VMOC fossem considerados, ascenderia a cerca de 4,5. Em 2015/16, os valores foram mais equilibrados. 2,6; 2,2 (4,1 sem VMOC) e 2,1 para Benfica, Sporting e Porto, respectivamente. Finalmente, outro exemplo: Relação entre activos de longo prazo receitas operacionais (sem transferências). Mais uma vez, a confusão de conceitos foi gritante, embora o relatório seja explícito na explicação do que a UEFA considerou serem activos de longo prazo: Somatório dos activos tangíveis e intangíveis de longo prazo, mas os segundos incluem apenas o valor contabilístico dos passes dos atletas. O Benfica teve, neste indicador, 1,3. Fazendo as contas para Porto e Sporting, o primeiro teve cerca de 0,65 e o segundo 3,4 (ou 6,6 sem VMOC).


Qual o objectivo da UEFA em ignorar os proveitos decorridos da alienação de passes de atletas em exercícios comparativos que incluam este tipo de indicadores, prejudicando, grosso modo, a posição nestes rankings dos clubes de países de outros campeonatos que não os das cinco maiores ligas? Ou de não considerar os suprimentos, por exemplo, tão típicos em Inglaterra ou Itália… Fica a questão…

Vida Económica - 20/1/2017

A Europa… de Benfica e FC Porto?

Disputado apenas pouco mais que um terço da temporada, seria extemporâneo tirar conclusões acerca do desempenho das equipas e, principalmente, do que está reservado para o futuro de cada uma delas. No entanto é já tempo suficiente para, tanto no plano nacional como no internacional, identificar tendências.

Nas competições domésticas, o Benfica é o clube que mais regularidade tem demonstrado. Venceu a Supertaça, continua na Taça de Portugal e lidera o campeonato. Em 13 jornadas, tem dez vitórias, dois empates e uma derrota. De salientar que, ao contrário da temporada passada, em que, na primeira volta, saiu derrotado do Dragão e da Luz frente a FC Porto e Sporting, respectivamente, na presente época alcançou um empate e uma vitória no clássico e no dérbi. Lidera destacado o ranking das equipas mais concretizadoras e apresenta a segunda melhor defesa.

Quanto ao FC Porto, o segundo classificado, tem-se verificado alguma oscilação exibicional com repercussão nos resultados obtidos. A série de empates consecutivos, incluído o já referido no Dragão, cedido nos descontos frente ao Benfica, impede os portistas de estarem mais próximos da liderança, salientando-se o bom desempenho defensivo, com somente cinco golos sofridos. A eliminação prematura da Taça de Portugal foi um sério revés no entusiasmo e nas pretensões dos azuis e brancos.

Sobre o Sporting, embora as aspirações relativas ao seu principal objectivo, a conquista do Campeonato Nacional, continuem intactas, nota-se uma certa perturbação entre os seus adeptos, embora aparentemente longe de indiciar a exigência de um novo rumo. A aposta em Jorge Jesus foi reforçada (aumento de cerca de 25% do ordenado líquido de impostos) e o plantel apetrechado. Tendo em conta o desempenho na edição anterior do campeonato, em que ficou a apenas um ponto do campeão e este bateu o recorde absoluto de pontos na competição (88), as expectativas eram muito elevadas em Agosto. Não obstante, seria errado, neste momento, considerar o Sporting menos candidato ao título que os seus rivais, o que, num clube que viveu uma situação financeira catastrófica recentemente e está afastado do título desde 2002, não deixará certamente de ser encarado como positivo.

Relativamente às restantes equipas, o Braga, a apenas seis pontos da liderança, depois de já ter visitado a Luz e o Dragão, está a ter um bom desempenho. Assim como o quinto classificado, o Vitória de Guimarães, cuja militância dos seus adeptos, podendo ser considerado actualmente e neste domínio, o “quarto grande” do futebol português, já merece que a sua equipa encontre estabilidade competitiva quanto à luta pelo apuramento para as competições europeias. Destaque ainda para o Chaves que, regressado à primeira divisão após uma longa ausência, se encontra no 7º lugar e eliminou o FC Porto da Taça de Portugal.

A nível internacional, a situação é diferente. O apuramento de dois clubes para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, Benfica e FC Porto, é merecedor de elogios. No entanto, as participações desastrosas de Sporting, derrotado pelo Légia Varsóvia que não obtinha uma vitória na fase de grupos da Liga dos Campeões há 21 anos, e Braga, este último na Liga Europa, mancham a temporada. Do Arouca e Rio Ave pouco se esperaria, o que se veio a verificar com as suas eliminações prematuras na Liga Europa.

Benfica e Porto têm sido os grandes contribuintes para o ranking de Portugal nas competições europeias, em que o apuramento directo de dois clubes para a fase de grupos da Liga dos Campeões e a participação de um terceiro nas rondas de qualificação é a consequência mais relvante. O ranking do coeficiente de clubes da UEFA, conforme explicado no seu site, “tem por base os resultados registados pelos clubes que competiram nas cinco anteriores épocas da Liga dos Campeões e Liga Europa. Este ranking determina a hierarquia dos cabeças-de-série em todos os sorteios das competições da UEFA”. A pontuação de cada clube é determinada pelos resultados que obteve nas cinco temporadas anteriores (há um sistema de pontuação de acordo com as fases atingidas de cada prova) e mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período (total de pontos atingidos por todos os clubes de cada federação, divididos pelo número de participantes).

Tanto encarnados como azuis e brancos estão bem colocados no ranking. O Benfica está em 8º e o FC Porto em 13º. Braga e Sporting ocupam as 51ª e 52ª posições respectivamente. No entanto, devido à regra dos 20% do coeficiente de cada federação contar para o ranking de cada clube, os dois primeiros têm sido prejudicados pela performance dos restantes e vice-versa. Por exemplo, cerca de 17,5% da pontuação total do Sporting advém do desempenho dos seus rivais, mas somente 1% da pontuação do Benfica está relacionada com o desempenho do seu rival lisboeta.

Este facto é particularmente significativo porque, não só permite obter uma visão global do desempenho de cada clube nas competições europeias (além de influenciar os sorteios, a prova e a fase da mesma em que cada clube inicia a sua participação), como se tornará ainda mais determinante a partir de 2018/19, quando a parcela respeitante ao coeficiente da federação deixar de ser considerado na elaboração do ranking de clubes.

Esta modificação tem um objectivo claro e assumido por parte da UEFA: Reduzir os benefícios a clubes sem pergaminhos recentes na Europa e que provenham de países melhor colocados no ranking. De acordo com os meus cálculos, se este coeficiente já não fosse atribuído, o Sporting ocuparia, neste momento, o 66º posto. Em sentido contrário, manter-se-á o chamado “pote dos campeões”, que valoriza a obtenção do título nacional nos países cuja posição no ranking é elevada. Também ao nível financeiro serão introduzidas alterações, com repercussão na forma como os prémios monetários serão distribuídos. A partir de 2018/19, a distribuição do dinheiro a clubes participantes na Liga dos Campeões terá em conta, também, o desempenho nas dez temporadas anteriores e ainda uma pontuação atribuída aos vencedores das provas europeias, com pesos diferentes utilizando um critério temporal (últimos 5 anos; a partir de 1992/93; Antes de 1992/93).

O que não é assumido por parte da UEFA é a tentativa desta de suster a iniciativa dos principais clubes em criarem a chamada “Superliga europeia”. Aliás, o incremento significativo dos prémios monetários na Liga dos Campeões ocorrido na época passada foi já um passo dado nessa direcção. Para os portugueses, a pretensão dos clubes mais ricos da Europa em criar uma liga fechada, logo vedada a clubes com pouco potencial para a obtenção de receitas elevadas, poderá parecer pouco ameaçadora quanto à sobrevivência do quadro competitivo europeu actual. Não passará, nesse contexto, de uma forma de pressionar a UEFA a ser mais generosa na distribuição dos elevados rendimentos conseguidos com as transmissões televisivas. No entanto, e talvez seja por esta razão que não se tem dado grande relevância a esta questão (excepto quando se refere que somente Benfica e Porto poderiam, eventualmente, receber um convite para participarem na tal “superliga”), há um caso de sucesso noutra modalidade, o basquetebol, que demonstra aos clubes que é possível optar-se por uma solução deste género.

A Euroliga é uma prova europeia de basquetebol, organizada pela Associação Europeia de Ligas e à revelia da FIBA, que inclui os melhores e mais ricos clubes de basquetebol europeus, dos quais fazem parte alguns dos mais conhecidos emblemas do futebol: Real Madrid, Barcelona, Galatasaray, Fenerbahce, CSKA Moscovo, Olympiacos (além do Bayern Munique, presente em edições anteriores)... A FIBA Europe, que é a entidade na Europa do basquetebol equivalente à UEFA no futebol, opôs-se à sua criação e tentou inviabilizá-la de diversas formas, incluindo a ameaça do impedimento da participação dos países com clubes na Euroliga no Campeonato do Mundo e Jogos Olímpicos. O sucesso da Euroliga vê-se a vários níveis. Desde logo o desportivo, em que é notório que os melhores clubes europeus marcam presença na competição; O financeiro, devido às elevadas receitas de televisão, bilheteira e publicidade; E até o legal, visto que a FIBA foi obrigada pelos tribunais a recuar em parte das tentativas de obstrução ao desenvolvimento da Superliga.


A UEFA, ao contrário da FIFA, está a colocar de parte o habitual conservadorismo existente no futebol (em várias modalidades, com destaque para o basquetebol e râguebi, têm sido introduzidas alterações importantes com vista à atractividade do jogo enquanto espectáculo desportivo, à diminuição dos métodos de anti-jogo e à mitigação da probabilidade de ocorrência de erros de arbitragem. A FIFA nem por isso…). Porém, o cada vez maior afunilamento do acesso às competições que representam maiores receitas poderá provocar desigualdades por antever. Será um bom tema para uma próxima crónica.

Vida Económica - 23/12/2016

Números da semana (198)

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