terça-feira, 30 de julho de 2019

Bom problema


Os números divulgados recentemente acerca da venda de Red Pass (incremento de cerca de 125% desde 2013/14 até 44 mil) são impressionantes e revelam, por um lado, o entusiasmo em torno da equipa e a satisfação pelo percurso no campeonato nas últimas temporadas; e, por outro, o sentimento generalizado de que deter um lugar de época é realmente compensador a diversos níveis, incluindo, tendo em conta a capacidade limitada do estádio, de que o lugar estará garantido para este e para os próximos anos.

A manter-se a tendência de procura de Red Pass no futuro próximo, a que se tem que acrescentar os camarotes e executive seats, além da obrigatória cedência de 5% da lotação do estádio aos adversários, sobrarão poucos bilhetes disponíveis em cada jogo, os quais terão que existir sempre de forma a proporcionar a possibilidade de aquisição de ingressos a sócios que, por esta ou aquela razão, não conseguiram ou quiseram comprar Red Pass. Ou seja, é real a possibilidade de, a curto prazo, terem de ser criadas listas de espera para quem quiser adquirir Red Pass.

Do meu ponto de vista, o maior problema neste âmbito está relacionado com a capacidade de criar novos públicos, mesmo sabendo-se que, todos os anos, há lugares que não são renovados devido a causas como morte, envelhecimento, emigração, etc. Com a taxa de ocupação verificada, haverá, por exemplo, uma dificuldade enorme para os pais comprarem Red Pass para os seus filhos quando estes atingirem a idade mínima de entrada (3 anos).

Se tivermos de facto este problema, só vejo duas soluções: Reconfiguração da disposição dos lugares; Ampliação do estádio conforme julgo ter sido anunciado, aquando da construção, que é possível.

Jornal O Benfica - 19/7/2019

terça-feira, 16 de julho de 2019

Sucesso continuado


Há um conto de Le Clézio sobre um menino prodígio que começara a aprender aos dois anos e, aos doze, já desafiava as mentes mais brilhantes com as suas concepções filosóficas. Certo dia sentou-se à janela aparentemente a olhar para o vazio e, passada uma semana, decidiu-se a explorar o jardim infantil que, afinal, tanto observara. A história torna-se interessante quando Le Clézio, ao invés de derivar pela banalidade do menino que só desejava ser criança, mostrou-nos antes um Martin fascinado com os movimentos da areia enquanto escavava e os bichos que nela habitavam. As outras crianças, incapazes de o compreenderem, atacaram-no violentamente e Martin, apesar de frustrado e irritado enquanto era incomodado, permaneceu absorto nas suas actividades após as outras crianças partirem.

Talvez o defeito seja meu, mas identifico nesta história uma boa analogia para o percurso benfiquista no futebol português ao longo dos últimos anos. O tetra expôs a superioridade benfiquista em diversos domínios. Incapazes de compreenderem o sucesso benfiquista, os nossos adversários enveredaram por ataques inconcebíveis recorrendo a acusações sem fundamento e invariavelmente difamatórios. Não ajudou à nossa causa que nos tenhamos apercebido claramente da nossa superioridade e, tudo somado, resultou num estado de torpor que demorámos a abandonar, embora a tempo da ambicionada “reconquista”.

A lição a retirar é simples: o sucesso é consequência de um conjunto de boas práticas, as quais requerem renovação ou reciclagem constantes e atempadas. Paralelamente, nunca nos poderemos deixar condicionar pelas investidas adversárias. Assim estaremos sempre mais próximos dos triunfos.

Jornal O Benfica - 12/7/2019

126


O montante estratosférico da transferência deve-se, sobretudo, à capacidade presente e potencial do jogador, mas não só. A notável saúde financeira da SAD benfiquista tem, na saída de João Félix, o exemplo cabal e definitivo que a comprova.

A intransigência quanto ao valor da cláusula de rescisão tornou-se credível a partir do momento em que ocorreram, em simultâneo, alguns factores, entre os quais os sucessivos exercícios económicos lucrativos, o crescimento sustentado das receitas, a redução quase total do endividamento bancário e a facturação assinalável já feita com a alienação de passes (Jiménez; Jovic; Talisca; etc). Porém, há um detalhe nesta operação ainda mais revelador quanto à saúde económico-financeira da SAD: não houve urgência, dando até a ideia de que, para a SAD benfiquista, seria melhor que ocorresse em julho (2019/20), não prejudicando assim, do ponto de vista fiscal, as suas contas.

Mas se não havia necessidade, porque houve uma negociação? A resposta é simples: Não era preciso vender, mas tinha de se vender, procurando-se, por isso, uma solução que permitisse ao Atlético de Madrid apresentar o montante da cláusula de rescisão de João Félix. Parece paradoxal, mas é mesmo assim. A saúde financeira é evidente, mas não perpétua. Pura e simplesmente o Benfica não conseguiria acompanhar a oferta salarial proposta ao jogador. Além disso, parece-me avisado que os atletas do Benfica percebam que não lhes são cortadas as pernas, assim se acautelem os interesses do clube. E 126 são muitos milhões: Acima de um terço do passivo; Quase dez vezes o endividamento bancário; mais do dobro do passivo financeiro corrente; 75% de todo o endividamento financeiro (RC 1ºSem. 18/19)...

Jornal O Benfica - 5/7/2019

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Propagandistas


No relatório e contas do SLB relativo a 1954, página 16, há uma pequena secção dedicada à aquisição de um autocarro – o primeiro do Benfica. Comprado ao popularíssimo actor Francisco Igrejas Caeiro, o avultado investimento permitiria poupar nos crescentes custos de deslocação das equipas e proporcionar maior conforto e segurança aos atletas. Igrejas Caeiro havia adquirido o autocarro meses antes por cerca de 1100 contos. Vendeu-o por 450 e mereceu, conforme se pode ler no relatório, o seguinte tratamento por parte do Benfica: “O nosso querido amigo e prestigioso consócio”.

Acontece que Igrejas Caeiro, não obstante o seu reconhecido benfiquismo, se viu obrigado a vender o autocarro que adquirira para a sua companhia. Instado a nomear o maior estadista da sua geração numa entrevista ao jornal “Norte Desportivo”, referiu o indiano Nehru, o que foi considerado subversivo e lhe valeu, por decreto governamental, o impedimento de actuar publicamente. Sem poder trabalhar, o autocarro deixou de ter qualquer utilidade para Caeiro. À necessidade benfiquista, juntou-se a oportunidade de ajudar quem se viu privado do seu sustento.

Este é mais um excelente exemplo dos muitos que contrariam os revisionistas que acusam o Benfica de ter sido o clube do regime. Para o Benfica, Igrejas Caeiro continuou a ser, apesar de proscrito pelo Estado Novo, “querido amigo e prestigioso consócio”.

Mas verdade seja dita, esses propagandistas já nem entre os seus têm qualquer credibilidade. Veja-se a sondagem da Aximage sobre a justiça da decisão dos tribunais em punirem o FC Porto no chamado “caso dos emails”. São mais, entre portistas e sportinguistas, os que não discordam da decisão...

Jornal O Benfica - 28/6/2019

terça-feira, 25 de junho de 2019

Poderia ter sido melhor


O título nacional de futebol nos juvenis resultou de um percurso brilhante na fase final, conseguido com duas jornadas por disputar das apenas dez nesta fase. O bicampeonato neste escalão evidencia a existência de talento e atesta o desenvolvimento competente deste, o que é vital para a prossecução da aposta estratégica na formação que o clube tem vindo a implementar.

Quanto ao futsal, tratou-se de um triunfo sobre o antidesportivismo, a selvajaria, a propaganda e o investimento desmedido. E igualmente sobre uma grande equipa. Este título chegou com um ano de atraso, face à manifesta falta de sorte benfiquista na temporada transacta.

E termino pela negativa. No basket, pelo segundo ano consecutivo, não celebrámos o título nacional. Nas seis épocas anteriores, com Carlos Lisboa ao leme da equipa, ganháramos cinco vezes. A equipa técnica há-de ter as suas responsabilidades, mas essas terão de ser apuradas à luz do contexto em que, em meados de Março, Carlos Lisboa regressou. Só por ignorância, preconceito, antipatia pessoal ou má-fé se poderá escamotear que já não era possível, por questões regulamentares, remodelar o plantel reconhecidamente desequilibrado e desunido, além da queda vertiginosa do rendimento da equipa que levou à saída de Alvarez. Ainda assim, chegou à final após eliminar brilhantemente, por 3-0, o F.C.Porto, melhorando o desempenho relativamente ao ano anterior, com José Ricardo. Na final, a campeã em título Oliveirense foi mais forte, mas ficou a ideia de que o desfecho poderia ter sido outro com um pouco mais de competência em momentos decisivos. Não tenho quaisquer dúvidas que o Benfica, com Lisboa, será o principal candidato ao título na próxima época!


Jornal O Benfica - 21/6/2019

Canelada


Permitam-me a fantasia: as várias instâncias dos tribunais confirmam a sentença e o F.C. Porto é punido pelo que fez ao Benfica no “caso dos emails”. FPF, LPFP, CMVM, AdC e outras que me possa estar a esquecer agora actuam em conformidade. Estaríamos, nesse cenário, perante a possibilidade da realização de um desafio entre Canelas F.C. 2010 e F.C. Porto lá para 2028 numa divisão distrital da AF Porto.

O muito antecipado confronto entre as equipas, dir-se-á na altura, remonta a 2019 e começara a ser disputado fora do campo: em Vila do Conde, após um Rio Ave – F.C. Porto; e no Dragão, meia hora depois de um F.C. Porto – Aves. Foi evidente o antagonismo entre atletas de ambas as equipas nessas ocasiões. Apesar de vestidos com cores portistas, os do Canelas insultaram os portistas, o capitão até se despiu num acesso de fúria, enquanto os segundos assistiram impávidos e serenos, mas obviamente contrariados, ao comportamento animalesco dos primeiros, presumivelmente sancionado por bula pontifícia. Por falar em Papa, então há muito mudado para Vigo, já pouco se lhe ouve. Até o sempre solícito jornal O Jogo prescindiu de uma entrevista. Se às três primeiras perguntas a resposta repetida poderia fazer sentido, à quarta, instado a comentar as palavras do protocandidato Moreira, outra vez “Calabote” pareceu deslocado.

E chegou o desafio. Pepe, em teoria, seria suficiente para todas as macacadas dos atletas do Canelas, embora a evocação de Filipe “Vale-Tudo”, transferido há vários anos, fizesse sentido. A maior vítima foi mesmo o árbitro. Jovem, ambicioso, viu-se na contingência de não saber quem beneficiar. Um dilema inultrapassável! Pediu escusa e retirou-se.


Jornal O Benfica - 14/6/2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

A "calaboteação"


O nosso antigo treinador adjunto Jesualdo Ferreira, cuja breve passagem pelo posto principal do comando técnico benfiquista ficou na história pela pior participação de sempre do Benfica na Taça de Portugal (eliminação, na Luz, pelo Gondomar, do terceiro escalão) e por ter adquirido temporariamente o hábito de fumar charuto sentado no banco em pose pseudo-intelectual, deu uma entrevista ao jornal O Jogo que, apesar de desinteressante, é de certa forma reveladora.

Diz então Jesualdo que os títulos conquistados por si ao serviço do F.C. Porto foram-no com “água do Luso”. E concretizou: “Fomos os melhores, não houve ajudas de ninguém”. Não será necessária grande liberdade interpretativa para constatar que Jesualdo Ferreira considerará que os anteriores títulos portistas se deveram, pelo menos em parte, a ajudas de alguém. Aproveitando a metáfora, deveu-se ao café com leite. Afinal, todos ouvimos as escutas publicadas no youtube...

Mas este aparente desassombro de Jesualdo logo é remetido para a deriva propagandística: “O túnel tirou-me o tetra”, referindo-se aos castigos aplicados a Hulk e Sapunaru no final do Benfica-F.C. Porto. A tese é simples, mas falsa.

Convém recordar que os castigos foram merecidos. E convém também acrescentar que enquanto Hulk esteve castigado (9 jogos), o FCP perdeu 9 pontos, mas nas 11 partidas anteriores em que contara com o contributo de Hulk, o FCP perdera 13. Alguém ligado ao FCP falar do “túnel” não passa de uma versão trasvestida da farsa Calabote, um mero truque da mais reles propaganda. E mais... eles lá saberão porque, aparentemente, acham sempre que um título só é conquistado se houver algum caso...

Jornal O Benfica - 7/6/2019

Aposta certa


Tenho defendido, desde que o investimento na formação acelerou significativamente e se tornou num dos pilares da estratégia para o futebol benfiquista, que a aposta em atletas formados no Seixal deverá assentar na qualidade dos mesmos e nas necessidades do plantel da equipa “principal”, ao invés de se tornar dogmática, resultado de um decreto.

À semelhança da renovação do contrato de Samaris, o anunciado prolongamento do contrato de Pizzi é, por conseguinte, uma excelente notícia porque, além de se tratar de um excelente futebolista, indiscutivelmente fundamental nos títulos recentes e obviamente com potencial para manter o seu nível nos próximos anos, confirma que o pressuposto inicial da composição do plantel refere-se à qualidade intrínseca dos jogadores, independentemente da idade ou proveniência. As portas estão efectivamente abertas aos miúdos do Seixal, mas cabe-lhes demonstrar que têm capacidade para ultrapassá-las e permanecerem no outro lado.

Pode dizer-se que, apesar de alguns hiatos, sempre foi assim. Não o nego, pois conheço todos os plantéis benfiquistas ao longo da história com alguma profundidade. O que marca a diferença no presente é a conjuntura futebolística actual, em que os níveis de investimento e a concorrência internacional pelo talento atingiram níveis inimagináveis até há duas décadas e, por isso, indutora de maior necessidade de investimento criterioso. Hoje, mais do que nunca desde que os passes dos jogadores passaram a ser transaccionados, é essencial detectar talento e desenvolvê-lo. Poupar em aquisições, acautelando a competitividade do plantel, permitirá elevar a massa salarial, sendo esta a única forma de reter talento ou, pelo menos, adiar saídas de jogadores. Estamos no caminho certo!

Jornal O Benfica - 31/05/2019

sábado, 25 de maio de 2019

Campeões!


O admirável escritor Mário de Carvalho, em tempos, referiu-se ao ego, cuja palavra, “lida na natural direitura, apenas lhe falece um 'c' para não ser 'cego'”, explicando, inadvertidamente, a temporada futebolística prestes a findar.

Os dirigentes portistas, ofuscados pelo sucesso da época passada, glorificados pelos seus acólitos e nunca perturbados pela comunicação social, julgaram ter encontrado a fórmula perfeita para, senão perpetuar, pelo menos esticar o tal sucesso. E a vida correu-lhes bem: se a competência em campo vacilava, a força fora dele compensava. Mesmo árbitros imunes à magia da supracitada fórmula teriam os seus limites, nem que, para que soçobrassem, fosse necessária uma conversa em centros de treinos.

O ego cresceu e a cegueira aumentou, iludindo quem, julgando que práticas recicladas reproduzem efeitos iguais, passearia no campeonato e apostaria na Europa. Mas a máquina em campo engasgou-se com experiências tácticas e os árbitros atingiram o ponto de saturação em Braga. Após essa partida, o F.C. Porto, até então levado ao colo, viu-se obrigado a andar e, claro, coxeou. Qualquer analista independente o preveria com facilidade caso adivinhasse o fim da permeabilidade dos árbitros à coacção de vária ordem. E houve Benfica, estrutura, Lage, miúdos do Seixal integrados num núcleo de jogadores experientes e, sobretudo, estofo de campeão. Houve demasiado Benfica para tão pouco F.C.Porto, abandonado a si próprio.

A história do ego ficou por aqui, pois já não é o que lhes dificulta a aceitação do desaire e subsequentes protestos delirantes. Esses provêm da propaganda interna e da habitual tentativa de condicionamento da época seguinte. Continuemos atentos e rumo ao 38!


Jornal O Benfica - 24/5/2019

terça-feira, 21 de maio de 2019

Samaris


O episódio caricato protagonizado por Coentrão, ao puxar os calções de Samaris, merece destaque, não por se tratar de um ex-atleta benfiquista que se desmultiplicou em juras de amor ao Benfica enquanto não percebeu que já não era desejado na Luz, nem sequer por se tratar de uma atitude só desculpável a quem, pela tenra idade ou por manifesta incapacidade intelectual, não consiga tirar a carta de condução, mas pela reacção do nosso jogador.

Samaris, ao recusar o auxílio a Coentrão para que este se erguesse do relvado, demonstrou saber o contexto em que está inserido. É jogador do Benfica e um digno representante, em campo, de milhões de benfiquistas, cuja disponibilidade para dar a mão a Coentrão seria nula no lugar do grego. E para que Coentrão percebesse a razão, não vá a compreensão lenta revelar-se novamente, Samaris indicou-lhe o símbolo que carrega na camisola, tão só o emblema do glorioso clube ao qual, por azedume, falta de carácter ou má educação, Coentrão teima em desrespeitar.

A eventual nota de rodapé dedicada a Coentrão no filme da temporada 2018/19 cairá no esquecimento certamente, ao contrário do gesto de Samaris, cujo valor extravasa o acontecimento em si, remetendo antes para a noção generalizada e provavelmente fiel à realidade de que o médio benfiquista se configura como um dos esteios do esperado sucesso, tanto pelas contribuições futebolísticas como pela liderança. Assim o indiciam várias atitudes em campo, a postura inatacável quando se viu afastado da ribalta e a provável influência no processo de aceitação, por parte do plantel, do novo treinador. Mais que merecida a renovação do seu contrato!

Jornal O Benfica - 17/5/2019

Bom problema

Os números divulgados recentemente acerca da venda de Red Pass (incremento de cerca de 125% desde 2013/14 até 44 mil) são impressionantes ...