terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Ao (des)milímetro


A velocidade média de um jogador de futebol, quando arranca e sprinta, é 29 Kms/hora (35 metros em 4.3 segundos). Ou seja, ligeiramente acima de 8 metros por segundo. Se o VAR, em Portugal, usar 300 frames por segundo, o que estaria na vanguarda deste tipo de tecnologia, significa que, entre cada frame, há uma distância média de 2,7 cms.

Escolher o frame exacto é, de certa forma, aleatório, e as linhas têm de coincidir com a parte do corpo mais adiantada (de dois jogadores, outro passo complicado). Portanto, é evidente que deveria haver uma margem de erro suficiente para prevenir os erros até certa medida. E a lei do jogo até é indicativa de quem deverá ser beneficiado nessa margem: os atacantes.

Acontece que o Benfica teve um golo anulado devido a um fora-de-jogo, supostamente, por escassos quatro centímetros. Dois frames antes, em 300 (0,006666 segundos antes), e as linhas rigorosamente colocadas e possivelmente teria sido golo.

Felizmente ganhámos e este lance foi irrelevante para definir o vencedor. Assim como o da grande penalidade por marcar a nosso favor, numa falta mais que evidente sobre Rúben Dias. Se no fora de jogo abusivamente assinalado houve centímetros a mais, no (não) penálti houve, nas lentes de árbitro e vídeoárbitro, se as usam, dioptrias a menos. Ou não precisam de lentes, o que piora a situação. Não me surpreende, infelizmente.

P.S. A propósito do trágico falecimento de Kobe Bryant, além de manifestar o meu pesar e partilhar a enorme admiração que lhe devotei, apraz-me referir que as homenagens póstumas, como os cemitérios, servem mais aos vivos do que aos mortos. Esta é uma das razões, talvez a principal, do meu orgulho pelo nosso extraordinário museu.

Jornal O Benfica - 31/1/2020

Sete pontos de avanço


Começo por louvar o acto de benfiquismo do juiz desembargador do tribunal da relação do Porto, Eduardo Pires, ao pedir escusa do processo que condenou o F.C. Porto e afins a pagarem cerca de dois milhões de euros de indemnização ao Benfica. Fê-lo por considerar que o seu benfiquismo – sócio há mais de 50 anos e (pequeno) accionista da SAD – poderia levantar suspeitas quanto à sua imparcialidade no julgamento dos recursos interpostos pelos condenados e pelo Benfica.

Considero, no entanto, canhestro que um juiz, cujo exercício da sua profissão assenta no escrupuloso respeito pela lei, se sinta na obrigação de recusar um processo devido à sua preferência clubística. E o mais grave é que fez muito bem, pois os propagandistas de vão de escada, as caixas de ressonância dessa propaganda e alguns idiotas úteis já se encarregaram de lhe demonstrar que está coberto de razão.

Isto porque, conforme revelado pelo juiz, recebera e recusara um convite do call center do Benfica para visitar o Benfica Campus. E, ao tomarem conhecimento deste facto, os propagandistas de vão de escada logo aproveitaram para insinuar uma relação entre a nomeação do juiz e a existência desse convite.

Acontece que as visitas ao Benfica Campus começaram em setembro e foram já convidados milhares de sócios do Benfica, respeitando o critério da antiguidade. Só eu, que saiba, conheço seis nossos consócios, sendo que um deles foi o meu pai, que visitaram as nossas extraordinárias instalações no Seixal e não me consta que qualquer deles seja juiz.

Ideal mesmo, para que não se levantem suspeitas, é arranjar algum promotor turístico, daqueles que recomendam Vigo, para julgar o caso.

Jornal O Benfica - 24/1/2020

Já cá faltava...


De tempos a tempos lá vem a ignomínia do costume, a tentativa infame de colar o Benfica ao antigo regime. Apesar de ser fácil desmontá-la, com factos, e até de devolver, neste caso justamente, a acusação, com mais factos, importa rebatê-la sempre, por mais notória que seja a manipulação e a deturpação da história, e óbvio o atentado à memória de tantos que lutaram pela liberdade neste país, muitos deles confessos benfiquistas, alguns chegando mesmo a desempenhar o papel de dirigentes no clube. Uma mentira desmascarada cem vezes nunca passará a ser verdade.

Não me debruço sobre a singularidade, desta vez, da necessidade de atacar outros para enaltecer os seus (a última vaga de mentiras surgiu na evocação do aniversário do falecimento de Pedroto), embora não deixe de ser sintomática da má índole e dos complexos de menoridade, relativamente ao Benfica, que os caracterizam.

O Benfica nunca foi o clube do regime como estes mentirosos querem fazer crer. Por cada atoarda lançada por estes propagandistas de vão de escada, há um facto histórico que os desmente, há a biografia de um benfiquista que a neutraliza.

Por vezes sinto-me tentado a pensar que o fazem propositadamente, no âmbito de uma estratégia de comunicação para justificar os seus fracassos. Mas isso seria reconhecer-lhes inteligência, que escasseia, e pensamento estratégico, evidentemente limitado.

Em boa verdade, é mais provável que acreditem no que dizem. E compreendo-os. Se eu tivesse crescido a ver o meu clube ganhar devido aos quinhentinhos, a agências de viagens, a compadrios vários e ao que foi revelado no apito dourado, também desconfiaria dos triunfos de outrem, pois desconheceria que é possível vencer com mérito.

Jornal O Benfica - 17/1/2020

Tochada


Gosto de tochas – não se confunda com petardos – e lamento que sejam proibidas nos estádios. Recordo-me de ser miúdo e fascinar-me com as recepções calorosas dadas à nossa equipa, em que o efeito cénico das bandeiras ao alto, dos braços no ar e, sim, do fumo vermelho e branco das tochas, era um dos pontos altos da experiência, para usar uma palavra tão em voga, de ir ao estádio da Luz para ver e apoiar o Benfica.

O que não compreendo, apesar de lamentar e repudiar a proibição do uso de tochas, é que benfiquistas o façam sabendo que prejudicarão o clube. Ainda mais lançando-as para o relvado, penalizando ainda mais o nosso Benfica.

Mas a responsabilidade deveria terminar em quem comete esses actos, ao invés de ser transferida para os clubes. Que culpa tem o Benfica, por exemplo, que um benfiquista, depois de ter atravessado uma parafernália securitária no acesso ao estádio do adversário e de ter sido revistado por seguranças privados sob a coordenação e fiscalização da polícia, abra uma tocha, cuja venda é proibida, numa bancada?

É fácil responsabilizar o clube em causa, enquanto se aligeiram as responsabilidades de quem prevarica e de quem efectivamente é responsável pela segurança no estádio, aplicando-se o mesmo aos vitorianos que arremessaram cadeiras para o relvado e para a bancada repleta de benfiquistas ou para os sportinguistas que lançaram tochas para o relvado em Alvalade...

P.S.: Falou-se muito de eficácia, como se o que se passou em Guimarães e Alvalade fosse a mesma coisa. O Benfica foi eficaz em frente á baliza e neutralizou o Vitória. Ao Porto caiu-lhe a vitória do céu. Não foi bem a mesma coisa, mas os portistas que finjam que acreditam no que quiserem...

Jornal O Benfica - 10/1/2020

Rumo ao 38


A procissão ainda vai no adro, mas vai dando sinais de que poderá terminar no Marquês. Que não se confunda este optimismo com triunfalismo, pois há vários anos que qualquer benfiquista apreendeu empiricamente que os campeonatos são ganhos ou perdidos nas últimas jornadas.

Com 20 jogos em disputa, temos quatro pontos de avanço, o melhor ataque, a melhor defesa e temos realizado melhores exibições que o nosso rival nesta contenda. Vamos em onze vitórias consecutivas, só perdemos pontos num dos 14 jogos disputados, não permitimos golos aos adversários em dez partidas, ganhamos há quinze jogos consecutivos fora de portas. O ataque é o segundo mais prolífero em trinta anos de Benfica, a defesa iguala o melhor registo de sempre das nossas cores. Acresce a acentuada dinâmica de vitória, com os cinco títulos conquistados nas últimas seis temporadas, o que permite uma certa relativização das incidências pontuais de uma prova que se sabe longa.

Bruno Lage faz bem, no entanto, quando afirma que a filosofia da equipa passa por encarar a temporada jogo a jogo. E melhor faz ao demonstrar, na prática, que estas não são palavras vãs. Até porque a própria dinâmica das equipas e a voracidade do quadro competitivo assim o exigem.

Veja-se, por exemplo, a rotatividade forçada do plantel. Tem sido muito interessante, e satisfatório, observar como a equipa tem conseguido superar os problemas físicos de vários jogadores ao longo da época. Vinícius, Cervi e Tomás Tavares são aqueles que, neste momento e entre os que foram lançados para suprir a ausência de lesionados, mais se têm destacado. E outros houve anteriormente, contrariando cabalmente a falsa ideia de escassez de alternativas no plantel.

Jornal O Benfica - 20/12/2019

Rogério


É bem conhecida a expressão dos ídolos com pés de barro, decalcada da lenda de Nabucodonosor, em que à estátua do homem feita de ouro, prata, bronze, ferro e barro, simbolizando a supremacia julgada eterna da Babilónia, bastou ser-lhe lançada uma pedra para que fosse destruída, precisamente na parte argilosa do monumento.

Mas este ídolo de que vos falo hoje, de seu nome Rogério, alcunha “Pipi”, não tinha pés de barro, tinha-os antes de carne e osso, revestidos de cabedal, para honra e glória do Sport Lisboa e Benfica.

Sexto melhor marcador da história do Benfica em competições oficiais, quinto se incluirmos os golos em jogos particulares, campeão latino, figura de proa em três títulos nacionais e na conquista de seis Taças de Portugal (prova em que é, com quinze, o recordista de golos nas finais) e sobretudo ídolo de várias gerações, rivalizando, na era pré-Eusébio, com Vítor Silva e José Águas, nas preferências entre os adeptos quanto ao melhor jogador de sempre do Benfica.

Tive oportunidade de com ele conversar longamente uma única vez, há uns seis ou sete anos, e jamais esquecerei a sua simpatia, jovialidade e humildade. Até sempre Senhor Rogério!

P.S.: O ressurgimento da narrativa ficcional, requentada e bafienta, por parte de quem, sem qualquer autoridade moral ou ética, ou sequer justificação para tal, se arroga o papel de coitadinho, é um bom sinal e é revelador. É sinal de que estamos no bom caminho, sabendo-se que, nos últimos anos, procuramos sempre alcançar os nossos objectivo sem que os êxitos ou inêxitos pontuais nos distraiam. E revela algo já bem conhecido: quem construiu o sucesso fora de campo é incapaz de perceber que outros o obtenham agora apenas no campo.

Jornal O Benfica - 13/12/2019

A fava


Sou contra o acordo ortográfico por eliminar consoantes que, embora mudas, alteram a sonoridade das palavras, não significando que seja um conservador neste domínio. Pelo contrário, aprecio a constante mutação lexical.

A minha preferência recai na assimilação de nomes próprios. Há variadíssimos casos como os de Sade, Masoch, Maquiavel, Narciso, Pangloss ou Pantagruel, entre muitos outros, que originaram novas palavras. E temos, por exemplo, os sinónimos “proençada” e “xistrada” que, pela efemeridade dos actos e irrelevância dos sujeitos, jamais passarão de calão. Veríssimo, como é evidente, também não passará do calão.

Do ponto de vista semântico, além do da substância, é de facto uma verdadeira fava sempre que Fábio Veríssimo sai ao Benfica, pois a origem latina de ambos os nomes, em que o primeiro deriva de “faba”, que significa “fava”, e o segundo evoluiu de “veras”, muito verdadeiro, valida o que já apreendemos empiricamente: Nomear Fábio Veríssimo para arbitrar jogos do Benfica é um insulto à nação benfiquista.

No calão, “Veríssimo” vai-se popularizando vertiginosamente. O seu significado, arrisco dizer, resulta da combinação de várias características como a incompetência, a prepotência, a teimosia e a aversão ao vermelho, exacerbadas por manifestações ridículas do uso de pequenos poderes. Quanto a Veríssimo, o homem, já se tornou uma caricatura dele próprio.

Felizmente, a exibição da nossa equipa frente ao Marítimo não permitiu que Veríssimo nos verissimasse significativamente. Mas Veríssimo é veríssimo e o verissimado acabou por ser Vinícius. Só mesmo um grandessíssimo veríssimo poderia atribuir o segundo golo de Vinícius ao defesa que o tentou evitar...

Jornal O Benfica - 6/12/2019

OPA II


Na semana passada enquadrei a OPA à SAD na promessa de “devolução do Benfica aos benfiquistas”. Hoje, sem desprimor de outras questões que me parecem igualmente relevantes, abordarei a vertente do investimento financeiro.

Muito se tem falado sobre o custo desta operação – cerca de 32M€ - caso se revele inteiramente realizada. Erradamente, há quem refira que este montante poderia ser aplicado no reforço do plantel, mas não será a SAD a despender esse montante, será a SGPS, que em nada contribui para o orçamento da equipa de futebol.

Outros defendem que o dinheiro seria melhor aplicado num aumento de capital da SAD, mas esse, se fosse, por exemplo, de 50M€ (para manter a quota do SLB – 63,65%), seria relativamente insignificante pois equivaleria a menos de um terço das receitas operacionais sem atletas e a cerca de 20% das receitas operacionais incluindo atletas da época passada. E está por provar se haveria investidores para os restantes 18M€ - há quase vinte anos, a procura ficou muito baixo do expectável e foi necessário que três ou quatro sócios investissem largas somas para “salvar” a operação.

Mas há que considerar o lado do investimento financeiro. Nas últimas seis épocas, o SLB apresentou sempre lucro e o resultado líquido acumulado neste período chegou aos 111M€. O impacto da SAD nestes lucros ascendeu a 80M€ (seis anos consecutivos a dar lucro, total de 136M€). Se, em vez dos 63,65%, o SLB detivesse 91% do capital da SAD, estimo que o impacto teria sido cerca de 113M€, ou seja, mais 33M€ em seis anos. E, com uma percentagem de capital tão elevada, será de considerar a possibilidade da SAD optar pelo que, compreensivelmente, nunca fez até hoje, a distribuição de dividendos.

Jornal O Benfica - 29/11/2019

OPA


Os lucros sucessivos da SAD, assentes no sucesso desportivo e na rentabilização desportiva e financeira do investimento no Benfica Campus, permitiram quatro medidas fundamentais: Reestruturação do passivo, reduzindo o endividamento bancário para níveis residuais e decrescendo a taxa de juro média paga pela SAD por dívida contraída; Redução suave, mas paulatina, do passivo da SAD; Passagem integral do capital da Benfica Estádio e BTV para a esfera do clube; E, agora, o lançamento de uma oferta pública de aquisição do capital da Benfica, SAD de modo a que a posição do clube na SAD, via SGPS, seja ainda mais robusta e consolide o processo de devolução do clube aos sócios.

Todas estas medidas tornam o clube e SAD mais independentes de terceiros, permitem à SAD focar-se na actividade para a qual foi criada, o futebol, e fortalecem a SAD face a tentações momentâneas de, por razões meramente circunstanciais, colocar em causa um aspecto essencial na natureza do Sport Lisboa e Benfica e suas participadas, que passa pela pertença exclusiva aos seus sócios.

Alguns poderão alegar que o dinheiro investido na OPA ou uma maior ligeireza ou ousadia na contracção de dívida permitiriam um nível de investimento na equipa de futebol mais arrojado no presente. Mas o Benfica não faz nem pretende fazer do adiantamento de receitas para suprir necessidades de tesouraria um modo de vida, nem tenciona colocar-se nas mãos da banca para sobreviver com recurso a restruturações sucessivas, como são os casos dos principais adversários. Ganhar no presente é tão importante como garantir as condições para ganhar no futuro. O passado recente tem sido glorioso. O futuro continuará a sê-lo.

Jornal O Benfica - 22/11/2019

"Centravoíce"


Há vários anos que discordo da ideia de que a partilha equitativa das receitas televisivas resolveria os problemas de competitividade do futebol português. Antes de qualquer argumento, relembram-me sempre que sou benfiquista, o que supostamente me desqualifica nesta discussão.

Esquecem-se, no entanto, que o Benfica seria, a nível interno, o principal beneficiado dessa medida. Para chegar a essa conclusão, basta comparar as receitas obtidas por cada SAD, excluindo as de direitos televisivos, em que as do Benfica são significativamente superiores às dos seus concorrentes directos e “infinitamente” maiores que as dos restantes clubes. O equilíbrio artificial prejudicaria os maiores clubes, nivelando por baixo, mas haveria menor impacto no maior entre os maiores, o Benfica.

Confunde-se competitividade com potencial de receitas. Diz-se que o mercado interno está esgotado, pelo que o crescimento só será possível externamente. Mas se não for o Benfica e o Porto, com presenças consecutivas na Liga dos Campeões, a darem sinais de vida do futebol português, alguém, para além dos PALOP e de apostadores destemidos, se lembrará sequer de ver os resultados da nossa liga? E ainda as comparações erradas com outras ligas, que não fazem sentido com as mais ricas, nem ajudam à causa da centralização com as mais pobres.

Vejam-se as receitas da Taça da Liga, negociadas colectivamente, compare-se com as da mesma prova noutros países e perceba-se definitivamente que o problema não está na forma de negociação. Comece-se antes por objectivos simples: boas condições para o público em todos os estádios, por exemplo. Ou IVA dos espectáculos desportivos mais baixo, já não seria mau...

Jornal O Benfica - 15/11/2019

O clube da oposição


Belo discurso de João Soares, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, proferido no jantar de comemoração do 16º aniversário do nosso estádio, durante o qual foi realizada uma justíssima homenagem a Mário Dias.

Além do testemunho relevante e muito elogioso sobre o papel determinante que Mário Dias teve na epopeia do estádio, João Soares discorreu sobre o Benfica e sobre o benfiquismo.

Revelou o empenho do seu filho adolescente na expansão do benfiquismo entre os familiares; relembrou Xanana Gusmão que usou símbolos benfiquistas para alertar, com eficácia, os portugueses para a situação vivida então em Timor-Leste; Reconheceu a imensa popularidade do Benfica além-fronteiras e a notável representação internacional do clube; E, finalmente, enalteceu o espírito livre e democrático que sempre norteou o quotidiano do clube, mesmo em tempos de ditadura no país.

Sobre o último aspecto, João Soares citou José Magalhães Godinho para reforçar o seu argumento: “O grande clube da oposição é o Benfica”.

Magalhães Godinho dedicou grande parte da sua vida a combater o Estado Novo. Integrou vários movimentos oposicionistas e foi alvo de perseguição política e ideológica, sofrendo privações de liberdade. E foi, enquanto se empenhou nestas actividades, o primeiro director do jornal O Benfica, cargo que desempenhou ao longo de cerca de três anos. Basta este simples facto para desarmar os ignorantes e os revisionistas que tentam associar o Benfica ao antigo regime. Não é crível que um tão dedicado combatente anti-fascista como Magalhães Godinho aceitasse um cargo relevante num clube associado ao regime que, com inegável sacrifício pessoal, tanto se empenhava em derrubar. Impossível!

Jornal O Benfica - 8/11/2019

Os Gaspares


Sobejam exemplos de arremedo de jornalismo desportivo em Portugal, desprestigiando a classe e pondo em causa aqueles que se empenham séria e honestamente na sua nobre profissão de jornalistas. O último exemplo (até ver, pois escrevo esta crónica três dias antes da sua publicação e é provável que surjam outros) chegou-nos do Brasil, através da introdução bajuladora, facciosa, especulativa e difamatória que um tal de Miguel Gaspar, em serviço pelo Jornal de Notícias, fez diante o treinador do Flamengo, Jorge Jesus.

Escuso-me a comentar o teor da introdução, que considero vergonhoso e injurioso, mas a apresentação que o, enfim, jornalista fez de si próprio merece uma reflexão.

Disse então esse Gaspar que vive no Porto e trabalha no Jornal de Notícias, apesar de ser sportinguista. E acrescentou que sportinguista só é ele. Confesso que sinto algumas dificuldades em interpretar o que esse Gaspar quis afirmar.

Será o reconhecimento da decrescente implantação nacional do seu clube do coração, sendo a cidade do Porto um caso paradigmático dessa realidade, para a qual a míngua de títulos nas últimas décadas tem contribuído talvez irreversivelmente?

Ou será que o discernimento e a coragem deste Gaspar lhe permitem, respectivamente, entender e afirmar em público que, na redacção do Jornal de Notícias, só há espaço para portistas?
Ou ainda, e já que o anti benfiquismo primário do sportinguismo contemporâneo está tão vincado, terá Gaspar optado por explicitar que o Jornal de Notícias, apesar de parecer, de sportinguista nada tem, cabendo-lhe a ele, em exclusividade, carregar o fardo do sportinguismo em terrenos propícios para, embora igualmente militante, outro tipo de anti-benfiquismo?

Fica a dúvida.

Jornal O Benfica - 1/11/2019

Sequeira Andrade


Sempre que alguém morre recordo-me do Prof. Agostinho da Silva, num dos episódios do “Conversas Vadias”, a interromper Miguel Esteves Cardoso para o informar de que “não pode garantir que vamos morrer”, e logo acrescentar, assumindo essa hipótese como muito provável, que “não há dúvida de que temos visto os outros morrer”. Na morte de outrem constatamos a nossa própria mortalidade e desta vez coube a João Sequeira Andrade, aos 91 anos, recordar-nos dessa (tomada por garantida) inevitabilidade.

O senhor Sequeira Andrade de velho tinha apenas o aspecto e a idade. A jovialidade do seu pensamento, a argúcia do seu raciocínio, a vastidão da sua cultura, o acentuado interesse pelo quotidiano e a constante perspectivação do futuro, estavam bem patenteadas nas interessantíssimas cartas dirigidas ao seu dilecto “amigo” Pancrácio, as quais me fez o favor de me as dar a conhecer. Foram 250 e a última iniciava com a despedida do autor, cuja paixão por atletismo se fez notar também no anúncio que ninguém desejaria ler, o de que estaria a chegar à meta da sua vida.

Poucas vezes tive o prazer de com ele me relacionar pessoalmente, mas de todas, sem excepção, guardo boas recordações. A simpatia, a educação e o sentido de humor apurado eram constantes. E mais ainda o benfiquismo e a cultura benfiquista, que eu já havia conhecido dos tempos em que colaborou com o jornal O Benfica e que tão bem evidenciados eram nas cartas ao Pancrácio. Enquanto interessado em aprofundar os meus conhecimentos sobre a história do Benfica, não tenho quaisquer dúvidas de que o contributo de João Sequeira Andrade foi inestimável e que para sempre o admirarei e estarei agradecido. Até sempre!

Jornal O Benfica - 25/10/2019

Benfica europeu


Sou céptico quanto às reais possibilidades do Benfica voltar a ser campeão europeu. As disparidades na capacidade de captação de receitas e, por conseguinte, de investimento, face aos chamados “tubarões” europeus, são gritantes.

No entanto, a resignação perante as adversidades nunca poderá ser a solução num clube como o Benfica, pelo que a enunciação de objectivos ultra ambiciosos, ou até a evocação de um sonho, não obstante a complicada gestão de expectativas daí advinda, são positivas pois oferecem-nos um destino potencial para o qual se tem de tentar construir um caminho e percorrê-lo.

Dito de uma forma mais simples: criar as bases para um Benfica Europeu, nunca hipotecando a sustentabilidade económico-financeira do clube, significará que, mesmo que nunca cumpramos o desígnio original, estaremos mais próximos de vingarmos no plano nacional. E este, como sabemos, é que nunca poderá falhar.

Dito isto, subscrevo na íntegra, considerando mesmo como sendo a única opção plausível, a estratégia definida para fazer o Benfica regressar à presença constante em fases avançadas da Liga dos Campeões: Saúde financeira; Forte aposta na formação; Investimento agressivo na retenção de talento; Apetrechamento do plantel com atletas para as posições que o Benfica Futebol Campus não consiga, em determinado momento, fornecer.

Estou ciente que as dificuldades para mantermos os jogadores no plantel subsistirão no futuro, nomeadamente em temporadas bem-sucedidas, que se esperam muitas. Mas hoje não duvido que podemos gerir melhor as saídas, prevalecendo os interesses desportivos ao invés da necessidade de equilíbrio das contas ou da incapacidade para acompanhar minimamente as ofertas salariais.

Jornal O Benfica - 11/10/2019

Freud (lento)


Cuidado com o flagelo que ameaça assolar os nossos dias, porventura fruto de uma conspiração internacional que envolverá o BCE, as várias Casas da Moeda da Zona Euro e sectores de actividade económica, desde logo o da produção, tratamento e comercialização de relva. Já haverá um paciente zero.

Parece que apanhar da relva uma leve e desvaliosa moeda de cinco cêntimos de euro poderá causar hematomas e sabe-se lá mais o quê. Alerte-se imediata e estridentemente todas as associações e todos os institutos que poderão, mesmo que minimamente, ajudar a humanidade a acautelar-se dos perigos decorrentes do simples acto de colectar uma moeda destas de um relvado outrora unanimemente considerado inofensivo. Chame-se a Protecção Civil. Aliás, urge a intervenção da ONU!

Há quem considere, no entanto, que episódios destes devam ser remetidos para o foro da psiquiatria. Poderá ser uma invenção, emanada de uma propensão para a mentira, de um distúrbio delirante ou da vontade de prejudicar outrem. Mas outros há que atribuem o alegado hematoma supostamente causado pela apanha, num relvado, de uma moeda de cinco cêntimos, a uma manifestação psicossomática. A vítima acredita que o hematoma existe, sente-o, mas é produto da sua imaginação.

A culpa (ou lucidez se os atos precedentes foram intencionais, mas infrutíferos) pode causar delírio e/ou transtorno. Não deverá ser assim tão raro que, por exemplo, ignorar um jogador abalroado dentro de uma área num campo de futebol e seguir critérios diferentes em várias situações de jogo semelhantes, cuja aplicação só é coerente quanto à equipa prejudicada, possa resultar numa necessidade, consciente ou inconscientemente, de vitimização. Analise-se!

Jornal O Benfica - 4/10/2019

Números da semana (178)

1 Terminadas as principais 7 ligas europeias e a Liga dos Campeões, Trubin foi o melhor guarda-redes sub-23 nos seguintes dados estatístic...