quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Vira o disco e toca o mesmo


Mesmo num mundo ideal, os erros de arbitragem continuariam a ocorrer, embora desejavelmente com menor frequência, fruto das inegáveis dificuldades da função. O que nunca aconteceria, passado um terço de uma competição, seria constatar-se um desequilíbrio tão acentuado quanto aos beneficiários desses erros como na presente temporada na Liga NOS.

No dia 10 de Dezembro, o Conselho de Arbitragem divulgou, pelo Twitter, uma análise sobre a utilização do “vídeo-árbitro” nas primeiras onze jornadas do campeonato. Foi revelado que, de acordo com a análise efectuada, identificaram-se e avaliaram-se 639 lances, dos quais resultaram nove erros. Até parece que está tudo a correr bem...

Porém, lendo os vários tweets, apesar de não haver um único que o revele explicitamente, percebe-se que dos tais 639 lances, só 33 motivaram revisões e que os nove erros, que o Conselho de Arbitragem, sabe-se lá por que razão, entendeu que não deveria revelar quais foram e quem os cometeu ou a quem prejudicou e beneficiou, referem-se às 33 revisões. Ou seja, nove erros em 33 casos (27,3%). Qual terá sido a percentagem de erros nos restantes 606 casos? E quantos lances, além dos 639, terão ficado por analisar?

Um Conselho de Arbitragem exclusivamente focado na verdade desportiva, e não na auto-preservação, responderia a estas questões, ao invés de propalar um hipotético sucesso tão facilmente desmontável. Não há jornada sem casos a favor do F.C. Porto. Louve-se a coerência, não havendo mais para enaltecer.

P.S. O silêncio sportinguista nesta matéria é ensurdecedor e revelador. Ou se sentem beneficiados ou não se preocupam assim tanto com o título (desde que não seja o Benfica a ganhá-lo).

Jornal O Benfica - 21/12/2018

Apito dourado, versão 7 ou 12, já perdi a conta

É quase pecaminoso, em semana do décimo aniversário da BTV, para a qual me é oferecido o privilégio do meu contributo, dedicar este espaço a um dos aspectos mais reles do futebol português: a arbitragem.

Creio, no entanto, que o momento o justifica, não fosse, mais uma vez no passado fim-de-semana – sublinho, mais uma vez – ter sido comprovado que este desporto, em Portugal, é vítima da incompetência (selectiva?) da generalidade dos árbitros nas suas diversas funções. Acresce que os famigerados árbitros portugueses, talvez precisamente por muitos deles actuarem incompetentemente com assustadora regularidade, aparentam serem permeáveis às reiteradas tentativas de condicionamento, directas ou indirectas, de que são vítimas neste lodo que alguns teimam em afundar cada vez mais o nosso futebol. Mais fascinante é verificar que esses árbitros perduram no primeiro escalão – será esse o objectivo da não divulgação atempada dos critérios de avaliação dos árbitros?

Evidentemente, jogar bem à bola é sempre o melhor antídoto para este flagelo, se bem que nem sempre eficaz, reconheça-se... Ainda assim, há alguma equipa portuguesa que, nesta época, se tenha evidenciado nesse aspecto? A resposta é um irrefutável não. A actuação de Carlos Xistra em Setúbal, cujos erros foram demasiado numerosos para que os possa enumerar em tão exíguo espaço de opinião, tratou-se somente de mais um triste capítulo desta longa e repetitiva novela, cujos pontos altos ocorreram, pelo menos e sempre a favor do mesmo, nos jogos que o FC Porto defrontou V. Guimarães, Belenenses, SAD, Feirense, Boavista e Portimonense. Pobre futebol português...

 Jornal O Benfica - 14/12/2018

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Vídeodesgraça


Tenho dito e repetido que a tecnologia do vídeo-árbitro, não obstante o evidente potencial da sua utilização para salvaguardar a verdade desportiva, encontra nos utilizadores o seu maior constrangimento.

No caso português, os árbitros e vídeo-árbitros, susceptíveis de errarem, seja por incompetência, parcialidade ou condicionamento, beneficiam do respaldo do protocolo, cuja interpretação deste por parte dos adeptos, baseada somente na avaliação da interferência dos vídeo-árbitros jornada após jornada, se torna um exercício assaz complicado, para não o considerar mesmo impossível. Só neste país de múltiplas originalidades se poderia ouvir especialistas, sobre a falta claríssima do portista Brahimi na área, algo como “errou ao não assinalar grande penalidade, mas o vídeo-árbitro estava impedido de actuar devido ao protocolo”.

O “protocolo”, aparentemente, porque há muito que deixei de ter certezas sobre a arbitragem de futebol em Portugal, limita a actuação dos vídeo-árbitros em lances duvidosos. Ou seja, o vídeo-árbitro não só terá de ajuizar um lance como interpretar o processo de decisão do árbitro. Constatamos assim tratar-se do paraíso para os incompetentes, parciais ou condicionados, mas também o inferno para os medrosos. Despeço-me com um excerto de um guião do que poderia eventualmente ser um filme de terror em salas de cinema ou um documentário educativo no Porto Canal:
VA (assertivo) - Falta! Repito: Falta!
A (hesitante) - Tens a certeza? É duvidoso.
VA (resignado) - Já cá não está quem falou.
A (conciliador) - Siga. Prefiro não ser abordado por visitantes quando discutirmos o assunto no centro de alto rendimento da Maia.

Jornal O Benfica - 7/12/2018

sábado, 1 de dezembro de 2018

A treta Calabote


Nunca será demais relembrar, enquanto os Goebbels de algibeira persistirem no assunto, que o chamado caso Calabote é pura invenção.

Inocêncio Calabote foi irradiado da arbitragem por ser reincidente na falsificação de dados no relatório de jogo, e não por qualquer suspeita, quanto mais culpa, relacionada com corrupção ou favorecimento. Acresce que os referidos dez minutos a mais no tal Benfica-CUF foram apenas quatro, e justificados, conforme consta nas crónicas de vários jornais, assim como duas das três grandes penalidades a favor do Benfica nesse jogo. Nem o técnico da CUF, então, encontrou motivos para criticar severamente Calabote (até mencionou uma falta na área por assinalar sobre Cavém). Só Pedroto e Pinto da Costa, passados trinta anos, descortinaram o impensável, porque nunca ocorrido. Basta consultar a imprensa de 23 de Março de 1959. Aproveite e leia as crónicas do Torrense-Porto, cuja vitória portista resultou no título nacional para os azuis e brancos.

Distam, entretanto, 59 anos, os suficientes para estabelecer uma regra: Se passadas seis décadas, com quase sessenta edições do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal disputadas e dez anos de emails roubados, descontextualizados e deturpados, os mentirosos continuam a evocar o “caso” Calabote, tal só poderá significar uma conduta benfiquista irrepreensível ao longo de todos estes anos. E como colada à patranha Calabote surge sempre a treta do “clube do regime”, aproveite-se para pedir aos desonestos (vá lá, também aos ignorantes que se limitam a debitar a cartilha) que expliquem como o regime que protegeria um clube não se deu ao trabalho de proteger um árbitro que protegeria esse mesmo clube...

Jornal O Benfica - 30/11/2018

Futebolês

No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicio...