segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A Europa… de Benfica e FC Porto?

Disputado apenas pouco mais que um terço da temporada, seria extemporâneo tirar conclusões acerca do desempenho das equipas e, principalmente, do que está reservado para o futuro de cada uma delas. No entanto é já tempo suficiente para, tanto no plano nacional como no internacional, identificar tendências.

Nas competições domésticas, o Benfica é o clube que mais regularidade tem demonstrado. Venceu a Supertaça, continua na Taça de Portugal e lidera o campeonato. Em 13 jornadas, tem dez vitórias, dois empates e uma derrota. De salientar que, ao contrário da temporada passada, em que, na primeira volta, saiu derrotado do Dragão e da Luz frente a FC Porto e Sporting, respectivamente, na presente época alcançou um empate e uma vitória no clássico e no dérbi. Lidera destacado o ranking das equipas mais concretizadoras e apresenta a segunda melhor defesa.

Quanto ao FC Porto, o segundo classificado, tem-se verificado alguma oscilação exibicional com repercussão nos resultados obtidos. A série de empates consecutivos, incluído o já referido no Dragão, cedido nos descontos frente ao Benfica, impede os portistas de estarem mais próximos da liderança, salientando-se o bom desempenho defensivo, com somente cinco golos sofridos. A eliminação prematura da Taça de Portugal foi um sério revés no entusiasmo e nas pretensões dos azuis e brancos.

Sobre o Sporting, embora as aspirações relativas ao seu principal objectivo, a conquista do Campeonato Nacional, continuem intactas, nota-se uma certa perturbação entre os seus adeptos, embora aparentemente longe de indiciar a exigência de um novo rumo. A aposta em Jorge Jesus foi reforçada (aumento de cerca de 25% do ordenado líquido de impostos) e o plantel apetrechado. Tendo em conta o desempenho na edição anterior do campeonato, em que ficou a apenas um ponto do campeão e este bateu o recorde absoluto de pontos na competição (88), as expectativas eram muito elevadas em Agosto. Não obstante, seria errado, neste momento, considerar o Sporting menos candidato ao título que os seus rivais, o que, num clube que viveu uma situação financeira catastrófica recentemente e está afastado do título desde 2002, não deixará certamente de ser encarado como positivo.

Relativamente às restantes equipas, o Braga, a apenas seis pontos da liderança, depois de já ter visitado a Luz e o Dragão, está a ter um bom desempenho. Assim como o quinto classificado, o Vitória de Guimarães, cuja militância dos seus adeptos, podendo ser considerado actualmente e neste domínio, o “quarto grande” do futebol português, já merece que a sua equipa encontre estabilidade competitiva quanto à luta pelo apuramento para as competições europeias. Destaque ainda para o Chaves que, regressado à primeira divisão após uma longa ausência, se encontra no 7º lugar e eliminou o FC Porto da Taça de Portugal.

A nível internacional, a situação é diferente. O apuramento de dois clubes para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões, Benfica e FC Porto, é merecedor de elogios. No entanto, as participações desastrosas de Sporting, derrotado pelo Légia Varsóvia que não obtinha uma vitória na fase de grupos da Liga dos Campeões há 21 anos, e Braga, este último na Liga Europa, mancham a temporada. Do Arouca e Rio Ave pouco se esperaria, o que se veio a verificar com as suas eliminações prematuras na Liga Europa.

Benfica e Porto têm sido os grandes contribuintes para o ranking de Portugal nas competições europeias, em que o apuramento directo de dois clubes para a fase de grupos da Liga dos Campeões e a participação de um terceiro nas rondas de qualificação é a consequência mais relvante. O ranking do coeficiente de clubes da UEFA, conforme explicado no seu site, “tem por base os resultados registados pelos clubes que competiram nas cinco anteriores épocas da Liga dos Campeões e Liga Europa. Este ranking determina a hierarquia dos cabeças-de-série em todos os sorteios das competições da UEFA”. A pontuação de cada clube é determinada pelos resultados que obteve nas cinco temporadas anteriores (há um sistema de pontuação de acordo com as fases atingidas de cada prova) e mais 20% do coeficiente da respectiva federação referente a esse mesmo período (total de pontos atingidos por todos os clubes de cada federação, divididos pelo número de participantes).

Tanto encarnados como azuis e brancos estão bem colocados no ranking. O Benfica está em 8º e o FC Porto em 13º. Braga e Sporting ocupam as 51ª e 52ª posições respectivamente. No entanto, devido à regra dos 20% do coeficiente de cada federação contar para o ranking de cada clube, os dois primeiros têm sido prejudicados pela performance dos restantes e vice-versa. Por exemplo, cerca de 17,5% da pontuação total do Sporting advém do desempenho dos seus rivais, mas somente 1% da pontuação do Benfica está relacionada com o desempenho do seu rival lisboeta.

Este facto é particularmente significativo porque, não só permite obter uma visão global do desempenho de cada clube nas competições europeias (além de influenciar os sorteios, a prova e a fase da mesma em que cada clube inicia a sua participação), como se tornará ainda mais determinante a partir de 2018/19, quando a parcela respeitante ao coeficiente da federação deixar de ser considerado na elaboração do ranking de clubes.

Esta modificação tem um objectivo claro e assumido por parte da UEFA: Reduzir os benefícios a clubes sem pergaminhos recentes na Europa e que provenham de países melhor colocados no ranking. De acordo com os meus cálculos, se este coeficiente já não fosse atribuído, o Sporting ocuparia, neste momento, o 66º posto. Em sentido contrário, manter-se-á o chamado “pote dos campeões”, que valoriza a obtenção do título nacional nos países cuja posição no ranking é elevada. Também ao nível financeiro serão introduzidas alterações, com repercussão na forma como os prémios monetários serão distribuídos. A partir de 2018/19, a distribuição do dinheiro a clubes participantes na Liga dos Campeões terá em conta, também, o desempenho nas dez temporadas anteriores e ainda uma pontuação atribuída aos vencedores das provas europeias, com pesos diferentes utilizando um critério temporal (últimos 5 anos; a partir de 1992/93; Antes de 1992/93).

O que não é assumido por parte da UEFA é a tentativa desta de suster a iniciativa dos principais clubes em criarem a chamada “Superliga europeia”. Aliás, o incremento significativo dos prémios monetários na Liga dos Campeões ocorrido na época passada foi já um passo dado nessa direcção. Para os portugueses, a pretensão dos clubes mais ricos da Europa em criar uma liga fechada, logo vedada a clubes com pouco potencial para a obtenção de receitas elevadas, poderá parecer pouco ameaçadora quanto à sobrevivência do quadro competitivo europeu actual. Não passará, nesse contexto, de uma forma de pressionar a UEFA a ser mais generosa na distribuição dos elevados rendimentos conseguidos com as transmissões televisivas. No entanto, e talvez seja por esta razão que não se tem dado grande relevância a esta questão (excepto quando se refere que somente Benfica e Porto poderiam, eventualmente, receber um convite para participarem na tal “superliga”), há um caso de sucesso noutra modalidade, o basquetebol, que demonstra aos clubes que é possível optar-se por uma solução deste género.

A Euroliga é uma prova europeia de basquetebol, organizada pela Associação Europeia de Ligas e à revelia da FIBA, que inclui os melhores e mais ricos clubes de basquetebol europeus, dos quais fazem parte alguns dos mais conhecidos emblemas do futebol: Real Madrid, Barcelona, Galatasaray, Fenerbahce, CSKA Moscovo, Olympiacos (além do Bayern Munique, presente em edições anteriores)... A FIBA Europe, que é a entidade na Europa do basquetebol equivalente à UEFA no futebol, opôs-se à sua criação e tentou inviabilizá-la de diversas formas, incluindo a ameaça do impedimento da participação dos países com clubes na Euroliga no Campeonato do Mundo e Jogos Olímpicos. O sucesso da Euroliga vê-se a vários níveis. Desde logo o desportivo, em que é notório que os melhores clubes europeus marcam presença na competição; O financeiro, devido às elevadas receitas de televisão, bilheteira e publicidade; E até o legal, visto que a FIBA foi obrigada pelos tribunais a recuar em parte das tentativas de obstrução ao desenvolvimento da Superliga.


A UEFA, ao contrário da FIFA, está a colocar de parte o habitual conservadorismo existente no futebol (em várias modalidades, com destaque para o basquetebol e râguebi, têm sido introduzidas alterações importantes com vista à atractividade do jogo enquanto espectáculo desportivo, à diminuição dos métodos de anti-jogo e à mitigação da probabilidade de ocorrência de erros de arbitragem. A FIFA nem por isso…). Porém, o cada vez maior afunilamento do acesso às competições que representam maiores receitas poderá provocar desigualdades por antever. Será um bom tema para uma próxima crónica.

Vida Económica - 23/12/2016

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