segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Assim vai 2015/16

Na minha primeira crónica publicada no Vida Económica, defendi a ideia de que, para os adeptos, o importante é a celebração de conquistas desportivas e que as contas, não obstante o reconhecimento generalizado de que alguma relevância hão-de ter, são interpretadas consoante os resultados desportivos.

Não será por acaso que, num período alargado, nada habitual nos últimos 40 anos, em que o FC Porto se vê arredado do título nacional, surjam manifestações de descontentamento que extravasam o teor desportivo, logo sendo referidos os elevadíssimos custos operacionais, quando comparados com os proveitos, ou, entre outros assuntos, as avultadas comissões pagas nas transacções de atletas.

No sentido oposto, a reaproximação do Sporting à luta pela principal competição nacional de futebol, em paralelo com uma política de comunicação que visa, do meu ponto de vista, mais que a apregoada “política de verdade”, condicionar a opinião dos sportinguistas, como que escamoteia alguns aspectos negativos da gestão da SAD leonina.

Um exemplo recente deste possível condicionamento é o comunicado emitido a 29 de Fevereiro último, a terminar o prazo para a publicação do relatório e contas do primeiro semestre de 2015/16 e em que é dito que foi apresentado um resultado negativo de 18.1M€. Foi ainda acrescentado que, “para evitar especulações que podem ser geradas por falta de informação que enquadre os presentes resultados”, que este prejuízo se deveu, em parte, a” dois factores de conhecimento público: por um lado a sentença desfavorável no caso Doyen vs SCP e, por outro, a eliminação no play-off de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões”.

É interessante verificar que a eventual especulação por falta de informação se deveria, caso ocorresse, ao atraso na publicação do relatório, que se presume, até porque nada foi dito em sentido contrário, ter sido da responsabilidade do emitente, a Sporting, SAD. Além do mais, as consequências contabilísticas do caso Doyen e da eliminação no play-off de acesso à fase de grupos da Liga dos Campeões são referidas como se se tratassem de dados adquiridos e não de, tendo em conta as posições assumidas publicamente no passado, de novidades.

Ora, tanto num caso como noutro (e nos VMOC), por vezes senti-me isolado quando alertei para as suas potenciais implicações, nomeadamente ao não encontrar qualquer reacção por parte da generalidade da comunicação social nos momentos em que a forma como as contas da SAD leonina eram apresentadas (“um sucesso”), contrastando com o que eu julgava ser dissonante da realidade e, agora, por via do prejuízo apresentado, confirmando a minha interpretação.

O respeito pelo princípio da prudência há muito que poderia ter sido reflectido através da constituição de uma provisão devido ao risco de condenação no processo que opunha Doyen e Sporting, SAD (será que as regras do fair play financeiro da UEFA seriam cumpridas?). O afastamento da Liga dos Campeões, como é natural, significou a impossibilidade de obtenção de maiores receitas resultantes da participação nas competições europeias, o que não só se constitui enquanto constrangimento circunstancial ao equilíbrio das contas, mas sobretudo deixou a nu o crescimento elevado dos custos operacionais, nomeadamente os referentes ao pessoal, em que as remunerações do plantel cresceram 88% relativamente ao período homólogo da temporada passada. Para agravar, torna-se complicado perceber que tal tenha ocorrido paralelamente ao adiamento, por dez anos, da questão da conversão dos VMOC, com a concordância das entidades bancárias envolvidas.

Seguindo a linha de raciocínio defendida no início da crónica, é caso para perguntar qual será a reacção dos sportinguistas às contas apresentadas caso o entusiasmo pela eventual conquista do título nacional se esfume e dê lugar ao sentimento desconfortável de ver um dos seus rivais festejar.

É aqui que reside o busílis da questão. O Sporting está hoje numa posição que leva os seus adeptos a entusiasmarem-se com a possibilidade de títulos, algo que, reconheça-se, há muito não se vislumbrava legitimidade nessas aspirações. As consequências que poderão advir do redireccionamento estratégico da gestão do futebol sportinguista, caso não resulte (e é assumido que ganhar é essencial para a revitalização do clube pelo entusiasmo gerado e subsequente crescimento das receitas), são, no limite, encaradas como um eventual regresso a um cenário de falência económica e desportiva que quase todos vaticinavam ser irreversível e é agora visto com algum distanciamento. Este é um mérito que, nas actuais circunstâncias, não se poderá deixar de reconhecer à direcção sportinguista.

Mais que de sucesso desportivo, os clubes (os adeptos!) vivem de expectativas. Para analisar o momento actual é necessário, portanto, recuar ao último defeso. O Sporting, que se despedira da época anterior com um regresso aos títulos, decidiu trocar o vencedor da Taça de Portugal, Marco Silva, por Jorge Jesus, o treinador bicampeão nacional ao serviço do Benfica. A mensagem foi clara e assumida: O Sporting apostaria em todas as frentes, com enfoque na disputa do Campeonato Nacional. O insucesso na Liga dos Campeões, e depois na Liga Europa, na Taça da Liga e na Taça de Portugal está, para já, mitigado pela vitória na Supertaça ante o Benfica e na ocupação de uma posição que confere fundadas aspirações ao regresso ao triunfo do principal título nacional.

O FC Porto, após duas temporadas de forte investimento sem qualquer feito desportivo assinalável (a presença nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, apesar de muito meritória, acabou por ficar manchada pela pesada goleada sofrida em Munique), voltou a investir fortemente no apetrechamento do seu plantel que é visto agora, em função dos resultados obtidos, aquém das necessidades de um clube que se apresenta, ano após ano, enquanto candidato a vencer todas as competições nacionais em que se vê envolvido. Para agudizar o contexto actual, ocorreu um agravamento das suas contas, com um prejuízo de 17.6M€ no primeiro semestre da presente temporada.

O Benfica, que se apresentara confortável para a nova época por ser bicampeão nacional, anunciou uma mudança de paradigma (maior aposta na formação), o que, conjugado com a saída de Jorge Jesus e contratação de Rui Vitória, baixou a fasquia aos sempre exigentes benfiquistas. O começo de época titubeante (o que fez decrescer as expectativas da generalidade dos seus adeptos para níveis confrangedores), deu lugar a um entusiasmo renovado e ampliado, com o ponto mais alto a ser atingido recentemente após as vitórias, em cinco dias, nos estádios do Sporting e do Zenit, a significar o regresso à liderança do Campeonato Nacional e a qualificação para os quartos-de-final da Liga dos Campeões. E o que surpreende ainda mais foi este sucesso ser acompanhado de bons resultados financeiros, sendo o único dos “três grandes” a apresentar lucro no final do primeiro semestre (4.6M€), contrastando com os elevados prejuízos dos seus rivais.

É certo que este resultado positivo é assente no, para muitos surpreendente, excelente desempenho desportivo e receitas dele decorrentes na Liga dos Campeões. Mas importa realçar que, comparativamente ao ano anterior, os rendimentos com transacções de direitos de atletas diminuíram cerca de 21M€, o que releva ainda mais o lucro obtido.

Já aqui defendi que a comparação entre as três SAD não pode ser feita como habitualmente o é pela generalidade dos órgãos de comunicação social. O perímetro de consolidação de cada uma é diferente, a composição do capital próprio também e o volume de actividade, se analisado devidamente, logo se nota que é díspar. O próprio histórico de cada uma delas preconiza soluções por vezes antagónicas para os mesmos problemas e o contexto não é estanque.

Creio que o Sporting tenta replicar a estratégia encetada pelo Benfica há dez anos. Fortemente alavancada em capitais alheios para o seu nível de receitas, procura recuperar o poderio desportivo que potencie a captação de proveitos. Resultou para o Benfica, pode ser que resulte também para o Sporting. A grande incógnita reside na dimensão da sua massa adepta disposta a consumir bens e serviços do clube.

No caso portista, em que os sinais de desgaste da liderança (não tanto pelo líder em si, mas pelos que se perfilam para ocupar essa liderança no futuro) são cada vez mais visíveis, o insucesso desportivo recente poderá ser sinal de que a fórmula anterior (investimento avultado, sucesso desportivo, enormes mais-valias com a alienação de passes e equilíbrio da tesouraria) se encontra esgotada. Estará a SAD do FC Porto preparada para diminuir acentuadamente o investimento e os custos operacionais e retomar o caminho dos títulos?

Por fim o Benfica, em que dá agora a ideia de que, independentemente da estratégia seguida e das decisões tomadas, predomina a estabilidade da sua gestão e a competitividade da sua equipa de futebol, será que conseguirá dominar a tentação de incorporar, na sua actuação, o sentimento de que a estrutura, por si só, vence campeonatos?


Ficam as questões, sabendo-se que, no futebol, as respostas para muitas das questões enunciadas dependem da bola que entra ou que vai ao poste…

Vida Económica - 25/3/2016

Fim de quarentena

Todos estamos agradecidos aos benfiquistas que há uns poucos meses dedicaram parte do seu tempo, dinheiro e esforço para homenagearem vint...