segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O gigante de Portugal

(Versão final em inglês)

A popularidade de um clube de futebol deve-se, normalmente, a factores regionais e ao sucesso desportivo. O Benfica, conhecido mundialmente pelos adeptos de futebol por “Gigante de Portugal”, não é excepção.

De facto, os feitos desportivos do Benfica desde os seus primórdios, entre outras razões, tornaram o clube num fenómeno de popularidade incomparável no seu país. Os encarnados são os que mais Campeonatos Nacionais (34) e Taças de Portugal (25) conquistaram, o clube português que marcou presença em mais finais de competições da UEFA (10 - 7 na Liga dos Campeões e três na Liga Europa), além de ser o único que venceu a Liga dos Campeões duas vezes consecutivas (1961; 1962) e também o único que ganhou a Taça Latina (1950), considerada a predecessora da Liga dos Campeões.

No maior estudo realizado acerca da sociedade portuguesa (publicado em 2002), 50.3% dos inquiridos afirmaram ser do Benfica, enquanto F.C. Porto (23.1%) e Sporting (22.5%) ocuparam as posições seguintes. Outro dado interessante retirado deste estudo é o de que a popularidade do Benfica não é influenciada por factores etários, regionais ou sócio-económicos. Noutros estudos sobre esta temática, os valores relativos variaram. No entanto, a comparação entre o Benfica e os seus dois principais adversários é constante: O Benfica tem mais adeptos que os seus rivais juntos.

Um observador menos atento, ao tomar conhecimento destes dados, poderá associar a grandeza do Benfica aos anos 60, cuja equipa, por ter disputado cinco finais da Liga dos Campeões e vencido duas delas, é recorrentemente incluída nas listas das dez melhores de sempre do futebol, e, em particular, a Eusébio. O “pantera negra”, considerado um dos melhores jogadores da história do futebol, é a maior figura do Benfica e a única com direito a uma estátua no estádio da Luz. Em 15 temporadas, celebrou 11 Campeonatos Nacionais e marcou 638 golos em 614 jogos.

No entanto, em 1961, quando o Benfica bateu o Barcelona, por 3-2, na final da Liga dos Campeões, Eusébio estava a dar os primeiros passos no futebol português, não participando em qualquer partida dessa competição. Nessa mesma temporada, os “encarnados” conquistaram o seu 11º título nacional, passando a deter o recorde de títulos. E é preciso ter em conta que, a partir de 1960, o estádio do Benfica tinha capacidade para 70 mil espectadores. Portanto, é preciso recuar muitos anos para se perceber a popularidade do Benfica.

No início do século passado, surgiu o entusiasmo pelo futebol em Portugal. Belém era, nessa altura, um dos bairros lisboetas mais jovens e com maior densidade populacional. Era também onde estava localizada a então maior instituição de ensino portuguesa, a Casa Pia, vocacionada para acolher crianças órfãs e prepará-las para a vida adulta. Da vontade partilhada por muitos jovens daquela zona de Lisboa em jogar futebol, nasceu o Benfica. Como o objectivo principal era a prática do futebol, todos os interessados eram bem acolhidos e integrados no clube, fazendo-o crescer rapidamente, sem deixar de respeitar uma premissa relevante: A exclusividade da nacionalidade portuguesa dos seus atletas, sendo um dos poucos clubes que não aceitava estrangeiros nas suas fileiras (Jorge Gomes, brasileiro, foi, em 1979, o primeiro estrangeiro a representar o Benfica).

O Carcavellos, cuja equipa era formada por jogadores ingleses que trabalhavam no Cabo Submarino, era invencível desde 1898 e coube ao Benfica, passados nove anos, em 1907, a glória de o vencer. Este triunfo teve um impacto significativo nos amantes de futebol, não só pelo feito em si, mas também por imperar, ainda, entre os portugueses, um sentimento de revolta para com os britânicos devido ao “Ultimato Britânico”, de 1890, em que o Reino Unido exigiu que Portugal abandonasse os territórios entre as colónias de Angola e Moçambique.

Nos anos seguintes, o clube, que já se mudara para outro dos maiores bairros lisboetas, Benfica, tornou-se no mais bem-sucedido, vencendo, nas onze temporadas entre 1909 e 1920, oito Campeonatos Regionais (a competição mais importante nesse período) e estabelecendo-se enquanto principal promotor do futebol em Portugal (e outros desportos). Desde esses tempos, o Benfica centrou esforços no seu crescimento. Participava regularmente em partidas em regiões distantes de Lisboa (por exemplo, foi o primeiro clube de Portugal continental a deslocar-se à deslumbrante ilha da Madeira e foi o primeiro clube de Lisboa a actuar na cidade do Porto), dispunha de secretaria no centro de Lisboa para melhor servir os seus associados, publicou um jornal semanal a partir de 1913 e instituiu delegações espalhadas pelo país, incluindo nas antigas colónias africanas.

Em 1925, inaugurou o seu primeiro estádio, o Campo das Amoreiras, situado entre dois dos bairros lisboetas mais populosos na primeira metade do século passado, e em que predominava a classe trabalhadora.

No ano seguinte, ocorreu a “Revolução Nacional”, o movimento que possibilitou a ditadura que vigorou em Portugal até 1974. No entanto, o Benfica não se deixou influenciar pela situação política no país, nunca deixando de realizar eleições livres e democráticas para eleger os seus órgãos sociais, sendo uma das poucas instituições portuguesas, senão mesma a única, a fazê-lo nesse período. Apesar deste facto histórico não se dever a uma antagonização ao regime político (nem o seu contrário, o princípio foi o de não interferência na vida política), ocorreram alguns eventos políticos que contribuíram para a popularidade do Benfica.

Desde logo, a expropriação do campo das Amoreiras (1941), que obrigou o clube a procurar uma nova localização. Também a censura ao hino do clube devido ao título, pois incluía a palavra “Avante”, a qual poderia ser conotada com movimentos comunistas. Mais tarde, a utilização de bandeiras benfiquistas, por serem vermelhas, em manifestações políticas contrárias ao regime ditatorial. Acresce que foi na década de 60, a das cinco finais da Liga dos Campeões, que ocorreu a maior vaga de emigração portuguesa, passando o Benfica a ser, por vezes, o único elo de ligação a Portugal para centenas de milhares de portugueses que procuraram obter, noutros países, melhores condições de vida.

Por outro lado, o Benfica foi o primeiro clube a ter um negro entre as suas estrelas. Guilherme Espírito Santo (1936-1950, 199 golos em 285 jogos) é considerado um dos melhores jogadores de sempre do Benfica. Esta abertura ideológica reflectiu-se igualmente na proveniência dos jogadores, o que resultou numa forte ligação às antigas colónias. Entre muitos exemplos que poderiam ser dados, José Águas, o capitão de equipa bicampeã europeia e segundo melhor marcador de sempre do Benfica, nasceu em Angola. Mário Coluna, “o capitão dos capitães”, nasceu em Moçambique. Assim como Nené, que, com 802 jogos de águia ao peito, é o jogador que mais vezes representou o Benfica. E, claro, o “rei” Eusébio, que chegou ao Benfica aos 18 anos, proveniente de Moçambique.

António Lobo Antunes, um dos principais escritores portugueses, conta frequentemente que, durante a guerra colonial, havia uma espécie de tréguas durante os jogos do Benfica. Em cada lado da barricada, todos seguiam atentamente o desenrolar das partidas, substituindo as armas por aparelhos de rádio, pelos quais se poderia ouvir o relato dos feitos de Eusébio e companhia.

Todos estes factos e acontecimentos contribuíram para uma base de adeptos estimada, incluindo as antigas colónias e as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, em 14.5 milhões de benfiquistas. O Benfica é o maior clube em Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde. E é, provavelmente, o maior na Suíça e Luxemburgo, e um dos maiores em França. Uma deslocação do Benfica à América do Norte, a França, à Alemanha ou à Suíça é sinónimo de sucesso garantido na receita de bilheteira. Como os benfiquistas costumam afirmar, “o Benfica é maior que Portugal”.

Pickles Magazine - 14/2/2016
Ilustração de Akacorleone

Fim de quarentena

Todos estamos agradecidos aos benfiquistas que há uns poucos meses dedicaram parte do seu tempo, dinheiro e esforço para homenagearem vint...