segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Benfica: Campeão em toda a linha

Terminou a Liga NOS com o Benfica a sagrar-se campeão pela terceira vez consecutiva, feito alcançado, pela última vez, há 39 anos. Como sempre, de resto, como em qualquer assunto, os partidários de cada parte esgrimem argumentos e procuram, entre os vencedores, exaltar o triunfo, e, entre os perdedores, justificar a derrota e reclamar os louros de uma vitória moral devida a uma suposta injustiça, seja ela motivada pelo acaso, por terceiros ou, nalguns casos raros, por erros próprios. Reconheçamos que é indiferente. Viver o futebol intensa e apaixonadamente remete para todo um conjunto de actos irracionais, para a aceitação de que se pertence a uma tribo e agir de acordo com códigos próprios, interpretados individualmente, que resultam em comportamentos distintos com consequência generalizada: O clube de cada um será sempre, de alguma forma, melhor que o do outro.

Por isso faz tanto sentido a ideia de que se poderá explicar tudo no futebol por este ser “mesmo assim”. Cada adepto lida com as suas emoções à sua maneira, conforme está mentalmente preparado para lidar com elas. Parece, no entanto, haver um sentimento comum a todos: nunca se reconhecer mérito ao adversário.

Numa competição disputada por 18 equipas em poule a duas voltas, seria lógico que se aceitasse o sistema de pontos como mecanismo insofismável de aferição quanto à justiça do campeão. No entanto, sendo a emoção a força motriz do argumentário utilizado, é certo e sabido que a razão, por muito que seja evocada, estará sempre relegada para um plano secundaríssimo, senão mesmo inexistente. Nem sequer interessa ao mundo do futebol que assim não o seja.

Aos adeptos não certamente, pois fazem dos seus clubes uma extensão das suas vidas e encaram, como seus, os sucessos e insucessos das equipas. Por isso se encontram tantas vitórias morais entre os derrotados. Muito menos aos dirigentes, que além de serem adeptos, são criticados pelos seus correligionários, o seu poder é colocado em causa e, nalguns casos, até o seu emprego. Além disso, têm a noção perfeita de que são, sobretudo, gestores de emoções e que as receitas dos cubes que dirigem estão correlacionadas com o sentimento geral dos adeptos que, neste âmbito, acabam por ser clientes. Nunca aos mais variados profissionais, cuja recompensa financeira presente está dependente do desempenho desportivo e a futura à percepção do potencial para o mesmo. O mesmo se aplica aos agentes de jogadores, cujas comissões serão tão mais elevadas quanto maiores forem os montantes das transferências e estes, como se tem visto, são empolados ou limitados de acordo com o desempenho das equipas. E, finalmente, nem sequer à comunicação social ou aos patrocinadores, seja pela venda do produto da informação, seja pela associação de marcas, de nada lhes valerá uma fatia relevante dos seus clientes deprimida e pouco propensa a consumir. Em suma, na prática ninguém pode perder.

Mas, por muito que se teorize acerca dos méritos e deméritos de cada um, há de facto vencedores e vencidos. Restringindo a análise aos “três grandes”, o Benfica venceu em toda a linha e o F.C. Porto perdeu a todos os níveis. Por aquilatar está em que medida o Sporting foi derrotado, sendo certo que não venceu, por muito que tente passar uma aura de triunfalismo moral e desajustado. Para melhor compreensão, ao invés de me debruçar sobre cada clube, segmentarei a análise por vertente.

No plano desportivo, o vencedor é aquele que conquista mais pontos. Daqui a 20 ou 30 anos, só os mais curiosos se dedicarão às incidências do campeonato. Às de cada partida, apenas os obcecados (compulsivos?). Cada campeonato tem a sua história e a deste resultou em 88 pontos para o Benfica, 86 para o Sporting e 73 para o F.C.Porto. O somatório dos pontos obtidos em 34 jornadas é consequência da regularidade de cada equipa e toda e qualquer análise em contrário cai pela base. Mais surpreendente é que se tente incluir resultados de outras competições no campeonato do mérito, como se estes tivessem qualquer relevância para o título. Por essa lógica, o Portimonense, por ter ganho ao Sporting na Taça da Liga, o qual venceu três dos quatro jogos com o Benfica, mereceria ser campeão. Mas o clube algarvio perdeu com o Paços de Ferreira, que, por sua vez, perdeu sempre com o Benfica. Afinal o Benfica, seguindo esta “ilógica”, já seria um campeão meritório novamente. Certo é que o Benfica se sagrou tricampeão, o Sporting fez o melhor campeonato desde que venceu pela última vez, em 2002, e obteve a qualificação directa para a fase de grupos da Liga dos Campeões, e o F.C.Porto foi uma sombra de si mesmo, o que, tendo em conta o insucesso verificado nas duas temporadas anteriores, ressuscita fantasmas daquele F.C. Porto pré Pinto da Costa, o clube que dava alguma luta mas que raramente contava para a luta do título.

No plano financeiro, será extemporânea a análise e versarei mais detalhadamente sobre as contas de cada clube nesta época assim que forem publicados os relatórios do 3º trimestre e anual de cada SAD. No entanto, há elementos que permitem formar uma ideia aproximada do estado financeiro presente e futuro da cada SAD, nomeadamente as contas do 1º semestre e as consequências financeiras da classificação final do campeonato e desempenho nas competições europeias.

Relativamente ao desempenho financeiro, esta foi uma época de enorme retorno para o Benfica. A presença nos quartos-de-final da Liga dos Campeões significou um encaixe de 28.5M€, a que se deverá somar o montante do market pool que deverá ascender a 4M€ e as receitas de bilheteira. Por outro lado, a luta acesa pelo título teve um impacto significativo nas receitas de bilheteira em jogos do campeonato (a média de espectadores nas últimas cinco partidas disputadas na Luz foi superior a 58300). Além disso, presume-se que a componente variável dos patrocínios inclua o título nacional e a presença numa fase avançada da Liga dos Campeões. Tendo em conta que, no final do 1º semestre, a SAD benfiquista foi a única que apresentou lucro (4.6M€), são boas as perspectivas para os encarnados (mesmo tendo em conta que o sucesso desportivo acarreta, também, avultados pagamentos de prémios). A alienação do passe de Renato Sanches por 35M€, mais uma componente variável que poderá chegar a um montante global de 80M€, é a cereja no topo do bolo (financeiro).

Quanto ao Sporting, não deixa de ser preocupante que, pouco tempo passado da reestruturação financeira, o prejuízo apresentado no primeiro semestre de 2015/16 tenha sido de 18.1M€ e que tal tenha conduzido novamente a SAD leonina a uma situação de falência técnica. Sem Liga dos Campeões, é de crer que este prejuízo tenha aumentado desde o final desse período, o que poderá resultar em necessidade de alienação de activos (até porque os custos com pessoal quase que duplicaram sem que as receitas operacionais sem atletas tenham acompanhado este crescimento). Pela positiva, a qualificação directa para a fase de grupos da Liga dos Campeões assegura uma receita significativa, apesar desta poder vir a ser retida devido ao caso Doyen (contudo, finalmente na minha opinião, a Sporting, SAD constituiu uma provisão decorrente deste processo, pelo que o custo já se encontra reflectido nas contas apresentadas).

Sobre o F.C.Porto, o terceiro lugar no campeonato implica que terá que disputar a eliminatória de acesso à Liga dos Campeões. Além do risco desportivo inerente, importa relembrar que, contrariamente à SAD benfiquista, a portista opta por contabilizar este tipo de receitas no momento da aquisição do direito. Ou seja, nas contas de 2014/15 não haverá qualquer receita significativa da UEFA (a anterior fora contabilizada em 2013/14), a menos que altere a forma de contabilização. A venda de Imbula reequilibrou as contas que, no final do 1º semestre, eram previsivelmente deficitárias (17.6M€), mas sem outras alienações, a tendência negativa manter-se-á.

Finalmente, o plano comunicacional. Começo pelo F.C.Porto, cuja época desastrosa a todos os níveis pauta a estratégia. Todas as expectativas criadas no início de temporada saíram defraudadas, correndo agora o risco da mesma fórmula não funcionar na próxima época. A média de espectadores confrangedora na segunda volta do campeonato indica isso mesmo (nos seis últimos jogos no Dragão, excluindo o Sporting, a média ficou ligeiramente acima dos 24000 espectadores). Este desânimo terá consequências na captação de receitas. Por outro lado, começou-se a assistir a críticas à liderança de Pinto da Costa (ou à sua equipa), algo que não se verificou, pelo menos com tanta crispação, nos últimos 30 anos. A instabilidade, até hoje pouco experimentada nas Antas, influenciará o planeamento da próxima temporada, veremos com que resultados. E acresce o cada vez menor impacto, no futebol português, das posições públicas do presidente portista.

No Sporting, julgo que assistimos a uma aposta sem precedentes com vista à conquista do título nacional passados 14 anos. Os constantes ataques ao Benfica não surtiram o efeito aparentemente desejado e poderá ter descredibilizado definitivamente, perante as diversas instituições, a sua equipa dirigente. As consequências poderão ser variadas, mas o mais provável é que nada de relevante aconteça e assistamos, na próxima temporada (a partir deste defeso), à recrudescência da mesma política de comunicação. Estará por avaliar a reacção dos seus parceiros… No entanto, creio que muito do que é argumentado publicamente visa, sobretudo, o plano interno. Neste domínio, convém esperar que a espuma dos dias passe, apesar de me parecer que, para a generalidade dos sportinguistas, não obstante o desaire desportivo em 2015/16 (ficou-se pela vitória na Supertaça), prevalecerá o sentimento de melhoria relativamente ao passado recente, o que não deixa de ser factual.


Sobra o Benfica, que optou pelo silêncio quase sempre que foi provocado e “limitou-se” a ganhar. No futebol, a máxima “quem ganha é quem tem razão” nunca se deixará de aplicar.

Vida Económica - 20/5/2016

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