sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Hóquei


Num bairro típico lisboeta em que já morei, havia um tipo que passava a maior parte do dia numa das esquinas do cruzamento mais movimentado, ora falando com este e aquele, ora não raras vezes só, encostado à parede de um prédio a aproveitar os benefícios desta nossa Lisboa soalheira. De vez em quando ausentava-se, mas pode-se afirmar, em tom caricatural, que aquela esquina tinha um semáforo e o tal tipo, além da vaga incessante de transeuntes de ocasião.

Passados uns anos, perguntei a um amigo, há muito morador no bairro e conhecedor profundo do bas fond local, tendo em conta que aquele homem não parecia endinheirado, qual seria o seu sustento. Respondeu-me que trabalhava num número e eu, ingenuamente, demorei a perceber que se tratava de um carteirista cuja vocação profissional encontrava num dos mais requisitados autocarros da Carris as condições óptimas para maximizar os proventos do seu labor. Um dia, notoriamente indignado, vociferava para quem o ouvia: “O passe da Carris está cada vez mais caro, são uns gatunos!”. Recordo-me sempre desta história cada vez que oiço um portista a criticar arbitragens de futebol ou de hóquei em patins.

Não conheço, no entanto, qualquer episódio ilustrativo da inusitada propensão de hoquistas portistas para interagirem, recorrendo aos sticks, com o público adversário. Ocorre-me uma palavra: selvajaria. E outra: impunidade. Desde logo fomentada por quem os dirige, que aparentemente finge tratar-se de uma reacção compreensível motivada por um excesso de adrenalina momentâneo. E, mais grave ainda, de quem dirige a modalidade, cuja habitual ligeireza na sanção destes casos remete-nos para a esfera dos países subdesenvolvidos.

Jornal O Benfica - 9/11/2018

3 comentários:

  1. Boa noite
    O problema são alguns dos nossos adeptos que com o seu comportamento tiram força à nossa razão.

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  2. O mesmo acontece sem vitórias no futebol, li agora que eles são arguidos nos emails. Não pudemos ceder.

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