segunda-feira, 3 de julho de 2023

Estupefacção só para incautos

Que o futebol português é pródigo em fenómenos do Entroncamento, localidade que nunca sequer teve um clube ao mais alto nível, já todos o sabemos. Ainda assim não deixa de ser extraordinária a sua inesgotável capacidade para nos surpreender.

Um exercício que deveria ser relativamente pacífico – a escolha do melhor jogador de um campeonato – que, feitas e refeitas as análises, se cingiria à opção entre dois ou três dos futebolistas que mais se distinguiram ao longo da temporada, é transformado, pelo absurdo do escolhido, em mais um episódio que contribui para a ideia de que um interesse particular se sobrepõe à integridade das decisões.

Interesse esse que, neste caso, parece óbvio: a valorização do passe de um jogador, sem dúvida muito bom, apesar do feitio, das atitudes e do comportamento, ao serviço de um clube tido como necessitado de realizar vendas rápidas para cumprir o fairplay financeiro da UEFA.

Não há, obviamente, qualquer elemento que comprove esta teoria, mas as suspeitas são legítimas. Repare-se: eleger quem mais se distinguiu na Liga pode obedecer a vários critérios, tais como golos, assistências, peso no desempenho (de acordo ou acima das expectativas) da equipa que representa, qualidade exibicional, regularidade, etc. E, para esbater o efeito temporal, uma vez que as memórias mais recentes prevalecem, há a possibilidade de recurso aos prémios mensais para se constatar quais foram os jogadores premiados durante a época.

Tanto para analisar, nada que valide a escolha. Otávio não se distinguiu em qualquer dos itens estatísticos apresentados no site da Liga à excepção das assistências, no qual integra o grupo dos terceiros (fez 7 assistências e apontou 5 golos). E, para cúmulo dos cúmulos, o cuspidor não ganhou qualquer prémio de jogador do mês ao longo da época. Pior: nem sequer foi um dos três mais votados em cada prémio mensal.

Expectável seria que Otávio nem sequer fosse considerado para o 11 do ano. Não foi um dos três mais votados em cada mês, não marcou muitos golos, houve quem fizesse mais assistências e fez parte de uma equipa cujas exibições não agradaram a quem quer que fosse, nem sequer ao mais empedernido dos adeptos do seu clube. E não se sagrou campeão.

Lunática distinção, para ser simpático. E, por isso, até porque é improvável que todos tenham enlouquecido de repente, não há como, mesmo sabendo do teor conspirativo desta convicção, não acreditar que o lobby esteve em alta por estes dias.

Agradeço, no entanto, que este tenha sido o resultado. É sempre bom que nos recordem, de vez em quando, quão movediças são as areias em que nos movimentamos.

Jornal O Benfica - 30/6/2023

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