sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Enorme Benfica


De passagem por Edimburgo, aproveitei para visitar o estádio do Hearts of Midlothian, um dos nossos adversários na campanha que resultou na conquista da nossa primeira Taça dos Campeões Europeus, em 1961. O Hearts, apesar de fazer parte do meu imaginário, precisamente por constar no caminho que levou José Águas a erguer o mítico troféu, é um clube relativamente modesto. Assim, não me surpreendeu que o “museu” do clube, na arquibancada de um dos topos, embora digno, cuidado e cativante, se limite a uma pequena sala.

Mas o mais interessante, de um ponto de vista benfiquista, foi a forma como fui recebido. Por ser o único visitante naquele momento, beneficiei da atenção especial do voluntário de serviço. Conversa puxa conversa e logo referi o confronto entre Benfica e Hearts e os golos, naquele local, de Águas e José Augusto. O senhor, aparentemente octogenário, partilhou comigo as suas memórias desse encontro e da grande equipa do Benfica nos anos 60 que, e passo a citar, “ninguém os conhecia e de repente eram a melhor equipa da Europa. E quando aqui jogaram, ainda não tinham o Eusébio”.

Mas o melhor, para mim, surgiu quando lhe revelei que escrevi uns livros sobre o Benfica, colaboro com o jornal e comento na televisão do clube. Passo o exagero, quase me dedicaram honras de estado. O senhor telefonou ao curador adjunto do museu e fui levado a uma visita ao estádio por ambos. O dia daqueles dois simpáticos e dedicados adeptos do Hearts, a julgar pela forma como fui tratado, não foi um qualquer. O Benfica, o enorme Benfica, esteve ali representado informalmente por um dos seus milhões de adeptos. Uma honra, a crer nos senhores, para o Hearts of Midlothian FC.

Jornal O Benfica - 19/10/2018

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Fina hipocrisia


Na semana passada, Pinto da Costa afirmou que “o futebol não pode ser uma guerra, tem de servir para unir o país”. Logo o acusaram de hipocrisia, o que se compreende. Porém, justiça lhe seja feita, é sobretudo uma vítima da sua megalomania e incompetência e, verdade seja dita, da incapacidade dos seguidores do desporto português em lhe reconhecerem, simultaneamente, o empenho em prol de tamanho desiderato e a obstinação pela perseguição de um objectivo nobre e porventura inalcançável, exigindo-lhe permanente pragmatismo e a constante prevalência do bem maior, mesmo que por vezes se veja na contingência de tomar caminhos enviesados. Em poucas palavras, o homem não só é um papa, merece a canonização.

Ciente da enorme empreitada a que se dedicou, começou por dar pequenos passos, alcançando sucesso, embora parcial por não ter percebido que já os romanos diziam que neste canto da Ibéria havia um povo que nem se governava nem se deixava governar. Enfim, somos muitos, demasiados para sermos unidos por um homem só. Nem Alberto João Jardim o conseguiu com os madeirenses, uma pequena parcela do país.

Alguns árbitros, dirigentes associativos (até de clubes), jornalistas, autarcas e muitos outros viram-se subitamente unidos, o que não é despiciendo. Afinal de contas são portugueses e tinha de começar por algum lado. A meio do caminho desviou-se e procurou, talvez fruto de um inusitado fervor pós-colonialista, incluir cidadãs brasileiras. E depois destas, sportinguistas em cargos directivos apoiados por uma turba desesperada. Falhou clamorosamente, o “país” continua desunido e o futebol é, infelizmente, uma guerra. Ou então é mesmo hipócrita.

Jornal O Benfica - 12/10/2018

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Os Sísifos


Não se apoquente: “O Novo Banco cancelou uma conta caucionada de perto de 70 milhões de euros ao Benfica (...) que se encontra sob forte pressão de financiamento (...) e perde o seu parceiro financeiro predilecto numa altura especialmente difícil. (...) O Benfica enfrenta necessidades de refinanciamento ou de reembolso de créditos de quase 200 milhões de euros. (...) É com estes números na cabeça que se pode explicar a saída de jogadores. (...) Do susto ao pânico é um passo pequeno. (...) Os custos desportivos serão aferidos a partir de Setembro, altura em que a janela das transferências se fecha e quando se abrem as verdadeiras caixas de Pandora”.

Este artigo de opinião alarmista, embora trasvestido de notícia, foi publicado no Expresso, em agosto de 2014. Desde então, o Benfica venceu três campeonatos e outros títulos e troféus e apresentou as melhores contas da história da Benfica, SAD. Abriu-se, de facto, uma verdadeira caixa de Pandora: Se esta peça atesta a qualidade jornalística da grande referência do jornalismo em Portugal, imagine-se a de outras publicações...

Mas os gregos, que eram dados à tragédia, não se ficaram por Prometeu e Pandora. Hermes, por seu turno, ocupou-se de Sísifo, condenando-o perpetuamente a empurrar uma pedra até ao cume de uma montanha, a qual resvalaria sempre que o pobre Sísifo alcançasse o destino. Hoje, em tempos de maior civismo e urbanidade, talvez fosse condenado a desempenhar as funções de jornalista, tendo que, ciclicamente, escrever um artigo premonitório, nas parangonas, de caos benfiquista, mas desoladoramente (para ele) inócuo no conteúdo. Ou talvez não, que o que interessa é vender jornais hoje, amanhã sabe-se lá...

Jornal O Benfica - 28/9/2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Saudação ao SCP


Não me cabe tecer comentários sobre o resultado das eleições leoninas, mas apraz-me constatar que os sócios do Sporting Clube de Portugal souberam pôr cobro a um período de loucura cujas consequências extravasaram o domínio sportinguista. O anterior presidente do Sporting não representava somente um problema para o clube que dirigiu, mas para o desporto português. O risco de contaminação a dirigentes de outros clubes existiu e seria nefasto se tivesse ocorrido.

Um sportinguista, daqueles fervorosos brunistas, poderá interpretar o parágrafo anterior como uma mal disfarçada manifestação de alívio. Não poderá estar mais enganado. Para mim, enquanto benfiquista que cresceu a encarar o Sporting enquanto rival, nada mais me satisfez que derrotar um Sporting liderado por um arrivista grosseiro movido a ódio ao Benfica, cujas palavras de ordem logo eram repetidas até à exaustão por uma turba predisposta a tudo, assim prevalecesse a miragem de um Benfica subjugado. Bruno de Carvalho, que andou a ser levado em ombros por quem, mais tarde, demasiado tarde, se encarregou de o escorraçar, não surgiu de geração espontânea nem andou a pregar sozinho num deserto. Bruno de Carvalho foi o produto de vários factores, incluindo a deriva anti-benfiquista crescente.

Mas adiante, o passado já lá vai e mesmo algumas das afirmações anti-benfiquistas produzidas ao longo da campanha não me tiram o sono (até me entusiasmam, de certa forma). Afinal, havia que ganhar eleições e todos sabemos que um sportinguista, perante os seus correligionários, pouco ou nada é ouvido se, entre loas ao Sporting, não professar o anti-benfiquismo. Fica-lhes bem, entre eles, e serve-nos na perfeição.

Jornal O Benfica - 14/9/2018

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Bom começo


Passados 27 dias e 8 jogos, o Benfica lidera o Campeonato Nacional e assegurou a presença na fase de grupos da Liga dos Campeões, patenteando um nível exibicional entusiasmante e consistente, só pecando, em alguns dos jogos, pela escassa eficácia na concretização das inúmeras oportunidades criadas. Sem Jonas nem Krovinovic, entre outros, mas com Gedson e João Félix, produtos do excelente trabalho feito no Seixal (a que se lhes junta o “veterano” Rúben Dias e Alfa Semedo entre os utilizados).

Não por acaso, de acordo com um relatório do CIES sobre a facturação com a venda de passes de atletas para os cinco principais campeonatos europeus entre 2010 e 2018, o Benfica surge na oitava posição, com 618 milhões de euros, a apenas dez do quarto neste ranking, o Barcelona. Saliente-se que, neste período, o Benfica conquistou cinco Campeonatos Nacionais, duas taças de Portugal, seis Taças da Liga e três Supertaças, além de ter disputado duas finais da Liga Europa e ter sempre participado na fase de grupos da Liga dos Campeões a partir de 2010/11. Só este percurso desportivo permite o enaltecimento do sucesso financeiro, agora fortalecido pela recente amortização integral do endividamento à banca.

Será esta a razão que levou, subconscientemente, a antiga deputada à Assembleia da República e psicóloga Joana Amaral Dias a clamar pela extinção da Benfica, SAD? Não sei, a especialista é ela. Do meu ponto de vista, manifestamente leigo, limito-me a citá-la: “O maior risco, quer para as pessoas discriminadas quer para o público, encontra-se nos preconceitos e desinformação”. Então se partir do roubo de emails e deturpação e descontextualização do conteúdo dos mesmos, nem se fala...

Jornal O Benfica - 7/9/2018

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Godinho


Escrevo na terça-feira, antes do jogo decisivo em Salonica. Por isso, resta-me agradecer encarecidamente a Luís Godinho, árbitro do Benfica-Sporting, por colaborar diligentemente na preparação para a contenda na Grécia. A perspectiva de ver a nossa equipa disputar uma partida apitada por Felix Brych, um homem que, há quatro anos em Turim, não sendo banqueiro ou político, conseguiu roubar descaradamente 14 milhões de pessoas, é aterradora. Godinho, no fundo, um bom samaritano, tentou mimetizar Brych, possibilitando à nossa equipa a indispensável preparação táctica, técnica e mental.

Mas Godinho, e é bom que se investigue, não é, pelos vistos, um mero colaborador ocasional do Benfica (alerto, desde já, que esta é daquelas situações que não serão detectadas em emails roubados, pois esses, por mais vasculhados que sejam, nada contêm para além da actividade normal, legal e por vezes até enfadonha de funcionários e dirigentes de clubes que tratam de assuntos normais, legais e por vezes até enfadonhos de clubes). Godinho será antes um competente agente benfiquista infiltrado na arbitragem de futebol, servindo os propósitos encarnados. Ou não é a aposta na formação assumidamente estratégica para o Benfica?

Uma semana antes do dérbi – e, caros dirigentes benfiquistas, já que neste caso se trata de uma estratégia a médio prazo, deveriam tê-lo instruído para disfarçar um bocadinho – o prestável Godinho, em Arouca, formou os nossos jovens atletas na difícil arte de lidar com um adversário que, inadvertidamente, se apresentou em campo com um clássico 4-3-3-apito. Se não estamos perante um claro domínio dos meandros do futebol português, já não percebo nada disto.

Jornal O Benfica - 31/8/2018

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Gedson


Ao contrário do que por vezes se quer fazer crer, o Benfica sempre foi um clube formador de jogadores de futebol bem-sucedido. As raízes são profundas e remontam aos primórdios da sua existência.

No entanto, no final dos anos noventa do século passado, durante a vigência de Vale e Azevedo, a redução do número de equipas revelou-se nefasta. Passados poucos anos, a falta de infra-estruturas durante a transição entre estádios, até ao Caixa Futebol Campus entrar em funcionamento, também prejudicou sobremaneira esta vertente do clube. Acresce que, neste período, o Sporting notabilizou-se neste domínio e o marketing e a comunicação no futebol tornaram-se relevantes. Nesse contexto, só o enorme investimento e a redobrada competência permitiram que o Benfica voltasse a estabelecer-se como o melhor clube português na formação de futebolistas.

O ponto de partida benfiquista no relançamento da formação não se afigurava favorável. Entre outros factores, havia a percepção generalizada de que o Sporting, principalmente mas não só, era o clube mais adequado para proporcionar aos miúdos o cumprimento do sonho de enveredarem por uma carreira profissional de futebolista. Tal se devia à maioria de jogadores nas convocatórias das selecções nacionais jovens e, também, às oportunidades oferecidas na equipa principal (além das infra-estruturas), influenciando decisivamente o talento disponível em cada clube. Esta foi a realidade no passado, já não é a da última década, o que deve ser sobejamente enaltecido.

P.S. Satisfaz-me pensar no Florentino Luís e vislumbrar nele o sucessor de Fejsa. E no Jocú, do Florentino. É notável que haja exemplos como este para várias posições.

Jornal O Benfica - 24/8/2018

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Futebol português


Pouco percebo de física, mas estou disposto a tudo para entender o futebol português!

Na mecânica clássica, a segunda lei de Newton “é utilizada para prever matematicamente o que o sistema fará a qualquer momento após as condições iniciais do sistema”. Quais são elas então? Digamos um Benfica forte. Nesse caso, é limpinho matematicamente: Benfica forte – parafernália comunicacional e difamatória – coacção e intimidação a árbitros – órgãos disciplinares amorfos – conivência da comunicação social próxima – erros de árbitros e inacção de vídeoárbitros – impunidade de Felipes, Brahimis, Maxis e outros que tais.

Socorrendo-me da mecânica quântica, “o análogo da lei de Newton é a equação de Schrödinger” que, posteriormente desenvolvida por outros, resultou na teoria dos muitos mundos. Trocando por miúdos, dependendo do ponto de vista do observador, uma coisa pode ser e pode não ser simultaneamente, o que significa que há dois estados dessa coisa. Essas duas coisas, ao poderem ser e não ser simultaneamente, já serão quatro, e assim sucessivamente.

Portanto, aceitando esta possibilidade, que é científica, somos azarados. Com infinitas possibilidades de sermos e não sermos, calhou-nos um mundo em que jogadores do FC Porto gozam de impunidade grosseira, só me restando despedir com a letra de uma musiquinha, cantada pelas criancinhas da grande maioria dos mundos paralelos:
Apertei o pescoço ao adversário-rio, mas o adversário-rio não morreu-eu-eu, dona Chica-ca assustou-se-se, com o cartão, com o cartão que o árbitro não deu... miau! E sentada à chaminé-é-é, veio um maxi-xi, desfez-lhe o pé-é-é, ou ela chora, ou ela grita, ou vai-te embora, arbitragem maldita!


Jornal O Benfica - 17/8/2018

domingo, 12 de agosto de 2018

Jonas


Enquanto escrevo esta crónica, persiste a indefinição quanto à continuidade, ou não, de Jonas, o melhor jogador que vi representar o Benfica. Ainda me deliciei com Chalana ou Nené, mas ambos em final de carreira, e nenhum outro se compara, para mim, ao avançado brasileiro, cujo requinte técnico, criatividade, inteligência em campo e faro de golo são cada, e ainda mais se combinados, indiscutivelmente fenomenais.

O filósofo Simon Critchley, fanático assumido do Liverpool e autor do excelente “O que pensamos quando pensamos sobre futebol”, defende que o futebol está subjugado à ditadura dos números quando, em boa verdade, sem desmerecimento da relevância dos golos, tem mais que ver com a forma como os adeptos vivem o tempo. Para o autor, com o qual concordo, apesar de poder parecer paradoxal, a beleza do futebol advém da raridade dos lances belos ou emocionantes.

Jonas, um prolífero goleador que, como tal, não só resiste como até beneficia das análises quantitativas, é daqueles casos raros de quem se espera, a qualquer momento, que nos suspenda o tempo. Começou logo na primeira vez que tocou na bola de águia ao peito: um cabrito a um arouquense em pleno estádio da Luz. Desde então, o brasileiro coleccionou lances inesquecíveis e ainda mais golos, sendo o benfiquista com a melhor média de golos por época no Campeonato Nacional (24,75) e o terceiro em competições oficiais (30,5). Perder Jonas – este Jonas dos números impressionantes e da arte desmedida – nunca será benéfico seja qual for a circunstância. E é inevitável. O desafio será, então, encontrar novos Jonas, daqueles cuja genialidade e empenho nos aproximam dos títulos. E já tivemos uns quantos...

Jornal O Benfica - 10/8/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Modelo colaborativo


Ultimamente tenho trabalhado na concepção de um modelo colaborativo que permitirá a empresas do mesmo sector, logo algumas delas concorrentes, a mitigação de riscos e a consequente potencial diminuição de custos. Sempre que estou envolvido num projecto deste género, penso frustrado no nosso futebol, em que subsiste uma quase total ausência de visão global do negócio, apesar de algumas iniciativas pontuais, embora geralmente enviesadas e assimétricas quanto aos objectivos a que se propõe as partes.

Foi o caso, por exemplo, da submissão do Brunismo, que assolou o Sporting nos últimos anos, à vilipendiação costumeira, por parte da liderança portista, da ética desportiva e da sã rivalidade. Se do “Papa” e seus acólitos já tudo se espera – a este propósito recordo-me sempre daquela ideia de José Cardoso Pires sobre algumas pessoas só serem tão religiosas para que possam pecar– do Sporting nunca se sabe o que esperar.

O Sporting é, por oposição ao seu autoproclamado rival, um projecto de clube falhado por se deixar enredar na sua ambição irrealista (superiorizar-se ao Benfica). É, por conseguinte, propício a que o Brunismo e outros ismos prevaleçam frequentemente sobre o que seria consentâneo com a sua grandeza e o seu historial indiscutivelmente assinaláveis. E, assim, o Brunismo, enquanto projecto individual de poder e instrumento de validação de um complexo messiânico, dispôs-se a tudo, incluindo a submissão ao FC Porto, para tentar relegar o Benfica para uma posição inferior à sportinguista. Não é notável, mas há que reconhecer que, neste domínio, houve a partilha de um objectivo comum e uma estratégia concertada de concorrentes(?) no futebol português.

Jornal O Benfica - 27/7/2018

Números da semana (198)

1 Florentino é o novo recordista de jogos oficiais pela primeira equipa do Benfica no atual estádio da Luz entre os formados no Benfica Ca...