terça-feira, 17 de maio de 2022

De frame em frame enche o dragão o papo

O que são dois centímetros?

Meia rolha; aproximadamente o diâmetro da abertura de um umbigo normal, de uma moeda de cinco cêntimos ou da tampa de uma garrafa de dois litros de refrigerante; a altura de uma pilha de 40 cartões multibanco; dois dedos mindinhos juntos; a lombada do livro “Conduz o teu arado sobre os ossos dos mortos”, de Olga Tokarczuk, edição inglesa, capa mole; etc, etc, etc…

… também a alegada distância entre as partes dos corpos que podem jogar a bola de Darwin e Mbemba supostamente mais perto da baliza no hipotético momento em que a bola deixou de estar em contacto com o pé de Otamendi.

E, por exemplo, da palavra “roubo” no ecrã do meu portátil, zoom a 100%, tipo de letra Times New Roman, a negrito, tamanho 18.

Já em 31 de janeiro de 2020 defendi, em crónica publicado no O Benfica, que escolher o frame exacto na avaliação de um fora de jogo é, de certa forma, aleatório. E expliquei porquê:

A velocidade média de um jogador de futebol, quando arranca e sprinta, é 29 Kms/hora (35 metros em 4.3 segundos). Ou seja, ligeiramente acima de 8 metros por segundo. Se o VAR, em Portugal, usar 300 frames por segundo, o que estaria na vanguarda deste tipo de tecnologia, significa que, entre cada frame, há uma distância média de 2,7 cms.

Na altura desconhecia quantos frames por segundo permitia a tecnologia usada no futebol, daí a referência à vanguarda de então neste domínio. Parece que são 50, ou seja, entre cada frame, pode haver uma diferença média de 16,2 centímetros.

Para agravar, no futebol português acresce à descrença generalizada quanto à escolha dos frames correctos, as suspeitas sobre os pontos de análise escolhidos, isto é, quando a bola é passada e a posição das partes dos corpos dos jogadores que podem jogar a bola.

Muita razão tem o Benfica em exigir uma auditoria externa à utilização do VAR nos lances de fora de jogo, nomeadamente os decididos em função de escassos centímetros.

Analistas externos e independentes repetirem o processo que sustentou as decisões mais complicadas seria a forma de se perceber se as decisões tomadas foram, ou não, as mais possivelmente correctas. Seria a prova de que teria havido sempre boa-fé e que o insustentável clima de pressão e coacção do futebol português não teria influenciado a escolha deste ou daquele frame em cada lance.

E das duas uma: as suspeitas passariam a ser infundadas ou ter-se-ia dados que fomentassem a instituição de melhores práticas neste capítulo da vídeoarbitragem, eventualmente concluindo-se até que um ou outro árbitro não poderia alguma vez voltar a desempenhar a função.

Esta é uma medida concreta e facilmente implementável em nome da transparência. E é aviltante que a luta pela transparência no futebol português provoque tantas ondas de choque.

Jornal O Benfica - 13/5/2022

1 comentário:

  1. Deus escreve direito por linhas tortas, mas ao contrário o var escreve/decide torto por linhas direitas...

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Neres

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