terça-feira, 11 de janeiro de 2022

O costume

Não acredito na bondade intrínseca das pessoas. Acho essa ideia ingénua e até paternalista. Do mesmo modo, considero cínico partir-se do princípio de que a maldade é inata, produto de uma personalidade defeituosa, influenciadora de todas as escolhas ao longo da vida. Parece-me evidente que o contexto e as circunstâncias são também determinantes e, nesse sentido, não se deve criticar demasiado os dirigentes sportinguistas.

Mudam os tempos e os protagonistas, permanece a aversão ao vermelho. E se esta se manifestasse no respeito da normal rivalidade, daí não viria problema ao mundo, por cá faz-se isso mesmo, há desprezo, acinte e outros que tal, e todos temos direito às nossas preferências e embirrações.

Mas do lado de lá da 2ª circular vai-se mais além. Será sentimento de inferioridade exacerbado? Ressentimento profundo? Inveja empedernida pela habitual – por vezes, infelizmente interrompida – subalternização social e desportiva? Desconheço a resposta. Não há-de ser da proximidade ao aeroporto, ainda mal os aviões voavam e já era assim.

Isto para referir que só mesmo dirigentes do Sporting poderiam defender, porque o Benfica seria afectado de alguma forma, que alterações a regras de competição desportiva devessem ser retroactivas. São assim os paladinos da ética, bons costumes e tudo o mais que gostam de apregoar. Dizem-se diferentes e nem assim se socorrem da psicanálise. Logo eles que, com a boca cheia de supostas virtudes, nem por um segundo pestanejaram antes de revolverem os regulamentos e as leis para que um castigado por acumulação de cinco amarelos pudesse continuar a jogar, o que veio a acontecer, e lá terão pensado “tão espertos que nós somos, ó lampiões”. E se de repente os clubes se lembrassem de inviabilizar, com efeitos retroactivos, o que o Sporting fez na temporada passada para Palhinha continuar a jogar? Que se lixe a retroactividade, a culpa é do Benfica!

Mas eles não são maus e não há ingenuidade alguma nesta constatação. Isto porque não são bem eles o que vemos, antes uma representação do que eles consideram que devem ser. E o guião diz “anti-Benfica”, coitados.

Jornal O Benfica - 24/12/2021

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