segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Grandeza do Benfica

Defrontar o Arsenal relembra-me sempre o “Fever Pitch”, de Nick Hornby, publicado em 1992 e considerado, diria unanimemente, como um dos melhores livros sobre futebol. O autor, escritor consagrado, descreve magistralmente, num registo autobiográfico, a paixão por futebol e o fanatismo por um clube, no caso o nosso próximo adversário na Liga Europa.

Hornby confessa que despertou definitivamente para o futebol com a final da TCCE de 1968, na qual o Manchester United derrotou o Benfica, e termina a narração em 1991 quando se está a preparar para sair de casa e ir até Highbury para ver um jogo do seu clube, também frente ao Benfica (a nossa vitória, por 1-3, é o epílogo perfeito para o livro, e digo-o muito satisfeito, mas sem qualquer ironia).

Leio muitos livros sobre futebol e, por isso, sei o muito que o Benfica é referenciado e, por conseguinte, respeitado. Não me incomodam as menções aos nossos desaires porque tenho a consciência de que, caso não fosse relevante ganharem-nos, elas não existiriam. O triunfo sobre o Benfica não é um mero dado estatístico, mas um feito em si mesmo.

O Benfica está nas biografias de Best, Charlton, Clough, Cruyff, Pelé, Puskás e tantos outros que se notabilizaram ao longo dos tempos no futebol. Veja-se George Best, cuja consagração precoce da sua genialidade futebolística ocorreu em 1965, com a exibição feita no estádio da Luz. Ou de Pelé, que se recorda sempre da exibição pelo Santos na Luz. Ou da matreirice do mítico Brian Clough, quando liderava o Derby County e encharcou o relvado nos dias anteriores à recepção ao Benfica em 1972. Há muitos mais exemplos, mas precisaria do jornal inteiro. Talvez escreva um livro sobre o tema...

Jornal O Benfica - 18/12/2020

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Números da semana (1)

1.25 – golos por jogo de Darwin na Liga Europa. Cinco em quatro jogos na época de estreia são esclarecedores quanto ao enorme potencial do jovem uruguaio;

5 – Posição de Pizzi no ranking de goleadores benfiquistas na Liga Europa/Taça UEFA. Soma sete golos, os mesmos que Saviola, mas em menos jogos. Nas competições europeias, é o 11º melhor de sempre, marcou 12, tantos quanto Simão, o 9º, João Pinto e Salvio;

7 – Triunfos nas primeiras nove jornadas do Campeonato Nacional. Os números não dizem tudo, mas são factuais. Melhor só em onze das 86 edições anteriores (duas nas últimas 30);

21 – Golos benfiquistas na Liga NOS em 2020/21. Só em seis temporadas, nas últimas trinta, o Benfica marcou mais nas primeiras nove jornadas. Porém os onze golos sofridos recomendam melhorias neste capítulo;

26 – Jogos consecutivos, na qualidade de visitado, sem conhecer a derrota na Liga Europa. Um recorde da competição. Jorge Jesus liderou a equipa em 22 destas partidas, nas quais se incluem duas relativas a meias-finais e quatro a quartos-de-final, todas vitoriosas;

93.41 – Tempo de jogo (quatro minutos adicionais) quando Waldschmidt assinou o golo (o sexto da conta pessoal) que valeu o triunfo frente ao Paços de Ferreira. Imagine-se a celebração caso houvesse público no estádio...;

100 – Jogos de Rafa no Campeonato Nacional ao serviço do Benfica. O golo ao Paços de Ferreira foi o seu 31º de águia ao peito na prova e guindou-o a 45º melhor de sempre pelo clube. São números impressionantes, tendo em conta que não cobra grandes penalidades e que foi titular em somente 72 partidas. Nos 151 jogos “oficiais” pelo Benfica, leva 41 golos (55º), os mesmos de Gaitán, mas em menos 104 jogos;

Jornal O Benfica - 11/10/2020 (escrito anteriormente ao Standard Liège - Benfica)

Lagartices

Haverá reacção mais típica de um sportinguista do que aquela do presidente leonino após o jogo em Famalicão? Disse Varandas: “Este golo jamais seria anulado aos nossos rivais”, referindo-se abusiva e delirantemente a Benfica e Porto, e que o preocupa “a natureza como é visto o VAR nos jogos em que o Sporting perdeu pontos”, acrescentando que lhe custa muito “ver quatro pontos retirados por se utilizar mal o VAR”. E para que se atingisse o expoente máximo do lagartismo, justificou o tal “erro”, pois “seriam quatro pontos de avanço e começam a tremer”.

Sobre a rivalidade, refira-se que deriva da implantação social dos clubes e de razões históricas, mas nem por sombras, no presente, da força futebolística. E, por isso, é com um misto de vergonha alheia e sadismo que oiço Varandas aludir a um pretenso receio dos “rivais” por, imagine-se, a possibilidade do Sporting, quase sempre perdedor nas últimas quatro décadas, poder dispor de uma vantagem de quatro pontos à nona jornada. O Sporting nunca deixará de ser o Sporting e é com isso que conto quando faz umas flores, quase nunca me decepcionando.

E o VAR... não obstante as costumeiras e pretensiosas alusões tipicamente lagartas duma pretensa exclusividade de comportamentos éticos recomendáveis, só o preocupa os erros quando o Sporting perdeu pontos. Que um seu jogador tenha marcado um golo irregular, como foi o caso de Pedro Gonçalves ao Moreirense na semana anterior, já não é da sua conta. Nem a questão da legalidade: objectivamente, Coates fez falta. Um detalhe que, de um ponto de vista lagarto, convém escamotear, não vá pensar-se, afinal, que “má utilização do VAR” signifique, nada surpreendentemente, “inconveniente ao Sporting”...

Jornal O Benfica - 11/12/2020

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Antitético

Proponho, a todos os editores de dicionários ilustrados, que se passe a usar uma imagem de Lito Vidigal a acompanhar o adjectivo antitético. O homem é treinador de futebol, mas não é futebol que treina.

Sendo justo, todos os princípios elementares do jogo podem ser identificados no futebol, que não é futebol, de Lito Vidigal: onze jogadores de cada lado, duas balizas e uma bola. Alternadamente, em cada parte, numa das balizas evita-se a todo o custo que a bola entre, na outra, mesmo que por mera casualidade, pretende-se que a dita atravesse a linha de golo.

Creio que, para se ser um jogador de futebol que não jogue futebol sob as ordens de Lito Vidigal, são necessárias características especialíssimas, entre as quais predomina a gestão inteligente da dor, aguda em vantagem, inexistente em desvantagem. Valoriza-se muito, também, a apetência para a dramatização. E mais é pedido a outros profissionais como, por exemplo, o homem/mulher do spray milagroso, a quem se recomenda apurada forma física pois, não sei se será boato, consta que, em vantagem, chega a correr mais do que alguns jogadores durante os jogos.

Junte-se a um adversário desta estirpe a repetida coincidência do estado do relvado se adequar, na perfeição, a esta abordagem antitética do futebol e, em mais ocasiões do que as desejadas, que até nem me parece que tenha sido o caso desta vez, os árbitros permissivos ou colaborantes, e assim se torna possível que um treinador de futebol que não treina futebol lá vá sobrevivendo no mundo do futebol...

P.S.: Não me apercebi logo do penálti sobre Everton, mas tive a certeza imediata que não seria assinalado. Vasco Santos, no VAR, dá-nos garantias quanto à previsibilidade das decisões.

Jornal O Benfica - 4/12/2020

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Escócia

Por razões familiares, em tempo de pandemia, teletrabalho, semi confinamentos, quarentenas e afins, é na Escócia que tenho passado a maior parte do tempo desde finais de Agosto. Festejei o sorteio que juntou Rangers e Benfica perante a possibilidade de poder ver ao vivo o Benfica neste país, embora cedo tenha percebido que se afiguraria bastante improvável. Faltam 48 horas para o início do jogo e ainda não desisti.

Para quem não conhece, descrevo a Escócia numa única palavra: Imperdível. Quem já cá veio sabe que não exagero. E aos bem-aventurados futuros visitantes, confiantes nos seus conhecimentos do idioma local, recomendo que se preparem mentalmente para a seguinte realidade: se é inglês que os escoceses falam, não foi inglês que vos ensinaram na escola. Eventualmente o ouvido é treinado, garanto-vos, porém, demora anos. Vale que, apesar do ar abrutalhado desta gente, predomina a simpatia para com os estrangeiros – não sendo estes ingleses, claro está – o que facilita a comunicação. E acrescento um detalhe relevante O verão, aqui, é um mito. Ao contrário do vento, que se faz sentir forte e quase constantemente.

Retomando o que verdadeiramente interessa, e perante a hipótese, ainda que remota, de poder ir ao Ibrox ver o Benfica, um amigo desabafou que, com tantas ausências, no meu lugar não iria. Não poderia discordar mais deste estado de alma. O meu amor ao Benfica é incondicional. Num certo sentido, as circunstâncias são irrelevantes na minha vivência do benfiquismo, só influindo no estado de espírito, nunca nos traços identitários. E convenhamos que, perspectivando o onze provável a dois dias do jogo, recheado de internacionais, fica demonstrada a qualidade do nosso plantel. Acredito num bom resultado!

Jornal O Benfica - 27/11/2020

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Darwin e o futuro

Os amantes de literatura sobre futebol têm a noção perfeita de que a história e os feitos são importantes, até fundamentais para a compreensão do jogo e da sua evolução, mas é, a par das vivências pessoais e da paixão por jogar à bola, nas histórias e no contexto das mesmas que reside o fascínio pelo fenómeno futebolístico.

Não haverá melhor exemplo desta realidade do que o contraste entre o dado objetivo “Alemanha campeã do mundo em 1974” e a asserção subjectiva de que os preceitos do “futebol total” do finalista vencido, a Holanda, alicerçada no Ajax, de Michels e Cruyff, ainda hoje influenciam as abordagens tácticas.

Não estou agora a renegar a estatística, à qual, em particular a relativa ao futebol e basquetebol benfiquistas, dedico apaixonadamente parte do meu tempo. É essencial saber, por exemplo, que Darwin já marcou cinco golos e fez seis assistências nos primeiros onze “jogos oficiais” de águia ao peito. Os números permitem-nos comparar e estabelecer paralelismos ou acentuar diferenças, não obstante o seu carácter burocrático, por vezes enganador.

E aí surgem as histórias enquanto factor diferenciador, apesar de maleáveis por vontade dos fregueses. Estou convicto de que muito se escreverá sobre Darwin na próxima década. E a acompanhar os números entusiasmantes dos seus primeiros passos na alta competição, terá obrigatoriamente de se versar sobre o golo marcado à Colômbia esta semana, o segundo pelo Uruguai à terceira internacionalização.

O miúdo que carrega nos ombros a responsabilidade de ser considerado o sucessor de dois vultos do futebol mundial, Cavani e Suárez, o que seria um fardo para muitos, viu numa nesga de espaço a possibilidade de ser feliz e não hesitou. Marcou um grande golo, marcará muitos mais!

Jornal O Benfica - 20/11/2020

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Inesperado

A estupefacção e desilusão sentidas por todos os benfiquistas com o desempenho da nossa equipa de futebol nos últimos três jogos são normais, ainda mais no contexto que o Benfica atravessa, caracterizado por cinco títulos nacionais em sete temporadas, pese embora o insucesso da época passada, regresso de um treinador competente e ganhador no clube e avultado investimento no apetrechamento do plantel.

É natural que as expectativas sejam elevadas, pois são-no sempre a partir do momento em que o símbolo do Sport Lisboa e Benfica é carregado ao peito por jogadores num campo de qualquer modalidade. E, no caso do futebol na presente temporada, as sete vitórias consecutivas e o bom nível exibicional na maior parte delas exacerbaram esta característica do benfiquismo.

O que parecia tornar-se num passeio afigura-se agora a subida ao Alto do Stelvio na Volta a Itália. E nós não gostamos, pois claro, mesmo não sabendo nós, em rigor, por falta de experiência nas últimas décadas, não obstante os muitos títulos conquistados recentemente, o que será exactamente um passeio.

Multiplicam-se agora as análises sobre lacunas no plantel ou opções do treinador, sem nunca se questionar como terá sido possível a série de triunfos anterior. Os pessimistas militantes antevêem desgraças de dimensões bíblicas; os optimistas incuráveis nem pestanejam. Prefiro esperar para ver, acreditando que poderemos ser mais agressivos no ataque e que parte dos problemas defensivos se tornaram visíveis devido a acasos infelizes (golos contra a corrente do jogo, expulsão prematura...), em evidente desacordo com a turma do “eubemavisei”, que o tempo, creio e sobretudo desejo, se encarregará de desmentir, para felicidade de todos.

Jornal O Benfica - 13/11/2020

Amarelos

Há um fenómeno no futebol português que, de tão recorrente, já passou a regra tácita: o primeiro cartão amarelo de um jogo em que o Benfica seja interveniente, não se adiantando no marcador numa fase inicial, é sempre para um jogador do Benfica.

Admito que os factos possam contradizer-me, mas esta é a sensação que tenho. A rábula já aborrece, tantas foram as suas representações.

Os adversários recorrem sistematicamente a faltas para evitarem o que poderá resultar numa jogada perigosa ou simplesmente para quebrarem o ritmo de jogo enquanto os árbitros, por seu turno, se limitam ao uso do apito, até que o ocaso do preâmbulo do primeiro cartão amarelo do jogo se dá ao ser indicado (por vezes duas ou três vezes conforme necessário), geralmente de forma teatral, que não mais serão permitidas as faltas sem que se lhes suceda a admoestação de um cartão amarelo. Invariavelmente, entre essas faltas constam uma ou duas claramente para cartão inexplicavelmente deixado no bolso (alguns comentadores, benevolentes ou fanáticos, teorizam sobre a gestão da partida). E eis que, inevitavelmente, um qualquer jogador do Benfica faz uma falta para cartão e é admoestado. Um clássico. A mais recente reposição da rábula aconteceu no Bessa.

Longe de mim justificar a derrota com este fenómeno. Perdemos porque fomos piores que o adversário e não tivemos a sorte do jogo, a qual pouco procurámos, há que reconhecê-lo. Decerto que, no entanto, a “gestão da partida” não só não nos ajudou como ainda nos prejudicou. E mais preocupa o evidente contraste com a actuação absolutamente desastrosa do árbitro na primeira parte do Paços de Ferreira – Porto, em claro benefício dos segundos, como está a ser, em mais uma época, habitual...

Jornal O Benfica - 6/11/2020

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Depois das eleições

Enquanto escrevo, há três candidaturas para a eleição dos órgãos sociais do Sport Lisboa e Benfica (há umas horas havia quatro). Apoiei uma delas publicamente e todas merecem o meu respeito e consideração, pois reconheço-lhes, sem excepção, o benfiquismo com que se propõe a gerir os destinos do clube e o firme propósito da contribuição positiva para a causa benfiquista.

Independentemente que quem tiver merecido a confiança da maioria dos associados do Sport Lisboa e Benfica, ontem (quinta-feira) tratou-se, não obstante ter havido jogo e o início de um novo mandato, somente de mais um dia da história centenária do clube, mais precisamente, se não me enganei nas contas, o 42616º, e tantos outros lhe sucederão certamente.

Muito foi sendo dito e escrito ao longo da campanha, e é nesse contexto que se deverá confinar o teor das afirmações. Independentemente dos escolhidos pela maioria nas eleições, é o clube de todos os sócios que os eleitos têm a honra, o privilégio e a suprema responsabilidade de dirigir.

A este propósito convém recordar as sábias palavras de Miguel Magalhães (que cito de cor), proferidas aquando da sua eleição, em 1987, integrado na lista liderada por João Santos (com o devido agradecimento ao meu amigo João Loureiro, antigo director deste jornal, que me contou o episódio): “No Benfica, quando há eleições, não há inimigos nem adversários, há apenas benfiquistas que se revezam na missão de servir o nosso querido e glorioso clube”.

Passadas as eleições não há, ou não deve haver, “vieiristas”, “lopistas” ou “gomistas”, só benfiquistas. Quem quer que tenha sido eleito é – tem de ser – o presidente de todos os benfiquistas! Viva o glorioso Sport Lisboa e Benfica!

Jornal O Benfica - 30/10/2020

Notas soltas

- Recorro a Churchill para exprimir o que penso sobre a vídeoarbitragem no futebol português: “É uma charada, envolta em mistério, dentro de um enigma”. Nem com tecnologia isto lá vai. E, na dúvida, já se sabe para que lado as decisões continuam a cair maioritariamente;

- Em Vila do Conde, fizemos a melhor exibição de que tenho memória naquele campo. Vulgarizámos um adversário que há vários anos tem sido dos mais competitivos em Portugal e há poucas semanas esteve a um minuto de eliminar o AC Milan da Liga Europa. Não é, evidentemente, caso para euforia, mas reitero o meu entusiasmo para a presente temporada. Relevante mesmo, embora muito falte para terminar o campeonato e, por isso, pouco signifique, é o avanço de cinco pontos para o Porto. Um Porto claramente beneficiado pelas arbitragens neste início de prova, há que dizê-lo;

- A equipa dedicou o triunfo a Luís Santos, técnico de equipamentos, falecido na semana passada. É perceptível o quanto os jogadores, actuais e antigos, respeitavam e gostavam de Luís Santos. As equipas também se fazem destes elementos, cujo trabalho deve ser pautado pela competência, sobriedade, confidencialidade e solidariedade nos desaires. Pessoas que sabem o seu papel, cumprindo-o sem qualquer protagonismo numa actividade híper mediática;

- E dedicou igualmente a André Almeida, vítima de um infortúnio que o afastará dos relvados por tempo indeterminado, mas longo certamente. Sou um admirador do André. Poderá não ser um grande jogador da bola, mas é um excelente futebolista. Pelos muitos títulos conquistados e jogos efectuados (além dos que ganhará e fará ainda), tem um lugar reservado na história do clube. Que não haja dúvidas quanto a isso, nem quanto ao seu regresso!

Jornal O Benfica - 23/10/2020

Números da semana (198)

1 Florentino é o novo recordista de jogos oficiais pela primeira equipa do Benfica no atual estádio da Luz entre os formados no Benfica Ca...