De todas as recorrentes baixezas deste FC Porto das últimas quatro décadas, a mais patética, porque junta a inocuidade à ridicularia extrema e faz lembrar a saga Harry Potter (“aquele que não se pode pronunciar o nome…”), é de quando em vez o Benfica ser referido simplesmente por visitante. Nem sequer a extraordinária coincidência, há anos e anos, da terminação da quantidade de espectadores nos jogos disputados no estádio do Dragão ser sempre o número na camisola do marcador do primeiro golo portista (desde que já tenha acontecido no momento do anúncio do número de espectadores) se lhe aproxima.
Não deixa de ser curioso, no entanto, que se no relato do
Porto Canal o Porto tenha defrontado o visitante, há muitos portistas que, na
sequência de um golo da sua equipa, até em jogos em que o Benfica nem sequer
participa, cantam SLB várias vezes a anteceder um insulto, o qual, diga-se de
passagem, é ouvido com frequência inusitada em festejos portistas até da boca
de atletas. Ora decidam-se: a idiotice não obriga à incoerência. E um clube
fundado no longínquo ano de 1906 deveria ter mais amor próprio.
O último Porto – Benfica (ou o último visitado – visitante
para não ferir susceptibilidades) teve muitos dos condimentos habituais. Tarjas
insultuosas para cá, intimidações gratuitas para lá, discursos motivacionais
com recurso a jargões belicistas, tentativas de condicionamento da arbitragem,
desvalorização do Benfica (ups, do visitante), impunidade de jogadores
portistas, revisionismo da história do jogo, etc, só faltando a eficácia plena junto
da arbitragem.
A este propósito quero manifestar publicamente a minha
solidariedade para com o voluntarista Eustáquio, expulso por volta dos 27 minutos.
O rapaz é ainda relativamente jovem, talvez susceptível em demasia, e toda
aquela conversa bacoca da guerra e afins retirou-lhe discernimento. Para mais,
em rigor, onde já se viu um jogador do Porto frente ao “visitante” ser expulso
quando merece? Diz-se que um dos aspectos mais importantes da arbitragem é a
uniformidade dos critérios e João Pinheiro, desse ponto de vista, cometeu uma
falha grave ao admoestar, bem, Eustáquio com o segundo amarelo. Se calhar o
jogador do Porto nem sequer sabia que tal era possível (reconheço que pelo
menos eu acreditava que não).
De resto, nem sequer comento o perdão da expulsão de Otávio
por agressão a Gonçalo Ramos ou o pronto levantamento da bandeira na jogada do
golo de Rafa por um pretenso fora de jogo que, depois de medido (apesar do VAR
ser o mesmo que não viu o calduço cobarde do cuspidor fiteiro), se verificou
não existir por mais de meio metro, pois são lances (juízos) esperados num
Porto – Benfica. Muito menos classifico a tentativa de rasteira, após o final do
jogo, ao nosso preparador-físico perpetrada pelo presumível recordista mundial
de expulsões (e assim se evitam idas à flash interview), os dislates
propangandísticos pós-jogo e mais umas quantas coisas de uns mauzões da guerra
disto e daquilo, porém incapazes de dizer, com todas as letras, Benfica.
Termino com uma evocação de justiça poética. O jogador que
no dia em que for corrido do Porto será acusado de benfiquista, formado
exclusivamente no Benfica e apanhado num vídeo a insultar o Benfica e os benfiquistas,
no caso creio que por manifesta falta de personalidade pois pareceu-me incapaz
de se recusar perante a insistência do cuspidor fiteiro e outros colegas
malformados, foi quem errou a fazer a linha, colocando Neres em jogo para
assistir Rafa para golo. Perfeito!
Jornal O Benfica - 28/10/2022
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