segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Perplexidade e vergonha alheia

Nada me move contra os atuais dirigentes da Federação Portuguesa de Basquetebol, pelo contrário creio inclusivamente que a modalidade tem melhorado nos últimos anos, também a nível organizativo.

Considero, no entanto, inqualificável a decisão do castigo aplicado a Ivan Almeida pelo que se passou após o jogo derradeiro da final dos playoffs, branqueando-se, desta forma, os abusos racistas de que foi vítima no Dragão Arena durante a terceira partida e transmitindo-se uma mensagem de exigência aos jogadores para que tudo tolerem e a nada reajam, mesmo quando há muito forem ultrapassados os limites da decência.

Quem quer que tenha prestado atenção ao sucedido nessa final sabe que a altercação entre Ivan Almeida e jogadores do Porto, a qual motivou a tal suspensão de dois jogos, se deveu ao ocorrido no embate anterior, quando um energúmeno sentado na bancada dirigiu insultos racistas e xenófobos ao nosso jogador.

Numa situação destas, esperar auto-controlo de um atleta, quanto mais exigi-lo, constitui um abuso em si mesmo. É retroceder décadas, é assobiar para o lado, é inaceitável.

Além disso, a Federação Portuguesa de Basquetebol, com esta decisão, perdeu uma oportunidade de contribuir para uma sociedade mais justa e plural.

Bastaria para tal ter emitido um comunicado no qual explicaria as razões que justificariam um castigo, para logo anunciar que considerava até um imperativo de consciência optar por valorizar a atenuante – mesmo que essa figura não conste nos regulamentos – de Ivan Almeida ter sido vítima de um episódio escabroso de racismo e xenofobia. Mais, assumiria a defesa do atleta e o forte empenho em impedir que o adepto em causa frequente pavilhões e estádios no país.

Isto porque, que se saiba, o bandalho que gritou “macaco volta para a tua terra” poderá ser espectador das duas primeiras jornadas do campeonato, nas quais Ivan Almeida, caso permaneça em Portugal, não poderá participar.

Ao imbecil nas bancadas faltou decência e civismo. Aos atletas do FC Porto que se insurgiram contra Ivan Almeida durante a discussão com o público, escapou-se-lhes o tacto e a solidariedade. Ao dirigente do FC Porto que, passados alguns dias, desvalorizou os insultos ao invés de os condenar, sumiu-se a humanidade e o bom senso. E, perante tudo isto, a Federação Portuguesa de Basquetebol, além de nada ter feito para que, no futuro, episódios como este não mais se repitam num jogo da modalidade que supervisiona, organiza e promove, ainda condenou a vítima.

Dadas as circunstâncias, é incompreensível e intolerável que Ivan Almeida tenha sido castigado. É mesmo vergonhoso!

P.S.: Somos dodecacampeões nacionais de atletismo. Notável! E confesso que nunca me preocupara em saber qual o prefixo grego para 12, mas aprendi-o graças ao atletismo benfiquista. É assim o nosso maravilhoso clube, além de tudo ainda contribui para a literacia dos portugueses.

Jornal O Benfica - 5/8/2022

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