sábado, 6 de abril de 2019

Calabote II


Por vezes é útil colocarmo-nos no lugar dos outros. Imaginemos um cidadão português normal que por acaso é portista. À partida será honesto, mesmo que, por vezes, recorra à chico-espertice, desde que entendida em abstracto, sem dar um rosto às vítimas. Gosta, como qualquer um, de ter alegrias e compreende-se que relativize um ou outro comportamento desviante que coloque em causa a plenitude da sua felicidade. José Maria Pedroto, no final dos anos 70, inventou o “caso Calabote”, bem melhor, admitamos, que comprimidos para portistas dormirem descansados.

Desde então, a menção ao quinhentinhos, à agência Cosmos, à fruta, ao café com leite e outros encontrou sempre na farsa Calabote o necessário respaldo para os portistas que, de boa fé, celebram o sucesso do seu clube, o seu próprio sucesso. Nesta temporada, em que rara é a jornada em que o FC Porto não é beneficiado, as consequências de alguma coisa são evidentes. Só ainda não sabemos exactamente que coisa é essa. E a inventona Calabote já é tão velha que de pouco serve.

Mas a metodologia Calabote mantém-se actual. A deturpação do conteúdo de emails roubados ao Benfica revigorou-a. Para eles é indiferente se o Benfica condicionou, ou não, o sector da arbitragem. O importante é passar a mensagem que o actual estado da arbitragem deve ser analisado à luz de um qualquer papão. Daqui a uns anos, tenho a certeza, ainda descobrirão que Calabote enviou uns emails em 1959. A lógica, para o tal portista médio que pretende dormir descansado, é simples: “O Pinto da Costa é um trafulha, mas são todos”. E, de premeio, ainda se condiciona árbitros menos próximos à causa. Triste futebol português...

Jornal O Benfica - 5/4/2019

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