segunda-feira, 21 de março de 2022

À Vmocada II

O Sporting adquiriu as VMOC ao BCP, não pelo valor unitário inflacionado (1€), nem sequer pelo valor com 70% de desconto renegociado em 2019, mas por 16,8 cêntimos, ou seja, com um colossal desconto de 83,2%.

Tudo legal, mas é aviltante ouvir dirigentes do Sporting congratularem-se pela operação. E é sobretudo insultuoso para quem cumpre escrupulosamente as suas obrigações.

Colocaram os bancos entre a espada e a parede, livrando-se de uma dívida monstruosa enquanto continuaram a gastar acima das possibilidades (a Sporting, SAD voltou à situação de falência técnica em 2018). E ainda têm o desplante de se regozijarem publicamente.

Não pagaram, não sabiam como poderiam pagar, foram salvos por bancos, à data das operações, intervencionados pelo Estado, e nem sequer se cumpriu o inicialmente planeado. Em 2016, ano em que as VMOC de 2011 deveriam ter sido compradas, o prazo foi prorrogado para 2026, o mesmo das VMOC de 2014. E, em 2019, acordaram um desconto de 70%, mas o BCP nem sequer quis arriscar esperar e acedeu a baixar ainda mais a fasquia.

Agora o BCP justifica-se publicamente com o risco de o banco ter de ficar com cerca de 40% de capital da Sporting, SAD. E seria de facto um enorme risco, reconheça-se, tal é o histórico de prejuízos atrás de prejuízos da Sporting, SAD.

Mas mais do que os 127 milhões de euros de dívida da Sporting, SAD ao BCP e Novo Banco reduzidos a uma parcela reduzidíssima, o que realmente incomoda é a ideia, porventura próxima da verdade, da premeditação.

Ninguém me convence de que os dirigentes do Sporting, de 2011, 2014, 2016, 2019 ou os actuais, alguma vez tenham receado que estes bancos sequer pensassem em assumir uma participação significativa no capital da SAD ou que vendessem as participações a terceiros à revelia do Sporting. E suponho que nunca tenha sido essa, em qualquer circunstância, a intenção destes dois bancos. A pressão da massa adepta sportinguista seria insuportável. E é por isso que, embora formalmente não se trate de um perdão de dívida, na prática este aconteceu mesmo, foi enorme e, se calhar, planeado.

E em vários momentos: a benesse começou ao valorizar-se a dívida muito acima da cotação das acções (quase o dobro), prosseguiu com reavaliações dos montantes em dívida e a diminuição acentuada do serviço de dívida (juros) e termina com o retorno do capital a preço, não de “saldo”, mas de “liquidação total”, enquanto, é bom não esquecer, os gastos continuaram acima das possibilidades. É indecoroso!

Jornal O Benfica - 18/03/2022

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