terça-feira, 10 de setembro de 2019

Futebolês


No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicionário informal e abrangente sobre o léxico futebolístico português.

Proençar - assumir posições de poder para apelar a melhorias genéricas e infrutíferas, enquanto nada se faz e se ostenta um garboso aspecto e o sorriso de missão cumprida;

Xistrar - confundir analistas desatentos e/ou crédulos na bondade alheia acerca da incompetência ou premeditação de decisões erradas;

Xistralhada - acto de xistrar em jogos que actuem equipas trajadas a vermelho ou, em alternativa, mas em sentido contrário, às listas, verticais ou horizontais, de outras cores;

Coroado - aziado;

VAR - instrumento exemplificativo de que o uso humano de boa tecnologia nem sempre produz os efeitos desejados;

Calendarização - exposição cruel da incompetência generalizada entre os diversos intervenientes no futebol português;

Claques organizadas - chapéu que encobre todo e qualquer acto de adeptos criminosos ou abafa cânticos insultuosos num estádio de futebol;

Apelar ao bom senso - evitar a todo o custo a intervenção do poder político na legislação do desporto;

Natal - época festiva em período variável que marca o término do auto declarado estatuto de candidato ao título do Sporting;

Calor da noite - o equivalente a "escola da vida" detectado em inúmeras descrições do Facebook, mas para elementos da estrutura portista;

Record - órgão de comunicação oficioso do SCP;

O Jogo - órgão de comunicação semi-oficial do FCP;

Email - palavra usada quando os argumentos são inexistentes e se pretende justificar o insucesso;
Benfica - glorioso;

(...)


Jornal O Benfica - 6/9/2019

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Recordista da infâmia


O director do Record, Bernardo Ribeiro, manifestou-se indignado por, supostamente, a BTV não ter mostrado os adeptos do FCP durante a transmissão do clássico. No dia seguinte, depois de confrontado por ter mentido ou, com alguma benevolência, se ter enganado, insistiu, em tom jocoso, na crítica à BTV, trasvestindo-a de pedido de desculpa. E, como se não bastasse, enganou-se novamente.

A BTV não mostrou os portistas apenas numa ocasião, fê-lo por cinco ou seis vezes segundo me garantiram. Foram mais, porventura, do que aquelas que Bernardo Ribeiro terá entendido relevantes para criticar Bruno de Carvalho ao longo dos vários anos de presidência do ex-líder leonino. Reconheça-se que o delírio resultante dos triunfos, mesmo que por camisola emprestada, retira o discernimento a qualquer um, mas convém não exagerar.

Maquiavel ensinou-nos que quando um adversário é deitado por terra, deve ser pisado ainda mais. Mas Bernardo Ribeiro, a julgar pela profundidade das suas reflexões, não passa de uma tentativa falhada de um protótipo de aspirante a adversário e a crítica ao Benfica que lhe assistiu fazer saiu-lhe furada.

Talvez pudesse antes dedicar-se a tentar entender a degradação lastimável que a venda de jornais tem sofrido e o que o leva, nesse contexto aterrador, a hostilizar frequente e gratuitamente uma enorme fatia dos seus potenciais consumidores. Seria construtivo. Porém, o Record caminha para ser uma espécie de suplemento desportivo do Correio da Manhã, agora que já é só um mero jornal sectário, servindo para pouco mais que amplificador da comunicação informal oriunda do Campo Grande.

Parafraseando Ribeiro: Não sei se é feio, se triste. Mas é o director do Record.

Jornal O Benfica - 30/8/2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Duplas


Não me preocupa o golo solitário da autoria da nossa dupla de avançados nas três partidas efectuadas. Os espaços aproveitados por Rafa – o saco de pancada predilecto no futebol português – e Pizzi para somarem já seis golos não surgem de geração espontânea, sendo determinantes as movimentações de Seferovic e Raul de Tomás para que os nossos extremos se evidenciem na finalização.

Porém até poderiam ser dois, ambos de Seferovic, não fosse a excessivamente zelosa e minuciosa, mas nem por isso acertada, análise do lance que daria o segundo golo benfiquista no Jamor.

O que se seguiu pareceu uma cena de um episódio especial da CSI Miami, com participação do protagonista da sua filial em Nova York. Mas não eram Caruso e Sinise a contracenarem, eram antes Veríssimo e Xistra, duas faces da mesma moeda, aquela que só no mercado da incompetência tem valor, já que não acredito que ainda exista o mercado da fruta, cujo chão já deu os cafés com leite que tinha a dar. Estranha dupla esta que escrutina golos do Benfica até à exaustão em busca de um detalhe que lhe permita decidir convicta, mas erradamente.

Apelo, assim, às mais altas instâncias benfiquistas que ordenem cabelo rapado e unhas cortadas bem rentes aos nossos jogadores. O uso de botas do número abaixo é recomendável. E, se não for inconveniente, que agendem operações plásticas de remoção do nariz de cada um dos nossos atletas. Todos os milímetros contam! E a Lage peço que jogue em 1-9-1, com todos os jogadores atrás da linha do meio campo, deixando Rafa, partindo de trás, jogar um contra onze. Continuaríamos a ganhar e talvez não fosse possível que esta dupla inefável nos anulasse mais um golo por pretenso fora-de-jogo.

Jornal O Benfica - 23/8/2019

Bom começo


Desde 1964 que o Benfica não marcava pelo menos dez golos nos dois primeiros jogos oficiais da temporada (considerando todas as competições, incluindo as regionais). Com as goleadas, ambas por 5-0, a Sporting e Paços de Ferreira, foi apenas a sexta vez que este feito aconteceu (11 – 1941/42; 1944/45; 10 – 1937/38; 1943/44; 1964/65; 2019/20). Acresce que o Benfica marcou, em toda a sua história, pelo menos cinco golos em pouco menos de 14% dos seus jogos oficiais, percentagem que desce para cerca de 7,8% desde 2009/10...

Significa isto que se justifica, para já, algum grau de euforia em torno da nossa equipa de futebol? Decididamente, não! E algum optimismo? É evidente que sim! É benéfico para a saúde mental, motiva, agrega e, diga-se de passagem, é realista. Entrámos tão bem na temporada como havíamos saído da anterior. A nossa equipa está sólida, consistente, focada e alegre, além de se manter ambiciosa.

Bruno Lage, após a partida frente ao Paços de Ferreira, reafirmou o objectivo de aproximar os níveis exibicionais aos alcançados na época passada. Do meu ponto de vista, falta ainda, apesar da torrente de golos conseguida e evidente potencial, do nosso plantel, para readquiri-la, alguma da fluidez ofensiva que vimos há uns meses.

Talvez por isso se tenha referido tantas vezes que os 5-0 infligidos ao Sporting e Paços de Ferreira tenham sido exagerados face ao que se passara em campo. “O resultado foi melhor que a exibição” parece ser o mantra de benfiquistas pessimistas ou cautelosos e de adversários desdenhosos. E talvez tenham sido mesmo. Mas o que conta verdadeiramente, uma Supertaça e três pontos a abrir o campeonato, já ninguém nos tira.

Jornal O Benfica - 16/8/2019

Educação esmerada


Já várias vezes contei esta história, mas o momento parece-me propício para contá-la novamente.

Certa manhã, andava eu ainda na terceira classe, o meu pai deixou-me na escola e avisou-me que me iria buscar à hora de almoço. Estranhei, pois costumava almoçar na escola ou em casa dos meus avós. Passadas umas horas lá apareceu o meu pai, informando-me que não iria às aulas durante a tarde. Almoçámos e fomos para o estádio da Luz: quartos-de-final da Taça de Portugal, Benfica 5 – Sporting 0 (estádio, aquele estádio gigantesco, quase cheio num jogo às 15 horas de um dia de trabalho).

Lembrei-me deste episódio nos segundos imediatos ao quarto golo da nossa equipa na Supertaça. Tinha sido precisamente em 1986 que o Benfica bateu o Sporting por 5-0 pela última vez. Graças ao meu pai, contrariando dezenas de advertências sobre a importância primordial da escola, vi o Rui Águas, o Wando (a bisar), o Álvaro (!) e o Manniche a marcarem ao Sporting, o clube que me fora ensinado – e constatei na escola – ser o maior rival do meu Benfica.

Senti, ao longo dos muitos anos passados desde essa goleada, que o Benfica desperdiçou várias oportunidades de repetir a proeza (a última aconteceu na época passada, no jogo do campeonato em Alvalade). Honra seja feita ao 3-6, também no reduto leonino, em 1994. A diferença de “escassos” três golos, por se tratar do “jogo do título”, não deslustra o feito...

Recuando a 1986, tinha eu oito anos, aprendi, em poucas horas, três lições importantes: Há prioridades na vida; há prioridades mais prioritárias que outras; e que o Benfica é mais prioritário que as teoricamente mais prioritárias das prioridades.


Jornal O Benfica - 9/8/2019

Eneacampeões


Assim de repente, no Benfica, só me recordo das Marias, no voleibol, do badminton e das corridas em patins a poderem afirmar que se sagraram campeões nacionais nove vezes consecutivas. E agora a nossa equipa masculina de atletismo, numa modalidade e num sector em que o investimento é muito mais significativo e a competitividade é bastante elevada.

A maior parte das declarações dos protagonistas do desporto são confinadas à espuma dos dias. Assim o dita a voracidade da competição, cuja renovação, época a época, é galopante e praticamente integral. É, por isso, ainda da mais elementar justiça, recordar o que a Prof. Ana Oliveira, então já a coordenadora do projecto olímpico e da nossa secção de atletismo, disse há oito anos no rescaldo da primeira destas nove conquistas. Qualquer coisa como “esta temporada não sabíamos se já seria possível sermos campeões, mas o projecto do Benfica está a ser implementado para ganharmos mais títulos no futuro”. Passados todos estes anos podemos constatar, com imensa admiração e orgulho, que não se trataram de meras palavras de circunstância.

Muito se poderia destacar neste título, mas é para João Vítor Oliveira, o vencedor da prova de 110 metros barreiras, que dedico o último parágrafo.

O voo para alcançar a meta e vencer a final da sua prova foi impressionante. Desconheço uma imagem que melhor ilustre o que é ter raça, querer e ambição, as características de personalidade indispensáveis a qualquer atleta que tenha a honra e o privilégio de representar o Sport Lisboa e Benfica. Tratou-se de um mergulho de mística, de um voo só alcance de um atleta por um momento metamorfoseado águia. Um atleta à Benfica!

Jornal O Benfica - 2/8/2019

terça-feira, 30 de julho de 2019

Bom problema


Os números divulgados recentemente acerca da venda de Red Pass (incremento de cerca de 125% desde 2013/14 até 44 mil) são impressionantes e revelam, por um lado, o entusiasmo em torno da equipa e a satisfação pelo percurso no campeonato nas últimas temporadas; e, por outro, o sentimento generalizado de que deter um lugar de época é realmente compensador a diversos níveis, incluindo, tendo em conta a capacidade limitada do estádio, de que o lugar estará garantido para este e para os próximos anos.

A manter-se a tendência de procura de Red Pass no futuro próximo, a que se tem que acrescentar os camarotes e executive seats, além da obrigatória cedência de 5% da lotação do estádio aos adversários, sobrarão poucos bilhetes disponíveis em cada jogo, os quais terão que existir sempre de forma a proporcionar a possibilidade de aquisição de ingressos a sócios que, por esta ou aquela razão, não conseguiram ou quiseram comprar Red Pass. Ou seja, é real a possibilidade de, a curto prazo, terem de ser criadas listas de espera para quem quiser adquirir Red Pass.

Do meu ponto de vista, o maior problema neste âmbito está relacionado com a capacidade de criar novos públicos, mesmo sabendo-se que, todos os anos, há lugares que não são renovados devido a causas como morte, envelhecimento, emigração, etc. Com a taxa de ocupação verificada, haverá, por exemplo, uma dificuldade enorme para os pais comprarem Red Pass para os seus filhos quando estes atingirem a idade mínima de entrada (3 anos).

Se tivermos de facto este problema, só vejo duas soluções: Reconfiguração da disposição dos lugares; Ampliação do estádio conforme julgo ter sido anunciado, aquando da construção, que é possível.

Jornal O Benfica - 19/7/2019

terça-feira, 16 de julho de 2019

Sucesso continuado


Há um conto de Le Clézio sobre um menino prodígio que começara a aprender aos dois anos e, aos doze, já desafiava as mentes mais brilhantes com as suas concepções filosóficas. Certo dia sentou-se à janela aparentemente a olhar para o vazio e, passada uma semana, decidiu-se a explorar o jardim infantil que, afinal, tanto observara. A história torna-se interessante quando Le Clézio, ao invés de derivar pela banalidade do menino que só desejava ser criança, mostrou-nos antes um Martin fascinado com os movimentos da areia enquanto escavava e os bichos que nela habitavam. As outras crianças, incapazes de o compreenderem, atacaram-no violentamente e Martin, apesar de frustrado e irritado enquanto era incomodado, permaneceu absorto nas suas actividades após as outras crianças partirem.

Talvez o defeito seja meu, mas identifico nesta história uma boa analogia para o percurso benfiquista no futebol português ao longo dos últimos anos. O tetra expôs a superioridade benfiquista em diversos domínios. Incapazes de compreenderem o sucesso benfiquista, os nossos adversários enveredaram por ataques inconcebíveis recorrendo a acusações sem fundamento e invariavelmente difamatórios. Não ajudou à nossa causa que nos tenhamos apercebido claramente da nossa superioridade e, tudo somado, resultou num estado de torpor que demorámos a abandonar, embora a tempo da ambicionada “reconquista”.

A lição a retirar é simples: o sucesso é consequência de um conjunto de boas práticas, as quais requerem renovação ou reciclagem constantes e atempadas. Paralelamente, nunca nos poderemos deixar condicionar pelas investidas adversárias. Assim estaremos sempre mais próximos dos triunfos.

Jornal O Benfica - 12/7/2019

126


O montante estratosférico da transferência deve-se, sobretudo, à capacidade presente e potencial do jogador, mas não só. A notável saúde financeira da SAD benfiquista tem, na saída de João Félix, o exemplo cabal e definitivo que a comprova.

A intransigência quanto ao valor da cláusula de rescisão tornou-se credível a partir do momento em que ocorreram, em simultâneo, alguns factores, entre os quais os sucessivos exercícios económicos lucrativos, o crescimento sustentado das receitas, a redução quase total do endividamento bancário e a facturação assinalável já feita com a alienação de passes (Jiménez; Jovic; Talisca; etc). Porém, há um detalhe nesta operação ainda mais revelador quanto à saúde económico-financeira da SAD: não houve urgência, dando até a ideia de que, para a SAD benfiquista, seria melhor que ocorresse em julho (2019/20), não prejudicando assim, do ponto de vista fiscal, as suas contas.

Mas se não havia necessidade, porque houve uma negociação? A resposta é simples: Não era preciso vender, mas tinha de se vender, procurando-se, por isso, uma solução que permitisse ao Atlético de Madrid apresentar o montante da cláusula de rescisão de João Félix. Parece paradoxal, mas é mesmo assim. A saúde financeira é evidente, mas não perpétua. Pura e simplesmente o Benfica não conseguiria acompanhar a oferta salarial proposta ao jogador. Além disso, parece-me avisado que os atletas do Benfica percebam que não lhes são cortadas as pernas, assim se acautelem os interesses do clube. E 126 são muitos milhões: Acima de um terço do passivo; Quase dez vezes o endividamento bancário; mais do dobro do passivo financeiro corrente; 75% de todo o endividamento financeiro (RC 1ºSem. 18/19)...

Jornal O Benfica - 5/7/2019

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Propagandistas


No relatório e contas do SLB relativo a 1954, página 16, há uma pequena secção dedicada à aquisição de um autocarro – o primeiro do Benfica. Comprado ao popularíssimo actor Francisco Igrejas Caeiro, o avultado investimento permitiria poupar nos crescentes custos de deslocação das equipas e proporcionar maior conforto e segurança aos atletas. Igrejas Caeiro havia adquirido o autocarro meses antes por cerca de 1100 contos. Vendeu-o por 450 e mereceu, conforme se pode ler no relatório, o seguinte tratamento por parte do Benfica: “O nosso querido amigo e prestigioso consócio”.

Acontece que Igrejas Caeiro, não obstante o seu reconhecido benfiquismo, se viu obrigado a vender o autocarro que adquirira para a sua companhia. Instado a nomear o maior estadista da sua geração numa entrevista ao jornal “Norte Desportivo”, referiu o indiano Nehru, o que foi considerado subversivo e lhe valeu, por decreto governamental, o impedimento de actuar publicamente. Sem poder trabalhar, o autocarro deixou de ter qualquer utilidade para Caeiro. À necessidade benfiquista, juntou-se a oportunidade de ajudar quem se viu privado do seu sustento.

Este é mais um excelente exemplo dos muitos que contrariam os revisionistas que acusam o Benfica de ter sido o clube do regime. Para o Benfica, Igrejas Caeiro continuou a ser, apesar de proscrito pelo Estado Novo, “querido amigo e prestigioso consócio”.

Mas verdade seja dita, esses propagandistas já nem entre os seus têm qualquer credibilidade. Veja-se a sondagem da Aximage sobre a justiça da decisão dos tribunais em punirem o FC Porto no chamado “caso dos emails”. São mais, entre portistas e sportinguistas, os que não discordam da decisão...

Jornal O Benfica - 28/6/2019

Futebolês

No estrangeiro e sem tempo para a habitual crónica, avanço com algumas sugestões que, eventualmente, não carecem de revisão, para um dicio...